  Deborah Simmons
                                Bodas de Fogo




                                     Piers Montmorency

Diziam que o misterioso Cavaleiro Vermelho no era um simples mortal. Que fizera um pacto com
demnio, em troca de se tornar um guerreiro invencvel. Isadora, porm, podia sentir com todo o
    seu ser que as sombras do enigmtico e fascinante Piers ocultavam um segredo muito mais
                                           profundo...

                                       Isadora de Laci

    Feito um vendaval, Isadora invadiu o castelo de Dunmurrow para reivindicar o Cavaleiro
Vermelho como marido! E Piers percebeu que sua vida mudaria para sempre. Mas uma mulher to
            ardente e cheia de luz iria aceitar viver uma paixo envolta pelas trevas?




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  Deborah Simmons
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        CAPITULO UM

         Isadora sentia-se como um verdadeiro presente de Natal! Ou talvez uma iguaria
deliciosa, aguardando o momento de ser devorada pelos cavaleiros famintos que se moviam l
embaixo como um punhado de ces raivosos e famintos. Todos, sem exceo, tinham se
empanturrado de vinho, cerveja e comida. Agora pareciam ansiosos para receber um prmio
especial. At se poderia pensar que as festas de fim de ano j haviam chegado, tal a maneira
como se banqueteava aqui, na corte do rei Edward.
         A cena lhe causava tamanha averso que Isadora no conseguiu controlar a
expresso nauseada do rosto. Porm ao perceber a aproximao de sua aia, virou-se
imediatamente de costas. No queria ser vista assim, vulnervel e impotente, quando sempre
soubera enfrentar qualquer situao. Mas Edith, tendo carregado-a no colo desde que nascera
e a acompanhado ao longo da vida, podia reconhecer o estado de nimo que a dominava a
distncia.
         - Que foi, minha lady? - a mulher indagou baixinho.
         - Que foi? Isadora sorriu amarga, a voz normalmente melodiosa vibrando de raiva e
desprezo.  Sinto-me o prmio de um torneio, toda embrulhada e enfeitada - num gesto
irritado, passou a mo pelo vestido bordado e pela capa debruada de arminho -, esperando
ser entregue ao vencedor.
         - Minha lady... - Edith sussurrou, o tom aflito implorando cautela.
         Impaciente, Isadora cortou-a no meio da frase.
         - Nestes ltimos meses, desde a morte de meu pai, nossas terras s tm feito prosperar
sob a minha direo. Entretanto, em vez de receber uma recompensa pelos meus esforos,
parece que eu serei a recompensa dada a algum patife imundo, louco por dinheiro. E tudo isso
apenas porque nosso bom rei decidiu assim.
         - Minha senhora! - a aia protestou .chocada.
         - No  justo - Isadora reclamou pela ensima vez.
         No importava o quo bem administrava as propriedades que lhe haviam sido
deixadas pelo pai, ou quantos pretendentes conseguira recusar, ou quantas colheitas fartas
extrara das plantaes, ou como a vida em seu castelo transcorria calma e serena, na santa
paz de Deus. Pois todos esses resultados espetaculares tinham sido em vo. Em menos de um
ano o rei lhe enviara uma intimao, ordenando-lhe casar-se.
         - Pare de se lamuriar. Podia ser pior. Pelo menos voc poder escolher o prprio
marido. E dentre todos os cavaleiros mais nobres do reino, diga-se de passagem.
         - Ha! Grande coisa! Essa honra me foi concedida apenas porque tenho dinheiro
suficiente para pagar pelo privilgio. Ou por acaso voc acha que o rei me permitiu escolher
porque me estima profundamente?
         - Chega - Edith tornou a avisar. - Pare com essa conversa tola e perigosa e fique
quieta. Pelo menos uma vez na vida, comporte-se e faa a opo com sabedoria, usando a
cabea em vez do mau-humor.
         Isadora sorriu de leve, sem se ofender com as palavras da serva. Alm de Edith ter
sido mais do que uma verdadeira me ao longo do tempo, era impossvel conter a lngua da
velha senhora, mesmo se tentasse.
         -No se preocupe. Vou escolher com sabedoria. Alis, tenho um bom plano.

        Horrorizada com o que acabara de ouvir, Edith deu um passo para trs.
        - Oh, Deus tenha piedade de ns! - Os anos de experincia lhe haviam ensinado que os
planos da sua ama sempre acabavam em grandes confuses.  beira do pnico, juntou as
mos numa splica angustiada. Minha lady, por favor, deixe suas idias mirabolantes de lado.
Esquea os planos arriscados. So perigosos.
        - Estou apenas aceitando o seu conselho - ela respondeu docemente, um brilho
malicioso no olhar.  Vou decidir com sabedoria. O rei me deu liberdade para escolher um


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marido dentre todos os cavaleiros do reino, no ? Ele disse que eu posso optar por qualquer
um de seus cavaleiros. E isso inclui todo o reino, certo? Isadora fez uma pausa, ignorando a
expresso confusa da serva.
        - Minha lady...
        - Portanto j tomei uma deciso.
        O sorriso vitorioso iluminando o rosto angelical no era um bom sinal, Edith pensou
temendo pela sorte da ama. Desde o bero, Isadora de Laci demonstrara possuir uma
personalidade marcante e o fato de ter crescido na companhia de trs irmos, sem a me por
perto para lhe incutir maneiras delicadas, s fizera acentuar o carter destemido. Agora,
depois da morte dos dois rapazes mais velhos por causa de uma febre, do terceiro ter sido
morto durante a ltima Cruzada e do pai haver falecido recentemente, Isadora se tornara a
nica sobrevivente da famlia de Laci. Ela provara ser mais resistente, forte e inteligente do
que qualquer um deles, alm de mais teimosa e cabea-dura tambm.

         No fundo do corao, a velha criada acreditava que o casamento com um homem
decente iria fazer bem  sua protegida. Ser guiada por uma mo firme, mas gentil, conceber
filhos e cri-los, poderia contribuir para trazer  tona a natureza suave da jovem. Talvez o
decreto do rei Edward fosse mesmo para o bem. Afinal Isadora j completara dezessete anos e
at o momento no demonstrara qualquer interesse em procurar um marido. O nico
problema era que se esquecera de levar em considerao a natureza determinada daquela a
quem amava como a uma filha.
         - E se ele no aprovar a minha opo, presumo que ficarei livre para voltar para casa
- Isadora concluiu com um ar triunfante.
         Edith tentava raciocinar rapidamente, procurando entender que plano seria esse. Por
algum motivo obscuro, sua senhora acreditava que o rei lhe negaria permisso para casar-se
com o cavaleiro escolhido.
         - Minha lady, voc no teria coragem de selecionar um homem j casado?!
         - No! Eu sequer tinha pensado nessa possibilidade juro! - Isadora ficou em silncio
alguns segundos, como se considerando tal alternativa. Ento descartou a idia. - No, no
creio que Edward aceitasse um caso assim. Mas ele ser contra a minha escolha. Ter que ser!
         A velha criada inspirou fundo preparando-se para ouvir o pior. Precisava saber o
resto da histria, embora tivesse certeza de que no iria gostar nada do que estava para
escutar.
         - E quem ser o eleito? - indagou ansiosa.
               Experimentando a primeira sensao positiva do dia, Isadora passeou o olhar
desdenhoso vagarosamente pelos cavaleiros l embaixo antes de fitara aia.
         - Vou escolher o baro Montmorency. - Cheia de expectativa, aguardou a reao de
Edith, que com certeza iria cumpriment-la pela demonstrao de engenho e inteligncia.
Entretanto, em vez de palavras de admirao, a criada s teve tempo de: arregalar os olhos
antes de cair desmaiada no cho.
         Isadora ergueu a cabea e jogou os ombros para trs ao entrar no salo agora vazio, 
exceo de Edward, da rainha, alguns poucos servos e conselheiros. O rei tinha concedido a
graa de uma audincia em particular, porm no sabia se devia considerar a atitude uma
bno ou uma maldio. Se Edward pretendesse contrariar a sua deciso, com certeza seria
mais difcil faz-lo na frente de muitas pessoas. J perante um grupo pequeno... No, no
queria pensar em derrota. Um guerreiro nunca se deixa abater.
         O rei ainda era um homem bonito. Alto, pernas longas, cabelos louros e olhos azuis.
Contudo Isadora se ajoelhou diante dele sem a menor emoo. Jamais se sentira atrada por
qualquer homem.
               - Boa noite, Isadora de Laci. Espero que voc tenha apreciado sua estada na
corte.
               - Sim, claro, meu lorde - ela respondeu forando um sorriso.


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         - Tambm espero que tenha usado seu tempo de maneira sensata para escolher um
marido dentre meus cavaleiros reunidos aqui. - a rei sorriu, como se a situao o divertisse.
         - Meu lorde no limitou a seleo dentre os que se encontravam presentes na corte -
Isadora falou procurando manter-se calma. - Posso me casar com qualquer um de seus
cavaleiros, no posso?
         Embora surpreso, Edward concordou com um breve aceno de cabea.
         Apesar de firmemente decidida a levar o plano at o fim, parecia cada vez mais difcil
pronunciar o nome do eleito. Foi com muito esforo que as palavras ganharam vida.
         - Ento escolho para marido o baro Montmorency, de Dunmurrow.
         O anncio teve o efeito esperado. As pessoas ao redor no fizeram a menor questo de
disfarar o choque que sua escolha causara e logo os comentrios, sempre associados ao
baro, enchiam o ar.
         O Cavaleiro Vermelho... o prprio diabo encarnado... feiticeiro... praticante da magia
negra...  sussurravam vozes annimas.
         Embora Isadora j tivesse escutado todos esses rumores antes, as palavras a
desassossegavam mais agora porque, de certa forma, lhe diziam respeito.
         Determinada a no se deixar abater, ergueu a cabea e fitou cada um dos presentes
com altivez. Todos a olhavam horrorizados. Todos, exceto o rei e sua esposa,  claro. Edward
conseguiu disfarar a raiva rapidamente e Isadora conteve um sorriso triunfal. Se o rei estava
zangado, era porque se sabia derrotado. E  claro que no poderia voltar atrs na palavra
empenhada, ficando portanto obrigado a liber-la do compromisso de arrumar um marido.
         Quando estava a ponto de dizer algo, Edward foi interrompido pela esposa, que lhe
sussurrou alguma coisa no ouvido. Talvez a rainha estivesse tentando apazigu-lo, Isadora
pensou esperanosa. Afinal Eleanor sempre fora considerada uma influncia benfica sobre a
personalidade rgida do marido.Embora prestasse ateno  esposa, o rei mantinha os olhos
azuis fixos em Isadora. Aquele olhar penetrante dava a impresso de enxerg-la por dentro,
medindo suas foras e fraquezas, avaliando-a, desvendando-lhe os segredos da alma. Por fim
Edward comeou a rir. Isadora respirou aliviada, certa de que o rei achava tudo muito
engraado. Claro que sairia daquela audincia vitoriosa.
         Logo poderia ir para casa como uma mulher livre!
         - Pois ento que seja! - Edward falou em alto e bom som. - Montmorency  o
escolhido.
         Isadora quase no podia acreditar no que acabara de ouvir. Estava certa de que sua
escolha seria contestada ou que, pelo menos, fosse forada a selecionar outro pretendente.
Mas nunca, nunca lhe passara pela cabea que o rei a deixaria casar-se com o Cavaleiro
Vermelho, um recluso capaz de fechar as portas de seu castelo a todos os que viviam do lado
de fora das muralhas sombrias que cercavam a propriedade. Por um instante ela sentiu o
cho fugir sob os ps, porm manteve-se firme.
         Edward apenas sorriu diante de seu assombro. Obviamente a tentativa de trapace-lo
acabara desagradando-o e ele no hesitaria em puni-la pelo comportamento ultrajante. Oh,
Deus, Edith tinha razo. Conseguira se meter numa enrascada ainda maior do que antes... a
no ser que... a no ser que...
         - Muito naturalmente eu esperava que sua escolha recasse sobre um dos bares que
lhe foram apresentados durante sua estada aqui. Porm, como voc mesma fez questo de
ressaltar, dei-lhe permisso para selecionar um marido dentre todos os meus cavaleiros. Sua
escolha foi incomum, inesperada, e Montmorency  algum que eu no iria sugerir.
Entretanto no vejo motivo para negar esse desejo de seu corao. - As palavras do rei
exalavam um sarcasmo sutil, fazendo-a estremecer. - De qualquer maneira acho que voc far
bem a Montmorency. Um anjo de luz para o nosso Cavaleiro Vermelho. Talvez voc consiga
dom-lo, hein? - A pergunta fora feita  audincia, que no hesitou em rir nervosamente.
               Eleanor sorriu serena e Isadora logo percebeu que no teria ajuda feminina
naquela questo delicada.

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        - Muito bem, ento - o rei concluiu satisfeito. que sua jornada seja tranqila. Pode
partir amanh mesmo e chegar a Dunmurrow antes do Natal.
        Isadora no sabia o que dizer. Partir to cedo assim? Com muita dificuldade
conseguiu se recompor o suficiente para murmurar agradecimentos vazios. Ento fez uma
mesura e saiu do salo, ainda sem conseguir acreditar que estava para se casar com um
homem de quem conhecia apenas a fama e os rumores assustadores que o cercavam.
        Isadora de Laci estava arrumando a bagagem quando Edith apareceu.

        - E ento, minha lady? - a aia perguntou trmula, a respirao suspensa.
        Ela no se deu ao trabalho de virar-se e continuou ajeitando os vestidos dentro do
ba.
         Partimos amanh de manh... para Dunmurrow.
         A Serva comeou a se lamentar baixinho, como se entoando um canto fnebre. Por
fim Isadora voltou-se para fit-la.
         Por favor, no me venha com essa histria de desmaiar de novo. Tenho outras coisas
mais importantes para fazer do que ficar levantando-a do cho.
         Mas, minha lady, por qu? Por que voc foi escolher aquele monstro, quando na corte
estavam reunidos os cavaleiros mais bonitos do reino?
         Apesar de bonitos, todos agiriam como meu dono, Isadora pensou irritada. Nunca em
sua vida se submetera a um senhor. Seu pai e seus irmos sempre a tinham deixado entregue
a si mesma. Jamais fora forada a cumprir ordens de terceiros, a seguir outras inclinaes
que no fossem as prprias. Portanto no pretendia comear agora, decidiu guardando os
chinelos com raiva.
         - Mas Montmorency! - Edith fez o sinal da cruz. Ele  o mal encarnado! Dizem que 
alquimista, praticante de magia negra, um adorador... do diabo! E por isso que o chamam de
Cavaleiro Vermelho, porque tem parte com o demnio! E agora que se enfurnou em Dun-
murrow, recusa-se a sair das suas terras. Porm manda buscar magos e feiticeiros para
aprender os segredos da magia. Depois descarta-los e conjura os espritos para realizar seus
propsitos negros. Dizem que aqueles que entram em seu covil... jamais retornam. - Edith
baixou a cabea como se no suportasse o peso do que acabara de dizer.
         Percebendo o pavor da criada, Isadora abraou-a carinhosamente.
         - Rumores! Quanta bobagem! Todos os grandes cavaleiros costumam alimentar
lendas sobre si mesmos com o objetivo de despertar medo no corao de seus inimigos. Este
Cavaleiro Vermelho  um mortal comum. Voc vai ver. - Ela deu um tapinha nas costas de
Edith e obrigou-a a sentar-se num banco enquanto voltava  tarefa de arrumar a bagagem.
         - Mas por que, minha lady, por qu? - a velha serva tornou a insistir. - Era esse o seu
plano... nos mandar direto para os braos do mal?
         - Admito que alimentei esperanas de que o rei rejeitasse minha escolha, porm
Edward recusou-se a aceitar que eu havia levado a melhor e resolveu me dar uma lio. -
Isadora colocou uma Bblia sobre os vestidos dobrados e fechou um dos bas.
         Edith recomeou a choramingar e a balanar a cabea de um lado para o outro.
         - Pare com essa tolice agora mesmo - Isadora ordenou, esforando-se para no perder
a calma. - No se preocupe quanto ao tal cavaleiro terrvel. Prometo-lhe que no ficaremos em
Dunrnurrow o bastante para ser
              mos maltratadas.
         A serva fitou-a intrigada, sem entender o comentrio. - Voc acha que Montmorency
quer uma esposa espiando suas atividades macabras? No, acho que no. Ele no demonstra
qualquer interesse pela vida na corte e nem parece se preocupar com dinheiro. Tenho certeza
de que se recusar a me aceitar como esposa. Assim poderei voltar para casa, livre e solteira -
falou aparentando mais certeza do que sentia.
              - Isso seria loucura! Nem mesmo o Cavaleiro Vermelho poderia desafiar uma
ordem do rei!


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               Isadora deu de ombros e voltou a ateno para a bagagem, terminando de
ajeitar as ltimas peas de roupa.
               - Ouvi dizer que Montmorency vive de acordo com as prprias leis,
               - Sim, s que certamente no se opor ao rei  Edith insistiu.
               - Se ele no se opor  ordem de Edward, ento nos casaremos. Na minha
opinio, tanto faz ter um brutamontes para marido como outro qualquer.  Ela bateu a tampa
do ba com tanta fora que a madeira quase se partiu em duas.

         O ar estava glido na manh seguinte e Isadora apertou a capa forrada de pele de
encontro ao corpo, procurando calor e conforto. Delamere, um dos homens do rei, liderava o
pequeno grupo, composto de seis guardas e trs servos. Uma figura magra, de baixa estatura,
logo lhe chamou a ateno.
         - Quem  aquele? - indagou curiosa.
         - O padre, claro - Delamere respondeu secamente. - Assim teremos certeza de que o
casamento foi mesmo realizado. Talvez o rei suspeite de que no haja sacerdotes em
Dunmurrow...
       Irritada com a insolncia do comentrio, Isadora se afastou a galope, esforando-se
para no se deixar dominar pela inquietude.
         Embora tivesse usado a reputao tenebrosa de Montmorency na esperana de
escapar da imposio de Edward, ela no acreditava numa s palavra do que se dizia sobre o
Cavaleiro Vermelho. A experincia lhe ensinara que fofocas se espalham depressa e so
sempre exageradas. Portanto tinha certeza de que os rumores terrveis no passavam disso:
rumores. O fato de no haver capelo em Dunmurrow no significava que Montmorency o
espantara de l com suas prticas de magia negra.
         Isadora quase riu alto e de repente a presena do sacerdote no grupo lhe pareceu
bastante divertida. Talvez o Cavaleiro Vermelho decidisse manter o pobre homem no castelo,
mas certamente no para oficiar a cerimnia de casamento. Afinal pode-se levar um cavalo
at a gua, mas no se pode obrig-lo a beber. Ela escolhera o baro Montmorency, porm ele
no a escolhera. Assim, com ou sem padre, no conseguia imaginar algum forando-o a
casar-se.
         E ento, ficaria livre para voltar para casa...
         Estava claro que Delamere no a apreciava nem um pouco e a cada dia que passava
forava a marcha dos cavalos, como se o grupo estivesse indo direto para uma batalha, no
para um casamento.
         Edith choramingava e reclamava de pura exausto, porm Isadora mantinha-se
firme. Quanto mais cedo chegassem aos domnios de Montmorency, mais depressa poderia
tomar o caminho de casa.
         Contudo, ao se aproximarem de Dunmurrow, uma sensao estranha comeou a
domin-la. A paisagem era Imponente, rude. Vastas plancies se estendiam a perder de vista e
uma floresta lgubre impunha sua presena ameaadora. Entardecia quando Isadora, pela
primeira vez, colocou os olhos sobre o castelo do Cavaleiro Vermelho e apesar de todas as
suas resolues corajosas, sentiu um aperto terrvel no corao.
         O Sol se punha no horizonte, lanando sombras profundas sobre as velhas paredes de
pedras. A construo macia e retangular lanava suas torres negras para o infinito,
desafiando os cus. Uma nvoa mida e cinzenta se espalhava pelos arredores, como se sada
do nada, envolvendo Dunmurrow num manto fantasmagrico.
         O efeito era to arrepiante que Isadora se sentiu vacilar e por um momento
perguntou-se se Montmorency no teria mesmo poderes sobrenaturais, poderes que o
permitiam comandar os elementos da natureza e fazer com que uma nvoa espessa escondesse
seu castelo de olhos curiosos e visitantes indesejveis.
         Os lamentos angustiados de Edith arrancaram-na daquela espcie de torpor. Ao
reparar que os servos se benziam e o padre murmurava palavras incompreensveis, oraes

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ou maldies talvez, Isadora deixou a hesitao de lado e foi em frente.
         Ento aguardou que os guardas do rei cruzassem a ponte levadia. Pelo menos teria o
calor de um fogo e a maciez de uma cama para confort-la. E quem sabe amanh, quando
tomassem o caminho de casa, tambm se veriam livre da neve. Claro que, apesar do mau
humor constante, Delamere no se recusaria a acompanh-las at Belvry. Porm, se ele tivesse
coragem de recusar, no pensaria duas vezes antes de implorar o auxilio de alguns homens de
Dunrnurrow. Afinal seria a esposa rejeitada do senhor do castelo.
         De repente Delamere aproximou-se a galope, uma expresso furiosa no rosto.
         - Negaram-nos permisso para cruzar a ponte  ele informou espumando de raiva.
         - Por qu? - Embora estivesse ansiosa para escapar do frio intenso, Isadora decidiu
que aquele tipo de tratamento rude era motivo para celebrao. Quem sabe Montmorency se
recusaria a v-la? Talvez pudesse partir para Belvry ainda mais cedo do que imaginara.
         - Porque o castelo j est fechado para a noite e todos os visitantes so proibidos de
entrar at amanh de manh.
         Isadora inspirou fundo, pronta para fazer um comentrio qualquer, quando ouviu
um gemido angustiado. Edith balanava perigosamente sobre o cavalo, como se estivesse a
ponto de desmaiar. Em questo de segundos estava ao lado da aia, amparando-a com o brao.
         - Que bobagem  essa? - perguntou com altivez. - Exijo falar com o baro
Montmorency agora mesmo!
         - Foi o que eu fiz - Delamere respondeu irritado. - Mas meu pedido foi recusado at
amanh.
         Conformado, apesar de furioso, o emissrio do rei mandou os servos erguerem o
acampamento sob as sombras do castelo.
         Outro gemido de Edith exigiu a ateno de Isadora.
         - Pare com isso, ou vou deix-la cair no cho - avisou, impaciente com os chiliques da
criada.
         - Oh, minha lady,  como temamos. O Cavaleiro Vermelho  uma criatura das trevas.
         - Se ele fosse uma criatura das trevas, ento deveria estar aqui, apreciando os
arredores. Ele  uma criatura da grosseria, isso sim! Nunca ouvi dizer que algum negasse
abrigo a visitantes. E pensar que estamos aqui por ordem do rei! Este Cavaleiro Vermelho 
ousado demais.
         Embora a idia de dormir outra noite ao relento, quando uma cama macia estava ao
alcance das mos, a incomodasse, a atitude desafiadora de Montmorency a impressionava.
Alis, ia bem de acordo com seus planos.
         - O homem  um demnio, marque bem minhas palavras - Edith murmurou num tom
lgubre.
         - E voc marque bem minhas palavras - Isadora devolveu, um sorriso triunfante nos
lbios. - Ele  um homem mal-educado e rude que no hesitar em desafiar as ordens do rei
amanh! E ento... ento poderemos ir para casa.
         Na manh seguinte, a ponte levadia foi finalmente abaixada sobre a vala profunda
que cercava o castelo e o grupo liderado por Delamere pde entrar em Dunrnurrow.
Acostumada ao movimento incessante de Belvry, Isadora ficou surpresa ao descobrir o ptio
quase deserto. A construo parecia vazia! Sabendo como Edith interpretaria aquela ausncia
de pessoas, evitou fitar a serva.
         Mesmo considerando a lenda criada em torno do Cavaleiro Vermelho um punhado de
bobagens, Isadora no conseguiu evitar a sensao desagradvel, beirando ao pavor, que a
invadiu ao ouvir a ponte levadia sendo alada de volta. Por um instante sentiu-se trancada
dentro do um covil,  merc de feras...
         Determinada a enfrentar a situao a qualquer custo, procurou dominar o medo
enquanto um guarda os conduziu  parte interna do castelo. Porm o salo de Dunmurrow
no lhe trouxe conforto algum. Imenso e escuro, cheirava a fumaa e mofo, sendo possvel
enxergar camadas grossas de sujeira acumuladas nas paredes. Que tipo de homem seria esse,


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                                 Bodas de Fogo
capaz de deixar a prpria casa nestas condies? As janelas estreitas estavam fechadas, quase
no deixando passar os raios tmidos de Sol, insuficientes para romper a escurido.
         Falta de iluminao adequada no era algo incomum, especialmente em construes
antigas como o castelo de Dunmurrow, mas em geral o problema era contornado com o
auxilio de velas e tochas, deixadas acesas durante o dia inteiro. Entretanto, apesar do
tamanho impressionante do salo, quase no se viam velas.
         Isadora estremeceu e olhou ao redor, procurando enxergar atravs das sombras.
Embora a lareira estivesse acesa, o fogo baixo de pouco servia para oferecer calor e conforto.
De onde estava, a outra extremidade do salo era impenetrvel, imersa em trevas sufocantes.
Isadora recusava-se a fitar Edith que se aproximara do sacerdote como se buscasse proteo.
         O grupo permaneceu em silncio, a atmosfera opressora envolvendo-os como um
manto. Dentro do silncio pesado ouviam-se apenas os passos impacientes de Delamere. O
emissrio do rei andava de um lado para o outro sem disfarar a irritao crescente.
Acostumado a ser tratado com uma certa deferncia, no se conformava com o descaso
mostrado pelo baro Montmorency, especialmente depois da noite passada ao relento.
         Quando Delamere parecia a ponto de explodir, um servo anunciou que o Cavaleiro
Vermelho mandara lhes servir uma refeio. Mesmo ainda sendo um tanto cedo para o
almoo, os homens se atiraram  comida, como se estivessem famintos no s de alimentos
mas de algo que lhes desse uma sensao de normalidade.
               - Vamos, coma, minha lady - Edith murmurou puxando a jovem para o seu
lado.
               Porm Isadora sentia-se incapaz de comer; no quando tinha conscincia da
gravidade da tarefa que a aguardava. De repente seu plano lhe parecia ousado demais, incerto
demais para alcanar o sucesso. Alm de tudo o castelo de Montmorency a perturbava
profundamente, inquietando-a ao extremo. At o momento presente, o homem fazia jus  sua
reputao.
         Um nico servo ia e vinha da cozinha, trazendo travessas, fatiando a carne assada,
servindo cerveja.
         - Onde esto todos? - ela indagou assombrada, sem na verdade esperar qualquer
resposta. Acostumada ao movimento do salo principal em Belvry, onde as vozes das damas,
cavaleiros, servos e visitantes se misturavam numa alegre algazarra, era impossvel no se
ressentir desse silncio lgubre. O castelo era muito quieto, o eco das paredes vazias
transformando qualquer barulho num Bom ameaador.
         - Ele  inumano, pode estar certa disso - Edith sussurrou horrorizada.
         - No  inumano viver na pobreza - Isadora retrucou, um ar pensativo no rosto. - S
agora percebi como sempre tomei certas coisas como garantidas. O castelo que meu pai
construiu quando jovem ainda est em timas condies nos dias de hoje, cheio de luz, belas
pinturas, tapearias delicadas. E tambm muitos servos cumprindo suas obrigaes...
               - Grande parte disso se deve a voc, minha lady. Os homens, quando deixados
por sua prpria conta, em geral acabam se descuidando da comida e da limpeza. - Edith foz
uma careta de desagrado.
         - Concordo inteiramente. - Pelo pouco que Isadora conseguira ver at ento, o castelo
Dunmurrow parecia Imundo. Uma grossa camada de sujeira cobria o cho e o ar tinha o
cheiro desagradvel de alimentos estragados e lixo acumulado. As paredes estavam pretas de
fumaa, as mesas sujas e speras. Os pratos usados na refeio nadavam em gordura e ela se
perguntou se o resto do castelo tambm estava naquelas tristes condies.
         Servida em pratos limpos ou no, a verdade  que a comida tinha um gosto
intragvel. Depois de provar o primeiro pedao da carne, Isadora deu-se por satisfeita e
mordiscou uma fatia de po enquanto os outros continuavam a almoar. E como almoaram.
A refeio deu a impresso de durar para sempre, servindo apenas para aumentar seu estado
de agitao.
         De qualquer maneira todos pareciam mais relaxados com os estmagos cheios, 


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exceo de Delamere e Isadora, cada qual mais furioso do que o outro.
         - Vamos, minha lady, beba alguma coisa  Edith          insistiu, procurando acalm-la.
         - No quero nada, quero apenas dar esse caso por encerrado. Mal posso esperar que
Montmorency aparea para resolver o assunto. Assim poderemos ir embora logo!
         - Psiu! - A criada apontou discretamente na direo de Delamere.
         Isadora ignorou o aviso.
         - Por que a demora? Por que somos obrigados a aguardar aqui como mendigos depois
de termos sido forados a passar a noite do lado de fora do castelo?
         - Minha lady, por favor, cuidado com a lngua. As paredes tm ouvidos. No seria
sensato desafiar a ira do Cavaleiro Vermelho.
         - Pois no me importo se ele  o prprio diabo encarnado. Se no formos admitidos na
sua presena hertica neste instante, partirei para Belvry. Claro que assim a ordem do rei
perder o valor.
         Edith cobriu o rosto com as mos, apavorada, enquanto Delamere fuzilava Isadora
com o olhar. Como se aguardasse o momento certo para interferir, um servo chamado Cecil
deu um passo  frente.
         - Se minha lady e este cavaleiro fizerem o favor de me acompanhar, meu lorde est
pronto para receb-los agora.
         Por um momento Isadora pensou em levar Edith tambm, mas acabou decidindo que
o melhor era deix-la no salo, na companhia dos outros. Se o Cavaleiro Vermelho fosse
metade do que os rumores envolvendo sua reputao afirmavam, provavelmente a criada
desmaiaria de novo.
         Cecil os conduziu atravs de um corredor gelado at li ma escada em espiral. Era
quase impossvel enxergar os degraus, to espessa a escurido. O castial levado pelo servo
silencioso de pouco adiantava e ela mal percebeu quando pararam diante de uma porta de
madeira macia. Ento Cecil abriu-a e fez um sinal para que entrassem.
         Isadora presumiu que estivessem nos aposentos do Cavaleiro Vermelho, no prprio
covil da fera. Depois do frio penetrante do corredor, o calor dentro do quarto imenso era mais
do que bem-vindo. Ela aproximou-se da lareira para estendeu as mos para aquec-las,
enquanto olhava ao redor curiosa. Se houvessem janelas, deviam estar hermeticamente
fechadas porque o nico foco de iluminao vinha do fogo plido. Com muita dificuldade,
percebeu que as paredes eram pintadas de vermelho claro e as cortinas de veludo
acompanhavam o mesmo tom. Na verdade, um ambiente perfeito para Montmorency conside-
rando todos os rumores,  claro.
         Sem tachas ou castiais para aliviar as trevas, estavam lodos envolvidos numa
escurido quase total.
         Bem longe deles, envolto pelas sombras mais pesadas, destacava-se a figura de um
homem altssimo, ladeado por dois cachorros enormes.
         Seria Montmorency? Isadora focalizou bem os olhos tentando enxerg-lo melhor,
porm por mais que se esforasse, no conseguia v-la com nitidez. Contudo no linha
dvidas de que, apesar de sentado, era um homem muito, muito maior do que Delamere.
Alm da altura, era impossvel distinguir as feies do rosto, a cor e o comprimento dos
cabelos ou mesmo as roupas que o desconhecido usava. Embora o instinto lhe dissesse que es-
tava frente a frente com o Cavaleiro Vermelho, ainda assim no podia ver nada alm de uma
silhueta escura.
         Toda aquela circunstncia incomum era bastante inquietante. Que tipo de homem
seria ele? Ser que procurava assust-los propositalmente? Isadora jamais temera a noite e
nunca acreditara nas histrias fantsticas que se contavam sobre o baro Montmorency.
Mesmo assim no conseguiu evitar os tremores que a sacudiram da cabea aos ps, como um
aviso carregado de maus pressgios.
         Se estivesse presente, Edith, com certeza, teria cado desmaiada no cho.



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                                Bodas de Fogo

        CAPITULO DOIS

         Li a mensagem que o rei me enviou. - A voz profunda e forte no escondia um certo
tom de zombaria. Ou seria irritao? Isadora sentiu-se ofendida com a falta de considerao,
em especial porque o baro fora direto ao assunto sem dar ao trabalho de lhes dar as boas-
vindas de maneira educada. Ao pensar na longa noite passada ao relento, nas horas
infindveis dentro do salo sujo e frio e na escurido que a impedia de enxergar seu anfitrio,
a luva explodiu.
         - Fico feliz em saber, meu lorde - ela respondeu altiva. - Esperamos tanto tempo que
comecei a achar que ningum em seu castelo sabia ler.
         A resposta carregada de uni insulto velado fez com que o baro olhasse na sua
direo, e apesar de no poder ver, sabia que um par de olhos hostis a fitavam de dentro das
trevas. Entretanto havia chegado a um ponto tal de estresse emocional, que nada mais im-
portava.
         - Se voc no tem inteno de se submeter  ordem continuou secamente -, ento por
favor nos diga para que possamos partir. Tenho uma longa jornada pela frente e muitas
noites a mais para dormir ao relento antes de chegar em casa.
         Um silncio prolongado caiu sobre todos e Isadora teve vontade de esbofetear o
desconhecido, de obrig-lo a levantar-se e lhe prestar as honras a que uma dama da corte tem
direito em vez de ficar sentado no meio das sombras, como um verdadeiro demnio vermelho.
         - Minha lady... - Montmorency fez uma pausa, como se no conseguisse lembrar o
nome da mulher que haviam lhe imposto como noiva. Isadora teve vontade de gritar de dio. -
Lady de Laci - ele continuou muito calmo. - Segundo esta carta, voc devia escolher um
marido dentre todos os cavaleiros do reino e escolheu a mim. Posso saber por qu?
         Esforando-se para manter-se serena diante de uma pergunta to direta, Isadora
mordeu o lbio inferior com fora. Bem no fundo, esperara que Montmorency a recusasse e a
mandasse embora de Dunmurrow, talvez com uma objeo delicada, talvez com uma
reprimenda grosseira. S no imaginara que seus motivos seriam interrogados com tamanha
ousadia.
         Vendo-a hesitar, o baro voltou-se para Delamere.
         - Voc, senhor, responda-me. Ser que esta dama  uma bruxa, para ningum da
corte se dispor a aceit-la como esposa?
         Isadora sentiu o rosto em fogo enquanto Delamere sufocava uma risada ao responder.
         - Ela  conhecida por sua teimosia, meu lorde, entretanto muitos cavaleiros da corte.
a aceitariam de muito bom grado.
         - Sim, pois trata-se de uma dama muito rica, no ?
         A insinuao deselegante do Cavaleiro Vermelho no lhe passou despercebida. Como
 que aquele homem tinha coragem de sugerir que somente o seu dinheiro a tornava atraente
aos olhos masculinos? Isadora inspirou fundo e contou at dez, quando sua vontade era
esganar o baro.
               - Na sua opinio, senhor, lady de Laci  uma mulher graciosa?
               Ela enrubesceu at a raiz dos cabelos enquanto Delamere a fitava intensamente.
Alis, o primeiro sinal de interesse que o emissrio do rei demonstrava sobre a sua pessoa.
         - Sim, meu lorde.  uma dama no muito alta, de constituio delicada. Os cabelos
so to louros que parecem entrelaados da prata mais fina. E os olhos... os olhos so
prateados tambm. Profundos, brilhantes como pedras preciosas. A beleza de minha lady 
conhecida em todo o reino - Delamere concluiu um pouco sem jeito com a prpria eloqncia.

        O temperamento da dama obedece a mesma descrio?
        O emissrio do rei teve a delicadeza de no responder. Isadora estava possessa de
dio. Nunca se sentira to humilhada como naquele instante, em que dois homens discutiam


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suas qualidades e defeitos como se ela no passasse de um objeto  venda.
         - E ento voc me escolheu, minha lady - Montmorency afirmou num tom ameaador
que a fez estremecer apesar da raiva. - Talvez os cavalheiros da corte fossem um tanto
imberbes demais para o seu gosto e assim voc pensou que o Cavaleiro Vermelho estaria
melhor equipado para a tarefa de dom-la?
         Delamere riu baixinho.
         Posso ver agora que foi um erro, meu lorde - Isadora retrucou friamente, o corao
batendo descompassado no peito, as mos cobertas por um suor gelado.
         - Sim. Foi um erro... um erro seu, no  mesmo? - Seria impossvel no perceber o
desprezo contido em cada uma das palavras.
         Como Isadora se recusasse a responder, um silncio pesado caiu sobre o ambiente at
que Montmorency voltar a falar, a voz destituda de qualquer emoo.
         - Mas o que est feito est feito. Que assim seja. Cecil v preparar a capela e leve o
sacerdote para l quando tudo estiver pronto. Sinto no estarmos acostumados a receber
visitantes em Dunmurrow e a hospitalidade oferecida dentro do meu castelo  limitada. Con-
tudo, faremos o melhor possvel. - Com um breve aceno de mo, ele os dispensou fazendo o
sangue de Isadora correr gelado nas veias.
         - Espere! - Ela pediu sem esconder o desespero. - Meu lorde, posso falar com voc em
particular?
         -Sim.
         Obviamente aliviado por seu dever estar quase cumprido, Delamere apressou-se a
sair, seguido de Cecil. Isadora foi deixada s na companhia do Cavaleiro Vermelho, que
permanecia escondido nas sombras. Que tipo de homem se trancaria numa total escurido
quando l fora reinava a plena luz do dia? De p diante de algum de quem sequer podia
enxergar o rosto, ela se sentiu vacilar. Foi com muito esforo que se armou de coragem e deu
um passo na direo da figura ameaadora.
         Um dos cachorros rosnou baixo.
         - Parada, minha Lady.
         Confusa, Isadora ficou imvel durante alguns segundos e depois deu outro passo para
a frente. Os cachorros voltaram a rosnar, o som assustador ecoando dentro das trevas.
         - Parada, eu disse - Montmorency repetiu irritado. - Sente-se - ele completou com um
pouquinho mais de delicadeza, apontando para o sof perto da lareira. Isadora obedeceu
como um cachorrinho ensinado.
         - Meu lorde, garanto-lhe que essa histria toda  um grande erro - ela comeou,
apertando as mos geladas uma de encontro a outra no auge da aflio.
         - Sim,  verdade. E a responsabilidade sobre esse erro monumental  toda sua. Voc
pensava que eu iria desafiar uma ordem do rei?
               O silncio de Isadora confirmou as suspeitas do baro de Dunmurrow.
               - Ento foi isso mesmo. - Montmorency riu amargurado.
               - Sua reputao  assombrosa, meu lorde.
               - Entendo. Talvez voc achasse que eu poderia fazer a ordem desaparecer no ar
como fumaa, usando um truque qualquer de feitiaria?
         Isadora engoliu em seco, incapaz de responder. Por 11m momento julgou t-lo visto
sorrir dentro das sombras.
         - Bem, minha cara lady de Laci, suas maquinaes deram errado e o plano foi por
gua abaixo. No importa o que voc tenha ouvido a meu respeito, porque nada neste mundo
me faria desafiar meu rei. Devo muito a Edward e vou obedec-lo. Agora que voc fez sua
cama, sugiro que deite nela.
         Uma batida na porta anunciou a chegada do servo. Imediatamente Montmorency o
mandou entrar.
         - Cecil, por favor, acompanhe minha noiva aos seus aposentos. Vamos nos casar o
mais depressa possvel.


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              As palavras firmes do Cavaleiro Vermelho soaram como uma verdadeira
sentena de morte.
         Embora Isadora estivesse sentada imvel no quarto, sua mente fervilhava. Ainda
dava tempo de fugir. Precisava apenas abrir a porta e escapar daquele castelo amaldioado.
Considerando a escurido reinante, seria fcil passar despercebida. Mas o que a aguardava
do lado de fora? Seria capaz de convencer os guardas a deix-la sair? E quanto  ponte
levadia? Isadora praguejou baixinho, de uma maneira muito pouco feminina.
         Apesar de ter trabalhado duro, planejado e esquematizado  exausto,estava a um
passo de se casar. E no rum algum almofadinha obediente e sim com um homem que sequer
expunha a face  luz, um homem que se mantinha distante de todos! Isadora estremeceu
violentamente, porm procurou reagir. O bruto no iria assust-la. Tambm no iria fugir. A
dignidade e o orgulho dos de Laci a manteriam de p.
         Uma batida repentina  porta interrompeu o curso de seus pensamentos. Oh, Deus, a
ltima coisa que queria nesse momento era ser obrigada a ouvir os lamentos de Edith.
Precisava concentrar-se em manter o prprio autocontrole e no agentaria ter que consolar
a criada tambm.
         Entretanto no era Edith, mas o sempre-presente Cecil.
         - Meu lorde a aguarda na capela, minha lady  ele anunciou, uma expresso
impenetrvel no rosto.
         Isadora sentiu um aperto no corao, incapaz de acreditar que o tempo havia passado
to depressa. Sua bagagem continuava no salo l embaixo, portanto ainda usava o mesmo
vestido que trocara ao acordar. Sequer tinha consigo uma escova para arrumar os cabelos.
Por outro lado, nada disso importava. O que aquele brutamontes do Cavaleiro Vermelho
pensava a seu respeito no fazia a menor diferena. Inspirando fundo, levantou-se e
acompanhou Cecil como se estivesse marchando para a prpria execuo.
         Os dois atravessaram alguns corredores estreitos at que finalmente chegaram 
capela. O local estava to escuro quanto o resto do castelo. Tendo perdido a noo das horas,
Isadora no sabia se l fora j anoitecera, porque com certeza as trevas dentro daquelas
paredes no eram naturais, e sim provocadas por um homem.
         De queixo erguido, caminhou para o altar tentando no prestar ateno nas poucas
pessoas reunidas para assistir  cerimnia. Seria Edith num canto, benzendo-se e
choramingando? Teria ouvido algum murmurar as palavras blasfmia e adorador do diabo?
         Reunindo todas as suas foras, Isadora lutou para manter a serenidade porque
apesar da demonstrao exterior de coragem no estava imune aos efeitos da atmosfera
ameaadora de Dunmurrow. As sombras perptuas, o odor de mofo e o silncio pesado, pouco
contribuam para fazer da capela a casa de Deus. Tambm os rostos ali reunidos em nada
lembravam as fisionomias alegres que costumam enfeitar os casamentos.
         Com muita dificuldade, evitou pensar nas palavras de Edith. O fato do Cavaleiro
Verme1ho apreciar a escurido no significava que fosse um feiticeiro ou algum tipo de
criatura do mal. Afinal j fora obrigada a enfrentar coisas piores na vida do que um punhado
de sombras.
         Montmorency a aguardava no altar. Uma figura alta e misteriosa ao lado do
sacerdote. Ao se aproximar, Isadora tropeou, sendo imediatamente amparada por uma mo
forte, de dedos longos e geis. Ela levantou os olhos, buscando enxergar o futuro marido.
Porm  escurido era to grande que nada pde ver. Havia qualquer coisa de pago em
casar-se com um homem de quem sequer vira o rosto.
         Recusando-se a se deixar intimidar, ela fitou o sacerdote que, iluminado por um
pequeno castial, era a nica pessoa visvel dentro da capela. O homenzinho parecia hesitar
em dar incio  cerimnia. Na verdade no podia culp-lo. A escurido que os cercava parecia
uma coisa viva e pulsante, pronta para engolf-los num vazio absoluto e ameaador.
         Quando Montmorency a tocou de leve, Isadora ficou rgida, a respirao suspensa.
Embora soubesse que o contato seria breve, que os dois precisavam se dar as mos para


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professar os votos, ainda assim no estava preparada para a experincia. Lutando contra
pnico, obrigou-se a relaxar e para sua surpresa, apesar das previses de Edith, o Cavaleiro
Vermelho no possua garras ou casco. A mo masculina lhe parecia inteiramente normal.
Sem que pudesse evitar, ela estremeceu.
         Entretanto no foi um estremecimento de medo, mas um arrepio de excitao que a
percorreu da cabea aos ps. Surpresa, Isadora no sabia como decifrar aquela emoo
estranha, despertada pelo roar da pele de Montmorency na sua. Jamais sentira algo assim.
Seria o seu comportamento inesperado o resultado de algum feitio? Estaria sob um
encantamento lanado pelo Cavaleiro vermelho?
         A possibilidade quase a deixou fora de si. Porm, em vez de se entregar ao pavor
cego, procurou se concentrar nas palavras do sacerdote. Percebendo que continuava nervosa,
contou at dez. Depois at vinte. Afinal estava longe de ser uma mulher ignorante, capaz de
acreditar em magia negra. Por outro lado, era difcil se convencer do contrrio quando
segurava a mo de um homem encoberto pela escurido.
         De repente Isadora se convenceu de que encontrara uma explicao lgica para
aquela sensao esquisita. No estava acostumada  proximidade fsica. Tendo sido criada na
companhia de irmos pouco afetuosos e do pai, de quem sempre mantivera uma distncia
respeitosa, jamais soubera, ou quisera, externar afeio. Tocar algum era algo estranho... e
em geral repugnante.
         Ainda se lembrava muito bem do baro Rothschilde, um cavaleiro que conhecera na
corte. Numa tentativa revoltante de cortej-la; o homem a pressionara de encontro  parede e
a beijara na boca, os lbios midos e nojentos enchendo-a de asco. Isadora o chutara na
virilha antes de escapar correndo, mais decidida do que nunca a jamais se submeter a um
marido.
         Entretanto estava casando-se com um homem infinitamente mais repulsivo do que
Rothschilde. Seria mesmo? O estranho  que no experimentava nojo agora e sim um prazer
desconhecido e inexplicvel. Havia algo de assustador no Cavaleiro Vermelho. E algo
perturbador tambm. Isso sim, a inquietava.
         Isadora lanou um olhar na direo do cavaleiro ao seu lado cuja alta estatura a fazia
sentir-se ainda mais pequenina e indefesa. Fosse por magia ou no, tratava-se de um homem
forte e poderoso. A mo que segurava a sua poderia esmag-la como a uma casca de noz.
Como seria hoje a noite? O pensamento era to apavorante que no ousava deter-se nas
implicaes.
         Voc fez a sua cama, agora deite-se nela. As palavras de Montmorency retomaram 
sua mente como um aviso. Os dedos longos que mal a tocavam agora, diante do sacerdote,
poderiam perder a delicadeza na privacidade do quarto. Enorme e com o rosto escondido
pelas sombras, o Cavaleiro Vermelho poderia muito bem ser algum tipo de demnio. Um
demnio com quem seria obrigada a deitar-se hoje a noite.
         Como se percebesse seu estado crescente de aflio, Montmorency apertou-lhe a mo
com firmeza. Absorvendo o poder que emanava daquela figura slida, Isadora teve foras
para reunir um resto de coragem e acompanhar a cerimnia at o fim.
         Embora tivesse a impresso que o baro lhe transmitira calma e confiana no
momento em mais precisara, ela ficou aliviada quando as mos de ambos se separaram.
Entretanto o alvio teve curta durao. Antes mesmo de se recobrar da intensidade das
emoes, foi tomada nos braos e apertada de encontro a um peito largo.
         Isadora deixou escapar um murmrio de surpresa. Era estranho sentir o corpo de um
homem pressionando-lhe os seios. Talvez se pudesse enxerg-lo, a sensao seria menos
inquietante. Porm a escurido da capela dava a Impresso de que estavam a ss, separados
do resto do mundo... E sua nica tbua de salvao era o Cavaleiro vermelho.
         Desorientada, ergueu as mos, os dedos trmulos emaranhando-se nas dobras da
tnica daquele que acabara de se tornar seu marido. Imediatamente Montmorency deslizou
as mos pelos ombros delicados, at toc-la na base do pescoo. Cada centmetro de pele


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acariciada pelos dedos masculinos parecia ganhar vida, ficando em fogo. Ento ele a beijou na
boca. Foi um beijo rpido e impetuoso, que terminou antes mesmo que Isadora percebesse o
que estava acontecendo. Desnorteada, piscou vrias vezes, porm no conseguia v-lo. Como
se num sonho, aguardou, cheia de expectativa... embora no soubesse bem o qu. Ao sentir as
mos de Montmorency percorrem seus braos, ela prendeu a respirao, um calor Intenso
tomando conta de suas entranhas. Levada por um impulso incontrolvel, apoiou-se no corpo
viril e ergueu o rosto...
          - Voc pode se retirar para seu quarto agora. Espero-a para jantarmos juntos. - Ele
deu-lhe as costas e afastou-se, deixando atrs de si apenas a escurido.
          Assombrada pelo que acontecera, Isadora teria permanecido ali parada, imvel, se
um som vindo do altar no lhe chamasse a ateno. Esquecera-se por completo do sacerdote.
          Ser que somente alguns minutos haviam passado? Por que ento a sensao de que
Montmorency e ela tinham ficado sozinhos, envoltos por um manto de sombras, durante toda
uma eternidade? Entretanto a capela no parecia to s escuras agora. As poucas pessoas pre-
sentes conversavam num tom normal, incapazes de perceber o que lhe acontecera.
          Mas o que lhe acontecera?
               No sabia dizer ao certo. Por um louco instante tivera a impresso de que no
existia capela, sacerdote, testemunhas,.. apenas Montmorency e ela, juntos... tocando-se.
Ainda podia sentir o calor das mos fortes na sua pele, a presso do peito largo, a boca...
Isadora passou os dedos de leve sobre os lbios. Era como se aquele homem a tivesse marcado
com um ferro em brasa.
          Percebendo o absurdo dos pensamentos, abaixou a mo com fora, certa de que as
histrias de Edith estavam dando asas  sua imaginao. Fora apenas um beijo de protocolo,
nada alm. O fato de no estar acostumada a receber atenes masculinas transformara um
acontecimento banal em algo fora do comum. A circunstncia anormal em que o casamento
fora realizado acabara impedindo-a de raciocinar com clareza. Montmorency no apertara
sua mo para lhe transmitir coragem e segurana, como chegara a pensar, porque ele
continuava irritado. De outro modo no a teria mandado para o quarto to secamente.
          Isadora mordeu os lbios nervosa. As coisas estavam acontecendo depressa demais
para o seu gosto. E tudo era to estranho que no conseguia entender, mesmo sempre tendo se
considerado uma pessoa capaz de analisar qualquer situao com perspiccia. Sentia-se inse-
gura, e no gostava nada disso. Por natureza, e vocao, Isadora gostava de dominar, de dar a
ltima palavra em qualquer questo. Contudo comeava a se achar impotente em
Dunmurrow. Dentro do castelo transformara-se numa prisioneira das trevas, a noiva infeliz
de um marido que no a queria.
          Parecia-lhe impossvel que seu plano, traado com todos os detalhes e o maior
cuidado semanas atrs, pudesse ter terminado daquela maneira desastrosa. Do dia para a
noite, tornara-se esposa do Cavaleiro Vermelho, uma figura densa, ameaadora, capaz de
exercer controle no apenas atravs de suas excentricidades mas atravs do simples toque das
mos tambm.

         De volta ao quarto, Isadora descobriu que seus bas haviam sido entregues. Um
lembrete final de que no poderia voltar para casa. Inquieta, passou os dedos sobre o anel que
Montmorency lhe colocara no anular esquerdo, o sinal de que seria obrigada a viver naquele
lugar frio assustador para sempre.
         Embora sua vontade fosse deitar na cama e chorar, ela ordenou a Edith que
desfizesse a bagagem. Depois abriu a porta e chamou por Cecil.
         - H mais velas que eu possa usar? - O servo fitou-a ansioso e murmurou um sim
quase inaudvel.  Ento faa-me o favor de traz-las. No posso suportar nem permitir essa
escurido permanente. Existem criadas ou homens no castelo para fazer o servio de limpeza?
         - Tem uma lavadeira.
         - Pois mande-a a minha presena agora mesmo.


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          Cecil concordou com um aceno e se retirou depressa, o rosto coberto por uma palidez
mortal.
         - Quero que algum limpe este quarto  Isadora falou para Edith. A criada, que
permanecia parada no mesmo lugar, continuava gemendo e se revoltando contra o destino
que as mandara para aquele antro esquecido por Deus. Isadora achou melhor ignor-la e
abriu as janelas. A lufada de ar, embora gelada, era limpa e fresca, trazendo luz s trevas.
Atentamente, estudou o ambiente.
         Era um quarto pequeno e pobremente mobiliado. Apenas uma cama e um pequeno
sof defronte a lareira. As paredes estavam cinzas, o assoalho quase negro e o cortinado da
cama empoeirado. A viso no podia ser mais desanimadora.
         - Este quartinho miservel  um verdadeiro insulto... minha lady. - A serva estava
vermelha de raiva. - E uma desgraa para qualquer dama e em especial para voc,
acostumada a viver rodeada de conforto e beleza. Oh, cus, no h sequer uma cadeira neste
antro!
         - Julgando pela ausncia de mobilirio no castelo, posso me julgar uma mulher de
sorte por ter esse sof. Fazer almofadas para deix-lo mais confortvel ser uma tarefa fcil.
         Edith fez uma careta, trazendo um sorriso aos lbios de Isadora pela primeira vez
desde que haviam posto os ps em Dunmurrow.
         - Alis, considerando a idade desta construo, diria at que somos afortunadas. Olhe
s a lareira! - Ela estremeceu, imaginando uma cela fria e sem janelas, grata pelo pouco que a
cercava. Depois pensou nos aposentos principais, normalmente ocupados pela esposa do
baro, e estremeceu outra vez. Entretanto o arrepio que a percorreu de alto a baixo era
estranho, uma sensao que no conseguia explicar.
         Sacudindo os sentimentos despertados pela lembrana do marido, Isadora abriu a
boca para dizer que preferia estar numa cela nua do que na alcova de Montmorency. Mas
resolveu ficar calada. Os aposentos do Cavaleiro Vermelho se assemelhavam s descries que
Edith faria da prpria moradia do diabo e no estava com nenhuma disposio para ouvir as
comparaes da velha criada.
         J ouvira tolices alm da conta.
         - Este quarto me servir bem depois de limpo - Isadora insistiu mais asperamente do
que pretendia. As condies dos aposentos eram mesmo precrias, porm, como em todo o
castelo, o grande problema centrava-se na sujeira, algo que podia ser consertado. - Se a lava-
deira no puder nos ajudar, ento voc e eu faremos o trabalho sozinhas at que mais
mulheres possam ser trazidas da aldeia. E posso lhe garantir que elas viro! No importa a
que custo.
         De repente Isadora pareceu fazer uma descoberta significativa.
         - Dinheiro! - ela exclamou surpresa. - Edith! Talvez esse Cavaleiro Vermelho, to
feroz, seja pobre! Talvez a ausncia de servos signifique que se trata de um feudo
improdutivo. O castelo tem poucas velas porque no h como compr-las.  possvel que
nenhum aldeo saiba como fabric-las tampouco.
         Embora Edith no parecesse muito convencida com os argumentos, Isadora
continuou a falar, tentando desesperadamente encontrar uma explicao plausvel para o
estado de abandono em que a propriedade se encontrava.
         - Se o problema  dinheiro, isso pode ser remediado com facilidade. Mandarei que me
tragam o que precisa mos de Belvry. Ou melhor... podemos nos mudar para Belvry! - Ela
sentou-se na cama, maravilhada com a idia que lhe ocorrera e com a esperana que a
possibilidade lhe trouxera.
         Talvez, quem sabe talvez, Montmorency ficaria feliz em ser dono de uma propriedade
prspera e no se importaria de morar em Belvry pelo menos durante uma parte do ano.
Cheia de expectativas, Isadora fitou Edith, porm a criada balanou a cabea de um lado para
o outro, cheia de desnimo.
         - Talvez, minha lady, talvez. Contudo, apesar da pobreza, deve existir madeira o

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suficiente nas redondezas para sejam feitas tochas, pelo menos para iluminar o salo. No
consigo entender por que aquele espao todo  mantido nas sombras.  at perigoso.
         A esperana que comeara a crescer em seu corao perdeu o significado. Edith
estava certa, claro. No haveria nenhuma mudana para Belvry. O instinto lhe dizia que o
Cavaleiro Vermelho estava muitssimo bem em Dunmurrow, envolto na mais total escurido.

        CAPITULO TRES

         De cabea erguida, Isadora seguiu o sempre-presente Cecil, que viera busc-la
         para o jantar. Seu quarto e o cubculo ao lado, uma espcie de depsito, estavam
agora limpos e arrumados. Ela tentava no pensar nos aposentos espaosos de Belvry ou no
solrio, rodeado de janelas envidraadas, onde costumava passar a maior parte do dia. Talvez
pudesse mandar buscar algumas de suas tapearias favoritas para cobrir as paredes mas de
Dunmurrow e para alegr-la tambm...
         Determinada a no alimentar pensamentos dolorosos, tratou de se concentrar nos
problemas imediatos. Depois do jantar iria pedir que lhe preparassem um banho, decidiu,
esforando-se para se concentrar em detalhes. Quem sabe se mantivesse a mente voltada para
assuntos banais no conseguiria esquecer, pelo menos por um momento, o tamanho e a
gravidade de seu erro.
         Sim, havia se enganado terrivelmente, Isadora admitiu pela primeira vez, embora
continuasse a negar o fato para Edith. Seu plano fora um completo desastre porque se apoiara
demais nas reaes de terceiros. Quando o rei e Montmorency agiram de maneira inesperada,
tudo fora por gua abaixo. Em vez de ganhar a liberdade, suas atitudes a tinham condenado a
viver neste lugar sinistro.
         O bom senso lhe dizia que devia ter escolhido um outro homem para marido,
entretanto bastava pensar nos cavaleiros da corte para chegar a concluso de que continuaria
a rejeit-los de forma definitiva. A verdade  que preferia no ter se casado com ningum. E
se a opinio de Edith fosse levada em considerao, permanecia uma mulher solteira. A
criada insistia na idia de que Montmorency era um fantasma ou um demnio, no uma
criatura mortal, com sangue quente correndo nas veias. Enquanto arrumavam o quarto, a
pobre-coitada fizera questo de repetir  exausto cada um dos boatos que ouvira sobre o
Cavaleiro Vermelho, fazendo-o assumir os mais variados papis, desde o prprio diabo
encarnado at um espectro destitudo de forma.
         Isadora sorriu para si mesma ao se lembrar das tolices contadas pela serva pois
aquelas histrias absurdas eram risveis. Alis, pensando bem no assunto, talvez no houvesse
escolhido to mal assim. Montmorency, de quem no chegara a ver sequer a face, podia ser
um marido at melhor do que um homem de carne e osso. Afinal devia ser mais fcil1idar
com uma sombra do que com um nobre arrogante. No, no era verdade. O Cavaleiro
Vermelho, fosse sombra ou no, jamais se deixaria dominar.
         Seguindo Cecil por um corredor frio e estreito, cercado de pedras por todos os lados,
Isadora tropeou vrias vezes por causa da escurido. Praguejando em silncio, desejou
ardentemente ter escolhido outro cavaleiro para marido. Se houvesse optado por um dos
nobres da corte poderia at estar enfrentando outros problemas agora, mas pelo menos seria
capaz de enxergar! A noite eterna de Dunmurrow comeava a pesar sobre seus ombros como
um fardo, frustrando quaisquer esforos de manter a pretenso de que vivia uma situao
normal.
         Quando Cecil parou diante dos aposentos principais ela no se surpreendeu. No era
incomum que o lorde de um castelo ceasse em particular na companhia de amigos ntimos ou
convidados especiais. Porm no gostava nada de estar de volta  alcova do Cavaleiro Ver-
melho. O quarto enorme parecia ainda mais escuro do que se lembrava. O fogo da lareira
continuava sendo a nica fonte de luz, as labaredas inquietas atirando-se para o ar como
lnguas vermelhas e vorazes.


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         Montmorency j estava sentado  mesa, aguardando-a no meio das sombras. Embora
houvesse debochado das histrias contadas por Edith horas antes, no conseguia evitar a
pontada de inquietude que aquela figura enorme despertava. Sentia-se como uma presa,
atocaiada pelo caador. Ao ouvir um rosnado, estremeceu violentamente.
         - Quieto, Pollux - Montmorency falou e Isadora percebeu, para seu alvio, que o som
viera de um dos ces, no de seu marido. Contudo, a escurido absoluta e a presena
ameaadora dos animais, tornava difcil ignorar os avisos de Edith. Talvez o Cavaleiro
Vermelho fosse uma fera, uma coisa horrenda, disforme... Talvez tivesse o rosto distorcido
por focinho, caninos afiados e um par de olhos vermelhos flamejantes...
         - Sente-se, minha lady. No vou mord-la.
         O tom seco, quase insultuoso, acabou por transformar o desassossego em irritao.
Isadora ergueu o queixo, engoliu uma resposta mal-educada e sentou-se.
         - Meu lorde - ela o cumprimentou no mesmo tom. Depois olhou ao redor, procurando
sinais da presena de outras pessoas. Para sua total surpresa, havia apenas dois lugares postos
 mesa. - Onde est o padre? Indagou. - E Delamere, o emissrio do rei?
         Montmorency no pareceu gostar das perguntas.
         - Eles j se foram - respondeu asperamente. - Partiram logo aps a cerimnia de
casamento, ansiosos para comear a longa jornada que os aguardava.
         Isadora sentiu um misto de frio e calor intenso. No conseguia acreditar que aquele
pequeno grupo que a acompanhara no fora convidado para, pelo menos, pernoitar no
castelo. Mesmo que no houvesse abundncia de alimentos por causa do inverno, com certeza
um pouco de po e vinho poderia ser servido aos convidados. Jamais ouvira dizer que as
testemunhas de um casamento fossem mandadas embora sem que lhes servissem uma
refeio.
         Saber-se sozinha na companhia do Cavaleiro Vermelho, trancada dentro de
Dunmurrow para sempre e com todos os laos que a prendiam ao mundo exterior cortados,
era algo no mnimo inquietante.
         - Voc os mandou embora sem... sem uma palavra minha? - ela indagou procurando
manter a voz firme.
         - Eu no sabia que voc queria lhes falar. - Montmorency deu de ombros, como se o
assunto no lhe despertasse o menor interesse. - Alis, ambos me pareciam bastante ansiosos
para tomar o caminho de casa.
         Claro que aqueles dois deviam estar loucos para fugir do antro do Cavaleiro
Vermelho, Isadora pensou, cheia de desprezo. Afinal no passavam de covardes.
         - Ento nada de festa de casamento? Nenhuma celebrao? - A pergunta fora feita
com uma indiferena calculada.
         - Celebrao? No vejo motivo para isso - Montmorency respondeu sem disfarar a
amargura.
         A resposta fria e cortante foi como uma bofetada, deixando-a vermelha de dio.
         - Entendo. Muito bem. Talvez ento voc tenha motivos para celebrar quando
receber a contabilidade de Belvry. No sei de quanto meu lorde precisa, mas devo lhe
informar que acabei de transform-lo num homem rico.
         - No quero o seu dinheiro! - Irritado ao extremo, ele esmurrou a mesa com fora.
         Ela decidiu ignorar a exploso.
         - No mesmo? Julgando pela aparncia da sua propriedade, eu diria que dinheiro 
exatamente aquilo de que voc precisa. - Aparentando a maior naturalidade, Isadora partiu
um pedao de po e mordiscou-o devagar.
         - Talvez eu deva lembr-la que foi voc quem veio at aqui sem ser convidada, lady de
Laci. - A voz profunda no passava de um sussurro ameaador.  Foi voc quem me forou a
um casamento que eu no procurei e muito menos desejei. Ser que minha lady no pensa na
sua... vtima? - Montmorency lidava num tom enganosamente afvel agora. - E se eu j
estivesse comprometido com outra mulher? Voc pelo menos considerou a possibilidade? E se

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eu gostasse de algum?
         Por um breve momento Isadora ficou abatida... e surpresa. Casamentos entre
famlias nobres costumavam ser, em geral, arranjados pelos pais dos noivos como um
verdadeiro negcio. Porm havia casos de amor na corte sim. Embora o Cavaleiro Vermelho
fosse a ltima pessoa a quem julgaria capaz de experimentar esse tipo de sentimento, no
podia ignorar a possibilidade de que ele desejasse outra mulher para esposa. A mulher por
quem estava apaixonado.
         - Voc gosta de algum? - perguntou sem rodeios. - Montmorency recostou-se no
espaldar da cadeira como se a estudasse com interesse, apesar da escurido reinante tornar
impossvel enxergarem um ao outro. Porm o Cavaleiro Vermelho estava longe de ser um
homem comum. Talvez ele pudesse v-la sim, como a criatura das trevas que era.
         O baro no respondeu de imediato, deixando o silncio se estender at ao ponto de
quase sufoc-la. Sem que conseguisse entender o motivo, a resposta de seu marido tornara-se
subitamente importante. Queria, precisava ouvi-lo negar que gostava de outra mulher.
         - No - ele respondeu afinal.
         - Oh! - Isadora largou a faca sobre a mesa com fora, irritada por ter sido deixada
naquela expectativa.
         - Mas e se eu gostasse? - Montmorency indagou cheio de desprezo, impedindo-a de
protestar. - Voc com certeza no pensou em mim, ou em qualquer outra pessoa, um segundo
sequer quando traou esse plano louco para escapar do altar. .
         Isadora mal podia conter o desagrado. Ento aquele insolente tinha coragem de
distorcer a situao, de faz-la parecer a vil da histria quando fora Edward que a forara a
se casar e o Cavaleiro Vermelho tolo o suficiente para concordar.

         - Oh, meu lorde, mas eu pensei em voc sim. Na verdade nunca imaginei qu seria
capaz de aceitar casar-se comigo.
         Montmorency resmungou alto, como se as palavras dela confirmassem seus
pensamentos.
         - Posso saber o que isso significa? - A irritao de Isadora crescia perigosamente. J
era desagradvel o suficiente no enxergar o homem para ainda ter que agentar resmungos
incoerentes.
         - Significa, minha querida esposa, que voc  exatamente o que eu suspeitava. Uma
garota mimada.
         - Como voc tem a ousadia de me falar nesse tom? - ela indagou possessa de dio.
         - Posso ousar o que quiser porque sou seu marido - Montmorency retrucou muito
calmo. - Talvez seja bom lembrar-se desse detalhe.
         - Como se eu pudesse esquecer. - Por um instante Isadora julgou ter ouvido um som
parecido com uma risadinha, porm descartou logo a possibilidade. Quem sabe um dos
cachorros rosnava baixinho... Irritadssima, resolveu jantar. Melhor comer e ficar em silncio
do que ouvir insultos.
          Seu marido no era nenhum tolo, pensou furiosa. Se quisesse domin-lo, precisaria
usar toda a inteligncia e sagacidade. Tinha que e encontrar uma maneira de dobr-lo, ou de
no mnimo, arrancar o tom de zombaria daquela voz. De repente uma idia salvadora lhe
ocorreu. Uma revelao maravilhosa!
         A unio podia ser anulada.                      ,
          possvel invalidar casamentos alegando-se que a cerimnia foi realizada contra a
vontade de uma das partes envolvidas. Embora Isadora no tivesse desejado casar-se com
homem algum, escolhera Montmorency de livre e espontnea vontade na frente do rei e de
vrias testemunhas, portanto seria impensvel alegar que sofrera algum tipo de coao. No,
ela realmente no teria como dizer que fora coagida.
         Mas Montmorency sim.
         O Cavaleiro Vermelho deixara claro que no a queria. Durante a conversa de horas

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atrs, ainda de manh, aquele grosseiro a insultara, dizendo-lhe que s podia ser uma
mulher desejvel por causa do dote. O baro tambm afirmara, em alto e bom som, que s a
aceitava como esposa em obedincia a Edward. Para completar, no fora ele mesmo que
acabara de proclamar sua indignao por ter sido forado a aceitar um casamento que no
procurara e sequer desejara? Concluindo: ele se casara contra a vontade, simplesmente para
cumprir um decreto do rei.
          Certa de que a unio de ambos seria anulada com facilidade, Isadora sorriu.
Precisava apenas convencer Montmorency e dariam um fim quela farsa. Ficaria livre para
voltar para Belvry, uma vez que cumprira sua parte escolhendo um cavaleiro como Edward
ordenara. Montmorency tampouco seria culpado. Afinal ele obedecera ao rei. Tambm
ningum dissera nada sobre quanto tempo o casamento teria que durar.
          Usando de todo o seu poder de persuaso, como costumava fazer ao barganhar com
os mercadores de tecidos finos e especiarias, Isadora exps sua idia brilhante.
          - H uma sada, meu lorde.
          - Uma sada para o qu?
          - Para voc se livrar de mim. - A voz feminina transpirava doura.
          - Se existe uma sada, eu gostaria de saber qual .
          - Casamentos realizados contra a vontade de uma partes envolvidas podem ser
invalidados - ela exclamou paciente. - Portanto, teremos somente que aguardar o tempo
suficiente de entrar com uma petio para dissoluo de nosso casamento.
          - Dissoluo? - O Cavaleiro Vermelho indagou alto.  Sob qual alegao?
          - Sob a alegao de que uma das partes foi forada a casar-se contra a vontade -
Isadora repetiu exasperada. Ser que aquele homem recusava-se a entender?
          Rudos estranhos atravessaram a escurido, como se o baro estivesse praguejando.
Bem, talvez fossem os ces outra vez.
          - E ento? Voc concorda?
          - Quer dizer que est mesmo falando srio?! - Montmorency explodiu surpreso.
          - Claro que estou falando srio, meu lorde.  a soluo perfeita para o nosso dilema.
Quando nossa unio for declarada nula e dissolvida, estaremos livres para voltarmos s
nossas vidas de solteiros.
                Mais rudos estranhos vindos da direo do Cavaleiro Vermelho. Seria o
barulho provocado pelos animais?
                - Bem, qual a sua opinio a respeito do meu plano?
          - Na minha opinio voc  louca! - Isadora o ouviu levantar-se e sentar-se de novo, a
cadeira rangendo sob a montanha de msculos. Ao perceber que a respirao do marido
havia se alterado, ela experimentou um princpio de pnico. O que o deixara to furioso? Ele
no fora taxativo ao dizer que no a queria como esposa?
          Quando Montmorency voltou a falar parecia ter se acalmado um pouco.
          - Vamos ver se consegui entender direito esse seu novo plano. Edward lhe ordenou
escolher um marido e voc escolheu a mim. Agora quer mudar de idia e entrar com uma
petio junto ao rei e  Igreja para que nosso casamento seja anulado, alegando ter sido
coagida?
          - No, no. Voc me entendeu mal, meu lorde.
          Um suspiro de alvio vindo das sombras colocou-a mais  vontade para explicar o
resto do plano. - Foi voc quem contraiu matrimnio sem desejar, portanto  voc quem deve
entrar com a petio. Claro que vou apoi-lo. Testemunharei a seu favor, dizendo que voc se
casou comigo somente por causa da ordem do rei.
          - Eu?! - Desta vez o soco de Montmorency na mesa fez o quarto inteiro tremer. Ele se
levantou de um pulo, jogando a cadeira no cho. - Voc quer que eu declare que fui forado a
me casar com voc?
          - Claro que sim - Isadora respondeu devagar, inquieta com aquela demonstrao de
fria. -  verdade, no ? Pelo menos foi o que voc me disse.


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         O Cavaleiro Vermelho rosnava feito uma fera enjaulada e por um momento ela teve
medo de ser atacada. Desacostumada a tais manifestaes de raiva, Isadora ficou imvel,
tentando lutar contra o sentimento de pavor que ameaava sufoc-la. No era o modo como
ele parecia pairar sobre o aposento, uma figura alta, sombria e completamente desconhecida,
o que a assustava, mas a fora daquela ira.
         Isadora sempre achara emoes de qualquer tipo algo inquietante e detestava
funerais porque o excesso de lamentos e tristeza a incomodava. Mesmo durante o enterro do
pai no fora capaz de chorar. Lgrimas que Edith e outras pessoas derramavam com tanta
facilidade nunca vinham aos seus olhos. Nervosa, mordeu os lbios sem saber se devia ficar
onde estava ou voar para longe do alcance da fria do Cavaleiro Vermelho.
         Ao perceber que o marido no fazia nenhum movimento na sua direo, aventurou
um comentrio.
         - Pelo que pude entender, voc no est inteiramente de acordo com o meu plano.
         Montmorency deixou escapar um gemido exasperado. Pelo menos era um avano,
Isadora pensou, considerando que at minutos atrs seu marido estivera rosnando.
         - No, no estou de acordo com o seu plano  ele falou muito calmo. - Em primeiro
lugar, seria uma mentira porque ningum, jamais, me forou a fazer qualquer coisa contra
minha vontade.
         - Mas voc disse...
         - Eu disse que no procurei e nem desejei esta unio. Tambm no falei nada sobre
ter sido coagido. O casamento foi celebrado para agradar Edward, muito embora eu esteja
tentado a acreditar que o sacrifcio ser maior do que supunha a princpio.
        O comentrio indelicado a magoou profundamente. Ser que o Cavaleiro Vermelho
precisava ser sempre to rude?
        - Voc age como se fosse o nico a estar sofrendo as conseqncias. Posso lhe garantir
que nossa unio tampouco me agrada. Por acaso voc acha que eu quero viver aqui?
        Montmorency estava longe de ser tolo e no lhe passou despercebido o desprezo
contido em cada uma daquelas palavras.
         - Pois viver aqui  o que far - ele respondeu de forma to dura e deliberada que
Isadora sentiu uma pontada de dor no corao. Melhor ter cuidado. O homem sentado  sua
frente podia ser muito perigoso.
         Quando o baro se mostrava disposto a conversar como uma criatura civilizada, era
at possvel esquecer sua reputao bizarra e a esquisitice do ambiente ao redor. Se ela
fechasse os olhos, podia quase se imaginar no solrio ou jantando no salo aconchegante de
Belvry, na companhia de um cavaleiro famoso, embora um tanto seco. O problema era que
estava a centenas de quilmetros de casa. Fora presa numa armadilha, trancafiada dentro da
escurido eterna ao lado de um homem de quem jamais vira sequer o rosto e cuja fama
violenta fazia o sangue de qualquer um gelar nas veias.
         Melhor lembrar-se de quem era Montmorency de fato e agir com cuidado,
especialmente at conhec-lo um pouco mais. Procurando raciocinar depressa, Isadora
decidiu que deveria apresentar argumentos consistentes e evitar brigas e discusses. Embora
estivesse claro que ele no a queria como esposa, tambm parecia resolvido a no anular o
matrimnio. Talvez aceitasse um acordo em que ambos vivessem separados...
         - Meu lorde - ela comeou delicada -, se voc est to infeliz comigo, por que no me
deixa ir para casa? Continuaramos casados mesmo morando longe um do outro. Voc
poderia ir e vir de Belvry como lhe for conveniente. - Entusiasmada com a idia, Isadora teria
continuado a falar se no fosse interrompida de repente.
         - Voc  minha esposa e ficar aqui, quer lhe agrade ou no.
         - Mas precisam de mim em Belvry - Isadora argumentou, mudando de ttica. No
pretendia abrir mo da prpria liberdade to facilmente assim. -  um feudo muito prspero
e se queremos continuar obtendo lucros tenho que estar l para...


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              Montmorency sequer deixou-a continuar a frase.
        - J lhe disse que no quero um vintm de seu precioso dinheiro! No preciso dele!
        Ento por que no foi oferecida uma refeio aos convidados do nosso casamento?
Por que o castelo est nesse triste estado de abandono? Por que no h servos suficientes para
mant-lo limpo? Por que no h mais fogo nas lareiras para nos aquecer e nem velas para
afastar essa escurido maldita? - A voz de Isadora vibrava de frustrao. Como
Montmorency tinha coragem de negar que precisava de dinheiro? Como  que podia rejeitar
aquilo que qualquer outro homem agarraria com ambas as mos? E se ele no a queria, por
que no lhe dava permisso para ir embora de Dunmurrow? Era impossvel entend-lo. Suas
perguntas no podiam continuar sem respostas.
        Entretanto sem respostas foi exatamente como suas perguntas continuaram. O baro
trancou-se em si mesmo at o silncio pesado se estendeu sobre o quarto como um manto
sufocante e ameaador. Se no fosse pelos contornos da figura macia protegida pelas
sombras, diria at que ele a deixara s. Contudo, quando o Cavaleiro Vermelho voltou a falar,
sua voz no mostrava qualquer sinal de raiva, apenas da mais total frieza e indiferena, alis
como vinha lhe tornando familiar.
        - Se voc tem medo de escurido, minha lady, no deveria me escolhido.
        Isadora j engolira humilhao suficiente. Como uma criana mimada, culpava
Montmorency pela situao em que se encontrava agora porque ele no desafiara a ordem do
rei. Aquele de quem se diziam as piores coisas devia t-la recusado, devia ter lutado para
manter a prpria liberdade. Pela primeira vez na vida, sentia-se derrotada, incapaz de
dominar as circunstncias.


          - Se me der licena, meu lorde. - No se tratava de uma pergunta, mas de uma
declarao. Ela ficou de p, as mos cerradas e cadas ao longo do corpo. - O jantar j me
foi... suficiente. - Sem esperar resposta, Isadora caminhou na direo em que julgava estar a
porta pois a escurido impenetrvel no a deixava ver nada.
          - Cecil! - Ao simples chamado do baro, o servo apareceu como num passe de mgica,
trazendo um castial.
          - Vou jantar no salo esta noite - Isadora avisou-o, grata pelo castial. A expresso,
em geral impassvel do pobre-coitado, foi transformada numa mscara de pavor. Bem, talvez
Cecil temesse a ira de Montmorency, porm ela no iria se deixar assustar pelo Cavaleiro
Vermelho. Se aquele grosseiro tentasse obrig-la a ficar mais um segundo sequer dentro de
seus aposentos sinistros iria se arrepender amargamente, pois sentia-se preparada para
resistir e lutar com todas as foras.
          Esforando-se para manter o controle, Isadora comeou a descer as escadas sabendo
que deveria parecer tranqila quando enfrentasse a pequena multido que a essa hora j
devia estar jantando no salo. Como a nova castel de Dunmurrow, precisava agir de acordo
com a posio, no importando o quanto o fato a desgostava. Erguendo a cabea, assumiu um
ar confiante, determinada a jantar na companhia daqueles que moravam e trabalhavam no
castelo. Nem que lhe custasse a ltima gota de sangue, desempenharia o papel de noiva feliz. A
mulher desesperada ficaria trancada a sete chaves.
          Emergindo das sombras, ela sentia-se em seu elemento natural. Senhora do castelo
sempre fora uma atribuio que soubera exercer com facilidade, desde menina. Porm ao
entrar no salo, o cho pareceu fugir sob seus ps. Por um instante permaneceu imvel, sem
conseguir acreditar nos prprios olhos. Ento inspirou fundo, como se engolisse um soluo
diante da viso fantasmagrica.
          No havia sinal de damas ou cavaleiros ao redor das mesas vazias. No havia servos
indo e vinda da cozinha, nem aldees procurando um lugar onde estender os catres para
passar a noite. O salo de Dunmurrow estava deserto, a escurido silenciosa lhe parecendo
mais ameaadora do qualquer coisa que jamais enfrentara em toda sua vida. Ela estremeceu,


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os ltimos fios de esperana transformando-se em p.
         Edith a esperava. Sonolenta, encolhida: diante do fogo, uma bandeja vazia sobre a
nica mesinha disponvel.
         - Oh, minha lady - a velha senhora exclamou levantando-se. - Ser que eu cochilei? E
muito tarde?
         Deixando de lado os planos iniciais de tomar um banho, Isadora resolveu que o
melhor seria tentar dormir.
         - Ainda  cedo, mas voc est cansada. Pode ir para seu quarto agora.
         A criada parecia abatida, as bochechas normalmente rosadas e redondas haviam
perdido por completo a cor.
         - Talvez eu... eu devesse dormir aqui, no lugar destinado ao guarda-roupa - ela
sugeriu apontando para o cubculo separado do quarto por uma cortina.
         - Se voc est com medo de ir para seu prprio quarto, ento pode estender um catre
no cho e dormir aqui mesmo.
         - Sim, minha lady, por tudo o que h de mais sagrado, estou com medo sim. Tenho
medo do que possa me acontecer neste lugar sinistro e tambm do que possa lhe acontecer. -
Ela fez uma pausa, como se no soubesse como continuar. Quando voltou a falar, sua voz no
passou de um murmrio tmido. - Voc sabe o que deve o que deve esperar nesta noite... na
noite de npcias?

         Isadora inspirou fundo. Deus, como pudera se esquecer daquilo que a aguardava?
Estivera to ocupada fazendo planos e discutindo com Montmorency que acabara se
esquecendo de que seria obrigada a aceit-lo na cama. O olhar penetrante que lanou  serva
fez um rubor intenso voltar s bochechas plidas. Edith corou at a raiz dos cabelos
castanhos, j mesclados de branco.
         - Seria obrigao de sua me lhe dizer tudo, mas, Deus lhe d o descanso eterno, como
ela no est aqui... Voc quer saber?
         Isadora acenou com a cabea, os olhos fixos na criada.
         - Quando um homem se casa, adquiri direitos sobre o corpo da esposa, para us-la
como quiser.  Edith estremeceu ao pensar no Cavaleiro Vermelho, forte e feroz, usando o
corpo de quem quer que fosse. A idia lhe causava verdadeiro pavor. Foi com enorme
dificuldade que se obrigou a continuar - Voc viu o suficiente de seus irmos para saber que a
anatomia masculina  diferente da feminina. O homem, se encaixa entre as pernas da mulher
para ter prazer. E... doloroso, minha lady, mas voc  jovem, resistente, e ir agentar. Pense
que assim poder ter a semente de um beb dentro de voc. - A serva baixou a cabea, os
olhos marejados de lgrimas. - Era essa a minha esperana, porm Deus no me deu essa
bno. Entretanto me encarregaram de cri-la, minha lady. Pude v-la crescer, bela e
inteligente. Oh, cus, nunca pensei em v-Ia casada com algum como esse Cavaleiro
Vermelho! - Edith comeou a se lamentar sobre o destino daquela a quem amava como a uma
filha.
         Cheia de piedade pelo sofrimento da velha senhora, Isadora abraou-a com fora,
procurando consol-la enquanto lembrava-se das vezes em que vira os irmos trocando de
roupa. Montmorency era muito mais alto e corpulento do que seus irmos, portanto aquela
parte da anatomia devia ser ainda maior. S de pensar no baro forando o membro para
dentro de seu corpo sentia-se  beira do pnico. Sim, era jovem e forte, porm...
         Quando os soluos de Edith finalmente cessaram, Isadora sorriu esforando-se para
tranqiliz-la.
               - No fique nervosa. No estou nem um pouco preocupada - mentiu.
               As palavras firmes transmitiram um pouco de tranqilidade  serva.
         - Pelo menos no dura mais do que alguns poucos minutos, minha lady. Ou pelo
menos no deveria durar. Aquele... aquele demnio pode ter poderes estranhos. Oh, minha
lady, temo por sua segurana! Quem sabe o que n fera ser capaz de lhe fazer? Voc


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conseguiu dar uma boa olhada no baro? Talvez ele seja igualzinho ao diabo, com chifres e
corpo de bode...
         - Ele  apenas um homem - Isadora falou num tom que no admitia discusso,
temerosa de que a serva comeasse outra vez com a mesma ladainha sobre a estranha
reputao de Montmorency. Bem no ntimo, no acreditava muito que a expresso "apenas
um homem" pudesse ser aplicada ao Cavaleiro Vermelho. Contudo no era tola de mencionar
suas dvidas.
         - Mas, minha lady, e todas essas histrias que se contam sobre a sede de sangue que
ele parece ter, sobre o domnio da magia negra? E se o demnio lanar algum encantamento e
obrig-la a fazer todas as suas vontades?
         - Pare j com isso! Escutar tamanhos absurdos acaba tornando cansativo. - Edith era
um doce de pessoa, embora ingnua e s vezes at ignorante. Isadora sentia-se um pouco
culpada por no conseguir retribuir a afeio que a velha senhora lhe dedicava com igual in-
tensidade. - V descansar - sugeriu baixinho, procurando acalmar a serva que retorcia as
mos aflita.
         - Bem, minha lady, vou ficar por perto. - Edith no conseguia disfarar a profunda
apreenso, os olhos estavam to arregalados que pareciam querer saltar das rbitas. - Se voc
gritar, venho correndo acudi-la.
         Isadora sorriu amarga, sabendo que mesmo a fora conjunta de duas mulheres
jamais seria suficiente para conter um guerreiro, especialmente algum da estatura do
Cavaleiro Vermelho.
         - E o que voc far, minha aia?
         Edith pensou durante uns poucos segundos, ento ergueu o queixo determinada.
         - Posso bater na cabea dele com alguma coisa!
         - E depois o qu?
         - Depois fugiremos para bem longe, minha lady! - ela respondeu ansiosa. - Fugiremos
deste castelo sinistro e ficaremos livres do demnio para sempre!
         - Seremos duas mulheres sozinhas, perdidas numa regio que no conhecemos, no
auge do inverno. Para onde iremos? Voc no v que no h escapatria?
         - Podemos procurar refgio no convento mais prximo!
         Isadora abraou a serva com carinho, no querendo destruir quaisquer sonhos que
ainda pudessem confort-la. Por outro lado a idia de assassinar o marido com certeza no
seria aceita de bom grado pelo rei.
         - Leve seu catre para o aposento ao lado e procure descansar, dormir. Tenho certeza
de que tudo parecer menos sombrio amanh de manh.
         To logo Edith saiu, Isadora acendeu a lareira. Apesar de suas palavras corajosas,
precisava afastar a escurido de qualquer modo e todas as velas que Cecil lhe dera foram
usadas, especialmente perto da cama. Por fim, tirou a roupa e deitou-se. Recostada nos
travesseiros, aguardou a chegada de Montmorency.
         O tempo pareceu se arrastar com uma lentido espirante e Isadora desejou no ter se
apressado tanto em sair dos aposentos do Cavaleiro Vermelho. Pelo menos se o jantar tivesse
sido prolongado por mais algumas horas, o inevitvel tambm seria adiado tanto quanto
possvel.
         Esforando-se para manter a calma, ela procurava se convencer de que os temores de
Edith no passavam de fantasias absurdas, sem qualquer fundamento. Seu ma rido no era
demnio algum, mas apenas um homem, um ser humano comum, de carne e osso. Entretanto
o pensamento de nada servia para tranqiliz-la porque estava  merc de um desconhecido,
algum de quem sequer vira o rosto.
         Alm de tudo, ele no a queria como esposa. O fato a deixava  beira do pnico. Ela
sabia que Montmorency estava furioso por ter sido escolhido e obrigado a aceitar uma
imposio do rei. E se o Cavaleiro Vermelho decidisse demonstrar toda a sua irritao
durante a noite de npcias submetendo-a ao pior tratamento possvel? Agora que o momento


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do acerto de contas estava prximo, Isadora desejava no ter discutido tanto durante o jan-
tar... ou abandonado os aposentos do baro de forma to brusca e mal-educada. Suas atitudes
impensadas com certeza serviram apenas para aumentar a ira do senhor do castelo.
          Enquanto a noite se estendia, Isadora pedia a Deus que Montmorency viesse logo
para dar um fim quela expectativa angustiante. J no agentava mais aguardar. Contudo
ele demorava, fazendo-a imaginar as coisas mais terrveis capazes de acontecer entre um casal
quando fechado entre quatro paredes. Preferia no ter permitido que Edith dormisse no
cubculo ao lado porque a presena da serva era um lembrete constante da sua deciso.
          Seja l o que acontecesse, no deveria gritar e muito menos pedir socorro.

        CAPITULO QUATRO

         Isadora no tinha muita certeza de quanto tempo permaneceu desperta, lutando
contra a ansiedade e aguardando a chegada do marido, antes de adormecer. Embora se
sentisse um pouco desorientada ao acordar, no demorou nada para se lembrar de que estava
em Dunmurrow, o castelo medonho do Cavaleiro Vermelho. Imediatamente alerta, abriu os
olhos, o corao batendo descompassado no peito.
         Lutando contra o pnico crescente, olhou ao redor, temendo encontrar a figura
sinistra do marido na cama, ao seu lado. Mas no; estava s. O quarto continuava o mesmo de
horas atrs,  exceo das velas que haviam queimado at o fim e do fogo quase extinto da
lareira. Ser que Montmorency viera v-la como uma sombra negra e silenciosa? Inspirando
fundo, ela percebeu que no fora uma visita inumana o que a acordara, e sim o amanhecer.
As primeiras luzes da manh procuravam se infiltrar atravs das pesadas cortinas de veludo.
         Isadora sentou-se, a surpresa inesperada deixando-a zonza. Montmorency no viera
ao seu quarto! O alvio que a concluso lhe trouxe foi to intenso que teve vontade de rir.
Qual o significado daquela atitude?
         S havia uma nica explicao possvel: ele no a desejava.
         No tinha importncia, pensou com uma pontada de orgulho feminino ferido.
Tampouco o queria. E quem haveria de desej-lo? Afinal o Cavaleiro Vermelho no passava
de uma criatura sem rosto e sem forma que se escondia nas trevas e aterrorizava as pessoas
com sua reputao terrvel e temperamento explosivo.
         Seria uma verdadeira bno ficar livre das suas atenes e j que ele no quisera
possu-la na noite de npcias, provavelmente no iria faz-lo nunca. Mal conseguia acreditar
na sua boa sorte. No precisaria dormir com o Cavaleiro Vermelho, nem enfrentar suas
paixes animais ou ser obrigada a suportar uma provao dolorosa, provavelmente
humilhante ao extremo.
         Aquela era a primeira coisa boa que lhe acontecera desde que pusera os ps em
Dunmurrow. Se ao menos no fosse obrigada a permanecer ali. Parecia-lhe bvio que
Montmorency no a desejava, portanto deveria haver uma maneira de convenc-lo a deix-la
ir para casa. Porm a lembrana da noite anterior, quando discutiram sobre o assunto,
encheu-a de desnimo.
         Para um homem que dissera desprez-la, o Cavaleiro Vermelho era bastante
possessivo. Homens! Todos gostavam de comandar e ditar regras, como se tivessem o direito
divino para decidir o destino das pessoas. Talvez ele fizesse questo de mant-la em
Dunmurrow com o nico objetivo de puni-la por t-lo escolhido para marido. No, no era
possvel que o lorde fosse assim to mesquinho e cruel, apesar da reputao terrvel.
         Sentada na cama, ela puxou as pernas para junto do corpo e apoiou o queixo nos
joelhos. Pena que ele no concordasse com a dissoluo do casamento porque, infelizmente,
no podia tomar nenhuma atitude a esse respeito sozinha. Tambm lhe ficara negada a
chance de afirmar ter sido forada a casar-se, mas... Isadora quase levou um choque com a
idia que acabara de lhe ocorrer.
         Havia uma maneira de anular a unio dos dois sim. E uma maneira que no exigia o


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consentimento de Montmorency. Relacionamentos em que os casais compartilham um
parentesco de sangue de at quarto grau tornam-se invlidos perante a igreja. Verdade que
no tinha qualquer parentesco com o baro. Precisava apenas dizer que sim...
        Ela sorriu, as esperanas renovadas. Era de conhecimento geral que os homens s
vezes fabricavam falsos ancestrais somente para se verem livres das esposas. Talvez o plano
fosse improvvel de dar certo, mas a existncia de uma pequena chance valia o esforo.
Isadora pulou da cama, rindo feliz com a possibilidade de recuperar a liberdade. Seria um
prazer derrotar o Cavaleiro Vermelho.
        O som deve ter despertado Edith porque a serva perguntou se podia entrar.
        - Venha - ela respondeu alegre, fingindo no perceber a expresso de espanto no rosto
da velha criada.
        - Bom dia, Edith. Agora que j terminamos de arrumar este quarto, talvez
devssemos comear a cuidar do resto do castelo. - Ainda era muito cedo para compartilhar
suas esperanas. Melhor concentrar os pensamentos em seu novo, embora temporrio, lar.
Sem dvida as tarefas fsicas iriam ajud-la a se manter ocupada at o momento de voltar
para Belvry.
        - O qu? - Edith continuava sem entender nada.
        - Vou mand-la at a aldeia para buscar algumas mulheres dispostas a nos ajudar no
servio domstico. Creio que at o fim do dia teremos quem possa cozinhar e cuidar da
limpeza de maneira adequada. Tambm precisaremos de homens para retocar a pintura das
paredes e se encarregar de um ou outro conserto necessrio. - Isadora contava as tarefas a
serem feitas nos dedos das mos, parecendo bastante entusiasmada.
        - Ah, no podemos nos esquecer de providenciar tapearias e um guarda-loua para o
salo. Depois que eu der uma boa olhada no castelo todo, saberei do que mais iremos precisar.
        - Ele vai deix-la providenciar melhorias em Dunmurrow?
        - Bem... - Isadora hesitou, recusando-se a admitir que ainda no chegara a discutir o
assunto com o marido.
        - Tenho certeza que Montmorency aprovar as mudanas. Claro que Dunmurrow
no  to bonito quanto Belvry, porm no se pode negar a beleza severa de suas linhas.
Podemos tentar e ver o que conseguimos obter no final. Na minha opinio, devemos iniciar
pela cozinha. Vou dar uma olhada nas despensas e pores, alm de descobrir quem prepara
aquela coisa horrorosa que Cecil nos serve.
        Edith, que at o momento estivera sorrindo diante do entusiasmo da jovem, tampou a
boca com a mo e gemeu alto.
        - Minha lady, no! Voc no pode ir aos pores!
         - E por que no?
         - Porque deve ser l que ele pratica magia negra.
         - Quem? Montmorency?
         - Sim - a criada respondeu muito sria. - No tenho dvidas de que aquele homem
tem parte com o diabo e se esconde nos pores para invocar os espritos malignos. O lugar
deve ser to quente e abafado quanto o inferno, cheio de fumaa escura, as mesas lotadas de
frascos, vidros e tubos onde substncias mortais so misturadas.
         Isadora riu alto, tentando imaginar o Cavaleiro Vermelho debruado sobre uma
mesa repleta de frascos, sua altura gigantesca dominando o ambiente inteiro.
         - Oh, fique quieta, Edith. Quanta bobagem.
         Depois da noite passada, Montmorency lhe parecia muito menos ameaador. Que ele
resmungasse o quanto quisesse, pois no fim da histria as coisas acabariam saindo  sua
maneira.
         - Minha lady se levantou cedo hoje- Cecil comentou enquanto ajudava o lorde a
colocar a veste. - Ela parece estar de bom humor.
         Montmorency ficou em silncio. Ningum precisava saber que a felicidade de sua
esposa devia-se ao fato de no ter havido noite de npcias. Claro que Isadora se deliciara

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quando no fora obrigada a cumprir os deveres matrimoniais. De fato no ficaria surpreso se
ela tivesse aberto o melhor vinho da adega para celebrar.
         - Ela pediu uma audincia com voc - o servo concluiu.
         - Em outras palavras, minha esposa exige me ver.
         - Sim, meu lorde.
         Montmorency deu de ombros e acabou de se vestir.
         - Diga a ela para se juntar a mim na hora do almoo.
         Cecil pareceu hesitar.
         - Voc acha a idia sensata, meu lorde?
         No, a idia no era nem um pouco sensata, o Cavaleiro Vermelho decidiu. Mas hoje,
pela primeira vez nos ltimos meses, no acordava pensando naquilo que o consumia. Hoje,
acordara pensando em cabelos louros, quase
         brancos, e olhos cinzentos... .
         Ainda podia ouvir o tom ligeiramente rouco da voz feminina, sentir o perfume suave
que emanava das formas delicadas e excitava os seus sentidos. Montmorency sentiu uma
presso na regio das virilhas ao se lembrar daqueles seios firmes pressionados de encontro
ao seu peito quando a beijara na capela. H muito tempo no desejara algum com tanta
intensidade.
         - Quero comer na companhia de minha esposa. Alguma objeo? - ele indagou
calmamente.
         Alguns segundos se passaram antes que Ceci! se aventurasse a responder.
         - Voc confia nela?
         - No, no confio, porm a considero intrigante.
         A resposta no era de todo verdadeira. Embora o plano de Isadora para iludir
Edward tivesse sido tolo e ingnuo, ele a admirava pela coragem de tentar escapar s regras
impostas pelo destino. Tambm a admirava pela elegncia e fibra demonstrada em face 
derrota. Seria natural esperar que Isadora procurasse fugir das conseqncias ao perceber
que nada sara como planejado. O fato dela ter permanecido firme, tanto complicava quanto
trazia um novo significado  sua vida. Os sentimentos que aquela mulher despertava em seu
corao eram to contraditrios que no se atrevia a examin-los.
         - Pode ser perigoso, meu lorde - Cecil insistiu.
          Pelos cus! Claro que era perigoso, Montmorency praguejou em silncio.
         - Talvez fosse melhor se voc pedisse a anulao deste casamento.
         O Cavaleiro Vermelho virou-se na direo do servo, sem saber se queria ou no ouvir
certos conselhos. Por outro lado, no podia correr riscos desnecessrios. Devia considerar
todas as opes em relao  sua nova esposa cuidadosamente antes de tomar qualquer deci-
so definitiva.
         - E baseado em que eu pediria a anulao deste casamento? - ele indagou com
aspereza.
         - Talvez voc ainda no tenha pensado no caso, meu lorde, mas existe uma proibio
contra unies consangneas. At mesmo parentescos distantes podem ser invocados. Portanto
no seria difcil arranjar testemunhas dispostas a jurar que voc e lady de Laci so parentes.
         - Verdade - Montmorency murmurou, sentando-se na beirada da cama. - Por que no
pensei nisso antes?
         Quando na noite anterior Isadora viera com aquela histria ridcula de que ele fora
obrigado a casar-se, por que no se lembrara da proibio sobre unies em que houvessem
laos de sangue?
         Se fosse sincero consigo mesmo, admitiria que na presena da esposa acabara
esquecendo-se de tudo o mais. Ficara fascinado pela voz envolvente, pelo perfume feminino e
suave... e at pelos absurdos ditos com total convico. Isadora parecia conseguir tirar
qualquer homem do srio com um simples estalar de dedos.
         Melhor livrar-se dela. Embora reconhecesse o fato, alguma coisa o impedia de tomar

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as providncias necessrias. Talvez a lembrana da vida pulsando em seu quarto escuro sob a
forma delicada de uma mulher. Era difcil abrir mo de um raio de luz.
        - Edward no permitir que uma jovem mantenha o poder sobre um feudo to
prspero quanto Belvry. Mesmo que a Igreja concorde em nos conceder a anulao do
casamento, o rei simplesmente a forar a escolher outro marido.
        - Sim - Cecil concordou, continuando a arrumar o quarto. - Voc deve estar certo,
meu lorde. Contudo, casada com outro, lady de Laci deixar de ser uma
        ameaa.
         O baro resmungou qualquer coisa ininteligvel. Ao imaginar Isadora abandonando
Dunmurrow, a sensao de perda era to intensa quanto inesperada. A quem ela escolheria
da segunda vez? As circunstncias o tinham forado a romper contato com quase todos os
cavaleiros da corte, a maioria realmente desprezvel. Aquela mulher suave, casada com outro
homem, os cabelos louros espalhados sobre o travesseiro, as pernas abertas enquanto algum
a violentava... Era uma viso que no conseguia ignorar.
         - Eu no quero que ela sofra nas mos de qualquer um. - Na verdade no queria a
esposa nas mos de homem algum. E quem poderia conden-lo por isso? - Edward no iria
ficar nada satisfeito com esse pequeno truque tampouco. Alis, o rei acredita na importncia
do casamento como instituio sria.  melhor deixarmos as coisas como esto, pelo menos
por agora.
         - Voc est certo como sempre, meu lorde. Mas ser que ela deve ficar em
Dunmurrow? Se lady de Laci  dona de um feudo to prspero, no seria mais sensato
mand-la de volta para l?
         - No! -Montmorency surpreendeu-se com a prpria reao, uma mistura de
possessividade em relao  esposa e irritao pela interferncia de Cecil. Embora soubesse
muito bem que o servo falava com a voz da razo, mesmo assim preferia no lhe dar ouvidos.
- Ela  minha. E como qualquer outra esposa, ficar ao lado do marido. No ultrapasse os
seus limites, meu amigo.
         - Sim, meu lorde. - Cecil suspirou alto, deixando claro que no concordava com o
Cavaleiro Vermelho, apesar das palavras ao contrrio. - Quer dizer ento que voc vai contar
tudo  lady de Laci?
         - No, no vou contar nada! E voc tambm no dir coisa alguma. Ficar de boca
fechada, mesmo se ela tentar faz-lo falar. Isadora  inteligente, no costuma cometer erros,
ainda que trace planos s vezes ridculos.
         - Mas, meu lorde, como vamos conseguir contornar a situao? O que voc pretende
fazer?
         Apesar da preocupao evidente do servo, Montmorency no demonstrava qualquer
sinal de afobao.
         - Vamos continuar exatamente como estvamos antes de lady de Laci chegar. Agora
pode ir, Cecil. Vou pensar nos seus conselhos, porm tomarei minhas prprias decises no que
diz respeito a essa esposa inesperada.
         To logo se viu a ss, Montmorency encostou um brao na parede e praguejou baixo
para aliviar a tenso. Percebendo o humor do dono, os ces se aproximaram em busca de um
pouco de ateno.
         - Qual  a sua opinio, Castor? E a sua, Pollux? O que vocs acham da nova senhora
do castelo? -Os animais balanaram os rabos felizes ao ouvir seus nomes.
         - Sim,  uma mulher tentadora demais... Sei muito bem o que eu gostaria de fazer
com lady de Laci. Quando da usa aquele tom de voz superior, tenho vontade de jogar os
pratos e as travessas para o lado e possu-la ali mesmo, em cima da mesa. Mas isso est fora
de cogitao... no ?
         O sensato seria devolv-la para a corte de Edward, que a essas alturas dos
acontecimentos deveria estar morrendo de rir com o desfecho da histria.


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         Como se concordando com as palavras do dono, os ces agitaram os rabos
freneticamente.
         Ao cumprimentar o marido, Isadora procurou evitar o tom triunfante da voz,
contudo era impossvel disfarar a intensa satisfao. Estivera certa ao pensar que as coisas
sempre parecem melhores pela manh.
         - Meu lorde - ela falou, aproximando-se da mesa.
         A viso daqueles aposentos estranhos e da silhueta de Montmorency escondida pelas
sombras j no a perturbava como antes. De alguma maneira, depois da noite anterior, ele
comeara a lhe parecer menos ameaador, o que a enchia de otimismo. Talvez pudessem
chegar a um acordo, fazer algum tipo de arranjo que os permitisse viver em paz sob o mesmo
teto, assim como vivera anos e anos ao lado do pai. Cada qual iria cuidar da prpria vida sem
tomar conhecimento da existncia do outro.
         - Minha lady - Montmorency respondeu, indicando lhe a cadeira.
         Isadora lambiscava os alimentos com prazer. Afinal fizera questo de supervisionar a
preparao dos pratos e aquela devia ser a primeira refeio decente que o baro comia h
meses.
         - Espero que a torta de veado esteja do seu agrado.
         - Por qu? Foi voc quem a fez?
         - Sim. Dei uma boa olhada na cozinha hoje e creio que poderei deix-la em condies
bem melhores, a comear pela limpeza geral. O detalhe  que vou precisar de ajuda. Estive
pensando em ir at a aldeia durante a tarde e trazer algumas aldes para trabalhar no castelo
em carter permanente.
         Ela procurava modular a voz com cuidado, fazendo das palavras no um pedido, mas
um simples comunicado da sua deciso. Apesar do esforo, as mos trmulas traam todo seu
estado de apreenso.
         Os minutos pareciam se arrastar enquanto aguardava os comentrios do Cavaleiro
Vermelho. Estava resolvida a no ceder. Hoje no se deixaria intimidar pela figura gigantesca
ou pelo temperamento explosivo. Se o baro pretendia for-la a morar em Dunmurrow,
ento seria obrigado a lhe dar permisso para transformar o castelo num lugar habitvel.
Pronta para lutar por seus pontos de vista, foi pega de surpresa pela resposta do marido.
         - Sinta-se  vontade para fazer o que quiser.
         - Obrigada, meu lorde. - 1sadora inspirou fundo, procurando relaxar. - Sabia que
podia contar com a sua compreenso. Cecil, como o mordomo-mor, devia estar
supervisionando o trabalho dos outros empregados e no constantemente servindo a todos
ns, como vem fazendo. Precisamos de servos e da ajuda de alguns homens para fazer
reparos, retoques na pintura e coisas assim. Claro que temos necessidade de um estoque
maior de velas e castiais, alm dos servios de um tecelo e de um marceneiro. Se voc quiser,
poderei me encarregar de supervisionar a produo da leiteria e da horta tambm.
         - Voc  um poo de energia, minha lady. - O tom de Montmorency era to estranho
que Isadora se sentiu corar. Sem saber o que dizer, baixou os olhos para o prato e
permaneceu em silncio. Ser que havia uma nota de sarcasmo escondida naquelas palavras
aparentemente elogiosas? Ser que seu entusiasmo agradava ou irritava o Cavaleiro.
Vermelho? O baro de Dunmurrow no era um homem como outro qualquer. Seus pen-
samentos, assim como sua figura sempre encoberta pelas sombras, eram enigmticas.
         Desejando no dar chances a uma nova discusso, Isadora continuou quieta, ansiosa
para terminar de almoar e cuidar de seus afazeres. Contudo Montmorency ainda no
parecia disposto a dispens-la.
         - Seu pai j morreu? - ele indagou depois de um longo silncio.
         - Sim. H um ano.
         - E voc no tem mais ningum?
         - Tinha trs irmos. Dois morreram por causa de uma febre, quando eu ainda era
menina. O terceiro foi morto durante uma batalha.


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         - Deve ter sido duro para voc, cuidar de tudo sozinha. - A voz da baro era quase
Suave agora.
         - No. - Isadora a interrompeu firmemente. - Consegui dar canta de tudo muito bem.
Na verdade tenho administrado Belvry h anos, das quais os ltimos sem auxlio de ningum.
O feudo prosperou bastante sob minha administrao. As coisas poderiam ter continuado
assim, se no fosse pela interveno de nosso bom rei Edward decidiu me tirar aquilo que me
pertence
         por direita.
         - Voc nunca quis se casar?
         - No, nunca. Sei administrar Belvry sozinha e com competncia. Para que iria
querer um homem? Apenas para trazer runa s minhas terras?
         Um silncio inquietante se estendeu por vrias segundos.
         - Para lhe dar filhos? - Montmorency sugeriu afinal.
         - E assim eu poderia v-los morrer, como vi meus irmos? - ela retrucou, as palavras
soando amargas como fel. - No, abrigada. - Incomodada pela fato. da conversa ter se tornada
pessoal demais, Isadora bebeu um pouca de vinha.
         - Ento estamos de acordo. Voc no deseja um marido e eu tampouco deseja uma
esposa.  uma pena que tenhamos nos casado um com a outro.
         Ela quase engasgou e precisou se esforar para recuperar a compostura.
         - Sempre passa contar com a sua ajuda, meu lorde, para estragar uma refeio e me
lembrar de como fui tola ao o escolher para marido.. - Ser que a ouvira rir? No, o
Cavaleiro. Vermelha era inumano demais para rir.
         - No havia ningum mais a quem voc pudesse escolher? - ele indagou interessada. -
Um amigo da famlia? Um parente distante? Um vizinho?
         Isadora sorriu amarga.
         - Meu vizinho  uma criatura nojenta e arrogante, sempre cobiando minhas terras. -
Ela no explicou que Hexham tambm insistia em conquist-la porque preferia no ter que
ouvir as deboches de Montmorency. A opinio que o Cavaleiro Vermelho tinha a seu respeito
era to baixa que certamente a considerava incapaz de despertar o desejo num homem. Mas
Hexham a desejava sim, e a idia no era nem um pouco agradvel. - Por acaso voc conhece
o baro Hexham?
         -No.
         - Sorte a sua.  o tipo de amizade que eu desaconselharia qualquer um a cultivar.
Hexham  mentiroso, ladro e traioeiro, sempre se derramando em sorrisos falsas e palavras
doces enquanto tenta invadir Belvry nas minhas costas.
         - Ele nunca atacou o feudo? - Montmorency indagou, a voz repentinamente dura e
fria como o ao.
         - No. Na minha opinio ele no tem coragem suficiente para lutar, por isso procura
atingir seus objetivos usando intrigas e ameaas veladas. Tambm conta com a ateno do rei.
Aposto que deve estar falando nos ouvidos de Edward agora, demonstrando todo o seu
ultraje.
         - Quer dizer que a tal Hexham queria se casar com voc?
         A ferocidade contida na pergunta da Cavaleiro Vermelho surpreendeu-a.
         - Sim - ela respondeu depois de algum tempo. - Hexham sempre quis Belvry e depois
da morte de meu pai, achou que era chegada a hora. Tornou-se uma peste to grande, que
precisei instruir as guardas das portes para no deix-lo entrar. Eu... eu no confio naquele
homem. - Ainda se lembrava de como uma de suas servas mais fiis a alertara para a
possibilidade de Hexham tentar desonr-la para obrig-la a se casar com ele. Desde ento
ignorara todos os pedidos do baro para ser admitido em Belvry.
         Isadora inspirou fundo antes de continuar.
         - Na minha opinio trata-se de uma criatura estpida demais para perceber que os de
Laci sempre conseguiram enxergar seu verdadeiro carter. Alm do mais  arrogante, cheio


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de si, incapaz de imaginar que alguma donzela possa lhe dizer no. Tornou-se dono de um
feudo atravs do casamento. Com certeza conseguiu enganar sua pobre esposa com sua boa
aparncia e charme falso.
         - Ele era casado?
         - Sim. A esposa de Hexham morreu muitos anos atrs, provavelmente em
conseqncia do longo tempo em que o marido a deixou trancada dentro de uma das torres do
castelo. - Isadora ergueu a cabea, desejando que os aposentos no estivessem to escuros
para que pudesse julgar a reao de Montmorency. - Ele ficar furioso quando descobrir que
eu escolhi outro homem para marido.
         - Hexham realmente acreditava que voc pudesse escolh-lo?
         Isadora riu diante do tom ctico do Cavaleiro Vermelho.
         - Sim. Tenho certeza que esperava ser o escolhido porque se considera o mximo.
Tambm julgava que eu iria preferir um rosto que j me fosse familiar.
         - E voc est longe de ter optado por um rosto que lhe era familiar.
         - Estou mesmo - Isadora concordou, achando a pilhria partilhada com o marido
quase... aprecivel.
         No demorou muito para o bom humor de Isadora azedar e quando entrou nos
aposentos do Cavaleiro Vermelho,  hora do jantar, estava furiosa. A escurido que lhe
parecera de pouca importncia de manh, agora pesava em seus ombros como um manto
negro e ameaador.
         Sem dar uma palavra, sentou-se  mesa, diante da figura protegida pelas sombras.
         - Minha lady - Montmorency cumprimentou-a com delicadeza. .
         - Meu lorde. - Ela no disse mais nada e se serviu de uma posta de peixe sem vontade,
odiando aquele jogo de gato e rato. No estava acostumada a ser tratada assim. Seu pai e seus
irmos haviam sido frios e distantes, porm nunca a tinham manipulado por pura diverso,
enquanto permaneciam escondidos nas trevas. Quisera poder ficar de p e enfrent-lo face a
face, em vez de se submeter s sombras.
         O silncio se estendeu durante toda a refeio. S se ouviam os rudos dos talheres e
das respiraes dos cachorros deitados aos ps do dono. Isadora sentia-se terrivelmente
oprimida. Mesmo quando jantava em seus aposentos, em Belvry, quase nunca comia s. Se
nenhum dos convidados lhe fazia companhia, podia contar com presena das servas.
Enquanto aqui, um solitrio Cecil trazia as bandejas e se retirava, deixando-os na mais
completa escurido. Isadora tinha a impresso de estar enterrada viva, com a sombra de um
demnio a espreit-la.
         A sensao inquietante crescia pouco a pouco, fazendo-a pensar como julgara possvel
apreciar um minuto sequer ao lado do Cavaleiro Vermelho. Ele devia ser to sinistro quanto
as histrias de Edith o pintavam alm de inteligente tambm, para arrancar tantas
informaes dela como o conseguira na hora do almoo.
         Tinha dio de si mesma por ter sido ingnua a ponto de falar livremente sobre sua
famlia e Hexham. Qual teria sido o objetivo de Montmorency? O que ele poderia querer?
Talvez utilizar as informaes para puni-la por causa do casamento desastroso? Ou quem
sabe seu marido tinha outras idias diablicas em mente?
         Como Montmorency devia ter rido de seus planos entusiasmados para colocar o
castelo em ordem! Ele lhe dera carta branca para tomar qualquer iniciativa, saben do muito
bem que nada poderia ser feito... Que dio!
         A voz terrvel interrompeu o curso de seus pensamentos.
         - O jantar est gostoso. Tambm notei um sabor diferente no po.
         Isadora recusou-se a responder ao elogio.
         - Voc fez um bom trabalho na cozinha.
         Era bvio que Montmorency esperava uma resposta, mas ela preferia enfrentar as
chamas do inferno a agradecer os cumprimentos.
         - Sim - foi a resposta curta e seca. No diria mais nenhuma palavra. Se Montmorency


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no soubesse nada sobre seus sentimentos ou desejos, no teria como mago-la, assim como
fizera hoje cedo. Agora, quanto a outros tipos de mgoas e outras maneiras de infligi-las,
melhor nem pensar.
        S queria terminar a refeio e sair dali. Uma vez de volta ao seu quarto, poderia
comear a traar uma nova rvore genealgica, com ancestrais comuns ao Cavaleiro
Vermelho. Quando acordara, pensara ser possvel colocar Dunmurrow nos eixos antes de ir
embora, porm tudo o que queria neste momento era conseguir a anulao do casamento o
mais breve possvel.
        - Como foi a sua tarde? - Montmorency indagou interessado.
         Aquela pergunta, feita num tom tranqilo, afastou sua resoluo de permanecer em
silncio por gua abaixo.
         - Voc sabe muito bem como foi a minha tarde - ela respondeu entre os dentes, mal
controlando a fria. - Edith no conseguiu convencer mulher alguma da aldeia a trabalhar
aqui e muito menos a morar no castelo. Se voc no aprovava os meus planos, por que no me
disse? Por que permitir que eu me desse ao trabalho de imaginar solues para Dunmurrow?
Simplesmente para me humi1har? Voc me despreza tanto assim? - Percebendo que sua voz
traa toda a carga de emoo interior, Isadora fechou a boca para conter o desespero.
         - No a desprezo - ele falou delicadamente.
         - No mesmo? Depois de tudo o que me fez passar hoje? E minha criada tambm.
Edith voltou da aldeia mais apavorada do que antes porque os aldees alimentaram os medos
dela com histrias fantsticas. Eles pensam que voc  um demnio?
         - E voc no?
         - No sou uma camponesa ignorante, algum que nunca deu um passo alm do
prprio quintal. Sei que os cavaleiros costumam cultivar lendas sobre si mesmos para
espalhar o terror no corao dos inimigos.
         - Quer dizer ento que voc  imune ao terror? - No sou seu inimigo! Por acaso voc
acha que sim? - Quando o Cavaleiro Vermelho recusou-se a responder, a fria de Isadora
excedeu os limites. - Estou cansada de seu desprezo, estou farta de seus deboches. Voc devia
ser grato por eu o ter escolhido! Pelo aspecto de Dunmurrow, o que lhe falta  uma castel
competente. E voc tem essa castel competente bem na sua frente! Eu cuidei do feudo de meu
pai, antes e depois da morte dele. Orientei o administrador em todas as tarefas.
         Supervisionei pequenas obras, os trabalhos de criao de animais, o movimento da
cozinha, da despensa, os servios prestados pelo marceneiro... - Isadora tinha perdido por
completo o controle e as palavras se sucediam num tom exaltado. - Cobrei aluguis, resolvi
problemas com a lei e administrei oramentos para o feudo inteiro. Sou capaz de treinar um
falco, sei ler e escrever, jogo xadrez. E ainda dizem que possuo uma bela voz. Tudo isso alm
da larga soma de dinheiro que trouxe comigo como dote. Juro para voc que qualquer outro
homem se sentiria feliz em me ter como esposa.
         O punho de Montmorency desceu sobre a mesa com violncia, balanando pratos e
talheres.
         - Mas eu no sou qualquer outro homem - ele gritou, levantando-se como uma fera
enraivecida. - E voc sabia muito bem disso quando me obrigou a aceitar esse casamento.
Pelos cus, no quero nenhuma esposa se metendo em meus assuntos!
         Isadora levantou-se tambm e deu um passo para trs, para longe do alcance da ira.
Pela primeira vez naquele dia, sentiu medo.
         - Voc no sabe nada sobre mim! Nada, sua mulher tola!
         Ao perceber que o marido caminhava na sua direo, ela pensou em fugir, em correr
para a porta em vez de enfrentar a figura slida e enfurecida. Porm uma de Laci no se
acovarda nunca. Embora o corao batesse descompassado no peito, ficou firme, o queixo
erguido.
         Ao sentir as mos fortes pegarem-na pelos braos, teve certeza de que seria sacudida


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como um galho seco de rvore. Apesar de atos de violncia entre marido e mulher no serem
incomuns, jamais imaginara que algo assim viesse a fazer parte da sua vida. Porm antes
mesmo de conseguir abrir a boca para protestar, Montmorency puxou-a de encontro ao peito.
         Os lbios masculinos, quentes e vidos, uniram-se aos seus, tomando tudo, nada
pedindo, transformando o medo de minutos atrs numa coisa muito diferente. Entretanto...
bem devagar, o beijo foi se modificando, tornando-se mais suave e gentil. Embora ele a segu-
rasse pelo pescoo para mant-la prisioneira do abrao, Isadora sabia que o momento de fugir
havia passado. No tinha inteno alguma de escapar porque uma sensao estranha a fazia
querer permanecer exatamente onde estava, colada ao Cavaleiro Vermelho. O beijo de
Montmorency no era nem um pouco parecido ao de Rothchilde, nem um pouco parecido
com o que sua imaginao a levara a crer.
         Imersa na total escurido, Isadora sentia-se viva apenas por causa do toque daqueles
lbios. Ao sentir a presso do polegar masculino em seu queixo, ela obedeceu ao pedido
si1pncioso sem pensar, deixando a lngua imperiosa invadir sua boca.
         Depois fechou os olhos e abandonou-se s emoes. As sombras que a cercavam eram
como um castelo, assim como o peito forte e pulsante de encontro aos seus seios. Sem que
pudesse resistir ao impulso, ergueu os braos e enlaou-o pelo pescoo, estreitando o abrao,
isolando-os do mundo.
         A lngua de Montmorency, mida e urgente, a impelia para alm da razo, fazendo-a
querer mais, muito mais. Quando ele a ergueu pela cintura, para que os quadris de ambos se
tocassem, Isadora ouviu-o deixar escapar um murmrio de prazer. Levada pelo instinto,
tocou a lngua masculina com a sua, ansiosa para experimentar o gosto do homem que o
destino lhe impusera.
         A reao de Montmorency, um gemido baixo e intenso, fez o sangue de Isadora ferver
nas veias. Me leve com voc, meu marido..., ela pensou, louca de paixo. Me guie...
         - Isadora, Isadora... minha doce esposa.
         A urgncia contida na voz do Cavaleiro Vermelho, to diferente da habitual, trouxe-a
de volta  realidade. Mesmo no podendo lhe enxergar o rosto, sabia que Montmorency
queria lhe dizer algo e procurava as palavras certas.
         - Tenho que viver dessa maneira por razes pessoais - ele falou afinal, ainda
abraando-a. - Mas uma coisa lhe garanto. Voc pode fazer o que quiser dentro deste castelo.
Limpar, arrumar, mobiliar, providenciar reparos. Se as mulheres da aldeia no quiserem vir
ajud-la, traga os homens para fazer o servio. E se eles se recusarem, diga-lhes que irei
pessoalmente arrast-los at aqui, para prestarem servio ao lorde de Dunmurrow. Agora v.
         A suavidade do tom impediu que a ordem soasse rude, porm quando Montmorency
se afastou, foi como se o mundo se tornasse repentinamente glido.
         Ainda trmula e atordoada pelo acontecido, Isadora deu alguns passos na direo da
porta, mal percebendo que o Cavaleiro Vermelho lhe fizera enormes concesses.
         Antes de sair, fitou a escurido impenetrvel, tentando acalmar as batidas
descompassadas do corao. S no sabia o que a assustava mais, o fato de Montmorency a
ter dispensado ou a certeza de que na verdade no queria
         deix-lo.

        CAPITULO CINCO

        Isadora levantou-se na manh seguinte sentindo-se estranhamente inquieta. Fora
uma noite longa e insone. Ficara horas acordada, rolando na cama de um lado para o outro,
incapaz de relaxar. Porm a ausncia de Montmorency no lhe trouxera qualquer alvio,
muito pelo contrrio. Bastava pensar naquele beijo para seu sangue ferver nas veias e ela se
perguntava se em vez de apreciar a ausncia do marido, no devia se considerar insultada.
        Sempre soubera que os homens a consideravam uma mulher atraente, embora tivesse
passado a maior parte da vida tentando ignorar o fato. Estar  altura dos irmos, ajudar o pai


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a administrar Belvry e ter seu sucesso reconhecido haviam sido muito mais importantes do
que beleza fsica para a garota solitria, criada num ambiente marcadamente masculino. Sua
famlia jamais dera qualquer importncia  sua aparncia e sim s suas habilidades de
castel.
         Contudo outros homens costumavam valorizar qualidades superficiais, como beleza,
por exemplo, e at manifestavam certas preferncias. De repente Isadora se perguntou quais
seriam as preferncias de Montmorency em relao ao sexo oposto. Talvez mulheres altas,
morenas, de curvas generosas. Irritada consigo mesma, procurou ignorar os pensamentos.
No ligava a mnima para o Cavaleiro Vermelho ou as suas predilees!
         A nica coisa que lhe interessava agora eram as concesses que recebera. Tinha mil
planos para o castelo. Na verdade Dunmurrow no seria to ruim assim se Montmorency lhe
desse carta branca para administr-lo. E depois de ontem  noite, suspeitava que conseguiria
obter sucesso na empreitada. Afinal ele parecera sofrer uma transformao durante o jantar.
E que transformao! Num momento rugia como uma fera e no outro...
         Sem que pudesse evitar o impulso, Isadora tocou os lbios com as pontas dos dedos,
lembrando-se do beijo apaixonado que haviam trocado. Como fora capaz de retribuir a
carcia com tanto ardor? Pela primeira vez desde a celebrao do casamento, perguntava-se o
que estaria perdendo por no consum-lo. No; quanta tolice! Um beijo era uma coisa, dividir
a cama com algum era outra bastante diferente. Para completar, o Cavaleiro Vermelho
tambm no podia ser considerado um homem comum, e sim um enigma, cuja face ou corpo
sequer chegara a ver.
         Ela estremeceu, mal conseguindo acreditar que, de livre e espontnea vontade, tivera
coragem de abraar um completo estranho. De repente a fama aterradora de Montmorency
pareceu pesar sobre seus ombros como um manto insustentvel. Entretanto, apesar de todos
os boatos, Edith se enganara a respeito de um detalhe. O Cavaleiro Vermelho,
definitivamente, no era uma sombra, mas sim de carne e osso. Podia testemunhar quanto a
esse detalhe. Alis, o contato daquele corpo slido a deixara em fogo...
         Irritada, Isadora procurou desviar o rumo dos pensamentos. Apesar dos beijos de
Montmorency no serem...detestveis e apesar de lhe ter sido permitido fazer alteraes no
castelo, no se sentia pronta para colocar os planos de lado. Continuava determinada a
provar sua falsa ascendncia e conseguir a anulao do casamento. E quanto mais rpido
melhor.
         Enquanto isso, trataria de colocar Dunmurrow nos eixos. Era o tipo de trabalho que
sabia fazer com perfeio.
         Se sua aparncia fsica no agradava Montmorency, pouco podia fazer a respeito,
porm mostraria suas qualidades de castel. Eventualmente, mesmo o Cavaleiro Vermelho
ficaria satisfeito com os seus esforos.
         No que desse qualquer importncia  opinio de Montmorency a seu respeito.
Tambm no era por causa dele que decidiu colocar uma de suas roupas preferidas. Um
vestido de veludo azul claro, com bordados num tom mais escuro na gola e nas mangas. O
contraste do tecido com sua pele branca e cabelos muito louros realmente a favorecia. Seu pai,
nunca dado a elogios, quando a vira naquele vestido pela primeira vez, dissera que o fazia
pensar numa jia delicada encravada em prata. Isadora ficara feliz porque sem um espelho
onde pudesse se ver refletida, tinha apenas a opinio de terceiros para formar uma idia
quanto a prpria aparncia.
         Depois de se vestir, ela chamou Edith para ajud-la a arrumar os cabelos. Sendo
agora uma mulher casada, seria mais adequado usar as longas tranas prateadas presas ao
redor da cabea, e no soltas sobre as costas como era de seu costume. J que pretendia ir at
a aldeia, acabou se deixando convencer pela velha criada a usar um broche no alto da cabea,
embora normalmente consideraria o enfeite pomposo demais.
         - Voc est linda - Edith murmurou, os olhos brilhando de emoo. - Se ao menos
pudssemos estar de volta  corte, aposto que todos os cavaleiros do reino iriam pedir sua mo


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ao rei Edward.
         - Mas s que no podemos voltar no tempo. Tambm continuaria sem me interessar
por qualquer um deles.
         Jamais me arrumei de maneira especial para agradar um homem e no pretendo
comear agora.
         Por um momento Isadora imaginou se Edith no estaria provocando-a, acusando-a de
se vestir de modo especial para impressionar o marido. A serva acabaria pensando que ela
perdera a cabea!
         - Vou at a aldeia hoje. Tambm pretendo assumir meu papel de castel de
Dunmurrow, com todas as obrigaes que o cargo implica - Isadora se apressou a explicar,
como se assim justificasse a escolha do traje.
         - Voc pode estar parecendo uma rainha, minha lady como na verdade est. Porm,
por mais que tente, no conseguir fazer os aldees mudarem de idia. Eles dizem que o
Cavaleiro Vermelho recebeu Dunmurrow como premio e que passou dois anos inteiros
lutando ao lado do rei Edward, vindo visitar a propriedade apenas uma vez.
         Dizem tambm que ao voltar para c, o Cavaleiro Vermelho se trancou dentro do
castelo e daqui no saiu mais desde ento. Enquanto o lugar se transforma em runas, o baro
continua s voltas com feitiarias. Dizem que...
         - Psiu! - Isadora cortou-a impaciente. - Sei muito bem o que todos dizem e pensam a
respeito de Montmorency, mas precisamos de ajuda para colocar o castelo em ordem e
pretendo consegui-la. Voc duvida de que eu seja capaz de obter o que quero?
         Edith sacudiu a cabea vagarosamente, dividida entre o desespero que a situao lhe
causava e a lealdade  sua senhora.
         - Bem, no vou for-la a nada. Voc pode ficar aqui enquanto vou  aldeia sozinha.
O que foi agora?  ela indagou, percebendo que a serva retorcia as mos sem parar, os olhos
brilhando de ansiedade.
         - Pense no que vou lhe dizer, minha lady. Eu poderia acompanh-la e juntas daramos
um jeito de fugir desse lugar amaldioado.
         - Edith! Me faa o favor de parar com essas bobagens. Estamos aqui e aqui vamos
ficar, a menos que acontea um fato novo, capaz de alterar as circunstncias. Na verdade
sinto-me chocada por voc pensar que uma de Laci seria capaz de fugir de um desafio.
         - Ento voc considera o baro Montmorency um...um desafio?
         - Claro que no! Estou me referindo ao castelo e  possibilidade de transform-lo
num local habitvel. No nada de errado com limpeza, pintura e pequenos reparos.
         - E quanto a Montmorency?
         Isadora descartou-o com um gesto impaciente de mos.
         - Ele ficar contente de nos deixar cuidar de nosso   trabalho.
         Deixando a criada totalmente apalermada com o comentrio; Isadora saiu depressa
do quarto.
         Embora ansiosa para chegar ao salo principal, foi obrigada a andar devagar por
causa da quase total escurido. Durante todo o trajeto, procurava se convencer de que seu
entusiasmo devia-se apenas s melhorias que planejava fazer no castelo e no tinha nada a ver
com o Cavaleiro Vermelho. De qualquer forma, tremia de antecipao s de pensar que talvez
ele a estivesse aguardando l embaixo. Quem sabe seu marido decidira lev-la a aldeia, tanto
para cumprir a promessa de que trariam servos para Dunmurrow quanto para passar algum
tempo ao seu lado?
         Ao descobrir que o salo estava vazio,  exceo do sempre-presente Cecil, no
conseguiu evitar uma pontada de decepo.
         - Meu marido no vem se encontrar comigo?
         - Ele est ocupado com outras coisas urgentes, minha lady. Pediu que eu a
acompanhasse  aldeia.
         - Ento vamos - ela respondeu secamente, incapaz de disfarar a frustrao. Na


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verdade o servo, apesar de taciturno, era uma pessoa educada e corts. O problema  que
parecia onipresente.
         Em vez de ficar impressionada com a aparente habilidade de Cecil, sentia-se tentada
a culp-lo pelo estado deplorvel em que o castelo se encontrava. Um homem, por mais
competente que fosse, no podia dar conta de tudo sozinho. Mesmo ela, com todos os seus
talentos de castel, fora forada a delegar responsabilidades a terceiros. Seria bom que Cecil
aprendesse a fazer o mesmo.
         Dunney no ficava muito distante e, para seu prazer, a aldeia em nada lembrava a
atmosfera sinistra do castelo. Quando se espalhou a notcia de que a esposa do Cavaleiro
Vermelho iria passar por ali, as pessoas comearam a chegar s portas e janelas das casas
para dar uma espiada. A princpio os olhares frios e desconfiados a incomodavam, porm,
gradualmente, o humor dos aldees pareceu se alterar.
         Isadora sorriu de leve ao ouvir os murmrios cheios de admirao sobre a sua
aparncia. Embora fosse o tipo de coisa a que no desse importncia, se a beleza de seu rosto
podia ajud-la a conquistar um pouco da ateno dessas pessoas, iria aproveitar a vantagem.
Quando um grupo de crianas aproximou-se do seu cavalo, ela ,os brindou com um sorriso
radiante.
         - Voc  mesmo a mulher do Cavaleiro Vermelho? - perguntou um menininho, mais
ousado do que os outros.
         - Sou sim. Qual o seu nome?
         - Kendrick - o garoto respondeu orgulhoso. - E esta  minha irm Moira.
         Uma menininha, de cabelos longos e escuros, saiu de trs do irmo.
         - Voc  uma feiticeira? - a criana indagou ofegante.
         - Claro que no!
         Apesar do olhar furioso de Kendrick, a menina resolveu continuar.
         - Mas voc se casou com ele... com o Cavaleiro Vermelho.
         - Preste ateno no. que vou lhe dizer, Moira, e todos vocs tambm. - Isadora ergueu
a cabea e aumentou o tom de voz para que no ficassem dvidas quanto s suas palavras. - O
baro Montmorency no  nenhum demnio, ou uma criatura do mal.  apenas um ser hu-
mano de carne e osso, como qualquer um de vocs. As histrias que se contam a respeito dele
no passam de tolices e seu nico objetivo  assustar os inimigos de Dunmurrow. Vocs esto
sob a proteo do Cavaleiro Vermelho e no tm motivos para tem-lo.
         - Voc no sente medo dele? - Moira insistiu, os olhos castanhos arregalados.
         - No tenho medo de homem algum. E muito menos do Cavaleiro Vermelho.
         O burburinho excitado que se seguiu s suas palavras era um bom sinal, Isadora
pensou satisfeita. Se os aldees manifestavam opinies diferentes era porque algumas das
pessoas acreditavam no que acabara de dizer. Apesar de saber que seria Impossvel faz-los
mudar de idia do dia para a noite, conseguira plantar a semente da dvida.
         Chateada por no ter se lembrado de trazer doces para distribuir  crianada, ela
atirou vrias moedas, ouvindo-os gritar o nome da castel de Dunmurrow cheios de prazer.
Se pudesse conquistar a simpatia dos adultos com igual facilidade e lev-los para o castelo...
         Para sua surpresa, Glenna, uma senhora viva, me de Kendrick e Moira, foi a
primeira a se manifestar. Dizendo-se  beira da misria desde que perdera o companheiro,
aceitou assumir o cargo de cozinheira de Dunmurrow. Logo a irm de Glenna e seu marido,
mais um garoto rfo, decidiram ir tambm. Um grupo pequeno,  verdade, mas melhor do
que ningum. Ao ouvir murmrios de que aqueles que cruzassem os portes do castelo no
seriam vistos no mundo dos vivos outra vez, Isadora perdeu a pacincia.
         - Quanta bobagem! Pretendo que essas pessoas me ajudem no trabalho de fazer esta
aldeia florescer. Vocs a vero aqui de novo amanh mesmo, quando vierem ao mercado.
Agora prestem ateno. Todos os que quiserem prosperar associando-se a Dunmurrow
fiquem avisados de uma coisa: no difamem meu marido! No o caluniem!
         Ela puxou as rdeas do cavalo e afastou-se devagar, imponente como uma rainha,

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certa de que comeara bem o lento processo de conquistar a confiana dos aldees.
         Eles teriam muito sobre o que falar e amanh, quando mandasse aqueles que a
seguiam de volta ao mercado, ficaria provado que o lorde no era nenhum demnio.
         Satisfeita consigo mesma, Isadora deu uma olhada furtiva na direo de Ceci! e
surpreendeu-se ao notar que o servo a observava atentamente. O homem parecia desaprovar
seu pequeno discurso de minutos atrs. Talvez ela tivesse se excedido um pouco. Talvez tivesse
sido melhor ficar de boca fechada o tempo inteiro.
         Afinal, quem era ela para defender o Cavaleiro Vermelho se desde que chegara a
Dunmurrow, sequer lhe conseguira ver o rosto?
         No final das contas, o saldo do dia foi positivo. A nova cozinheira logo assumiu os
afazeres domsticos e providenciou uma refeio adequada para todos. Depois do almoo,
Isadora os liderou na tarefa de limpar o salo principal.
         Quando Ceci! veio cham-la para jantar, seu vestido estava empoeirado e as tranas
caam desalinhadas sobre as costas. Seus esforos para parecer bonita haviam sido em vo,
porm sentia-se cansada demais para se importar.
         Montmorency parecia de mau humor, portanto sua aparncia descuidada no iria
fazer a menor diferena aos olhos do marido. De qualquer maneira, a no ser um gato,
nenhum ser vivo poderia distinguir. o que quer que fosse dentro da escurido reinante. No
era de se estranhar que o Cavaleiro Vermelho no a considerasse atraente j que nem se dera
ao trabalho de querer v-Ia  luz do dia. O fato a irritava profundamente, contudo sentia-se
to feliz com os progressos feitos na recuperao do castelo que preferia no se deixar
incomodar pelo silncio pesado e sufocante.
         Mesmo no sendo uma pessoa de natureza falante, Isadora sentiu prazer em relatar
os sucessos do dia. Animada, contou sobre a resistncia inicial dos aldees, sobre a maneira
calorosa como as crianas a tinham recebido e sobre as pessoas que trouxera para trabalhar
no castelo.
         - J  um comeo, meu lorde.
         Ignorando os murmrios sem entusiasmo de Montmorency, ela foi em frente, ansiosa
para expor seus planos de estreitar os laos entre Dunmurrow e a aldeia.
         - Assim que os aldees se convencerem de que voc no costuma comer gente no
jantar se prontificaro a trabalhar aqui.
         - E como voc pode ter certeza de que eu no como pessoas? - o baro indagou, num
tom frio e ameaador.
         De repente ela se lembrou das histrias estranhas que insistiam em persegui-lo e da
atmosfera sinistra que a rodeava. Entretanto estava de muito bom humor para se deixar
abater com facilidade.
         - Como posso ter certeza? Simplesmente porque voc ainda no me comeu -
respondeu rindo.
         Rudos estranhos ecoaram pelos aposentos. Depois de alguns segundos Isadora
percebeu que o baro tossia forte.
         - Voc se engasgou? - Antes mesmo de terminar a frase, levantou-se preocupada.
         - No foi nada. Pode se sentar.
         Mais tranqila, ela voltou a ateno para a conversa.
         - Estive pensando nos preparativos para o Natal.
         Uma comemorao adequada, com todas as honras, acabar conquistando os aldees
de uma vez por todas. Tambm teremos tempo suficiente para organizar uma pequena ceia.
Vamos precisar de especiarias para o bolo de gengibre e tambm para o bolo de frutas. Nosso
estoque est baixo, mas creio que ser possvel darmos um jeito. Ser um longo caminho at
ganharmos a confiana deles, meu lorde.
         - Isadora. - A voz de Montmorency no guardava nada da reserva habitual, o que
imediatamente lhe prendeu a ateno. Era algo to pequenino, ser chamada pelo nome de
batismo... Ainda assim sentiu um arrepio estranho percorr-la de alto a baixo.


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         - Sim, meu lorde?
         - Piers. Meu nome  Piers.
         - Piers - ela repetiu devagar. Gostava do som, assim como gostava da maneira como a
palavra deslizava em sua lngua. Ao se lembrar de como as lnguas de ambos tinham se
encontrado no dia anterior, Isadora corou violentamente, grata pela escurido protetora. Ser
que Montmorency iria beij-la de novo? S de pensar na Possibilidade ficava em fogo,
imagens sensuais danando selvagens em sua mente.
         Chocada consigo mesma, percebeu que queria ser beijada. Na verdade, queria o
marido por inteiro. Ele no passava de uma silhueta enorme, sempre imersa nas sombras, um
mistrio que no conseguia decifrar. Mas apesar dos perigos, no conseguia resistir. Queria s
mais um beijo...
         Inspirando fundo, Isadora cerrou os punhos sobre o colo e aguardou imvel.
         Os ces haviam parado de se remexer e com certeza deviam estar deitados aos ps de
Montmorency. Aos ps de Piers. Piers. Embora repetisse aquele nome silenciosamente, como
um pedido, uma splica, seu objeto de desejo permanecia indiferente aos seus pensamentos
ousados.
         - Voc falou que sabe cantar bem -ele disse de repente. - Se importaria de exibir esse
talento?
         - Claro que no. - Oh, Deus, por que se sentia assim, toda trmula por dentro? No
era possvel que estivesse sedenta das atenes do Cavaleiro Vermelho. S podia ter bebido
vinho demais durante a refeio. Alm de tudo o dia havia sido longo e cansativo. Isso
explicava o tumulto interior... Ou ser que no?
         Com muito esforo, conseguiu acompanhar o que Montmorency dizia agora.
         - Estou pensando em mandar Cecil chamar o garoto que chegou da aldeia hoje para
acompanh-la. Ouvi-o tocar flauta algumas horas atrs.
         - Voc acha que seria sensato? - Talvez fosse melhor evitar que o garoto penetrasse
nos aposentos do Cavaleiro Vermelho. Depois do sucesso relativo obtido naquela manh,
detestaria que rumores sobre a figura ameaadora do lorde chegassem  aldeia.
         - No, no creio que seria sensato. Embora esteja certo de que voc no hesitaria em
defender minha honra dos que tentam me caluniar.
         Ela enrubesceu at a raiz dos cabelos. Ento Cecil repetira suas palavras aos ouvidos
do baro.
         - Ser que alguma vez j lhe ocorreu, esposa, que de gosto das histrias contadas a
meu respeito como uma maneira de manter as pessoas afastadas da minha porta?
         - Mas por que, meu lorde?
         - Piers.
         - Piers - ela repetiu, seduzida pelo poder daquela voz profunda. - Por qu?
         - No importa o porqu. Agradeo sua lealdade e suas boas intenes, mas deixe as
coisas como esto. Agora que voc conseguiu trazer algumas pessoas at o castelo, vamos fazer
uso delas. Cecil!
         O servo apareceu imediatamente, como se no tivesse mais nada a fazer na vida a no
ser aguardar ser chamado do lado de fora dos aposentos do baro. Minutos depois o
rapazinho sentava-se diante do fogo. Talvez pensando que os recm-casados preferissem as
sombras quando estavam juntos, ele no estranhou a ausncia de velas e tocou com prazer.
         Isadora cantou antigas baladas de amor, uma depois da outra. Piers sempre pedia
por mais, at que ela se viu obrigada a parar,  beira da exausto. Nunca pensara que faria
um sucesso to grande. Seu marido podia no apreci-la, porm no tinha dvidas de que ele
gostava da sua voz.
         Montmorency no fora muito efusivo nos elogios,  verdade. Contudo soubera como
reverenci-la atravs do silncio absoluto e das poucas palavras de admirao. Em sua vida
recebera agrados antes, mas nenhum deles fora mais sincero.
         Piers ficara encantado. Bem depois de Isadora ter se retirado, ele continuara ouvindo


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os sons melodiosos. .Jamais escutara algo to belo ou to doce. Quando Cecil voltou,
encontrou o baro sentado no mesmo lugar, uma expresso absorta no rosto viril.
          - Ela acendeu tocheiros no salo principal - o servo comentou. - As sombras foram
banidas e as pessoas que vieram da aldeia hoje esto agora estendendo os catres para passar a
noite.
          - E ento? - Montmorency no conseguia disfarar a irritao. Cecil soubera estragar
o clima perfeito que sua esposa criara atravs da msica.
          - E ento voc tem um lugar a menos para andar dentro da sua prpria casa. Alm de
mais pessoas abrigando-se sob os tetos do castelo.
          - E ento? Qual o problema? Simplesmente comeou o fim, como eu sabia que iria
comear um dia.
          - Sim, meu lorde, comeou. Mas o que acontecer com sua lady?
          Sua lady. As palavras do criado tinham um peso quase insuportvel. Embora pudesse
lhe parecer estranho, Isadora era sua esposa. O que aconteceria com ela quando o mundo
viesse bater  sua porta? o mundo do qual durante meses tentava se manter afastado? No se
sentia preparado para pensar no assunto.
          Praguejando entre os dentes, Montmorency fez sinal para que Cecil se retirasse. Por
que iria se importar com o que acontecesse  mulher responsvel pela sua runa? A mulher
que invadira sua escurido sem qualquer pudor?
          Piers tinha conscincia de tudo isso, assim como sabia ser Isadora a culpada de sua
futura condenao. Entretanto apesar dos graves problemas que o aguardavam, s conseguia
pensar na voz maravilhosa, suave como a de um anjo vindo dos cus para lhe aquecer o frio
da alma.
          Isadora deixou que Edith a ajudasse entrar na pequena banheira. Depois de um dia
inteiro passado inspecionando a leiteira e os campos, estava ansiosa para se livrar da sujeira.
Suspirando fundo, pegou o sabonete e comeou a ensaboar-se. No havia nada como um
delicioso banho quente.
          Sua satisfao era ainda maior porque a serva parecia tranqila. Finalmente Edith
aceitara mudar-se para o prprio quarto e j no falava tanto sobre abandonarem
Dunmurrow de uma hora para a outra.
          -  bom v-la alegre outra vez - Isadora comentou.
          - Hum... No posso dizer que esteja feliz aqui e tambm no confio naquele demnio
vermelho. Mas vendo como ele a trata bem e como lhe deu permisso para dirigir o castelo...
E, suponho que por enquanto eu vou ficar aqui.
          Ela sorriu, sabendo que a criada jamais pensara em abandon-la. Entregando-se ao
calor da gua que a aquecia at aos ossos, Isadora percebeu que na verdade sentia-se bastante
contente. Era uma idia estranha, pois jamais julgara possvel encontrar motivos para
satisfao dentro daquelas quatro paredes e muito menos que o papel de lady de Dunmurrow
pudesse lhe dar prazer. Contudo... aqui estava, ronronando como uma gata depois de um
longo e proveitoso dia.
          Apesar da hostilidade inicial, Piers acabara deixando-a ocupar a posio de castel,
algo que lhe pertencia por direito, e at concordara com as reformas que pretendia implantar.
Edith tinha razo. Sua vida sempre girara em torno da administrao de um castelo e era
entregando-se s responsabilidades e cuidando de todos os detalhes que se sentia prxima 
realizao pessoal.
          Dunmurrow talvez no fosse to grande quanto Belvry, porm as mudanas ali
necessrias representavam um desafio. Felizmente, no momento, Belvry estava entregue aos
cuidados de um empregado de confiana, algum capaz de dar conta da administrao
durante uns poucos meses. Quem sabe quando chegasse a primavera ela poderia fazer uma
visita...
          - Uma nica coisa posso dizer sobre aquele homem. Pelo menos ele sabe como agrad-
la. Embora que com os seus poderes diablicos no deva ser uma tarefa to difcil assim. -

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Edith colocou um vestido limpo sobre a cama antes de continuar. - Fico feliz que voc esteja se
adaptando to bem, minha lady, mas...
         - Mas o qu?
         - s vezes acho que voc no est feliz de verdade, minha lady, que esse seu bom
humor  apenas o resultado de alguma feitiaria.
         - Que bobagem  essa agora?
         A velha criada retorcia as mos nervosa, sem saber como se explicar.
         - O baro no lanou feitios em voc, no ? Tenho medo que o prprio demnio a
tenha... hipnotizado!
         Se no fosse pela expresso desolada de Edith, ela teria cado na risada.
         - Pare de se preocupar  toa. Montmorency no me enfeitiou.
         Farta de ouvir comentrios tolos, Isadora fechou os olhos e procurou relaxar. Qual o
problema se o Cavaleiro Vermelho se dilusse em sombras? Ou se colocasse penas na cabea e
danasse  luz do luar? Desde que ela fizesse o quisesse, o resto no tinha importncia... Na
verdade poderia ter acabado presa a um homem muito menos de seu agrado do que Piers
Montmorency.
         Baro Hexham, o tal vizinho vivo, imediatamente veio  sua mente. Ainda se
lembrava como o cavaleiro pomposo e arrogante tratara a primeira esposa. A pobre coitada
passara anos trancada numa torre, afastada do mundo, enquanto o marido se deitava com
uma amante aps a outra.
         Ou ento poderia estar s voltas com o baro Humphries, cujo olhar frio parecia
mais malevolente do que a escurido de Dunmurrow. Isso sem contar Rothchilde, com seus
lbios gordos e molhados... Isadora estremeceu, cheia de repugnncia.
         - Pelo menos o Cavaleiro Vermelho no espera que voc lhe d banho - Edith falou,
obrigando-a a interromper o curso dos pensamentos.
         Isadora nada respondeu. Que a serva pensasse o que quisesse. Simplesmente
recusava-se a discutir a intimidade, ou a falta dela, reinante em seu casamento com quem
quer que fosse.
         Edith jamais saberia o quanto seu comentrio fora acurado. Piers no lhe pedia para
executar qualquer tarefa em geral associada ao papel de esposa, desde a mais banal at a mais
ntima. E embora devesse se sentir grata pela distncia que os separava, por algum motivo
que no conseguia entender, sentia-se decepcionada.
         Olhando para o prprio corpo nu na banheira, no havia como negar o bvio. Suas
formas estavam longe de ser opulentas. Sempre fora magra, esguia, os seios pequenos. Talvez
Montmorency preferisse o contrrio... Nunca em sua vida tentara parecer desejvel aos olhos
de um homem, entretanto tivera muitos admiradores. Seus irmos quase precisavam coloc-
los para fora de Belvry a pontaps. E durante a recente visita a Edward, vira-se cercada de
cavaleiros ansiosos para cortej-la. Alis, todos deram a impresso de cobiar suas terras com
o mesmo ardor com que cobiavam seu corpo.
         O que fazer para despertar a ateno de um homem? Vira muitas damas vestidas em
rendas e sedas, lanando olhares lnguidos na direo daqueles a quem pretendiam
conquistar, os seios fartos empinados para o alto, expostos em decotes profundos. Porm essas
tticas de nada adiantariam na escurido dos aposentos do Cavaleiro Vermelho. Piers seria
incapaz de enxerg-la. Ele nunca chegava perto o suficiente... exceto uma vez...
         Isadora corou ao pensar no beijo que haviam trocado. Lembrava-se dos mnimos
detalhes da carcia inesperada e saboreava o episdio como se degustasse um vinho raro. O
calor que se espalhava por suas entranhas agora no tinha nada a ver com a temperatura da
gua. Mas como qualquer outra lembrana, estava comeando a desbotar. s vezes se
perguntava se no fora somente um sonho, Ser que aquele beijo realmente acontecera dias
atrs? Sem que conseguisse conter o impulso, Isadora levou os dedos aos lbios, como se
tentasse recapturar a sensao deliciosa. Ento, irritada com a prpria tolice, mergulhou a
cabea na gua e ps-se a lavar os cabelos.


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                                  Bodas de Fogo
         Ao terminar o banho, Edith lhe entregou um dos belos vestidos que trouxera de
Belvry. Fosse por uma simples questo de satisfao pessoal ou mera curiosidade, estava
decidida a causar a melhor das impresses no jantar daquela noite.
         O vestido de veludo gren tinha um corpete justo que evidenciava a linha dos seios
com ousadia. Um pingente de ouro descansava sobre o colo branco, chamando ainda mais
ateno para o decote. Para completar, uma tiara, tambm de ouro, nos cabelos. Na escurido
dos aposentos do Cavaleiro Vermelho, Isadora o fitou provocante enquanto jantavam,
procurando agir de maneira sensual e encantadora. Entretanto Piers parecia indiferente,
completamente alheio s suas tentativas de seduo.
         Para complicar ainda mais, ele sequer dava mostras de que a fitava. Por que se dar ao
trabalho de parecer bonita e desejvel? Edith com certeza iria reprov-la por procurar
despertar a ateno de um homem que se escondia nas sombras como um leproso... ou algo
pior... Se tivesse um pingo de bom senso, ela devia cair de joelhos e agradecer a Deus por
Montmorency deix-la em paz! Isadora empurrou o prato para o lado, esforando-se para
acreditar que sua inquietao e frustrao eram devidas  mudana da lua e nada tinham a
ver com certos desejos inconfessveis.
         Ainda assim, quando Piers falou, o tom baixo e profundo da voz deixou-a
inteiramente arrepiada.
         - Voc vai cantar para mim esta noite?
         - Se voc quiser. Devo chamar o garoto para tocar flauta?
         - No  preciso. Sua voz  to bela que dispensa acompanhamento.
         Feliz com o cumprimento, Isadora cantou uma cano atrs da outra. A sua favorita
era uma balada de amor, triste e doce. E foi com essa msica que ela deu a noite por
encerrada.
         - Voc no vai cantar mais nenhuma? - Piers perguntou sem disfarar o desaponto.
         - Por hoje  s. Ou amanh estarei mais rouca do que uma gralha.
         - Est bem. De qualquer maneira j  muito tarde pode se retirar.
         De repente ela se deu conta de que estavam inteiramente a ss, envoltos pela
escurido. Nada do msico ou mesmo de Cecil. Isadora levantou-se, porm em vez de
caminhar para a porta, deu um passo na direo do marido. Um dos ces rosnou baixo.
         - Que foi?
         - Quero apenas lhe dar boa noite, meu lorde. - Nervosa, ela passou a lngua pelos
lbios secos, o sangue latejando nas veias. E claro que suas palavras podiam ser interpretadas
de muitas maneiras, e na verdade isso no a preocupava nem um pouco. Ousada por
natureza, sentia-se mais afoita e atrevida do que nunca, levada por sensaes estranhas, que
no sabia como explicar.
         - Boa noite, esposa.
         Por um momento Isadora ficou imvel, confusa, incapaz de acreditar que havia
acabado de ser mandada embora. No estava acostumada a ser tratada assim. Ento virou-se
e saiu, odiando-se por tentar ganhar um beijo de algum como o Cavaleiro Vermelho.
         Enquanto seguia Cecil at seu quarto, no parava de se recriminar por ter tido
coragem de agir de modo to tolo. Estaria mesmo interessada em partilhar uma certa
intimidade com Montmorency, quando poucas noites atrs experimentara o terror mais
profundo diante da possibilidade de ser abraada? No. Sim. Ah, Deus, j no sabia de mais
nada. At ento sempre se considerara uma pessoa decidida, capaz de enxergar a realidade
com clareza. Agora as sombras do castelo pareciam ter alterado sua capacidade de raciocinar!
         O fato  que gostara do beijo. Piers no era nenhum demnio. Suas mos no
possuam garras. seus caninos no eram pontiagudos, nem seus olhos irradiavam fascas
avermelhadas. Tambm apreciava a voz profunda, controlada e estranhamente reconfortante.
         Isadora suspirou fundo, insegura a respeito de tudo. Tinha certeza apenas de uma
coisa. Depois de uns poucos dias de casada, o Cavaleiro. Vermelho tornara-se muito mais
atraente do que assustador.


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        CAPITULO SEIS

         Depois que Isadora saiu, Piers continuou sentado, imerso na escurido, analisando o
comportamento da esposa. Desde que a recebera em Dunmurrow, passara a viver apenas
para aqueles breves encontros durante o almoo e o jantar, mesmo tendo conscincia de que
cortejava o perigo. A verdade  que no conseguia agir de outro modo. Evitar a presena de
Isadora seria como cessar de respirar. Aos seus olhos, ela se tornara o smbolo da prpria
vida. Se um dia ele pensara em cavalgar ao encontro da morte, hoje descobria que queria
viver. Apesar de tudo, queria viver.
         A voz suave, o perfume doce e feminino, o atraam de maneira irresistvel. Adorava
ouvi-la falar, com seu jeito calmo e eficiente, sobre as tarefas desempenhadas ao longo do dia.
Durante aquelas conversas, quase chegava a acreditar que eram marido e mulher de fato e
que ele era um homem como qualquer outro. Embora soubesse que seria impossvel continuar
como estavam indefinidamente, no tinha foras para reverter a situao.
         Uma batida repentina  porta obrigou-o a mudar o rumo dos pensamentos.
               - Entre - ordenou, esperando Cecil.
         Ao perceber que no se tratava do servo e sim de um de seus vassalos, sentiu-se mais
animado.
         Em duas passadas largas foi ao encontro do homem que lutara ao seu lado inmeras
vezes, do homem que agora treinava seus soldados e cuidava das suas terras, o homem a quem
considerava seu melhor amigo.
         - Voc demorou a vir! - exclamou, dando um tapa forte e cordial nas costas de Alan.
         - Pelo visto, demorei muito mesmo. No momento em que coloquei os ps na aldeia,
fiquei sabendo das novidades sobre o seu casamento. Que histria  essa?
         -  verdade, estou casado. Graas a uma manobra de Edward.
         - Voc deve estar brincando!
         - E por que deveria brincar com um assunto srio?
         - O que sua noiva disse? Ela sabe de tudo?
         - No! - Montmorency respondeu secamente.  No sabe e nem vai descobrir.
         - Mas como voc conseguir esconder um segredo desses? - Alan parecia realmente
assombrado.
         - Como sempre fiz. No se preocupe com isso.  De sbito ele queria que seu vassalo
estivesse em qualquer outro lugar, menos ali, em Dunmurrow. Tambm experimentava um
sentimento estranho de posse em relao  esposa, Que ningum ousasse questionar aquela
unio; nem mesmo Alan!
         Num esforo para controlar a raiva e fixar os pensamentos em questes mais
Produtivas, Piers mudou de assunto.
         - Que notcias voc me traz das minhas terras e dos meus homens?
         Isadora vestiu uma de suas roupas mais velhas. Tinha muito trabalho a fazer hoje.
Alm do mais, se estivesse bem ou mal vestida ningum iria reparar mesmo. Muito menos seu
marido. A escurido os impedia de se enxergarem um ao outro. Alis, se Cecil no a
acompanhasse at a porta dos aposentos do baro, poderia fazer as refeies nua em plo e
Piers nada notaria!
               A idia ridcula a fez sorrir. At perceber que o contrrio tambm poderia
acontecer. Com o rosto em fogo, Isadora tentou imaginar aquele homem enorme sem uma
nica pea de roupa no corpo. Oh, Deus, no era possvel que estivesse gastando tanto tempo e
energia pensando no Cavaleiro Vermelho, em especial de maneira to imprpria.
Determinada a afast-lo da mente, terminou de se arrumar e preparou-se para enfrentar as
tarefas que a aguardavam. No valia a pena alimentar iluses, principalmente depois de
ontem  noite, quando Montmorency deixara claro que no a desejava. A rejeio sofrida
continuava a incomod-la.


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         Rejeio sofrida? Isadora inspirou fundo, chocada com o rumo de seus pensamentos.
No era possvel que estivesse chateada com o fato de Piers ter lhe negado um beijo. No era
possvel que se sentisse ansiosa por um simples toque do Cavaleiro Vermelho. Talvez Edith
tivesse razo quando dissera que ela havia sido enfeitiada...
         Precisava admitir que pensava em Montmorency com uma freqncia assustadora. E
o pior  que lembrava-se muito bem de como praticamente implorara por um beijo de boa
noite. Quem sabe no agira assim por estar sob os efeitos de algum encantamento e, portanto,
fora de si?
         Um poo do amor? Isadora riu ao tentar imaginar a figura alta do marido diluindo
ervas estranhas no seu clice de vinho ou ento espalhando ps desconhecidos sobre a sua
comida. No, Piers nunca faria isso simplesmente porque no parecia ter o mnimo interesse
em ganhar a ateno da esposa!
         S podia estar ficando maluca por se deixar influenciar pelas suspeitas ridculas de
Edith. A cada dia que passava a serva aparecia com uma nova histria de horror sobre o
Cavaleiro Vermelho, entretanto, desde que pusera os ps em Dunmurrow, nunca o vira usar
os tais poderes da magia negra. Piers jamais mencionara feitiarias, exceto em tom de
brincadeira, e se no castelo existia um lugar oculto, para a prtica de bruxarias, tambm nada
tinha descoberto at agora.
         Cansada de tranar os cabelos, Isadora abaixou as mos e soltou os fios. Por que se
dar ao trabalho de fazer um penteado quando ningum em Dunmurrow iria fazer a distino
entre um penteado prprio s mulheres casadas e outro tpico de solteiras? Se a verdade fosse
dita, continuava a mesma donzela virgem de meses atrs. Olhando-se no espelho mais uma
vez, fechou a porta do quarto e foi ao encontro de Edith.
         Encontrou a serva na cozinha, uma expresso irritada no rosto.
         - Mandei as duas aldes para Dunney, minha lady, como voc pediu. Embora eu ache
que uma nica pessoa poderia muito bem fazer as compras no mercado sozinha.
         - Ser bom para os aldees ver as duas mulheres juntas. Um sinal de que no h nada
para temer. - Isadora olhou ao redor, satisfeita com as modificaes do salo Principal. As
Paredes haviam sido Pintadas, o assoalho esfregado e um fogo aconchegante brilhava na
lareira de pedras. Estava ansiosa para exibir seus feitos.  Que tal se preparssemos uma ceia
de natal? Apesar do pouco estoque de alimentos nas despensas, poderamos mandar vir
mantimentos de Belry. Seria uma boa maneira de atrair as pessoas da aldeia para o castelo,
voc no acha?  Mentalmente ela fez as contas de quantas mesas a mais precisaria colocar no
salo para acomodar a todos com conforto. Porm ao fitar a criada, percebeu que Edith no
estava to de acordo assim com o plano.  Que foi agora?
         - No ser fcil dominar o medo dos aldees em troca de comida e bebida.
         - Bobagem. Barriga cheia costuma fazer milagres.
         - Mas o problema  Montmorency, minha lady.  o prprio baro quem espalha o
pavor na alma das pessoas. Nenhuma comemorao vai mudar isso, a no ser que o Cavaleiro
Vermelho aparea em pblico. O que no vai acontecer,  claro.
         - Talvez ele resolva aparecer sim - Isadora respondeu sem muita convico. At onde
pudera perceber, Piers nunca saa do quarto. Seu marido nunca saa do quarto. A sbita
constatao do fato deixou-a zonza. Seria mesmo verdade?
         Quando chegara a Dunmurrow, o castelo inteiro parecia encoberto pelas sombras que
cercavam seu lorde. Entretanto agora, janelas haviam sido abertas e velas acendidas. Mesmo
que o lugar jamais viesse a ser to claro quanto Belvry, por causa das janelas estreitas, cas-
tiais e tocheiros encarregavam-se de proporcionar uma iluminao adequada. A escurido
que aterrorizava Dunmurrow fora banida para longe... Exceto as sombras dos aposentos
principais. E era l que Piers ficava.
         Por que ser que o homem no se mostrava em pblico? Por que se mantinha fechado
dentro da escurido? Ela no conseguia pensar numa explicao plausvel, a no ser a idia
absurda de Edith, que afirmava, com todas as letras, tratar-se de um demnio. Montmorency


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no era nenhum demnio... Ou era?
         - O baro no vai aparecer, e voc sabe disso  a criada falou decidida.
         - Fique quieta, deixe-me pensar.
         - No vou ficar quieta no. - Edith mal conseguia conter a agitao. - Fico feliz que
voc possa se dedicar a colocar o castelo em ordem, minha lady. Porm nada deste mundo ir
mudar o fato de que seu marido  o Cavaleiro Vermelho. E como se j no bastasse o prprio
diabo, ainda temos que lidar com o tal do Cecil. Juro que aquele homem pode estar em dois
lugares ao mesmo tempo! Aposto que  uma criatura das trevas tambm, capaz de tomar
tanto a forma humana quanto a animal para obedecer as ordens do mestre.
         - Oh, pelo amor de Deus, mulher, chega! J ouvi asneiras suficientes!
         - Desculpe-me, minha lady. Mas s porque voc o aceitou, no significa que o resto de
ns tenha que aceit-lo tambm. Como  que as pessoas podem confiar num lorde se nunca
tiveram a chance de v-lo? E o que devo dizer quando me fazem perguntas sobre o baro?
Como posso explicar que mesmo depois de estar vivendo dentro deste castelo h dias s pude
enxerg-lo de longe e muito mal, alis, durante a breve cerimnia de casamento?
         Edith cruzou os braos sobre o peito e ergueu a cabea num gesto de desafio.
         - Agora me diga, minha lady. Como  o seu marido? E por que ele se esconde?
         Pega de surpresa, Isadora no sabia o que responder. Na verdade, seus ltimos dias
haviam sido to movimentados que parara de pensar nas excentricidades do Cavaleiro
Vermelho. Embora odiasse a escurido dos aposentos principais, acabara se acostumando 
eterna falta de luz. Tambm no acreditava que Piers pudesse ser a encarnao do mal.
Contudo no conseguia evitar uma sensao esquisita ao pensar que,  exceo de Cecil,
ningum em Dunmurrow ainda pusera os olhos sobre a figura de Montmorency.
         Era tudo to estranho... Porm no estava disposta a admitir suas dvidas nem para
Edith. A velha criada parecia incansvel, sempre remexendo no lado escuro das coisas. Pela
primeira vez, desde que chegara a Dunmurrow, pensava em mand-la de volta para Belvry.
         O problema  que Edith ficaria de corao partido se fosse obrigada a voltar para
Belvry porque a deixaria s na companhia do Cavaleiro Vermelho. Desacostumada a mentir,
Isadora tentou responder a pergunta da serva da melhor maneira possvel.
         - Meu marido  alto.
         Infelizmente Edith a conhecia bem demais para se dar por satisfeita com a resposta
breve e evasiva.
         - Oh, minha lady, ento  como eu temia! Voc ainda no conseguiu v-lo tambm.
Aquela criatura terrvel a enfeitiou!
         - Que absurdo! Pare de dizer tanta tolice!
         - Aiii! - O grito de dor ps um ponto final  discusso. As duas mulheres correram na
direo da cozinha.
         A pequena Moira chorava a plenos pulmes, enquanto a me procurava consol-la.
         - Uma queimadura, minha lady - Glenna explicou. Avisei minha filha, milhares de
vezes para ficar longe do fogo.
         - Pobrezinha... - Isadora ajoe1hou-se ao lado da criana. - Posso dar uma olhada?
Prometo que no vou machuc-la.
         No - a menina choramingou. - O machucado  muito feio. E horrvel. Voc pode at
desmaiar s de ver.
          muito feio...  horrvel... De repente as palavras da garota ecoaram em sua mente
como um aviso. S conseguia pensar na figura alta do marido, eternamente envolto pelas
sombras. Ele devia ter um motivo para agir daquela maneira... Talvez sofrera alguma
queimadura que o deixara desfigurado. Ali estava uma explicao razovel para o
comportamento de Montmorency, uma explicao que no envolvia magia negra. Piers podia
ter marcas horrendas pelo corpo, entretanto de uma coisa tinha certeza: seu marido no era
nenhum animal.
         - Tenho um estmago forte. - Isadora sorriu e pegou a mo de Moira com delicadeza,


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observando a pele vermelha e repuxada na regio dos dedos. - Veja s, no foi to grave
assim. Vai sarar logo e no deixar cicatriz. Vou lhe preparar um ungento.
         Ela levantou-se depressa para misturar as ervas, ainda atordoada com a idia de que
o isolamento de Piers pudesse ter causas prticas. J vira muitas queimaduras antes e
algumas, realmente, chegavam a ser assustadoras. Porm, nada, por mais horrendo que fosse,
justificaria uma vida passada na escurido.
         No, no era possvel que fossem simples queimaduras decidiu, espalhando o
ungento na mo de Moira. O valeiro Vermelho era um guerreiro temido. Talvez tivesse
perdido um membro ou ento fora ferido durante uma batalha, tornando-se irreconhecvel. O
pensamento trouxe um certo conforto. Melhor essa explicao que as histrias de magia
negra. Se Montmorency mantinha-se isolado por uma questo de vaidade, quem sabe, com o
passar do tempo, no conseguiria faze-lo sair das sombras?
         - Bom dia. - O som de uma voz que no lhe era familiar a fez virar-se para trs a
tempo de ver um estranho aproximando-se. Em vez de responder, Isadora ficou de p,
surpresa com a presena do desconhecido dentro do crculo fechado de Dunmurrow.
         O homem, de altura mediana, era forte e tinha os cabelos castanhos. Um sorriso largo
iluminava o rosto de feies agradveis.
         - Bom dia - ela respondeu afinal. Estava h tantos dias afastada da civilizao que
quase se esquecera das primeiras regras de boas maneiras.
         Alan sentiu-se feliz por t-la cumprimentado antes que a castel de Dunmurrow o
fitasse de frente. Porque agora que podia v-la por inteiro, precisava se esforar para no
ficar de queixo cado.
         A esposa de Piers era a mulher mais bela que jamais vira em toda a sua vida.
         Os cabelos sedosos caam soltos sobre as costas, uma nuvem prateada alm da cintura
delgada. Embora no fosse alta, tinha um corpo de linhas harmoniosas. Esguia sim, porm
arredondada em todos os devidos lugares.
         Rosto oval, nariz reto e estreito, lbios carnudos, olhos verde-acinzentados. Alan bem
que tentava desviar o olhar de tamanha perfeio, mas era impossvel. No conseguia
acreditar que aquela viso fosse a esposa de seu lorde.
         Piers quase nada dissera sobre o casamento, exceto que fora um arranjo de Edward.
         Apesar de no compreender por que o rei concederia uma esposa a Montmorency,
suspeitara que se tratasse de uma donzela sem propriedades ou dinheiro, algum que teria
dificuldades para arrumar um marido. Nunca, nem seus mais loucos sonhos, lhe passara pela
cabea que Edward pudesse entregar nas mos de piers a mulher mais bela de todo o reino.
Que maluquice seria essa? Ser que a donzela cara no desagrado do rei? Seria uma bruxa?
         Com certeza havia muito mais coisas naquela histria do que o baro deixara
transparecer. Precisava descobrir os detalhes que faltavam. Quando acordara hoje de manh,
no tivera a menor pressa de se levantar para conhecer a nova castel. Contudo, depois que a
vira, chegara a concluso de que apreciaria um longa estada em Dunmurrow.
         - Minha lady, sou Alan Clinton, o vassalo do baro. Acabei de voltar de uma viagem
de rotina pelas terras de meu lorde.  um prazer estar sob as suas ordens, senhora. - Ele fez
uma mesura to elegante, que Isadora no pode deixar de sorrir.
         - Eu sou Isadora de... Isadora Montmorency.  um prazer conhec-lo. Seja bem-
vindo.
         A presena de uma nova pessoa dentro daquelas quatro paredes, em especial de
algum que adorava contar novidades e falar sobre o mundo l fora, era como um verdadeiro
raio de sol capaz de iluminar sua vida sombria. O vazio e a escurido eterna de Dunmurrow
foram momentaneamente banidos pela chegada do vassalo.
         O tempo pareceu voar enquanto os dois conversavam, sentados junto  lareira. Alan
com um clice de cidra na mo, e Isadora ouvindo-o falar sobre as terras do baro e as
pessoas que viviam na aldeia. O recm-chegado parecia bastante impressionado com as
mudanas operadas dentro do castelo e no poupava elogios. Tanto calor humano tornava


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fcil contar sobre os planos para a comemorao do Natal como uma maneira de atrair os
aldees.
         - Acho que poderei ajud-la, minha lady. Quando eu passar pelos campos e
arredores, espalharei a notcia do que o baro anda.  procura de gente para trabalhar aqui.
         Isadora inspirou fundo, surpresa e feliz.
         - Voc acha mesmo que eles viro? - indagou ansiosa. Depois baixou os olhos e ficou
em silncio, incapaz de discutir a Possibilidade de ningum aparecer no castelo e,
principalmente, por que os aldees se recusariam a aparecer.
         Entretanto Alan parecia imperturbvel.
         - Sempre existem aqueles que precisam trabalhar, minha lady. Gente que no pode se
dar ao luxo de escolher o servio. Aposto que ficariam felizes em ajud-la aqui, dentro destas
quatro paredes.
         De repente Isadora sorriu, sentindo uma onda de afeio e gratido por aquele
homem que mal conhecia. O vassalo de Montmorency fora o primeiro a encoraj-la e a
incentiv-la desde que Pusera os ps em Dunmurrow.
         Outra vez Alan precisou se esforar para no ficar de queixo cado. Se a esposa de
Piers era linda sria, quando sorria tinha-se a impresso de que o prprio Sol se erguia para
iluminar tanta beleza. Ele quase precisou se beliscar
         para sair do estado de admirao profunda. Certamente aquela mulher no era
nenhuma feiticeira.
         - Onde  sua casa, minha lady? - Alan perguntou, procurando uma pista que pudesse
explicar a conexo entre ela e o lorde de Dunmurrow. - Voc morava perto daqui antes do
casamento?
         - No. Venho de longe. De um lugar chamado Belvry. Por acaso voc j ouviu falar?
         Belvry? Quem ainda no tinha ouvido falar de Belvry? Uma das propriedades mais
prsperas de todo o oeste.
         - Sim, j ouvi falar de Belvry, embora jamais tenha estado l. Dizem que  muito
grande e bonito.
         - Oh, no  apenas grande - Isadora falou orgulhosa. -  tambm espaoso e bastante
confortvel. Claro que se trata de uma construo bem mais nova do que Dunrnurrow. Foi
meu pai quem construiu o castelo, antes de eu nascer.
         - Ento voc  uma de Laci? - Apesar do esforo, o vassalo no conseguiu esconder o
tom de surpresa na voz. Caa por terra sua segunda teoria, a de que tratava-se de uma
donzela sem dote. Pelo contrrio, era uma mulher muito rica. Como  que viera parar aqui...
junto com Piers?
         - Voc estava sob a guarda de Edward? - Melhor deixar os subterfgios e partir para
as perguntas diretas.
         - No exatamente. - Pela maneira como Isadora respondeu, ficou claro a ausncia de
afeto entre ela e o rei. - Embora Edward tenha... tomado um certo interesse por mim depois
da morte de meu pai.
         O qu? Ser que o rei cobiara as terras dos de Laci? Embora a educao lhe
segredasse que estava na hora de parar com as perguntas pessoais e indiscretas, Alan no
conseguiu colocar um ponto final na investigao. Estava morrendo de curiosidade.
         - E voc conheceu Piers...? - O resto da frase foi deixado deliberadamente no ar, 
espera de complementao.
         Porm ela ignorou a deixa.
         - Nunca me encontrei com Piers antes do casamento. O olhar frio e altivo de Isadora o
fez desejar nada ter perguntado. Ele pigarreou e mudou de assunto.
         - Acho que toda essa conversa me deixou com fome, minha lady. Devo admitir que
estou ansioso para testar as mudanas que voc implantou na cozinha. Deus sabe que jamais
elogiei as qualidades culinrias de Dunmurrow antes porque eram inexistentes.
         Quando Isadora riu de sua careta, Alan suspirou cheio de alvio. Fora perdoado.


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         De repente o vassalo se deu conta por que motivo Piers andava to irritadio, como
uma fera enjaulada. Lady Montmorency era capaz de fazer qualquer um perder a cabea. A
beleza perfeita, a voz suave, as maneiras elegantes, o perfume delicioso... Tudo aquilo poderia
enlouquecer o mais controlado dos homens. Ele mesmo, por exemplo, seria o primeiro a ceder
a tantos encantamentos. Mas o que dizer do terrvel Cavaleiro Vermelho?
         Isadora ordenou que o almoo fosse imediatamente servido no salo sem ao menos
esperar que Cecil aparecesse para conduzi-la  presena do marido. A verdade  que queria
escapar da atmosfera sufocante dos aposentos principais. Comer num local iluminado, na
companhia de uma pessoa extrovertida, era uma pausa  escurido e ao peso de Dunmurrow.
         Ainda assim, sentia-se culpada.
         Apesar de seus esforos para no comparar Alan ao marido, ela sabia que os dois
homens eram to diferentes entre si quanto a gua do vinho ou o dia da noite. Para comear,
havia o pequeno detalhe de que podia enxergar o vassalo. V-lo mover-se, observ-lo, avaliar
as expresses dos olhos e do rosto. Algo que sempre dera como garantido em sua vida e que
depois da chegada a Dunmurrow transformara-se numa raridade.
         Para completar, Alan parecia de fcil convivncia. Ele no a fitava com o desejo
nojento dos cavaleiros da corte, nem com a desaprovao do emissrio do rei. Tambm no a
tratava com a hostilidade velada to freqente no comportamento de Montmorency. O vas-
salo a tratava com a considerao de um amigo e seus elogios eram recebidos com prazer, pois
nos ltimos tempos vivia cheia de dvidas a respeito de si mesma. Para algum que sempre
mantivera distncia dos outros, Isadora bebia aquela ateno com a sofreguido de uma
pessoa sedenta.
         - Minha lady - Alan empurrou o prato para o lado e sorriu -, eu suspeitava que a
comida do castelo tivesse melhorado, porm nunca me passou pela cabea que a melhora fosse
to espetacular. A refeio estava deliciosa. Acho que vou ter que manter os homens
aquartelados longe daqui para evitar que se tornem gordos e preguiosos, incapazes de
cumprir as suas obrigaes.
         Isadora riu baixinho, apesar de Edith no demonstrar o mesmo entusiasmo.
         - Por que os homens esto aquartelados distante daqui? - a criada indagou num tom
desconfiado, carregado de suspeitas.
         - As terras do baro so de grande extenso, englobando vrias aldeias e muitas casas
- Alan explicou sem hesitar. - De qualquer forma, no precisa se preocupar, Edith. Jamais nos
distanciamos alm de um determinado limite. H sempre soldados no castelo, embora no
tenhamos motivos para esperar um ataque inimigo.
         A idia de que algum seria louco o suficiente para atacar o Cavaleiro Vermelho em
seu prprio covil quase fez Isadora cair na risada. Desde que chegara a Dunmurrow
experimentara muitas sensaes estranhas, mas nunca se sentira desprotegida. Era impossvel
imaginar a existncia de um homem corajoso o suficiente para ignorar os rumores terrveis
que cercavam Piers Montmorency ou ento forte o suficiente para enfrent-lo numa batalha.
         - Se voc est preocupada, posso mandar um homem para proteg-la. Ele ser uma
espcie de guarda pessoal - sugeriu o vassalo.
         - Aceito o oferecimento, obrigada.- E pela primeira vez em muitos dias, a serva
pareceu realmente sensibilizada.
         Alguns segundos de silncio se passaram e foi Alan quem tornou a falar.
         - Bem, minha lady, agora que j me satisfiz com essa
         comida deliciosa, acho que preciso de um pouco de exerccio. Creio que uma
cavalgada seria timo. Voc j conhece os arredores de Dunmurrow? Gostaria de me acom-
panhar?
         Isadora ficou imvel, a perspectiva de andar a cavalo enchendo-a de satisfao.
Cavalgar era um prazer to simples, algo que sempre fizera at sair de Belvry, e algo de que
sentia muita falta.
         - Sim - respondeu, resistindo  vontade de correr para o estbulo no mesmo instante.


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          Protegida por uma pesada capa de pele, finalmente partiu a galope, atrs de Alan,
pensando que aquele dia estava transcorrendo de uma maneira bastante diferente do que
imaginara ao se levantar.
          Dali em diante no iria se negar este prazer outra vez. Quer tivesse que arrastar Alan
para um passeio ou implorar a Piers para designar um de seus homens como acompanhante,
iria cavalgar diariamente. Sentia-se como algum voltando  vida depois de ter passado uma
eternidade enterrada.
          Sentia-se culpada tambm.
          Enquanto se afastavam do castelo, Isadora lanou um olhar rpido para trs,
imaginando quais das janelas estreitas pertenciam aos aposentos principais. Por um momento
experimentou a sensao inquietante de que o Cavaleiro Vermelho espreitava. Estremecendo,
baixou o olhar e impeliu o cavalo para frente.
          As terras que lhe pareceram to sombrias no dia de sua chegada, agora davam a
impresso de possuir uma beleza crua, intensa. Porm, o que mais a encantou foi a floresta
plantada nos arredores. Familiarizado com a regio, Alan apressou-se a lhe mostrar uma
lagoa bem no meio das rvores.
          -  linda - Isadora murmurou admirada.
          - Sim...
          Os dois permaneceram em silncio durante vrios segundos, ouvindo o barulho da
gua, o canto dos pssaros, os sons da vida animal ao redor.
          Ela no tinha dvidas de que a lagoa seria um lugar delicioso para se banhar no
vero. No, que bobagem. Quando o vero chegasse, muitas mudanas haveriam ocorrido.
Com certeza estaria de volta a Belvry e seu casamento j teria sido anulado. Dunmurrow no
passaria de uma lembrana sombria. Afinal era isso mesmo o que ela queria, no era?
          - Obrigada por me mostrar este lugar.  o recanto mais belo que pude ver at agora
dentro das propriedades do baro.
          - Tem razo,  lindo. Mas acho que est na hora de regressarmos ao castelo. Est
ficando muito frio.
          - At que no est to frio assim para essa poca do ano - Isadora protestou, odiando
a idia de voltar a se encerrar dentro de quatro paredes.
          Percebendo-a hesitar, Alan sugeriu:
          - Bem, que tal se passssemos pela aldeia antes de irmos para o castelo?
          - Os aldees o conhecem?
          - Sim. Costumo ir com freqncia  aldeia, para tratar de negcios do baro.
          Porque o baro no se mostrou em pblico, ela pensou, tentando montar as peas do
quebra-cabea. Daria tudo para entender o motivo da recluso de Montmorency.
          - Voc trabalha para o meu marido h muito tempo?
          - Sim, minha lady.
          Ento qual  a aparncia de Piers Montmorency? Embora no tivesse coragem de
fazer a pergunta em voz alta, Isadora sentia-se vivendo um verdadeiro tormento. Por que ser
que ele se esconde na escurido? Havia tanta coisa que Alan poderia lhe contar... Entretanto
sabia que no estava certo indagar, do mesmo modo que no estava certo o vassalo responder.
Lutando para mudar o rumo dos pensamentos, obrigou-se a falar da aldeia. Contudo, apesar
de todo o seu esforo, o mistrio que envolvia seu marido no lhe saa da cabea. Um mistrio
sobre o qual Alan poderia lanar alguma luz.
          Os moradores de Dunney, apesar de aparentarem tranqilidade, no conseguiam
disfarar inteiramente a desconfiana que sentiam em relao  lady de Dunmurrow e ao
vassalo do baro. Mais uma vez, Isadora encontrou aliados nas crianas e distribuiu moedas
aos pequeninos. Ao perceber que Alan a fitava, desejou do fundo do corao que fosse Piers
quem estivesse ao seu lado, que o Cavaleiro Vermelho aparecesse em pblico e se dispusesse a
ir at  aldeia para acompanhar a esposa.
          Tentando ignorar a idia absurda, ela se despediu das crianas e mandou-as brincar


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enquanto conversava com alguns adultos sobre os ungentos que prometera mandar a um
campons idoso que sofria de reumatismo. Sem que percebesse, o sol comeou a se pr no
horizonte e Alan a chamava para irem embora. Estava na hora de regressar a Dunmurrow.
         No trajeto de volta, Isadora resolveu falar sobre aquilo que a incomodava. Depois de
passar quase que o dia inteiro na companhia do vassalo, chegara a concluso de que se tratava
de um homem sincero, honesto e de bom corao. Mesmo sabendo que .poderia ser injusto e
at insensato arriscar uma boa amizade com indagaes a respeito de Piers, precisava,
desesperadamente, que algum lhe desse certas informaes. Por isso estava disposta a correr
o risco.
         - Os aldees dizem que o baro nunca colocou os ps em Dunney - ela falou devagar,
observando o homem que cavalgava ao seu lado.
         - Eu no sei. - Apesar das palavras soarem com naturalidade, havia algo no tom de
voz masculino que no chegava a convenc-ta. Alan demonstrava afeto por seu lorde, porm
no parecia disposto a discutir o comportamento do baro. - Ultimamente no tenho passado
muito tempo em Dunmurrow. Manter as terras sob controle e cuidar para que os homens
estejam em perfeitas condies, caso sejamos convocados para uma batalha, me ocupa as
vinte e quatro horas do dia.
         - Quer dizer ento que Piers no treina seus prprios homens?
         - No - Alan respondeu cauteloso. - Ele costumava faz-lo, mas desde que recebeu o
castelo como recompensa pelos servios prestados ao rei, acabou tendo outros assuntos para
ocup-lo.
         Que tipo de assuntos? Alquimia? Bruxaria? Sua vontade era indagar sobre a terrvel
reputao do Cavaleiro
         Vermelho, porm achou melhor ficar de boca fechada. Embora dissesse a si mesma
que no acreditava em tamanha bobagem, no podia deixar de imaginar por que motivo Piers
se mantinha trancado dentro dos aposentos principais, sem nunca se aventurar no meio das
pessoas, sem nunca ver a luz do Sol...
         Por que ele se esconderia nas sombras? Isadora quase fez a pergunta, mas se calou a
tempo. Com uma clareza que chegava a ser dolorosa, concluiu que talvez Montmorency no
buscasse a escurido quando estivesse na presena do vassalo. Ele podia muito bem receber
Alan em plena luz do dia, sem procurar esconder o corpo e o rosto num breu. Afinal parecia
confiar naquele homem mais do que confiava na noiva.
         Envergonhada demais para deixar Alan saber que jamais vira o prprio marido,
Isadora procurava uma maneira de consertar a pergunta que fizera momentos antes. Ali
estava algum capaz de lhe contar tudo, porm como poderia indagar qualquer coisa sem
revelar sua situao bizarra? Afinal era esposa sem ser mulher. Continuava to virgem e
inexperiente como quando sara de Belvry. Melhor ter muito cuidado, decidiu, ou acabaria
pondo os ps pelas mos.
         - Sei que voc conhece meu marido h anos e com certeza o tem em alta estima. Eu...
eu gostaria de lhe perguntar... Por que Piers passa tanto tempo trancado dentro dos seus
aposentos?

         - Minha lady... - Incapaz de fit-la de frente, Alan fixou o olhar na linha do horizonte,
onde o Sol se punha devagar espalhando as sombras sobre as muralhas de Dunmurrow. -
Minha lady, no sou eu quem devo lhe dar as respostas para as suas perguntas. Vamos,
precisamos estar de volta ao castelo antes da hora do jantar, ou Piers me arrancar a cabea
por ter tomado tanto tempo de sua adorvel esposa.

        Desapontada, Isadora inspirou fundo procurando no se deixar abater com as
evasivas do vassalo. Como se o Cavaleiro Vermelho se importasse onde e com quem ela
passasse as horas do dia ou da noite! Provavelmente Piers estaria satisfeito por t-la fora do
caminho. E com certeza ficaria feliz da vida se pudesse se ver livre dela para sempre.


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        CAPITULO SETE

          Piers estava furioso. Andando de um lado para o outro, tentava se concentrar no que
Cecil contava, mas era difcil. O servo lhe dizia coisas que preferiria no ouvir e cada palavra
caa sobre sua raiva como uma chicotada em carne viva.
          - E onde esto eles agora?
          - Fui informado de que se dirigiram  aldeia, meu lorde.
          - Depois de uma conversa informal, uma refeio gostosa e um passeio pela floresta -
Piers falou entre os dentes.
          - Aparentemente sim, meu lorde. Embora eu deva deixar claro que na minha opinio
nenhum dos dois seria capaz de se comportar de maneira imprpria s posies que ocupam.
          - De maneira imprpria! - A voz do Cavaleiro Vermelho ecoou cheia de ira pelos
aposentos enquanto um murro possante sobre a mesa quase partia a madeira em duas.
Imprpria era um termo delicado demais para descrever o que poderia estar acontecendo.
Melhor usar a palavra certa: infidelidade, adultrio, traio...
          - Meu lorde, talvez fosse mais prudente se preocupar com o que Alan possa estar
revelando  sua esposa do que com as aes de ambos. Porque se ela souber a verdade a seu
respeito, ter uma arma de poder mortfero nas mos.
          A razo lhe dizia que os argumentos de Cecil em sensatos, porm, o que fazia
transbordar sua raiva era mesmo a idia do que seu vassalo e sua mulher poderiam estar
fazendo juntos. O cime sim, o levava  beira do descontrole total. Entretanto a fria contida
j se tornara parte da sua vida. De que adiantava esbravejar quando sequer podia tomar as
rdeas do prprio destino?
          Com muito esforo, Montmorency recuperou o controle das emoes e quando voltou
a falar, sua voz soava calma e tranqila, apesar de cortante como o ao.
          - Por favor, diga  minha esposa e ao meu vassalo que os espero para jantar comigo
esta noite. - Ao perceber que o servo no se movera um centmetro do lugar, Piers irritou-se. -
Agora! Vamos! Quero que os encontre antes que saam para qualquer outro lugar juntos!
          Pelo sangue de Cristo, quer eu a possua ou no, Isadora  minha mulher... aos olhos
de Edward, aos olhos da igreja e aos olhos dos homens! Quero os dois na minha frente para
que eu mesmo possa julgar... at que ponto andaram se comportando de maneira imprpria.
          Assim que o servo saiu, Piers recomeou a andar de um lado para o outro, diante da
enorme cama de casal, fria e vazia. A ironia do fato no lhe passou despercebida.
          Percebendo o adiantado da hora, Isadora tomou um banho rpido e deixou que Edith
a ajudasse a vestir-se. Pelo menos desta vez a criada no contava as histrias de sempre sobre
o terrvel lorde de Dunmurrow. Parecia mais preocupada com o homem que Alan enviara
para lhe servir de guarda pessoal.
          - O nome dele  William, embora tenha me pedido para cham-lo de Willie. Como se
eu quisesse manter essas familiaridades. Quando eu lhe disse para me chamar de senhora
Edith, voc precisava ver como o danado sorriu! Pois vou lhe dizer uma coisa, minha lady.
Aposto que me sentiria muito mais segura num ninho de cobras do que tendo um homem
como aquele  minha porta.
          - Se voc tem medo do tal guarda, ento pea a Alan para substitu-lo por outro.
          Ignorando o conselho, Edith suspirou alto e continuou a resmungar.
          - Duvido at que seja mesmo um soldado porque  baixo e magro como uma vara de
marmelo. Como  que pode garantir a proteo de algum? Talvez seu belo vassalo o tenha
mandado com o nico propsito de debochar de mim.
          - Ele no  meu vassalo e sim de meu marido - Isadora falou com firmeza. - Tenho
certeza de que Alan pouco se preocupou em escolher um homem cuja aparncia pudesse ou
no agrad-la.
          - Bem, se esse Willie  um exemplo, ento os soldados de Dunmurrow so tristes


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figuras. Isto , caso Dunmurrow possua soldados de verdade. Porque se as criaturas forem
semelhantes ao lorde do castelo, no devem passar de sombras.
         - Por favor, certifique-se de que o guarda tenha uma boa refeio no jantar - Isadora
ordenou depressa, ansiosa para livrar-se do falatrio da criada.
         -  o que farei. Pelo menos se o coitado engordar um pouco ter mais substncia e
no sair voando por a, na primeira lufada de vento.
         To logo Edith se ausentou do quarto, Isadora suspirou aliviada e continuou a
pentear os cabelos. Como ainda estivessem midos, resolveu deix-los soltos em vez de tran-
los e prend-los no coque habitual. Felizmente a criada encontrara algo novo com o que se
preocupar, pensou sorrindo. Com um pouco de sorte, o irreverente Willie manteria Edith
ocupada o suficiente para deixar de lado o Cavaleiro Vermelho. Precisava agradecer Alan por
ter mandado o guarda.
         Ao se lembrar de como a criada chamara Alan de "seu" vassalo, Isadora parou de
sorrir. Seria normal esperar que os aldees, na ausncia constante do verdadeiro lorde,
comeassem a ver o vassalo como o senhor de Dunmurrow. Isso no estava certo. O instinto
lhe dizia que Piers no iria gostar nada... se soubesse. Daria tudo para que aquela noite j
tivesse terminado.
         O fato  que preferia no partilhar a refeio na companhia do marido e de Alan.
Ainda se sentia um tanto culpada por ter passado o dia inteiro ao ar livre, embora soubesse
que nada fizera de errado. Simplesmente escapara  atmosfera pesada do castelo durante
algumas horas. Ento por que a sensao de que trara o marido? Por que preferia a luz 
escurido?
         Uma batida  porta arrancou-a dos pensamentos sombrios. No instante em que abriu
e se deparou com o olhar de Cecil, percebeu que alguma coisa estava errada. No que o criado
tivesse alterado a expresso impenetrvel do rosto. Alis no conseguia imagin-lo rindo ou
chorando. Sempre austero, jamais demonstrava a menor emoo em qualquer circunstncia.
Porm hoje... ele parecia diferente. Positivamente preocupado.
         - Meu lorde mandou avis-la de que a espera para o jantar.
         Seria impresso sua ou ouvira uma leve hesitao na voz do servo?
         - Sim, claro. Sempre janto com o baro. Cecil, o que foi? Problemas srios?
         - Minha lady, sei que um homem da minha posio no deveria dizer nada... mas...
         - Por favor, sinta-se  vontade para falar.
         - Minha lady, o baro ficou furioso quando soube que voc pareceu preferir a
companhia do vassalo. Talvez ele tema que possa haver... falatrios.
         - Falatrios? Falatrios? Como, se no mora ningum neste castelo deserto?!
         Todo o sentimento de culpa que viera experimentando por ter aproveitado o dia
desapareceu num passe de mgica. Sentia apenas raiva.
         - Qualquer coisa que se diga de mim jamais poder ser comparada aos horrores que
se contam do Cavaleiro Vermelho. Os aldees, por exemplo, adoram a histria de que durante
o dia o baro oferece sacrifcios humanos e  noite come coraes de crianas no jantar!
         Diante da exploso de Isadora, Cecil se retraiu e voltou  atitude servil e impessoal de
sempre.
         - Sim, minha lady.
         Os dois caminharam para os aposentos principais sem trocarem mais uma palavra.
         Falatrios! Que idia ultrajante, absurda! Como  que seu marido, uma pessoa que
jamais a levara para um passeio ou se dignara a sair do quarto para jantar no salo, podia se
ofender com o fato de que ela dera ateno ao vassalo, um homem bem-educado e de
confiana? Um soldado que provavelmente jurara lealdade ao seu lorde at a morte?
         Como  que Montmorency pudera julg-la capaz de trai-lo com tanta facilidade? Por
mais que apreciasse a companhia do vassalo, nunca lhe passara pela cabea um outro tipo de
relacionamento que no fosse amizade.
         Alan era bonito sim, porm no tinha nada de especial. Apenas simptico e de boa


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aparncia, como muitos dos cavaleiros que conhecera e a quem no dera a menor importncia
ou por quem no tivera o mnimo interesse. Na verdade, o nico detalhe que diferenciava
Alan dos outros  que a presena dele aliviara um pouco o peso da escurido.
         Em Belvry, sempre vivera rodeada de pessoas, podendo escolher com quem
conversar. Mas aqui, em Dunmurrow, as opes eram praticamente inexistentes. Piers se dig-
nava a lhe dirigir a palavra apenas durante as refeies. Restavam Edith, com suas histrias
bizarras, o tocador de flauta, a cozinheira e a filha. Cecil no contava por que se mantinha
sempre calado. Alan surgira como uma alternativa  atmosfera solitria do castelo. At que o
Cavaleiro Vermelho conseguira arruinar tudo. E era isso o que mais a enfurecia. A certeza de
que o prazer de um dia passado ao ar livre fora perdido para sempre.
         Isadora entrou no quarto de mau humor, os olhos buscando a silhueta alta do
marido. Pretendia colocar a histria toda em pratos limpos imediatamente, entretanto a
presena de uma terceira pessoa a fez mudar de idia.
         - Minha lady - cumprimentou-a Alan.
         Talvez Cecil tivesse exagerado a seriedade da irritao de Piers, pensou. Talvez ela
mesma se agitara tanto a troco de nada.
         - Minha lady. - O tom de voz de Montmorency soava calmo e controlado, deixando-a
um pouco mais aliviada. Para sua surpresa, seu lugar  mesa fora colocado ao lado do vassalo.
Uma espcie de armadilha, talvez?
         - Piers, voc se esqueceu de dizer que a beleza de sua esposa supera a da mais bela
jia.
         Ao ouvir o elogio do vassalo, Isadora quase se engasgou com o vinho. Ser que aquele
insensato no tinha noo do quanto era perigoso despertar a ira de Montmorency?
         - Na aldeia as pessoas comentam que agora foi encontrado um anjo para o nosso
Cavaleiro Vermelho. Mas eu no imaginava que os aldees falavam de maneira to literal.
         Ela ficou tensa, aguardando a exploso do marido. Porm nada aconteceu.
         - Sim,  o que dizem todos os que tiveram o privilgio de contemplar sua beleza.
         Apesar das palavras gentis, Isadora sentiu-se desassossegada. Havia algo de
ameaador escondido sob o manto da delicadeza. Um perigo crescente emanava da figura
escondida nas sombras. Ser que Alan no era capaz de perceber?
         Aparentemente no, porque as palavras seguintes do vassalo no demonstravam
qualquer tipo de cautela.
         - Piers me contou que esse casamento foi arranjado por Edward, minha lady. Voc
no ficou surpresa ao descobrir que seria esposa do Cavaleiro Vermelho? Muitas mulheres
ficariam apavoradas com a perspectiva, considerando a reputao de Montmorency.
         - No, no fiquei nada surpresa, uma vez que a escolha foi minha. Eu o escolhi. - E
pelo jeito, foi um erro terrvel, teve vontade de acrescentar.
         - Voc o escolheu? No estou entendendo.
         Isadora queria sumir da face da terra. Hoje pela manh pensara haver colocado um
ponto final na curiosidade de Alan, mas pelo visto o vassalo estava ousando ainda mais nas
perguntas. E bem na presena do Cavaleiro Vermelho!
         - Edward me permitiu escolher um marido dentre todos os cavaleiros da corte e me
decidi pelo baro Montmorency. - Como Piers no demonstrasse qualquer objeo 
conversa, esperava que o marido deixasse claro que o arranjo no fora do seu agrado. En-
tretanto ele continuou em silncio. O que estaria pensando, calado dentro da escurido? Se ao
menos pudesse enxerg-lo...
         - Verdade? - Alan continuou interessado.  Mas voc mesma me disse que nunca
havia se encontrado com Piers antes. O que a levou a tomar uma deciso assim?
         Ser que aquele homem nunca ia parar com o interrogatrio? Por que seu marido
no interferia?
         - A reputao do baro  impressionante.
         - Ah! Quer dizer que voc ouviu falar sobre o desempenho dele nas guerras?


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         - Sim. - Cansada de tantas perguntas, Isadora decidiu que acabaria contando a
histria inteira, com todos os detalhes, se Piers no interviesse. Diria que fizera aquela escolha
insensata na esperana de ser recusada, que jamais passara pela sua cabea tornar-se esposa
do baro Montmorency.
         Alan sorriu para si mesmo. Com certeza havia mais nesta histria do que o casal
parecia disposto a contar.

         E como adoraria saber os detalhes! Conhecendo Piers h anos, ouvira todos os
rumores que envolviam a figura do Cavaleiro Vermelho, rumores que desencorajariam a
mais determinada das donzelas. Ainda assim a bela herdeira de Belvry escolhera o lorde de
Dunmurrow. Por qu?
         Somente uma mulher ,com inclinaes para a feitiaria, para a magia negra, buscaria
a companhia de um homem de quem se contavam horrores. Porm poderia jurar que a nova
castel possua um esprito puro, algum que preferia a luz s trevas.
         - Ento voc queria um guerreiro poderoso para proteger as suas propriedades?
         De repente Isadora se deu conta de que no valia a pena tanta aflio. Se Alan era
vassalo de Piers, devia saber, melhor do que ningum, como e o que o Cavaleiro Vermelho
era. Qualquer pessoa do reino conhecia os boatos que cercavam o lorde de Dunmurrow.
         - Eu o escolhi por causa da sua reputao  ela falou aparentando tranqilidade. - 
claro que voc j deve ter ouvido todas as histrias que se contam sobre o baro
Montmorency, ou ser que eu preciso coloc-lo
         a par dos rumores? Meu marido  chamado de Cavaleiro Vermelho devido  sua
associao com o diabo.
         Tambm  um poderoso feiticeiro, capaz de trazer a Dunmurrow os bruxos do mundo
todo a fim de aprender os seus segredos. Depois os descarta porque prefere conjurar sozinho.
 tambm alquimista, astrlogo e o responsvel direto por toda a sorte de mal-feitos. Na ver-
dade, pode-se culp-lo de tudo que assola o reino, desde cerveja estragada at doenas e
mortes. Com tantos poderes, ele deve ser o cavaleiro mais forte da terra, maior ainda do que o
prprio Edward. Voc no acha, Alan?
              O vassalo parecia, pela primeira vez, completamente perdido e, ao responder,
decidiu-se pela cautela.
              - Talvez as histrias que cercam o lorde de Dunmurrow sejam um tanto
exageradas. Todos sabem que os camponeses tm um gosto especial pelo sobrenatural.
         Isadora sorriu, satisfeita pelo embarao de Alan. Pelo menos conseguira virar o jogo.
         - Talvez, mas voc devia ter cuidado em no irritar meu marido, ou ele pode
transform-lo num sapo.  Ou ento mant-lo, para sempre, dentro dessa escurido, ela
pensou amarga. Qual punio seria pior? Determinada a no responder outras perguntas,
Isadora bebeu um pouco de vinho e procurou se concentrar no jantar.
         - No precisa se preocupar, minha lady. Tenho mais utilidade a Piers assim como sou.
Um sapo encontraria muitas dificuldades para obter o respeito dos soldados. Ningum
entenderia meu coaxar. Para no mencionar o fato de que seria impossvel achar uma
montaria adequada, imagino.
         A idia de uma criatura parecida com um sapo montada num cavalo deu-lhe vontade
de rir. Porm ao perceber que nenhum som vinha das sombras, o comentrio espirituoso
perdeu a graa. Piers no parecia partilhar o humor da piada. Talvez fosse melhor parar com
aquela conversa j. Embora no acreditasse que seu marido pudesse transformar o vassalo
num sapo, no tinha dvidas que o baro saberia encontrar outras maneiras de demonstrar
seu desagrado.
         E com certeza Montmorency estava bastante irritado. O lorde de Dunmurrow
permanecera imvel, uma presena sombria e ameaadora durante toda a refeio. Por um
curto espao de tempo os dois homens at chegaram a falar sobre a guerra travada contra os
galeses, porm quando o assunto foi abandonado, um silncio pesado caiu sobre o ambiente.


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Mesmo o entusiasmo natural de Alan perdeu o brilho e a graa.
        Finalmente, quando Isadora falou sobre a tarde passada ao ar livre, Piers no
demonstrou qualquer interesse sobre os aldees ou sobre as condies em que suas terras se
encontravam. Se alguma pergunta lhe era feita, respondia com monosslabos secos. At
quando ela agentaria ficar ali, sentindo todo o peso do mundo sobre as costas? Daria tudo
para estar em seu quarto agora. Sozinha.
         - Devo admitir que fiquei surpreso com as mudanas que sua lady fez em
Dunmurrow. Nunca pensei que o velho salo principal pudesse parecer to aconchegante. E
desta vez no vou nem queixar da comida.
         - Minha esposa  bem qualificada para a posio que ocupa, no , Alan? - Piers
indagou num tom estranho.
         -  sim, meu lorde. Voc teve muita sorte.
         Isadora corou e empurrou o prato para o lado. De alguma maneira no conseguia
acreditar que o Cavaleiro Vermelho partilhasse a mesma opinio do vassalo. Porm as
palavras do marido pegaram-na de surpresa.
         - Sim - Piers concordou. - Ela  meu presente de Natal, um prmio que eu no
procurei, mas ainda assim, muito valorizado.
         Montmorency s devia estar concordando com Alan por uma questo de cortesia, ela
decidiu. Afinal o baro odiara a interveno de Edward. Oh, Deus, s queria ir para seu
quarto. No suportava mais aquele jogo de indiretas e sentimentos ocultos.
         Entretanto tinha mesmo coragem de culpar Piers por tanta amargura? Afinal no
fora ele quem procurara uma esposa. Ela sim, o obrigara a aceitar uma situao j definida.
         De repente Isadora se deu conta de que a vida em Dunmurrow no passava de uma
farsa. E o que mais doa, o que mais feria seu orgulho, era a rejeio e a indiferena do
Cavaleiro Vermelho.
         No, aquele tipo de pensamento no servia para nada, apenas para lhe dar indigesto.
Preocupar-se com o que Piers dizia ou fazia era uma grande tolice. Afinal no fora ela mesma
quem erguera uma barreira ao redor do corao anos atrs, para se proteger das palavras
duras de seu pai e irmos? Cerrando as mos em punho, Isadora abriu a boca para pedir
licena e se retirar. Porm no foi rpida o suficiente.
         - Ouvi dizer que a sua voz  ainda mais bela do que a de um pssaro, minha lady.
Ser que poderamos ser brindados com uma amostra de seu talento? - Alan pediu.
         A ltima coisa que ela queria fazer no momento era cantar diante desses dois homens
como um animalzinho ensinado. Na verdade sentia-se irritada e desgostosa com ambos... e
com a espcie masculina em geral. Antes que pudesse formular uma desculpa educada, seu
marido veio em seu auxlio.
         - No esta noite. Vou me retirar cedo - Piers anunciou.- Voc deve estar cansado
tambm, Alan. Foi um longo dia.
         - Sim,  verdade. - Compreendendo a sutileza do comentrio, o vassalo levantou-se
imediatamente e se preparou para sair. Isadora quase fez o mesmo at perceber que no seria
sensato deixar os aposentos do marido na companhia do outro. - Foi um prazer, minha lady. E
mais uma vez, dou-lhe os parabns, meu lorde.
         Piers murmurou qualquer coisa ininteligvel em resposta. Embora notasse uma certa
animosidade entre os homens, no conseguia entender o motivo e nem a maneira como ela
prpria poderia ter contribudo para isso.
         Sabia apenas que precisava escapar da atmosfera sufocante daqueles aposentos.
Contendo a ansiedade, continuou sentada e imvel at ouvir a porta se fechar atrs de Alan.
Ento levantou-se. A voz de Piers, profunda e suave, surpreendeu-a.
         - Isadora?
         - Sim? - No era possvel que o baro pretendesse obrig-la a ouvir um sermo sobre
a tarde passada nu companhia do vassalo! Apesar de ter a conscincia tranqila, pois nada
fizera de errado, sentia-se esgotada demais para discutir. S queria que aquele dia terminasse.

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         S queria dormir e esquecer.
         - No deixe nenhuma vela acesa em seu quarto e mantenha as cortinas da cama bem
fechadas. Irei procur-la esta noite, minha esposa.
         Isadora quase perdeu o equilbrio, atordoada por sensaes estranhas em que se
misturavam surpresa e um pouco de medo. Ela fitou a escurido intensamente, tentando
enxerg-lo atravs das sombras. Porm seu esforo foi em vo. Nervosa, passou a lngua pelos
lbios secos antes de dar a nica resposta possvel.
         - Sim, meu lorde.
         Com o corao aos pulos, chegou at a porta que Cecil mantinha aberta esperando-a,
mas dispensou a companhia do criado com um gesto de mo e preferiu atravessar os
corredores sozinha. Precisava de tempo para pensar, para dominar as emoes
desencontradas que sufocavam lhe o peito.
         O medo era at fcil de entender e controlar porque no acreditava que o marido
fosse um tipo bestial, inumano. Tinha quase certeza absoluta que Piers sofrera alguma espcie
de desfigurao que o forava a viver nas trevas para se ocultar de olhares apavorados ou pie-
dosos. Embora a idia de dormir com algum assim lhe causasse apreenso, o pavor era de
longe superado pela excitao estranha que palpitava em seu ventre. Ento ele no a estava
rejeitando e essa crena era suficiente para faz-la sentir-se nas alturas. O. que servia para
confundi-Ia ainda mais.
         Cecil estava em seu quarto, preparando os aposentos para a noite, e Isadora mandou-
o retirar-se. Depois sentou-se na cama, satisfeita que Edith no iria passar a noite ali. As duas
haviam desenvolvido uma rotina que lhe permitia saborear a privacidade total depois do jan-
tar. At agora fora um tempo dedicado  leitura ou ao planejamento das atividades do dia
seguinte. No lhe passara pela cabea, no desde a primeira noite sob o teto de Dunmurrow,
que essas horas poderiam ser usadas para o propsito bvio. Contudo, hoje  noite, cumpriria
o destino reservado s mulheres casadas...
         De sbito foi tomada por um acesso de pnico, como se o Cavaleiro Vermelho pudesse
chegar a qualquer momento.
         "No deixe nenhuma vela acesa", ele dissera. Isadora olhou ao redor, procurando
algum ponto de iluminao.
         Imediatamente reparou que todos os castiais haviam sido removidos. Por um louco
instante perguntou-se se Piers tinha conseguido faz-los desaparecer num passe de mgica.
Ento lembrou-se de Cecil, que em geral no costumava ir ao seu quarto quela hora da noite.
Claro que o criado levara todos os castiais consigo.
         Isadora suspirou aliviada. Porm seu alvio no durou mais do que alguns poucos
segundos ao pensar que ao sair dos aposentos do marido deixara Cecil parado junto a porta.
Entretanto fora encontr-lo dentro de seu quarto! Ela estremeceu violentamente, um arrepio
de pavor percorrendo-a de alto a baixo. Cecil no poderia estar em dois lugares ao mesmo
tempo. Nenhum ser humano seria capaz de realizar tal feito... a menos que fosse uma questo
de bruxaria.
         A menos que se tratasse de um demnio. Todas as histrias de Edith voltaram  sua
mente com uma preciso de detalhes apavorantes. Angustiada, Isadora cerrou as mos nas
beiradas da cama com tanta fora que os ndulos dos dedos ficaram brancos e doloridos. Oh,
Deus, por que hoje, dentre todas as noites, precisara enfrentar essa revelao monstruosa?
Hoje, dentre todas as noites, quando aguardava a chegada iminente do Cavaleiro Vermelho
em pessoa? Seu marido, o homem que decidira fazer valer seus direitos de esposo...
         Gemendo baixinho, ela encostou a cabea no travesseiro sem saber o que fazer ou
onde encontrar conforto para o tumulto interior que ameaava partir sua alma em pedaos.
No havia ningum a quem recorrer, ningum com quem se aconselhar. Podia contar apenas
consigo mesma.
         Um rudo do lado de fora do quarto obrigou-a a sair daquele estado de estupor e pela
primeira vez, desde o dia de seu casamento, Isadora teve medo do que poderia descobrir caso


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enxergasse o marido  luz do dia. Talvez a ignorncia fosse melhor e as trevas a protegessem
de uma verdade a qual no estava preparada para enfrentar. Rapidamente, desvencilhou-se
das roupas e meteu-se sob os lenis, trmula e assustada.
         E naquela escurido absoluta, em que no se enxergava sequer um palmo adiante do
nariz, aguardou que seu destino se cumprisse.


        CAPITULO OITO

         Isadora aguardou, agarrando-se s cobertas como se pudesse manter afastado o
Cavaleiro Vermelho e sua magia. Sempre se considerara uma mulher sensata, atenta  lgica
dos fatos. Jamais procurara cartomantes ou implorara poes mgicas s aldes tidas como
sbias na arte de lidar com as ervas e com o desconhecido. Tambm nunca acreditara que os
rumores envolvendo o Cavaleiro Vermelho pudessem ser verdadeiros. Contudo no havia
como negar que Cecil estivera em dois lugares ao mesmo tempo. Por mais que se esforasse,
no conseguia pensar numa explicao razovel e as outras eram apavorantes demais para
serem levadas em considerao. No suportaria imaginar que as histrias horrveis de Edith
fossem baseadas em fatos reais.
         O som da prpria respirao, rpida e ofegante, era to alto que no o ouviu chegar
nem afastar as cortinas ao redor da cama. Ao sentir um corpo deitar-se ao seu lado, uma pele
nua roando a sua, foi tomada de intenso pavor.
         - Voc est com medo, esposa? - A voz seca e controlada do marido lhe trouxe um
certo alvio. Afinal era apenas Piers, no um demnio soltando fogo pelas ventas, com cascos
em lugar dos ps e garras nas mos. Sempre gostara do som daquela voz e da maneira como
os lbios masculinos se fechavam sobre os seus num beijo demorado...Nunca experimentara
um medo real, nunca levara realmente em considerao os boatos que o cercavam. Se ao
menos... Queria contar sobre Cecil, perguntar sobre os aparecimentos misteriosos do criado,
mas sua lngua parecia grudada no cu da boca. No fundo, temia as respostas que o baro
pudesse lhe dar...
         - Isadora, Isadora, minha esposa... - Piers murmurou com tanta ternura que tocou-
lhe a alma. - Me diga agora, voc tem medo de mim?
         - No - ela respondeu, certa de que aquela era a pura verdade.
         - Foi o que pensei ou de outra forma eu no teria vindo ao seu encontro.
         Nervosa, ela passou a lngua pelos lbios, querendo enxerg-lo apesar da escurido
profunda. Porm nada conseguia ver.
         - Por que... por que voc veio ao meu encontro?
         - Descobri que sou muito ciumento, esposa, ao saber que voc parecia ansiosa pela
companhia de meu vassalo. - Havia um pouco de raiva, desespero e desejo contidos na
explicao.
         Sem que conseguisse entender bem por que, Isadora sentiu-se relaxar. Horas antes
ficara furiosa com a mera sugesto de que passara tempo demais ao lado de Alan, pois eram
inaceitveis quaisquer insinuaes de que seria capaz de enganar o marido e se portar como
uma criatura vulgar, sem um pingo de dignidade. Porm agora, em vez de raiva,
experimentava uma emoo muito diferente, uma sensao estranha e ardente. O Cavaleiro
Vermelho com cimes? Mal podia acreditar. Contudo, mesmo duvidando, achou melhor
tranqiliz-lo para evitar futuros aborrecimentos.
         - Meu lorde, sou uma mulher honrada. Eu jamais...
         - timo. - Piers roou o rosto delicado com as pontas dos dedos e aproximou-se,
deixando-a trmula de expectativas. - Fico feliz ao ouvi-la dizer isso, mas acho que est na
hora de torn-la minha mulher de verdade. Est na hora de deixarmos claro que voc
pertence a mim, e a ningum mais. No foi culpa minha que voc me escolheu - a voz
masculina soava baixa e sria -, entretanto  um fato que no pode ser mudado. Guarde bem o


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que vou lhe dizer: costumo sempre manter o que  meu.
         No foi difcil entender a ameaa implcita. Piers mataria qualquer homem que
tentasse tomar o seu lugar, e talvez a ela tambm. Ele tinha poder para tal. Mesmo agora, se
quisesse mat-la, no havia nada que pudesse fazer para impedi-lo.
         Ainda assim estava longe de sentir-se apavorada porque nunca desejara outro, a no
ser o marido. Seu desejo era to grande que sentia-se amolecida por dentro. - O que havia
naquele homem que a afetava tanto? Seria a voz profunda, a fora fsica, o mistrio que o
cercava? As lendas que corriam o reino de norte a sul? As prprias sombras o que a atraam
tanto?
         De repente o mundo pareceu cessar de existir. Restavam apenas ela e Piers, juntos, no
meio da total escurido. Exceto o calor do corpo masculino ao lado do seu, pulsando de
promessas, tudo o mais perdera o significado.
         Os planos de anular o casamento se dissolveram no ar como fumaa. No tinha
importncia. Eram uma grande tolice mesmo. Descobria-se agora ansiando por coisas que
jamais pensara desejar. Coisas que lhe pareciam extremamente sedutoras... e estavam dentro
de seu alcance.
         Bastava estender as mos.
         E foi o que ela fez.
         Inspirando fundo, Isadora roou o rosto no brao do marido, numa carcia leve e
suave. Queria dizer alguma coisa, embora no soubesse bem o qu. Mas a vontade de falar
desapareceu ao sentir os dedos dele tocarem-na nos olhos, no nariz, nos lbios, numa
explorao gentil e delicada. Uma sensao inebriante comeou a se espalhar em suas veias,
arrastando-a num turbilho delicioso.
         Num movimento sbito, Piers atirou os lenis que os cobriam para o cho, levando-a
a imaginar se a dor sobre a qual Edith lhe falara era iminente. No mesmo instante ficou tensa,
aguardando o pior. Porm em vez de assust-la, Montmorency simplesmente tomou alguns
fios dourados entre os dedos e alisou-os devagar.
         - Cabelos lindos, perfumados... - ele sussurrou antes de deixar a mecha cair sobre os
seios nus da mulher, fazendo-a estremecer.
         Ento Piers a beijou com uma ternura to grande que Isadora s conseguia desejar
mais e mais. Hesitante, tocou-o no rosto com as pontas dos dedos. A pele macia mostrava
ligeira aspereza na regio dos maxilares. O marido devia ter feito a barba recentemente,
pensou entreabrindo os lbios. Logo depois perdia a capacidade de raciocinar com clareza. Ao
sentir a lngua vida explorar o interior da sua boca, Isadora gemeu alto, maravilhada com as
sensaes que a percorriam de alto a baixo. Percebendo a intensidade da resposta feminina,
Piers aumentou a presso do beijo, suas lnguas se contorcendo uma de encontro a outra num
frenesi desesperado. Isadora tinha a impresso de estar  beira de um desmaio.
         Sem que conseguisse evitar o impulso, deslizou as mos sobre os ombros largos,
apreciando a firmeza dos msculos bem torneados. Ele era quente e agradvel ao toque.
Excitada, continuou a acarici-lo nas costas e nos ombros, apreciando cada centmetro
daquele corpo atltico e viril.
         De repente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, Piers pousou a mo sobre
um de seus seios. Surpresa com o gesto, Isadora deixou escapar um rudo de intenso prazer.

         - Voc  linda - ele murmurou carinhoso. - Pequena, mas de formas perfeitas. -
Enquanto falava, Montmorency esfregava os mamilos rosados com habilidade, quase fazendo-
a perder a cabea.
         Ele a beijou na boca outra vez. Foi um beijo ardente, profundo e breve. Ao senti-lo se
afastar, Isadora experimentou um vazio terrvel, um vazio que durou apenas alguns segundos,
at os lbios masculinos se fecharem ao redor de seu mamilo intumescido.
         Imediatamente ela arqueou as costas, entregando-se  carcia num abandono total.
Reagindo de maneira instintiva, puxou-o pelos cabelos, ansiosa para estreitar o contato. Piers


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correspondeu, sugando ainda com mais fora e segurando-a pelas ndegas com firmeza.
         Depois, bem devagar, deslizou os lbios sobre o estmago aveludado e ao redor do
umbigo da esposa, aspirando o perfume daquele corpo sedutor.
         - Abra suas pernas para mim - pediu num tom rouco e sensual.
         Sem vacilar um segundo, Isadora fez o que lhe foi pedido, embora um incio de pnico
comeasse a domin-la. Ser que o marido era mesmo feiticeiro? Ser que estava presa de um
encantamento e por isso o obedecia sem oferecer qualquer resistncia? Mal se reconhecia na-
quela mulher impetuosa e desenvolta.
               - Piers - ela sussurrou, a voz carregada de paixo. - Por acaso voc... me
enfeitiou?
         Por um instante ele ficou tenso e pareceu fit-la fixamente dentro da escurido, como
se pudesse desvendar-lhe a alma.
         - No lancei nenhum feitio sobre voc, esposa, a no ser aquele que  to antigo e
eterno como o tempo... a atrao entre um homem e uma mulher. No tenho necessidade de
encantamentos ou bruxarias para mim ou para voc... Porque ns faremos nossa prpria
mgica esta noite.
         Isadora sentiu os lbios firmes tocarem-na na parte interna das coxas antes de
procurarem... o ponto escondido da sua feminilidade. Maravilhada, ela suspirou fundo, at
que os suspiros foram se transformando em gemidos de prazer. Gemidos descontrolados e
ofegantes.
         Simplesmente no conseguia acreditar no que estava acontecendo. Pela primeira vez
sentia-se grata pela completa escurido. Assim poupava-se o embarao de ver a si mesma com
os joelhos flexionados e as pernas abertas... enquanto o Cavaleiro Vermelho a beijava
daquela, maneira ntima e ousada com sofreguido. O impressionante  que no sentia a
menor vergonha, apenas desejava mais. Mais...
         S foi perceber que falara alto quando o marido respondeu.
         - Mais? Sim, Isadora, voc ter muito mais  ele sussurrou, movendo-se sobre ela
cuidadosamente. - Desde o momento em que nos casamos, mal tenho conseguido pensar em
outra coisa a no ser em possu-la, esposa.
         - Montmorency falava com dificuldade, a respirao acelerada, o corpo sob rigoroso
controle.
         Por acaso voc tem idia de como as nossas refeies juntos eram um verdadeiro
tormento para mim? Sim, eu precisava comer, mas minha fome no podia ser saciada com
alimentos. Meu apetite era outro... - Piers alojou a cabea do pnis na entrada mida e
escorregadia, aguardando o momento de penetr-la. - Sabia que toda noite, quando nos
sentvamos  mesa, eu s queria jogar tudo para o lado e carreg-la direto para a cama, ou
possu-la no cho mesmo, diante do fogo?
         Ao ouvir aquelas palavras, vibrantes de paixo, sentiu-se excitada alm do suportvel.
Tudo no mundo deixara de importar, a no ser a ponta rgida do membro masculino roando
a parte mais sensvel de seu ser, como se implorando para ser recebida.
         - Quero me enterrar dentro do seu corpo...
         Porm Isadora j quase no podia ouvi-lo. Louca de desejo, cravou as unhas nas
costas largas e ergueu os quadris, procurando alvio para o ardor que queimava suas
entranhas como ferro em brasa.
         Perdida num emaranhado de sensaes poderosas e desconhecidas, mal percebeu
quando o marido comeou a penetr-la.
         - Posso sentir o seu prazer - Piers murmurou num tom tenso e sensual, arrepiando-a
da cabea aos ps. - Posso sentir sua barreira tambm,- e saber que, de fato, ningum nunca a
tocou, minha esposa. Saiba agora que voc  minha, apenas minha - ele completou com uma
pontada de triunfo.
         Ento Montmorency se enterrou dentro da esposa numa investida nica e profunda,
deixando a quentura macia absorver o impacto da masculinidade intumescida. Isadora cerrou


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os dentes, tentando conter um grito de dor enquanto, numa reao instintiva, procurava se
afastar do marido para aliviar a ardncia e o desconforto entre as pernas. Porm Piers a
segurou pelos quadris com firmeza, impedindo-a de mover-se. Lentamente, repetiu as
investidas num ritmo crescente, rpido e impetuoso, at que, gemendo alto de prazer,
derramou a semente da vida at a ltima gota.
         Por um momento Isadora conseguiu apenas prestar ateno  dor, mas depois outros
detalhes ganharam importncia. O peso de Piers, surpreendentemente reconfortante sobre o
seu prprio corpo; a camada fina de suor que cobria os braos e as costas musculosas; mechas
dos cabelos dele roando a sua tmpora, a respirao baixa, ofegante, e estranhamente
vulnervel do Cavaleiro Vermelho. Estar deitada e abraada ao marido lhe despertavam
sentimentos que iam alm da dor e do prazer... Sentimentos que no conseguia definir e que a
emocionavam de uma maneira misteriosa e intensa.
         Tomando o rosto de Piers entre as mos, ela o acariciou na testa, nos olhos, no
pescoo. Ento comeou a beij-lo com delicadeza no queixo e ao redor da boca at que os
lbios de ambos se encontraram, suavemente a princpio, depois cheios de sofreguido.
Surpresa, Isadora sentiu uma presso insistente dentro de si e percebeu que o pnis estava de
novo ereto.
         Desta vez no houve necessidade de palavras. Protegidas pela escurido, mos e bocas
se procuravam com avidez, explorando msculos firmes e curvas macias, aspirando suor e
aromas secretos. Isadora ergueu as pernas e cruzou-as ao redor da cintura de Montmorency,
para que nada ficasse entre os dois a no ser essa coisa intangvel e indescritvel, capaz de ir
alm do prazer obtido por seus corpos. Essa coisa que os envolvia como um manto vivo e
protetor, capaz de faz-los experimentar o gosto da eternidade.
         Se Isadora soubesse distinguir a verdade, teria chamado isso de amor.
         Ao acordar, sua primeira reao foi de que tivera um sonho confuso e perturbador.
Ela estremeceu, sentindo um frio repentino apesar dos lenis que a cobriam. Ento inspirou
o perfume do quarto, impregnado de odores sensuais, e se deu conta do ardor entre as pernas.
Hesitante, tocou os lbios inchados com a mo trmula.
         - Piers? - chamou dentro da escurido.
         Mas no havia nada nem ningum no meio das sombras. Apenas uma quietude
extrema.
         Cautelosa, levantou-se, vestiu um robe e aproximou-se da lareira onde o fogo estava
quase extinto. Depois de reavivar as cinzas, sentou-se no sof, o pensamento voando longe, o
corao batendo descompassado no peito, o sangue latejando dentro das veias.
         Com os olhos fixos no crepitar das chamas, Isadora se deu conta de que j no havia
como voltar atrs. A sorte estava lanada. Jamais teria coragem de requerer a anulao do
casamento porque no tinha a menor vontade de separar-se do marido. No comeo Piers a
atrara de uma maneira misteriosa, porm agora, as coisas haviam tomado um rumo
inesperado e ele ganhara uma dimenso muito maior.
         O modo como haviam feito amor superara seus mais loucos sonhos. Surpreendia-se
consigo mesma por ter sido capaz de expor-se com tanta sensualidade e ousadia. Apesar de
um certo embarao por sua prpria falta de pudor, sabia que no vacilaria um segundo antes
de repetir o ritual ertico outra vez... e outra vez... at que enfim se sentisse saciada. Tambm
no podia jogar a culpa sobre os ombros do marido, acusando-o de t-la enfeitiado. A
verdade  que o desejava com uma paixo que beirava ao desatino. Queria que ele ainda
estivesse ali, na sua cama, ao alcance das suas mos. Ento o beijaria nos lbios e tocaria cada
centmetro do corpo forte e viril de guerreiro at...
         O corpo de Piers! Isadora inspirou fundo ao pensar que seu marido era fisicamente
perfeito. No percebera qualquer desfigurao que pudesse justificar aquela preferncia pelas
sombras. Ao acarici-lo no rosto com as pontas dos dedos tambm no descobrira sinais de
ferimentos, queimaduras ou mesmo de pequenas imperfeies, a no ser uma cicatriz na
altura de um dos olhos. Entretanto era uma marca to minscula que no levaria nem o mais


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vaidoso dos homens a se esconder do mundo.       .
         Ela estremeceu, sem saber se a concluso lhe trazia alvio ou desaponto. Se seu
marido era perfeito, qual a razo de viver trancado numa escurido eterna? No gostava
sequer de cogitar as teorias apavorantes de Edith. Devia haver alguma coisa que lhe passara
despercebida, alguma coisa que no conseguira notar no auge da paixo.
         E o que pensar de Cecil, o servo, que parecia atravessar paredes como fumaa,
movendo-se como um espectro a mando do senhor? Perdida no prazer sensual, acabara se
esquecendo de que o criado estivera em dois lugares ao mesmo tempo. Por mais que se
esforasse, no conseguia encontrar uma explicao lgica para as suas dvidas. Oh, Deus, e
se o marido fosse um feiticeiro de fato? Talvez os sentimentos estranhos que a abalavam no
passassem do resultado de algum tipo de bruxaria. Talvez no fosse dona de si mesma nem
responsvel por suas aes.
         A lembrana da visita de Piers ao seu quarto continuou assombrando-a durante todo
o dia, certos detalhes picantes fazendo-a enrubescer nos momentos mais inesperados. Ainda
bem que no vira Alan ou acharia difcil encar-lo porque a mudana que lhe ocorrera devia
estar estampada na sua face. Tambm no ficara surpresa quando Cecil a informara de que o
cavaleiro partira de manh cedo; Piers encontrara uma maneira de deixar claro seu cime e
tomara uma atitude concreta para cortar o mal pela raiz. Entretanto no achava certo que o
marido punisse o vassalo sem motivo e pretendia dizer lhe isso assim que se encontrassem.
         O aparecimento do servo acabou por lhe desviar a ateno para problemas mais
imediatos.
         - Por acaso voc retirou as velas do meu quarto ontem  noite?
         O homem no hesitou um segundo antes de responder.
         - Sim, minha lady. Estava cumprindo ordens de meu lorde.
         - Mas... - Isadora passou a lngua rapidamente pelos lbios ressecados, uma sensao
angustiante no peito.
         - Pode ir agora - murmurou, esforando-se para manter as emoes sob controle.
Cecil fez um breve aceno com a cabea e afastou-se depressa.
         Atormentada, no conseguia evitar as suspeitas que cercavam seu marido. Porm,
bastava se lembrar do que acontecera na noite anterior para todas as preocupaes perderem
a importncia e se dissolverem ao sabor do vento. A verdade  que seu corpo latejava de
desejo, ansiava pelas carcias de Piers, apesar do medo... apesar de tudo.
         Impaciente, colocou uma capa pesada e saiu do castelo.
         Precisava respirar um pouco de ar puro. Quem sabe assim no conseguiria colocar os
pensamentos em ordem? Mas apesar de seu empenho, continuou confusa. Seus olhos, como se
tivessem vontade prpria, procuravam sempre a torre onde o Cavaleiro Vermelho
permanecia envolto pela escurido absoluta. Fosse por feitiaria ou por um outro motivo
qualquer, desejava o marido desesperadamente.
         Contudo, Montmorency no requisitou sua presena na hora do almoo e ela comeu
no salo principal, na companhia de Edith. S esperava que a velha criada no percebesse seu
estado de confuso interior e nem como seu corpo de mulher ganhara novos contornos. Porm
o que a Incomodava de fato era que seu marido ainda no a procurara depois do que haviam
partilhado juntos.
         Ento lembrou-se do que ele dissera, sobre como as refeies a dois acabavam
transformando-se num terrvel suplcio. , talvez fosse melhor no se verem durante algum
tempo. O problema  que no podia evitar o desejo insistente que dava a impresso de vi-la-
pelo avesso. Ainda bem que Edith estava ocupada demais para notar o rubor de seu rosto e a
sua crescente inquietude.
         - E quem lhe deu permisso para jantar na minha companhia? - a criada perguntou a
um homem baixo e atarracado, sentado do outro lado da mesa.

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         Apesar do tom pouco amigvel, o soldado sorriu, as feies simpticas demonstrando
um enorme bom humor. Seria timo se Edith pudesse assimilar aquele estado de esprito,
Isadora pensou suspirando. Quem sabe assim no poria um fim nas histrias irritantes
envolvendo feitios e bruxos.
         - Alan Clinton me deu permisso, senhora. Tambm me mandou ficar ao seu lado dia
e noite.  o que estou fazendo. Obedecendo ordens de meu superior.
         Ento tratava-se do famoso Willie, o guarda-costas que o vassalo designara para
acompanhar Edith as vinte quatro horas do dia. O problema  que os dois pareciam to
diferentes quanto a gua do vinho. Como poderiam se entender?
         - Oh,  mesmo? - a serva indagou irnica.   melhor ter cuidado com as palavras e
com a maneira como se dirige a mim, meu senhor, ou ser posto desta porta para fora, esteja
certo. No sou de brincadeira.
         - No me venha com essa histria, quando voc sabe perfeitamente o quanto sentiria
minha falta, em especial durante as longas noites frias de inverno...
         Isadora ficou atenta, certa de que Edith passaria um sermo furioso no atrevido.
Porm a resposta da criada no passou de um resmungo pouco entusiasmado.
         - Como se voc pudesse me proteger. Quase sequer tem carne sobre esses velhos ossos.
         Willie recostou-se na cadeira, sorrindo de uma orelha  outra e parecendo muito 
vontade com o desenrolar do dilogo.
         - , mas tenho carne suficiente onde interessa, no , Edithzinha?
         - No vou ficar aqui parada, ouvindo essa conversa indecente. Especialmente na
presena da minha lady.
         Isadora retribuiu o sorriso do soldado. Os cabelos brancos do homem deixavam claro
que ele j havia passado da idade de se preocupar com o efeito que suas palavras pudessem
ter sobre terceiros.
         - Minha lady tem o jeito de uma mulher bem amada - respondeu Willie. - O que no 
de se estranhar, considerando o tamanho do marido. No creio que ela ficar ofendida com a
troca de algumas palavras entre voc e eu. - Enquanto Isadora tentava no corar ao ouvir o
comentrio, a criada levantou-se decidida. - Espere, ainda no terminei minha refeio -
Willie protestou.
         - Voc tanto pode ir como ficar, porque no me importo a mnima.
         Terminando de engolir um bocado generoso de comida e agarrando um pedao de
po com as mos, o soldado saiu quase correndo atrs de Edith, como um cachorrinho
seguindo o dono.
         Fascinada, Isadora observou o casal se afastar. Edith parecia caminhar de maneira
diferente, um ondular suave nos quadris. Desde a morte do marido, ela jamais se envolvera
com homem nenhum. Ser que aquela implicncia com o soldado no passava de encenao,
uma fachada para disfarar sentimentos mais profundos? Seria timo, um verdadeiro alvio.
Talvez com alguma coisa, ou algum, para mant-la ocupada, finalmente acabaria aceitando a
nova vida em Dunmurrow.
         A idia a fez pensar na sua prpria mudana de atitude. Depois da noite anterior j
no podia considerar o castelo como uma residncia temporria. Estava ali para ficar. Os
planos para anular o casamento esquecidos no calor dos braos do marido.
         A verdade  que desejava assumir a posio de esposa de Piers em todos os sentidos,
de todas as maneiras possveis, mesmo sabendo que a relao dos dois provavelmente nunca
seria tranqila e relaxada. Suspeitava que Montmorency jamais se sentaria ao seu lado na
mesa do salo principal ou a acompanharia em passeios pelos arredores. .
         O Cavaleiro Vermelho continuava envolto numa teia de mistrios, talvez agora mais
do que antes, e apesar da paixo que os unia, Isadora sentia-se inquieta no que dizia respeito
ao marido. De vrios modos ele continuava sendo um completo estranho.
         Embora Isadora tivesse passado a tarde inteira entretida com inmeras tarefas, seus
pensamentos continuavam voltando para Piers e o jantar que deveriam partilhar  noite. Por


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mais que se esforasse, no conseguia banir a viso do marido amando-a na escurido do
quarto.
          Como algo proibido se torna sempre mais desejado, gostava de imaginar aquele corpo
musculoso sobre o seu, aquela boca quente e vida de encontro  sua pele nua, aquelas mos
experientes provocando-a de uma maneira ousada e sensual...
          - Boa noite - ela falou entrando nos aposentos principais, a voz trmula de emoo
apesar do esforo para manter a calma.
          - Esposa - ele respondeu simplesmente, com um breve aceno de cabea.
          O tom seco de Piers deixou-a atnita. No esperava tanta indiferena depois da
intimidade que haviam desfrutado juntos. Ser que seria sempre assim? Encontrarem-se
apenas durante as refeies sem que nada demonstrasse a mudana ocorrida no
relacionamento de ambos? Ou talvez no houvesse ocorrido mudana alguma. A noite
anterior poderia no ter representado nada
          para Piers, exceto o desempenho de um dever para torn-la sua esposa de fato.
          Perturbada com a possibilidade, Isadora comeu em silncio. Entretanto a cada vez
que seus dentes se fechavam sobre uma fatia de carne no conseguia pensar em mais nada a
no ser nas mordidas delicadas que o marido espalhara sobre seu corpo nu. Ainda bem que a
escurido do quarto impedia Montmorency de notar o seu rubor...
          - Voc est quieta hoje - Piers falou de repente. - Alguma coisa errada?
          Ela permaneceu imvel durante alguns segundos, considerando qual resposta deveria
dar. Mesmo que a questo envolvendo o aparecimento de Cecil em dois lugares ao mesmo
tempo a tivesse atormentado o dia todo, no ousava expor as dvidas em voz alta. Temia
despertara ira do Cavaleiro Vermelho e as explicaes que ele poderia lhe dar. s vezes a
ignorncia dos fatos acaba nos protegendo de um mal maior. Tambm no tinha coragem de
falar sobre as sombras eternas que pairavam sobre os aposentos principais muito menos sobre
o desejo incessante que sentia pelo marido.
          - No h nada de errado comigo, meu lorde.
          Piers resmungou qualquer coisa e os dois continuaram comendo em silncio. Isadora
procurava desesperadamente um sinal de que aquela figura distante e impessoal do outro lado
da mesa fosse o amante ardente e carinhoso que a procurara na noite anterior.
          - Espero que voc no esteja esperando por Alan.
          - No - ela retrucou cautelosa. - Cecil me disse que o vassalo partiu esta manh bem
cedo... - Silncio. - Voc acha justo mand-lo embora to depressa... .especialmente quando o
Natal se aproxima?
          - Ento voc j sente falta dele? - A voz de Montmorency soava baixa e ameaadora,
fazendo-a pensar nos boatos que o cercavam. O Cavaleiro Vermelho era famoso por sua
selvageria nas batalhas e pela fora fsica extraordinria. As mesmas mos que a tinham
acariciado poderiam faz-la parar de respirar com facilidade...
          - Sinto falta da companhia, no do homem.
          A reao de Piers, um resmungo entre os dentes, deixou claro que ele continuava com
cimes do vassalo. Isadora sorriu satisfeita. Talvez, no final da contas, ontem  noite no fora
apenas uma questo de cumprir o dever marital. Talvez o marido a desejasse agora, tanto
quanto ela o desejava... Me possua, pensou apaixonada. Me possua neste instante, sobre o
tapete, sobre a mesa, em qualquer lugar... Bem que tentou dizer as palavras em voz. alta,
porm faltou-lhe coragem.                               .
          - Voc j no tem companhia... suficiente? No bastam Edith, Cecil e os novos servos
trazidos da aldeia? Sem contar os aldees que pretende conquistar com a simpatia de castel
nata. Meu salo principal j no tem um movimento adequado? Para que mais gente espa-
lhando-se pelos corredores?
          - Sim - Isadora respondeu baixinho, sabendo que a presena de nenhuma daquelas
pessoas poderia satisfaz-la. Era a companhia do marido que desejava, era a ateno dele que
procurava. A idia lhe parecia at absurda porque sempre fora um tipo independente, capaz

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de apreciar a solido e jamais precisara de algum Mas no  a mesma coisa - retrucou afinal.
 E podem discutir assuntos variados, nem sabem ler ou jogar xadrez. Tampouco sabem
caar...
         Somente depois de terminar de falar foi que Isadora se deu conta do que dissera.
Muitas daquelas atividades exigiam luz, portanto Piers no podia realiz-las enquanto
permanecesse trancado na escurido. Sem que tivesse inteno de mago-lo, acabara
colocando o Cavaleiro Vermelho na mesma categoria dos ignorantes ou aldees sem
instruo. Ansiosa para corrigir o erro antes que o marido explodisse num acesso de fria,
apressou-se completar conciliatria:
         - Talvez voc pudesse sair comigo um dia desses.
         -No!
         - Por que no? - ela implorou suspirando. - Porque devemos sempre nos encontrar
cercados pelas sombras? Eu sei que voc no  o demnio que se esfora para fazer os outros
acreditarem que .
         - Tem certeza disso? - A voz dura de Piers trazia uma ameaa embutida. Trmula,
Isadora levantou-se, disposta a sair dali. - Onde voc vai? - ele indagou secamente.
         - Quando voc tenta me irritar ou amedrontar perco toda a vontade de permanecer
na sua companhia ela respondeu altiva, erguendo a cabea num gesto de desafio.
         - Talvez voc deseje a companhia de outro?
         - Talvez se eu o visse mais, no me sentiria to sozinha, meu marido! - Isadora falou
entre os dentes.
         - Voc sente a minha falta tanto assim?
         Apesar de perceber a ironia e o deboche da pergunta, deixou os sentimentos virem 
tona.
         - Sim. E se voc prestasse mesmo ateno em mim, saberia o quanto isto  verdade.
Foi um prazer ontem, poder passear por suas terras, poder apreciar os arredores de
Dunmurrow. Por que no podemos cavalgar juntos? Eu gostaria de lhe mostrar os planos que
andei fazendo para a leiteria. A floresta  linda e tem uma cascata bem no meio das...
               - Chega - Piers cortou-a decidido. - No me fale sobre o que no pode ser, no
me fale sobre o impossvel.
         - Mas por qu? Por qu? - Isadora insistiu exasperada. - Sou sua esposa! Ser que
voc no pode me explicar que motivo  esse que o mantm na escurido?
         - Minha esposa! Uma donzela arrogante, sobre quem eu nunca havia posto os olhos
antes, invade meu castelo e exige que sua despose do dia para a noite! E voc quer que eu
confie nela? - Ele riu, o som breve destitudo de humor. Havia apenas uma enorme amargura.
         Isadora permaneceu imvel alguns segundos, atordoada pelo sarcasmo capaz de feri-
la com a frieza do ao. Como  que pudera pensar que o amava? Tinha dio de si mesma por
imaginar tamanho absurdo.
         Agarrando-se a um resto de orgulho, cruzou os aposentos com passadas largas e saiu,
batendo a porta com fora.

        CAPITULO NOVE

         No seu prprio quarto, todos os castiais estavam de volta aos lugares e Cecil no
apareceu para retir-los. Embora a concluso bvia fosse de que Piers no viria v-la, ainda
assim Isadora aguardou-o sentada na cama, no meio da escurido, desejando-o a despeito de
si mesma. Ento seria dessa maneira, pensou amargurada. Seu marido cumprira o dever,
tirara-lhe a virgindade para demonstrar seus direitos de posse e no planejava possu-la outra
vez.
         Embora tentasse se convencer de que a perspectiva lhe causava alvio pois ficaria
livre das atenes do Cavaleiro Vermelho, no conseguia pensar em outra coisa a no ser na
noite em que experimentara aquelas sensaes maravilhosas, sensaes que se julgara incapaz


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de sentir. Maldito fosse Piers Montmorency! O fato  que o queria acima de tudo... como uma
mulher enfeitiada.
          Finalmente Isadora adormeceu e quando acordou no foi por causa da presena do
marido e sim pela urgncia na voz de Edith.
          - Minha lady! Minha lady! - a criada sussurrava apavorada.
          - O que foi? - No mesmo instante ela abriu os olhos, os sentidos alertas. Incndio,
ladres, um ataque a Dunmurrow. Todas essas possibilidades lhe passaram pela cabea antes
mesmo que ficasse de p.
          - Escute, minha lady! Oua!  o amaldioado... o tal do Cavaleiro Vermelho... l
fora... fazendo o trabalho do diabo! No comeo eu achei que estivesse invocando os espritos.
Gritava to alto que poderia acordar os mortos. Mas quando coloquei a cabea para fora da
janela... - Edith fez o sinal da cruz, as mos trmulas -, vi uma outra pessoa tambm. Tenho
certeza de que  um sacrifcio humano, minha lady. Juro! E aquele imprestvel do meu
guarda-costas no vai tomar nenhuma atitude!
          - Psiu! No vou conseguir ouvir nada se voc ficar a lamuriando-se. - Depois de vestir
um robe s pressas, Isadora aproximou-se da janela. A Lua plida e distante iluminava a
figura viril de seu marido. Para sua total surpresa, ele parecia estar atacando algum com a
espada. Ansiosa, procurou algum ladro ou inimigo que justificasse a atitude de Piers, porm
no viu ningum.
          - No  nada, apenas algum tipo de treinamento falou decidida. - Basta meu marido
praticar o uso da espada sobre um pedao de madeira para voc julga-lo o demnio em
pessoa.
          - Edith? Voc est a? - As duas mulheres viraram-se na direo do som da voz
masculina e Isadora logo reconheceu a pronncia arrastada de Willie. - Saia do quarto da sua
lady agora e pare de se meter nos negcios do baro!
          - Pois fico-lhe grata se me deixar em paz, seu soldado de meia-tigela! Eu estaria mais
bem servida sob a proteo de um dos garotos da aldeia - a criada respondeu desdenhosa.
Votando-se para Isadora, retomou a conversa. - O baro estava gritando coisas horrveis.
Praguejando e amaldioando em altos brados.
          Como se para confirmar o que a serva acabara de dizer, a voz forte de Piers ecoou
dentro do silncio da noite.
          - Dane-se, Cecil, seu covarde imprestvel! - Embora as palavras soassem altas, eram
to mal articuladas que se tornavam quase incompreensveis. - Onde est meu vassalo?
Mande buscar Alan, porque quero lutar com ele!
          No demorou muito at Isadora perceber o motivo da fala enrolada.
          - Meu marido bebeu alm da conta. E s. Por acaso voc j no viu homens bbados,
inclusive meus irmos?
          - Tem mesmo certeza de que  s isso, minha lady? No sei no...
          - Edith, se voc no sair deste quarto agora, prometo que vou entrar. Com sua
licena, minha lady  Willie gritou do lado de fora.
          Pelo menos a criada teve bom senso suficiente para ficar desconcertada com a
prpria insistncia e se desculpar.
          - Est tudo bem - Isadora respondeu. - Fico satisfeita que voc tenha me acordado.
Barulhos provocados por bbados so sempre horrveis. - O que ela no disse  que pretendia
ir ao encontro do marido. Para que deixar a mulher preocupada com a sua segurana?
Sacrifcio humano... que grande bobagem! - Boa noite. Por favor, saia antes que Willie ponha
a porta abaixo.
          Edith resmungou qualquer coisa sobre soldados e homens baixos em geral serem uns
imprestveis e saiu bufando.
          - Por que voc veio incomodar a esposa do baro? - Isadora ouviu Willie indagar
irritado.
          A resposta da serva ficou perdida no fechar da porta.


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         Mas no tinha importncia. Coisas mais urgentes precisavam da sua ateno
imediata. Ela vestiu uma capa sobre o robe e correu para fora do castelo. Para sua completa
surpresa, no havia um s guarda  vista. Assim pde andar livremente. Embora pretendesse
ir direto ao encontro do marido, a viso daquele homem altssimo e imponente a fez parar no
meio do caminho.
         Vestindo uma armadura, Piers era algo de tirar o flego, mesmo na escurido.
Grande, bem proporcionado, como uma rvore slida e altiva. Apesar de bbado, seus
movimentos com a espada eram elegantes. Mas estava claro que o vinho o afetava porque ele
parecia ter dificuldade para acertar o alvo.
         Isadora suspirou fundo, admirando o marido. O Cavaleiro Vermelho no podia ser
comparado aos outros homens em geral. O poder que dele emanava era algo Infinitamente
superior. J assistira a muitos torneios e a ira seus irmos treinando vezes sem conta; porm
ningum nunca a afetara tanto.
         Chocada, percebeu que o desejava com paixo. Queria der possuda ali, no cho frio,
sob a luz da Lua, os lbios quentes esmagando os seus, o corpo musculoso envolvendo-a...
Isadora engoliu em seco, procurando ignorar os pensamentos sensuais. S podia estar sob os
efeitos do luar misterioso...
         De qualquer forma seu marido parecia estar bbado demais para se entreter com
brincadeiras amorosas e provavelmente no aceitaria de bom grado as suas atenes.
Entretanto, como esposa, tinha o dever e o direito de ajud-lo agora. O que, neste caso,
significava lev-lo para cama e garantir que os outros moradores do castelo no fossem
perturbados durante o resto da noite pela barulheira infernal. No momento em que abriu a
boca para cham-lo, ouviu-o gritar:
         - Ela me considera um meio-homem! - Piers rugiu, vibrando a espada perigosamente.
         Ser que o marido se referia a ela? Mas como, se o considerava muito mais homem do
que qualquer outro? A ferocidade dos golpes era to terrvel que Isadora deu um passo para
trs, percebendo que Montmorency estava furioso, como nunca o vira antes.
         Piers deve t-la ouvido mover-se, porque imediatamente ficou quieto, o corpo rgido,
 espreita...
         - No  verdade! Ela se importa com voc - respondeu uma voz. Isadora percebeu que
se tratava de Cecil de p a uma distncia segura do baro. - Se ao menos...
               - Fique quieto, seu tolo!
         A maneira rspida como ele respondeu ao servo renovou-lhe a coragem de enfrent-
lo. Quando os outros meios falhavam, cabia a ela tomar a situao nas mos e resolv-la.
         - Venha para a cama, esposo - Isadora falou, dando um passo para a frente.
         Embora j tivesse testemunhado a ira do marido, no estava preparada para a reao
dele. Piers virou-se, uma figura enorme protegida pelas sombras, o cavaleiro negro da
escurido. Como um anjo vingador, ele vibrou a espada no ar com fora suficiente para
arrancar a cabea de um homem. Isadora se deu conta que se no estivesse a uma distncia
segura poderia ter sido partida em duas.
         - Isadora? - Montmorency indagou, a voz rouca e baixa.
         - Venha para a cama, Piers. Est muito tarde para esse tipo de treinamento.
         O grito inesperado de dor e ira que partiu daquele peito forte era to angustiado que
atingiu-a fundo. Antes que tivesse tempo de tomar uma atitude, Cecil aproximou-se e
praticamente arrastou-a para dentro do castelo.
         -  melhor voc voltar para seu quarto agora, minha lady.
         Mesmo tendo vontade de correr e se esconder do marido, Isadora sabia que no teria
coragem de faz-lo.
         - No! Ele parece estar ferido - respondeu, tentando se livrar da mo do servo que a
segurava pelo brao, impedindo-a de mover-se. - Preciso cuidar de Piers.
         - No, minha lady. O baro apenas tomou vinho demais. S isso.
         - Cecil, exijo que voc me solte e me deixe ir ao encontro de meu marido.  uma


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ordem.
         - No, minha lady. No posso fazer isso. Meu lorde me mataria se eu o fizesse.
         O servo comeou a caminhar, levando-a pelo brao. Isadora olhou para trs a tempo
de ver Piers arrancar, com um nico golpe, o topo do poste de madeira usado para
treinamento. Mesmo no sabendo o motivo, ela reconhecia o poder daquela fria que pulsava
na escurido da noite como uma coisa viva. Aterrorizada, soltou-se da mo de Cecil e correu
para o quarto, to atordoada que, quase no ouviu o criado murmurar:
         - Isso o mataria.
         Isadora procurou evit-lo. Resolveu ir at a aldeia pela manh com o nico objetivo
de no almoar na companhia do marido. Se tivesse coragem de desafi-lo, recusaria-se a
jantar nos aposentos principais tambm. S no chegaria a tanto porque vira a extenso da
ira de Montmorency. Uma fria to grande que o transformara num animal enlouquecido.
Jamais queria presenciar uma cena como aquela outra vez.
         De todas as coisas assustadoras que ouvira dizer sobre o Cavaleiro Vermelho, e eram
muitas, segundo Edith, nada s comparava aos excessos emocionais de ontem. Fora um
acontecimento to angustiante que Isadora sentia-se perturbada de uma maneira que no
conseguia entender.
         Fora capaz de no dar ateno aos rumores que o cercavam e at mesmo conseguira
evitar pensar na misteriosa habilidade de Cecil de estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Contudo no havia como negar o temperamento terrvel do Cavaleiro Vermelho.
         Quando finalmente o viu, na hora do jantar, talvez esperasse encontr-lo
arreganhando os dentes ou rugindo como um animal. Porm descobriu-o protegido pelas som-
bras; como sempre. Sem saber qual atitude tomar, Isadora sentou-se, achando difcil
reconciliar afigura imvel com a criatura descontrolada da noite anterior. Piers
Montmorency era um homem de muitas faces, um homem a quem muito pouco conhecia.
         - Minha lady - ele cumprimentou-a, no tom seco que lhe era habitual.
         - Como voc est se sentindo hoje, meu lorde?
         - Estou bem.
         - Pensei que voc tivesse se ferido ontem  Isadora falou devagar. - Est realmente se
sentindo bem?
         - A no ser pela dor de cabea que me manteve preso  cama durante toda a manh,
sinto-me timo.
         Embora percebesse que o marido falava a verdade, o sarcasmo da voz masculina no
lhe passou despercebido.
         - Fico feliz em saber.
         - mesmo? - Montmorency indagou como se no acreditasse numa s palavra.
         - Sim. V-lo bem me d muita alegria. Fiquei preocupada. - Ela baixou os olhos,
desconcertada. Embora tivesse certeza que naquela escurido seria impossvel enxergarem-se
um ao outro, s vezes tinha a sensao inquietante de que o olhar de Piers era capaz de desnu-
dar-lhe a alma.
         De repente, dentre todas as lembranas da noite anterior, uma nica viso ganhou
importncia. O momento em que o avistara brandindo a espada no ar. Alto, poderoso,
elegante. Um homem capaz de despertar o seu desejo como nenhum outro. Sem que
conseguisse evitar, voltava a se imaginar sendo possuda sobre a terra mida, sentindo-o
mover-se nas suas entranhas. Apreensiva com o rumo dos pensamentos, bebericou o vinho,
apesar de sua sede ser de coisas muito diferentes. Ser que continuava enfeitiada?
         - Sinto muito que voc tenha presenciado minha... cena. Sou crescido o suficiente para
no exceder na bebida como um adolescente inexperiente, mas acho que passei da conta
ontem. - Piers fez uma pausa como se fosse difcil prosseguir. Depois continuou como firmeza.
- Cecil me contou que voc estava determinada a vir ao meu auxlio, apesar do meu pssimo
humor. Desculpe-me se a ofendi.
         - No, no precisa se desculpar - ela se apressou a responder, ansiosa para desfazer


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qualquer mal-entendido. O Cavaleiro Vermelho se desculpando? Aquele homem sempre
acabava surpreendendo-a. - S espero... - Nervosa, Isadora passou a lngua pelos lbios e
decidiu ir em frente. - S espero que eu no tenha sido a causa da sua raiva... Sei que ns dois
discutimos, mas eu odiaria pensar que... que voc poderia ficar to... to furioso comigo.
         Era a pura verdade. A ira do marido a assustara
         mais do que gostaria de admitir. No suportaria se tamanha fria fosse dirigida a ela,
especialmente depois da noite que haviam partilhado. Talvez o interldio apaixonado no
tivesse significado algum para Piers, entretanto era uma das mais doces lembranas que
guardava junto ao corao. Uma lembrana querida do Cavaleiro Vermelho.
         Piers permaneceu em silncio durante alguns segundos, uma tenso palpvel
emanando da figura imvel.
         - No - murmurou afinal. - No foi culpa sua...  melhor esquecermos o incidente.
Agora me fale sobre o seu dia.
         Isadora fez o que lhe foi pedido e enquanto conversavam, conseguiu relaxar. Os
homens ficam fora de si quando bebem e portanto deveriam ser perdoados. Vira seus irmos,
bbados, cometerem desatinos tambm. Porm nada se comparava  fria do Cavaleiro
Vermelho. Pelo menos serviria para faz-la pensar que seu marido era capaz de emoes
muito mais fortes do que demonstrara at o momento.
         De repente um pensamento lhe ocorreu. Se este homem podia odiar com tanta
intensidade, o que.dizer dos outros sentimentos? Amor, por exemplo? Poderia o Cavaleiro
Vermelho amar uma mulher com igual ardor? Trmula, Isadora tentou imaginar como seria
ser amada por seu marido, no apenas abraada e acariciada, mas amada no sentido mais
profundo do termo, de corpo e alma..A
         fora de tal paixo devia ser algo assustador...
         Irritada consigo mesma por alimentar tantas tolices, ela tomou o resto do vinho e
colocou o clice sobre a mesa. Nunca em sua vida procurara a afeio de quem quer que fosse,
nem mesmo de seu pai. Se pretendia conquistar o corao deste cavaleiro, gigantesco e miste-
rioso, devia estar louca... ou enfeitiada. Alm de tudo, demonstraes de afeto de qualquer
tipo sempre a fizeram sentir desconfortvel. Por que, ento, ansiar pelas atenes de um
homem perigoso como o baro?
         - Gosto de seu perfume - Piers falou de repente. Almscar, no ?
         - Sim - ela respondeu corando. - Tambm gosto do seu cheiro. - Percebendo que fora
muito longe no comentrio, Isadora desejou voltar atrs. Mas seu marido no riu.
         - Obrigado. - A voz de Piers soou baixa e rouca, fazendo-a estremecer. Talvez
Montmorency fosse mesmo um animal selvagem ou uma criatura das trevas. Porm no
conseguia se esquecer de como ele a beijara e acariciara naquela noite mgica e de como
continuava a desej-lo.
         - Voc poderia cantar para mim hoje?
         - Sim, claro. - Isadora levantou-se e escolheu as baladas preferidas do marido para
cantar.
         Ao terminar, s conseguia pensar em como as palavras de amor pareciam potentes e
reais no silncio e na penumbra daqueles aposentos.
         - Lindo - Piers murmurou. - Voc canta como um anjo, Isadora minha flor.
         Atordoada com o cumprimento, ela no sabia como reagir. Queria poder colocar em
palavras as emoes que a sacudiam por dentro.
         - Obrigada - falou afinal.
         - J est tarde. Voc pode ir agora.
         Depois do elogio carinhoso, ser dispensada to friamente pegou-a de surpresa. Ser
que algum dia poderia compreender o Cavaleiro Vermelho? Tremendo da cabea aos ps,
decidiu que no queria deix-lo.
         - Espere - ela falou num impulso. Estendendo o brao, procurou a mo do marido, o
contato de suas peles deixando-a arrepiada.


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         - Sim?       .
         - Eu queria saber... Voc vir ao meu encontro esta noite, meu lorde? - Com, o rosto
em chamas, Isadora aguardou a resposta. E se ele se recusasse, ou debochasse dela, ou ficasse
furioso...? Oh, Deus, no saberia o que fazer.
         Um silncio pesado caiu sobre o quarto.
         - Voc quer a minha companhia? - Piers indagou afinal.
         - Sim, quero.
         Com um gemido rouco, Montmorency levantou-se e cruzou o espao que os separava
com uma nica passada. Ento pegou-a no colo como se segurasse unia pluma.
         - Pois ento voc a ter.
               Enlaando-o pelo pescoo, Isadora sentiu os lbios masculinos fecharem-se
sobre os seus com sofreguido. Abraando-a forte, Piers depositou-a sobre a enorme cama de
casal e fechou as cortinas com uma das mos enquanto a outra procurava livr-la das roupas
com impacincia.
         Dentro da escurido total, Isadora nada podia enxergar. Podia apenas acomodar-se
sob o peso do corpo viril e aceitar a lngua que procurava a sua avidamente.
         Ali estava a felicidade...
         Piers fechou os olhos e sentiu a dor diminuir um pouco enquanto o desejo superava
qualquer desconforto fsico. Em questo de segundos nada mais importava a no ser a mulher
em seus braos e o calor que se espalhava por suas virilhas enlouquecendo-o. Isadora era to
pequenina, to delicada, que precisava ter cuidado e ir devagar. Fora o que fizera naquela
primeira noite, embora tivesse sido difcil conter a paixo, mas hoje...
         Hoje Piers a queria mais do que qualquer outra coisa que jamais quisera na vida.
Queria se enterrar dentro dela at que nada mais existisse no mundo, exceto Isadora e sua
doce feminilidade. Por um longo instante ele permaneceu imvel, os lbios pousados no
pescoo branco e macio.
         - Voc ainda quer minhas atenes?
         - Sim - ela sussurrou ofegante. - Sim. Eu desejei voc ontem  noite... e anteontem
tambm, quando descobri que estava sozinha em meu quarto. E desejei voc hoje, aqui, diante
da lareira, sobre o tapete, de qualquer maneira...
       A nica resposta de Piers foi um gemido de prazer ao se atirar sobre a mulher com
uma paixo que beirava ao desespero, uma paixo que se igualava em intensidade  fria
provocada pela bebida. Ah, sim, Isadora pensou inebriada, tudo em Piers Montmorency,
quando flua livremente, era maior do que a prpria vida. Tanto a paixo quanto o dio.
          Quando ele rasgou seu vestido, na nsia de Possu-la, Isadora hesitou alguns
segundos, assustada com o mpeto do marido. Mas depois, como se desabrochando sob o toque
sensual, entregou-se num total abandono, correspondendo s carcias com a mesma ousadia.
Nunca pensara que seria capaz de arrancar a tnica de Piers, morder a carne firme ou
segurar o membro pulsante nas mos enquanto o ouvia murmurar o seu nome vezes sem
conta. Nunca imaginara que perderia o controle e gritaria e gritaria o seu prazer para o
infinito... como uma mulher enfeitiada.
          - Por que o chamam de Cavaleiro Vermelho? - Isadora indagou baixinho, enroscada
ao lado do marido na enorme cama de casal, o corpo e a mente saciados depois de haverem
feito amor com selvageria.
          Piers suspirou fundo e por um momento ela achou que sua pergunta ficaria sem
resposta. Mas ento ele decidiu falar, a voz baixa embalando-a dentro da escurido.
          - Foi h muito tempo atrs, quando lutei pela primeira vez ao lado de Edward nas
Cruzadas. Devido a um srio incidente, fiquei coberto de sangue da cabea aos ps, mais at
do que  natural numa grande batalha.
          Embora pouco daquele sangue fosse o meu prprio, os inimigos ficaram
impressionados como  que eu podia continuar lutando estando gravemente ferido e passaram


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a me chamar de o Sangrento ou de Cavaleiro Vermelho. Assim comearam os rumores sobre
feitiaria tambm. Diziam que somente um mestre da magia negra poderia sobreviver a
ferimentos to srios. Claro que Edward achou a situao toda muita divertida e resolveu me
chamar de Cavaleiro Vermelho. No que foi imitado por todos.
         - E voc continuou lutando, sua reputao crescendo.
         - Sim. - Piers acariciou os cabelos da esposa com tanta delicadeza, que ela se
aconchegou ainda mais ao peito forte. - Hoje percebo que no foi uma atitude saudvel. Uma
reputao construda sobre a crena da imortalidade serve apenas para que outros decidam
desafi-lo.
         - Quer dizer que muitos tentaram mat-lo?
         - Sim, muitos tentaram me matar.
         - Mas voc continuou lutando at...
         - At que Edward me deu Dunmurrow - ele respondeu depois de uma breve
hesitao.
         Isadora esperou que o marido continuasse, porm Pires permaneceu em silncio,
alisando os cabelos louros e macios.
         - Ento voc veio para c e se trancou, deixando o mundo do lado de fora.
         - Aparentemente as fechaduras no eram fortes o suficiente - Montmorency
murmurou, deslizando as mos pelas pernas bem torneadas da mulher -, porque uma donzela
linda e pequenina, a quem o Cavaleiro Vermelho no metia o menor medo, entrou dentro do
meu castelo e me tomou por marido.
         Gentilmente, Piers segurou um dos ps da esposa nas mos.
         - Seus ps so to pequenos e delicados, minha querida. - Ele beijou-a perto dos
dedos.
         Isadora riu. Satisfeito com a reao feminina, Montmorency passou a acariciar a sola
do p em movimentos lentos e firmes. Ela ria descontroladamente enquanto tentava se
desvencilhar dos braos que a prendiam.
         - Pare! Pare! O que voc est fazendo?
         - Estou lhe fazendo ccegas, esposa - Piers respondeu surpreso. - Nunca ningum lhe
fez ccegas antes?
         -No.
         - Seus irmos no costumavam lhe fazer ccegas?
         - No. Nunca fomos muito ntimos - ela falou baixinho, tentando encontrar palavras
capazes de explicar o relacionamento distante que sempre mantivera com a famlia. - Claro
que eu os amava... - S que eles jamais brincavam comigo, ou me faziam rir, ou me
abraavam... - Os dois eram bem mais velhos do que eu e ocupados demais com suas tarefas
para darem importncia a essas bobagens.
               - Pois se eu tivesse uma irm como voc, to bela e inteligente, aposto que a teria
mimado terrivelmente.
         Isadora sentiu um aperto no corao ao pensar que chegara a planejar a anulao de
seu casamento sob a alegao de um parentesco entre ela e o marido.
         - Fico feliz que voc no seja meu irmo.
         - Concordo plenamente. No seria normal sentir esse desejo pela irm. - Ele beijou-a
no pescoo e acariciou os seios firmes com reverncia. - Jamais experimentei um desejo assim,
essa vontade incontrolvel de possu-la outra vez, outra vez e outra vez... No tenho dvidas
de que voc me enfeitiou, esposa.
         - Por favor, no brinque com essas coisas!  Antes que Isadora tivesse tempo de falar
sobre as suspeitas que a atormentavam, envolvendo a escurido constante dos aposentos
principais e o comportamento misterioso de Cecil, os lbios de Piers fecharam-se sobre os seus
com avidez, a lngua ardente explorando, sugando, lambendo...
         Ao sentir seus seios de encontro ao peito largo, Isadora gemeu baixinho e abriu as
pernas para receber o membro ereto e pulsante.


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         A cada nova investida, ela implorava por mais e mais... ansiando pelo alvio daquela
presso entre as coxas.
         Quando pensou que j no conseguiria suportar tanto prazer, Piers deslizou a mo
entre os corpos de ambos e comeou a massagear o ponto escondido da sua feminilidade num
ritmo crescente. Enlouquecida de paixo, Isadora atirou a cabea para trs e gritou alto,
enterrando as unhas nas costas do marido enquanto espasmos violentos a sacudiam de alto a
baixo.
         Piers continuou as investidas, mais depressa e com mais fora, at faz-la atingir o
orgasmo outra vez. S ento ele chegou ao clmax, o corpo musculoso estremecendo, a voz
rouca cortando o silncio do quarto numa doce agonia.
         - Ah, querida, que amante selvagem voc . Quem teria suspeitado que minha castel,
to delicada, e dedicada, pudesse ser passional assim?
         Isadora abraou-o com fora, experimentando uma onda de sentimentos que jamais
se julgara capaz de sentir. Tudo seria perfeito se no fosse pela confuso e estranheza que
volta e meia a atormentavam. E essa inquietao s desaparecia por completo quando as mos
do marido a tocavam...
         - Piers... - ela comeou um tanto vacilante, ainda atordoada depois dos momentos de
intensa paixo. Os rumores sobre voc ser um feiticeiro so mesmo infundados?
         Imediatamente ele ficou tenso, como se percebesse alguma coisa escondida atrs
daquelas palavras inofensivas.
         - Por qu? Voc quer que eu a enfeitice? Que lance um encantamento? Que prepare
poes mgicas?
         - No, no  isso.  que eu...  que me sinto como se tivesse sido enfeitiada!
         Montmorency atirou a cabea para trs e riu com vontade.
         - Pelo amor de Deus, mulher. Pensei que voc se recusasse a acreditar neste
amontoado de bobagens!
         - Claro que no acredito! - Isadora protestou com veemncia, corando at a raiz dos
cabelos. - Eu apenas imaginei... - Numa demonstrao de coragem, resolveu abordar aquilo
que a incomodava. - O que me diz de Cecil, ento? Ou voc no sabe que o homem pode estar
em dois lugares ao mesmo tempo?
         Piers continuou a rir, desta vez ainda mais alto, at que Isadora, irritada com o
comportamento inexplicvel do marido, interveio.
         - No consegui entender qual  a graa - falou de mau humor, tentando afastar-se.
         - Cecil! - Piers chamou em voz alta, parecendo se divertir enormemente. Antes que o
criado chegasse, ela cobriu a ambos com o lenol, mesmo sabendo que naquela escurido seria
impossvel se tornarem visveis. Porm
         no ficaria surpresa se os poderes de Cecil inclussem a viso noturna, assim como os
gatos que so capazes de enxergarem na mais total escurido.
         - Sim, meu lorde - o criado respondeu.
         Oh, Deus, ser que o homem estivera escutando a conversa atrs da porta?
         - V buscar seu irmo.
         - Sim, meu lorde.
         - Ponha seu vestido agora, esposa. Assim estar pronta, e decente, para receber meus
servos.
         Irritada com as risadinhas do marido, Isadora levantou-se depressa e comeou a
procurar as roupas espalhadas pelo cho. No era tarefa fcil, devido  total falta de
iluminao. Impaciente, acabou se esquecendo da presena dos ces. Mas Piers no.
         - Castor! Pollux! afastem-se - ele ordenou quando os animais comearam a rosnar
ameaadoramente. No mesmo instante as feras obedeceram e foram-se deitar no lado oposto
do quarto.
         Quando Cecil retornou, Isadora j estava vestida e sentada  mesa, aguardando-o.
         - Fique de p junto  lareira - Piers mandou, sem sair da cama.


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         Surpresa, Isadora observou que dois homens se moviam ao mesmo tempo. Ambos
eram baixos, de meia-idade, cabelos castanhos, rostos srios e bastante parecidos. Alis, muito
mais do que isso. Idnticos, seria melhor.
         - Digam  minha lady o nome de vocs.
         - Ceci! - os dois responderam juntos.
         - Vocs so gmeos - ela murmurou atnita.
         - Sim, minha lady - um deles respondeu. O outro balanou a cabea concordando.
         - Mas e seus nomes? - Isadora insistiu confusa.
         - Nossa me dizia que s havia escolhido um nome masculino quando ficara grvida,
portanto teria que servir a ns dois - um dos criados explicou.
         - Podem sair agora; ambos - Piers falou, e Isadora suspirou aliviada. Como pudera
ser to tola a ponto de se deixar influenciar pelas histrias absurdas de Edith? No era  toa
que Montmorency se rira s suas custas.
         - Volte para minha cama, esposa.
         A voz rouca do marido tinha o poder de deix-la arrepiada da cabea aos ps. A
nica coisa que a angustiava era que ele no passava de uma voz sem Corpo, uma voz dentro
da escurido, alm do alcance da luz do fogo, uma forma escondida pelas sombras, um
enigma... seu cavaleiro da noite.
         - Mas eu... eu acabei de me vestir - ela murmurou, os seios arfando, a respirao
ofegante. Oh, Deus, quem era este homem de fato? Como ele conseguira domin-la tanto, a
.ponto de deix-la quase sem vontade prpria?
         - Venha para minha cama e no tenha medo. No vou possu-la de novo esta noite,
minha pobre esposa Voc est muito dolorida?
         Com o rosto em chamas, Isadora concordou com um breve aceno de cabea. Porm,
por mais que sua mente tentasse encontrar desculpas que a fizessem desejar voltar para seu
quarto, cheio de velas e claridade, seu corao queria apenas faz-la voltar para os braos do
marido, mesmo que isso significasse uma opo pelas sombras.
         - No, no estou dolorida.
         - Ento venha.
         Atrada irresistivelmente pelo som daquela voz, Isadora caminhou at a cama
protegida pela escurido. Embora no fizesse mais um movimento sequer, sentiu a mo de
Piers se fechar ao redor de seu pulso e pux-la com firmeza. Ao perceber o que o marido tinha
em mente, tentou se afastar, ou pelo menos, obrig-lo a parar.
         - Piers, no! - ela gritou. Porm suas palavras no tiveram o menor efeito. Decidido,
Montmorency livrou-a das sapatilhas e comeou a lhe fazer ccegas sem piedade. - Por favor!
Por favor, pare! - Longos segundos se passaram antes que seu pedido fosse atendido. - Por
que voc me tortura tanto, seu malvado?
         - Porque gosto de ouvi-la rir. Seu riso  cristalino como a gua de um riacho. - Ainda
ofegante e inspirando o ar aos borbotes, Isadora sentia-se muito fraca para protestar quando
Piers tirou seu vestido num movimento rpido e preciso. Aos sentir as mos fortes de encontro
 sua pele nua, ela ficou arrepiada, cada centmetro do corpo pulsando de vida e desejo.
         - Por que voc gosta de me ouvir rir?
         - Porque seu riso me alivia, me conforta, me d paz - Montmorency respondeu,
aconchegando-a de encontro ao corpo. Respeitando a palavra empenhada, ele no tentou
possu-la outra vez. Simplesmente a manteve bem apertada de encontro ao peito, os braos
musculosos como um ninho quente e protetor. Sem entender bem por que, Isadora
experimentou uma felicidade to grande que desejou ficar ali para sempre. Em silncio,
imvel, apenas sentindo a presena do marido como uma extenso de seu prprio corpo.
         - Voc me reconforta, Isadora - Piers falou baixinho, abraando-a com tanta fora
que por um momento ela achou que no conseguia nem respirar.

        CAPITULO DEZ


                                                                                            70
  Deborah Simmons
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         Isadora queria dormir com ele. Enroscada ao lado do marido, apoiada Num dos
braos fortes, ouvindo o som da respirao regular, sentia-se feliz. Essa proximidade era
diferente de tudo o que jamais experimentara antes. Estranho sim, porm, pela primeira vez,
no pensava em fugir ou evitar os sentimentos. Inspirando o perfume msculo daquela pele
quente, queria apenas permanecer junto ao corpo viril para sempre. No conseguia entender
por que encontrava tanto conforto junto ao Cavaleiro Vermelho. Mas o fato  ele lhe trans-
mitia calor, aconchego e a fazia se sentir... desejada.
         Imersa na escurido, conseguia at imaginar que se tratava de um casamento normal,
talvez at melhor do que a maioria, porque ambos pareciam se importar um com o outro, algo
incomum nas unies entre nobres. Isadora tinha conscincia de seu afeto em relao a Piers e,
apesar da hostilidade inicial, acreditava que ele lhe dedicava alguma considerao. Pelo
menos era o que podia entrever atravs dos momentos de paixo.
         Ali terminava a pretenso pela normalidade, pois qual esposa nunca conseguira
enxergar o prprio marido  luz do dia ou  luz de velas?
         Por mais que tentasse visualiz-lo, a tarefa se mostrava impossvel. Embora tivesse
acompanhado os contornos do rosto dele com as pontas dos dedos, no era nenhuma artista
para imaginar a realidade a partir do toque. Seriam os cabelos de Piers negros como a
noite,castanhos ou avermelhados, para fazer jus ao ttulo? Oh, Deus, como gostaria de saber...
         - Querida... - A voz do marido, baixa e profunda, desviou o rumo de seus
pensamentos. Ele beijou-a na testa, fazendo-a sorrir e aconchegar-se de encontro ao peito
largo. Ser que o homem nunca a deixaria descansar? Mas mesmo exausta, sabia muito bem
que poderia ser facilmente persuadida a se entregar aos prazeres do sexo outra vez... e outra
vez. - Est ficando tarde.  melhor voc ir para seu quarto agora.
         Isadora abriu os olhos surpresa, apesar de no ser possvel enxergar nada alm da
escurido. Ento ele a estava mandando embora? No poderia passar a noite ali? Os
sentimentos maravilhosos que cresciam em seu corao foram reduzidos a p. Imediatamente
levantou-se e procurou o vestido. Quando no conseguiu ach-lo, praguejou baixinho. Ou
seria um soluo?
         - Isadora, querida...
         O tratamento carinhoso s lhe provocou desdm. O toque de ternura no tinha a
menor importncia. Afinal qual o motivo de ser enxotada da cama como uma mulher -toa, a
quem se paga por um instante de prazer com algumas moedas de prata? Agarrada a um resto
de dignidade, continuou procurando as roupas, as mos tremendo incontrolavelmente. Piers
segurou-lhe os pulsos e tentou abra-la. Porm ela se recusou a aceitar o contato e deu um
passo para trs, tropeando nos ces.
         - Ai! - Sentindo-se  beira de uma exploso nervosa, Isadora j estava disposta a sair
dos aposentos do marido enrolada num cobertor quando ele entregou-lhe as roupas. Em
questo de segundos, vestiu-se e se preparou para ir embora.
         - Isadora... suas sapatilhas.
         Ser que Montmorency estava debochando dela? Como  que pudera imaginar que
aquele homem arrogante lhe dedicava um pouco de afeio? Oh, Deus, s queria desaparecer
e esquecer o que acontecera naquela cama casal.
         - Boa noite, minha esposa. Durma bem.
         Furiosa, ela teve vontade de bater a porta com fora. S no o fez porque a porta era
pesada demais e um de Cecils aguardava do lado de fora. O criado a acompanhou at o
quarto sem dizer uma nica palavra. De repente sua prpria cama lhe pareceu enorme, vazia
e solitria. Seria uma longa noite. Como poderia dormir bem?
         Na manh seguinte, enquanto Edith a ajudava a vestir-se, Isadora procurava se
convencer de que precisava agir de maneira mais sensata. Talvez estivesse perdendo mesmo a
razo. Descobria-se ansiosa para pular na cama do Cavaleiro Vermelho e relutante na hora
de deix-lo. Passara sua vida inteira esquivando-se dos sentimentos e protegendo o corao.


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Por que agora se sentia impelida i a entreg-lo de bandeja ao marido?
         Ainda sentia o perfume de Piers impregnado na sua pele, o corpo marcado pela noite
de amor. Se resolvesse tomar um banho a esta hora da manh, para livrar-se das lembranas,
Edith acabaria desconfiando do motivo e recomearia com a mesma ladainha sobre o
Cavaleiro Vermelho t-la enfeitiado.
         Ela fitou a serva cheia de reservas, esperando o momento de ser acusada de
participar, como cmplice, de cerimnias de magia negra. Entretanto, para sua completa
surpresa, Edith no estava lhe prestando a mnima ateno. Em vez de queixar-se sobre a
vida em Dunmurrow, como era de seu costume, a criada mantinha-se ocupada tranando os
cabelos da ama enquanto... cantarolava.
         Com uma pontada de inveja, Isadora concluiu que alguma coisa especial devia ter
acontecido. De repente sentiu-se mais sozinha do que nunca. Estava to acostumada a
defender o marido dos ataques da criada que agora se perguntava de quem iria defend-lo?
         - Descobri como Cecil pode estar em vrios lugares ao mesmo tempo.
         - Verdade? - Edith indagou sem muito interesse, voltando a cantarolar uma melodia
totalmente diferente da anterior.
         - Sim. Ele no  sequer um homem s, mas dois. So gmeos - ela anunciou,
aguardando a reao da outra. Para sua decepo, a expresso do rosto da serva continuou
inalterada.
         - Srio? Ento no  de se estranhar que ele faa trabalho dobrado. Ou talvez no
faam nada, com a desculpa de serem dois. Um fica empurrando o servio para o outro.
         Isadora fitou-a atentamente, atnita com o sorriso estampado no rosto de Edith e com
as palavras despreocupadas. Esperara assombro, discusso, comentrios sobre a magia negra
que reinava em Dunmurrow. S no estava preparada para que a criada aceitasse suas ex-
plicaes com uma tranqilidade quase indiferente.
         - Muito bem, minha lady, terminei de tranar seus cabelos. Voc est linda esta
manh. Vai precisar de mim para mais alguma coisa?
         Ela balanou a cabea de um lado para o outro. At parecia que quem estava
enfeitiada era Edith...
         Determinada a no passar o dia inteiro alimentando pensamentos que envolvessem o
marido, Isadora atirou-se ao trabalho, porm, por mais que tentasse, no conseguia parar de
desej-lo.
         Ansiava pelo toque daquelas mos fortes, pelo som da voz baixa e sensual. Contudo
no eram apenas os momentos de paixo carnal que a perturbavam. Tambm sentia falta da
ternura, das ccegas, da segurana oferecida pelo seu abrao.
         Talvez Piers a tivesse enfeitiado e assim no mais possua uma vontade prpria. No,
no era verdade. Tinha vontade prpria sim, estava apenas enfraquecida. Como voltar a ser o
que era? A mulher independente e segura? Agora mais do que nunca estava certa de que os
rumores envolvendo o Cavaleiro Vermelho no tinham o menor fundamento, principalmente
depois de descobrir que Cecil no passava de um mortal comum.
         Embora Isadora duvidasse que Piers possusse poderes especiais para encant-la, no
podia negar que sentia alguma coisa especial por ele, alguma coisa que a fazia se entregar sem
qualquer hesitao ou pudor. Porm,  luz do dia, algumas certezas a magoavam de forma
profunda. Afinal no aprendera, tempos atrs, de que no vale a pena ansiar pela
proximidade de algum? Depois de todos esses anos, ainda era difcil lidar com a rejeio. Em
particular agora, quando conhecera a mais deliciosa intimidade nos braos do Cavaleiro
Vermelho.
         Ela tentava se convencer de que nunca desejara ou precisara de quem quer que fosse.
Por que ento se sentia atrada pelo marido, uma figura estranha e misteriosa que fazia
questo de se manter escondido nas sombras? O fato  que sentia-se impotente diante do
prprio destino e isto a perturbava profundamente. A imagem de Piers no lhe saa da
cabea, impedindo-a de viver em paz, e de repente s queria tornar-se indiferente em relao


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ao marido, como sempre fora em se tratando de outros homens.
         Abandonando as tarefas num impulso, Isadora foi at a cozinha. Quem sabe um
pouco de companhia antes do almoo no a arrancaria daquele mau humor? Glenna recebeu-
a com prazer.
         - Obrigada por ter cuidado to bem da queimadura de Moira. Est cicatrizando que 
uma beleza.
         Isadora sorriu, porm as palavras da cozinheira deixaram-na inquieta. Fora somente
alguns dias atrs que imaginara ser Piers portador de alguma queimadura que o desfigurasse,
que o obrigasse a permanecer nas sombras? Agora tinha certeza de que este no era o caso.
No havia nada de errado com seu marido. Apenas no conseguia entender por que ele
permanecia trancado dentro da escurido.
         Outra vez as velhas suspeitas, envolvendo o Cavalheiro Vermelho, a assaltaram. Ele
afirmara que os rumores no tinham fundamento e chegara a rir das suas preocupaes. Mas
quem, em s conscincia, admitiria estar envolvido na prtica de magia negra?
         -  bom ter uma lady em Dunmurrow que conhea a arte de curar - a cozinheira
falou agradecida.
         - Concordo - emendou uma voz masculina. - Eu confio mais na minha lady do que na
curandeira da aldeia, Isadora reconheceu o rapaz que a acompanhara tocando flauta na
primeira vez que cantara para o baro Montmorency. Thomas era o nome dele.
         - Voc est se referindo  viva Nebbs? Glenna indagou ao recm-chegado.
         - Sim. Eu preferia cuidar de mim mesmo do que aceitar o conselho daquela mulher.
         - A viva Nebbs  muito sbia. Est velha agora e raramente se dedica  arte da cura,
porm tem um grande conhecimento de ervas.
         - Hum... Poes de amor e coisas parecidas - o rapaz desdenhou.
         - No  bom desrespeitar os mais velhos - Glenna aconselhou num tom maternal.
Thomas no disse mais nada enquanto Isadora voltava para o salo, pensativa.
         Viva Nebbs. J ouvira falar da curandeira da aldeia antes e. chegara a planejar
visit-la a fim de trocarem algumas receitas envolvendo o preparo de ervas. Como qualquer
outra mulher com as suas habilidades, a viva costumava ser vista pelos aldees tanto como
uma santa quanto uma bruxa, dependendo do resultado dos tratamentos prescritos,  claro.
Ela sentia-se inclinada a concordar com Glenna. Pessoas como a viva Nebbs costumavam
saber mais do que deixavam transparecer, pois durante uma vida inteira acumulavam
conhecimento talvez at utilizassem um pouco de magia.
         Magia. Isadora irritou-se com os prprios pensamentos. Nunca acreditara em
tamanha bobagem antes. Entretanto jamais desconfiara que pudesse ser enfeitiada um dia,
em especial por algum como o Cavaleiro Vermelho. Ser que a viva Nebbs saberia como
quebrar esse encantamento?
         Edith entrou naquele exato momento, rindo de algum comentrio feito por Willie e
embora se sentasse ao lado da ama, quase no lhe deu ateno. timo, Isadora pensou
aliviada. Sinal de que a serva estava se acostumando  vida em Dunmurrow.
         - Voc vai precisar de mim hoje  tarde, minha lady Porque seno, Willie prometeu
me levar para um passe pelos campos. - A criada corou at a raiz dos cabelos e de repente
Isadora se deu conta de que ela parecia anos mais jovem... e mais bonita tambm.
         - No, no vou precisar de voc. - As roupas que planejava costurar podiam ficar
para outro dia. Que Edith aproveitasse a tarde fora.
         - Voc no quer vir conosco, minha lady? - a mulher perguntou de repente. - lhe faria
bem sair um pouco respirar ar puro.
         - No, mas de qualquer maneira obrigada pelo convite.
         O almoo transcorreu tranqilo, Edith e Willie trocando olhares sugestivos e rindo a
troco de nada.
         - Tem mesmo certeza de que no quer vir conosco
         - a criada indagou preparando-se para sair.


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         Isadora sorriu e balanou a cabea de um lado para o outro, olhando-os com
benevolncia e compreenso.
         - Ento vamos, minha garota - Willie falou orgulhoso. - Tem uma paisagem bonita l
fora que quero lhe mostrar.
         Ela os observou afastarem-se a caminho da claridade enquanto tudo o que lhe restava
eram os aposentos sombrios de Dunmurrow. Ainda assim, sabia que se o Cavaleiro Vermelho
a chamasse, seria capaz de se esquecer at da luz do Sol para passar o dia inteiro na cama, ao
lado do marido. Ser que chegaria o dia em que se agarraria a ele de tal forma que acabaria
se tornando uma criatura da noite tambm, uma sombra como Piers Montmorency?
         Isadora estremeceu amedrontada. Havia desejado ser a esposa dele em todos os
sentidos, mas agora reconhecia o perigo de uma intimidade total. O fato  que vivera melhor e
mais tranqila antes, num mundo repleto de deveres e trabalhos a serem feitos e no assim...
atordoada por desejos e... emoes que preferiria no sentir. Se ao menos pudesse voltar no
tempo! Cedendo ao impulso, levantou-se, colocou uma capa pesada ao redor dos ombros e
marchou para o estbulo. Estava na hora de fazer uma visita  viva Nebbs.
         Dois dos guardas do castelo insistiram em acompanh-la at a aldeia; porm ao se
aproximarem do chal onde morava a velha senhora, pediu-os que a aguardassem a distncia.
Apesar de tentar se convencer de que era natural uma visita  viva, j que ambas viam-se
sempre s voltas com o uso das ervas, no conseguiu evitar o nervosismo ao bater  porta.
         Uma voz firme e grave mandou-a entrar. Quase no era possvel enxergar por causa
da penumbra espessa que se espalhava pela sala pequenina e por um instante Isadora achou
que estivesse sozinha. Ento seus olhos se ajustaram  ausncia de iluminao e pde enfim
vislumbrar uma mulher pequenina que se entretinha mexendo um caldeiro sobre o fogo da
lareira.
         - Viva Nebbs? Sou Isadora Montmorency. Trouxe-lhe um pouco de queijo e po -
ela falou, colocando uma cesta sobre a mesa.
         - Ento voc  a nova lady do castelo. Chegue mais perto para que eu possa v-la
melhor.
         Talvez fosse apenas um reflexo da sensao estranha que a acompanhava O dia todo,
ou talvez estivesse sob os efeitos dos rumores horrendos que acompanhavam o Cavaleiro
Vermelho... mas o fato  que tremia por dentro ao se aproximar da velha senhora. Bem no
fundo do corao, preferia sumir dali.
         A viva Nebbs era bastante idosa e tinha os cabelos j inteiramente brancos. O rosto,
marcado por rugas profundas, mantinha-se bronzeado e apesar da idade avanada ela no
aparentava a menor fragilidade.
         - Ento voc veio tomar o meu lugar?
         - No, de jeito nenhum! - Isadora respondeu depressa.
         - Pois j est na hora, criana. Estou cansada demais para continuar cuidando dessas
criaturas ingratas.  A velha sorriu e fez um gesto para que Isadora se sentasse. Como no
havia nem um banco  vista, ela sentou-se no cho de terra batida. Um aroma de alho,
alfazema e aafro enchiam o ar enfumaado. Embora continuasse mexendo o contedo do
caldeiro com uma concha, os olhos da viva Nebbs a analisavam com interesse, como se
fossem capazes de lhe enxergar a alma. No se ouvia nada no chal, exceto o crepitar das
chamas.
         - O que a aflige, minha filha?
         - A mim? - Pega de surpresa, Isadora no sabia como reagir. - Nada me aflige. Estou
bem.
         A viva riu baixinho.
         - Ningum me procura por nada. O que voc quer, criana? Est doente?
         Estou enfeitiada, ela teve vontade de dizer. Mas faltou-lhe coragem.
         - Ah, entendo. - A velha continuou mexendo no caldeiro alguns segundos antes de
voltar a falar.  Como uma curandeira que , voc deve saber que h males para os quais no


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existem curas.
        - Sim, eu sei. - O fogo a estava deixando sonolenta e como quase nada dormira na
noite anterior, comeava a sentir dificuldade para prestar ateno no que a viva Nebbs dizia.
        - E, claro, em alguns casos a cura  pior do que a doena. Isso sempre acontece nos
assuntos do corao...
        Isadora inspirou fundo, tentando permanecer alerta. Sobre o que ser que a velha
senhora estava falando? Alguma coisa sobre dores no fgado?
        - Se ao menos voc no lutasse assim contra os sentimentos, criana. Mas posso ver
que voc  teimosa. So tantas as pessoas que gostariam de possuir um amor to grande. Elas
vm a mim, implorando encantamentos e poes capazes de conjurar uma imitao plida
daquilo que voc tem. Tem certeza de que no quer mesmo este amor?
        Querer? Querer o qu? Confusa e entorpecida pelo sono, ela acenou que sim.
        - Menina tola. Vou lhe dar o que voc quer, porm no posso lhe garantir que dar
certo. Existem coisas neste mundo, criana, que simplesmente tm que ser, quer ns, simples
mortais, queiramos ou no. Mas cuidado, tentar mudar o curso dos acontecimentos pode ser
ainda pior.
        Isadora bocejou e ergueu os olhos. Surpresa, descobriu que a viva Nebbs havia
desaparecido. Segundos depois, a velha estava de volta, trazendo um pacotinho nas mos.
        - Misture este p num pouco de cerveja ou vinho e beba tudo. Talvez possa ajud-la.
Venha me visitar quando quiser, minha lady. Gostei muito da nossa conversa.
        Ela guardou o pacotinho de ervas no cesto e despediu-se, sentindo-se estranhamente
desorientada. Na verdade no conseguia se lembrar de quase nada que havia sido dito no
chal porque o fogo estivera to gostoso e seu cansao to grande.
        S depois de estar de volta ao castelo, ao colocar o cesto na cozinha, foi que se
lembrou do pacote.
        - O que  isto, minha lady? - Glenna perguntou, segurando o embrulho.
        - Oh, foi a viva Nebbs quem me deu.
        -  uma das poes que ela costuma preparar.  para voc, minha lady?
        - Sim. - Por que ser que resolvera trazer o pacotinho para casa? No conseguia se
lembrar. Glenna retomou o trabalho de preparar o jantar enquanto ela permaneceu imvel,
sentindo os olhos de Cecil fixos s suas costas. Algo lhe dizia que as ervas estavam
relacionadas a Piers, embora no fizesse muito sentido.
         Decidira procurar a viva Nebbs com o nico objetivo de discutir tratamentos, mas a
visita acabara sendo to estranha. Ser que adormecera no meio da conversa?
         Recordava-se de que queria livrar-se dos laos que a prendiam ao marido, contudo
no chegara a mencionar isto para a viva... Ou ser que sim? Horrorizada, percebeu que as
ervas talvez tivessem o poder de quebrar o encantamento lanado pelo Cavaleiro Vermelho.
         Imediatamente Isadora largou o embrulho, como se o pacote a tivesse queimado.
         Bobagem. Era uma mulher inteligente, esclarecida, portanto incapaz de acreditar em
poes de amor e coisas afins. Piers no era nenhum feiticeiro, Cecil no passava de uma
criatura inofensiva e a curandeira da aldeia uma senhora idosa que no tinha como fazer
desaparecerem os laos que a ligavam ao marido. Ainda que ela prpria quisesse matar os
sentimentos que nutria por Piers.
         Ou ser que no?
         Sem saber o que pensar, Isadora encostou-se na parede de pedras, lutando para
colocar um pouco de ordem no caos interior. Claro que ficara magoada com a maneira que
Montmorency a tratara na noite anterior, quando a convidara a retirar-se do quarto.
Tambm precisava admitir que a afeio que sentia pelo marido parecia deix-la... indefesa,
uma sensao de que no gostava nem um pouco. Mas e quanto s outras sensaes que ele a
fazia experimentar?
         Enrubescendo at a raiz dos cabelos, Isadora pensou nas coisas que Piers havia feito

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com seu corpo... o prazer intenso a cada vez que se entregavam ao amor. Como esquecer o
calor dos braos fortes que a protegiam e aninhavam? A voz profunda e agradvel? O humor
fino e inteligente que temperava suas conversas? Ser que realmente desejava abrir mo de
tudo isso e voltar quela vidinha calma e vazia de antes?
         O fato  que Piers despertara seus sentimentos mais profundos e pela primeira vez na
vida, sentia-se viva de verdade. No iria arriscar tudo isso aceitando uma poo de ervas
preparada por uma velha curandeira.
         - Minha lady! - Isadora foi arrancada dos pensamentos pela apario repentina de
um dos Cecils. - Alan enviou alguns trabalhadores para nos ajudar nos reparos do castelo e eu
gostaria de saber onde devo aloj-los.
         - Oh, sim. Tenho certeza de que daremos um jeito para aloj-los. - Com a ateno
focalizada em Cecil, Isadora comeou a caminhar na direo do salo principal e sequer
percebeu quando o pacotinho de ervas caiu no cho. Glenna apressou-se a apanh-lo, dizendo
 ajudante:
         - Isto  para minha lady. Misture ao que lhe ser servido no jantar.
         Ela mal podia se conter na pressa de chegar aos aposentos do marido. Embora
tentasse se convencer de que no gostaria de se atrasar por uma questo de educao, sabia
que o pulso acelerado devia-se a motivos bastante diferentes. Ser que Piers a receberia com
prazer? Ser que a possuiria sobre o tapete diante da lareira ou a levaria para a cama onde
fariam amor loucamente e de onde seria dispensada assim que ele se cansasse dela? Ao entrar
no quarto do marido, alimentava dvidas a respeito de tudo.
         - Minha lady.
         - Piers - ela respondeu ofegante. Ansiosa, levou o clice aos lbios, a garganta seca de
antecipao. O vinho estava um tanto quente e doce esta noite, mas no tinha importncia,
precisava aplacar a agitao que consumia.
         - Foi um dia longo sem voc, esposa.
         Isadora corou, o corpo respondendo  voz baixa e profunda de Montmorency. Era
como uma carcia que lhe penetrava pela pele e lhe aquecia a alma. Porm estava disposta a
no sucumbir ao encanto esta noite sem resistir ao menos um pouquinho.
         - Foi uma longa noite sem voc, meu marido.
         Ao ouvi-lo rir, ela levou o clice aos lbios e tomou o resto do vinho, procurando
acalmar-se.
         - O gosto da cerveja est estranho hoje, voc no acha?
         -  mesmo? No percebo nada quando estou na sua companhia.
         Isadora sorriu, entregando-se ao fascnio que o marido exercia sobre seus sentidos. A
bebida a tinha acalmado, assim como o evidente bom humor de Piers. Apesar de ter andado
chateada, j se esquecera de tudo e s conseguia pensar na noite ardente que teriam pela
frente. Ser que ele arrancaria suas roupas ou a possuiria vestida mesmo, dominado pela
urgncia do desejo?
         Ansiosa para toc-lo, inclinou-se para frente, porm uma sensao estranha obrigou-
a a permanecer no mesmo lugar. Com muito esforo, tentou sentar-se ereta, embora tremesse
da cabea aos ps.
         - Isadora? - A voz de Piers parecia vir de muito longe e quando ela se moveu de novo
foi como se suas entranhas estivessem em fogo.
         Em questo de segundos Montmorency estava ao seu lado, entretanto o toque
daquelas mos fortes davam a impresso de lhe queimar a pele enquanto a escurido dos
aposentos enormes a engolfava.
         - No faa isso - ela pediu ofegante, esforando-se para afast-lo com gestos frenticos
e desajeitados.
         - Cecil! - Atendendo imediatamente ao chamado do baro, o servo entrou no quarto e
ergueu-a do cho. Enquanto era carregada para o prprio quarto, Isadora ouvia a voz do
marido praguejando baixo.


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         Ento j estava deitada na cama e Edith colocava um pano mido em sua testa para
aliviar a quentura. Mas no havia nada no mundo capaz de suavizar as sensaes terrveis
que pareciam destro-la por dentro. Fechando os olhos, Isadora perdeu-se num labirinto
escuro e destitudo de qualquer pensamento coerente.
         - E ento? - Piers mal conseguia conter a impacincia. Parecia que o criado estivera
ausente durante horas, deixando-o louco de preocupao.
               - Ela no est nada bem, meu lorde, porm tudo indica que se trata de um mal
passageiro.
         - Claro que ser passageiro! No me faa perder a calma com, explicaes dignas de
uma criana. O que provocou essa indisposio?
         - Glenna, a cozinheira, diz que sua esposa bebeu uma poo preparada pela
curandeira da aldeia. A cozinheira insiste que se trata de uma espcie de purgante que foi
misturado ao vinho. Tambm no sabe dizer ao certo se sua esposa pretendia ou no tomar a
infuso de ervas. Talvez tudo tenha sido um acidente.
         - Um purgante? - Confuso, Piers sentou-se na beirada da cama. Por que Isadora iria
procurar uma curandeira? Ser que andara doente? Mas ontem mesmo ela lhe parecera
perfeita. Ainda se lembrava do ardor como reagira s suas carcias...
         Quem sabe era somente uma indisposio feminina... De repente um pensamento
terrvel lhe ocorreu. Muitas mulheres costumam tomar um tipo especial de purgante quando
querem se livrar de uma gravidez indesejada.
         - No! - Montmorency gritou, levantando-se num impulso. - Isadora no faria isso!
         - Ela poderia estar grvida - Cecil falou, como se fosse capaz de ler a mente do baro.
         -  possvel. Mas minha mulher ainda no poderia sab-lo.  cedo demais. - Oh, Deus,
fora apenas alguns dias atrs que lhe tirara a virgindade.
         - Sua esposa poderia ter medo de que um filho seu fosse a reencarnao do demnio...
         - No! - A voz angustiada de Piers ecoou pelo quarto silencioso. No era verdade, no
podia ser verdade. Isadora no temia o Cavaleiro Vermelho e nem acreditava nas histrias
absurdas que se contavam. Por que ento iria pedir uma poo a uma curandeira qualquer
para se livrar da criana?
         - No! - Piers esmurrou a parede do quarto com fora e no reparou que o criado
sara e nem que de suas mos escorria sangue.
         - Vamos, vamos, minha lady - Edith falou baixinho. - Voc vai ficar boa agora. J
esvaziou todo o estmago, pobrezinha. Vamos, beba isso aqui. Vai fazer a dor passar e voc
poder descansar.
         Isadora sentiu um lquido amargo sendo colocado na sua boca e gemeu.
         - Quietinha, minha lady. Foi a infuso de ervas que lhe provocou todo este mal estar.
Como  que voc foi confiar numa alde velha e ignorante? As curandeiras so loucas, ou pelo
menos a maioria delas . Agora descanse um pouco, vou ficar ao seu lado.
         Isadora fechou os olhos, sentindo os membros pesados. Porm a cabea latejava e o
estmago ardia, dificultando a chegada do sono. Mas quando finalmente conseguiu
adormecer, sonhos estranhos e vvidos a atormentaram, sempre girando em tomo do
Cavaleiro Vermelho. Angustiada, acabou acordando para logo em seguida voltar a dormir.
         De repente a atmosfera do quarto mudou. Era como se o ar estivesse carregado de
eletricidade, como acontece antes de uma violenta tempestade. Isadora sentiu a presena de
algum ao seu lado, e no era Edith.
         - Aqui, minha criana - a viva Nebbs dizia em seu sonho, o rosto enrugado, os olhos
penetrantes, as mos morenas segurando um pequeno pacote. - Voc precisa apenas misturar
um pouco deste p no vinho de seu marido e ficar livre dele para sempre.
         - O que voc est dizendo? - ela perguntou confusa. Ser que adormecera junto 
lareira? - No estou en entendendo nada.
         - Est entendendo sim - a viva confirmou sem hesitar. - Isto aqui  para seu marido,
para o baro Montmorency. Faa-o beber e ele perder o poder de enfeiti-la.


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          Isadora se encolheu, horrorizada. Ser que a mulher estava lhe dizendo para
envenenar Piers?
          - Assim voc ficaria livre, minha criana. - Livre para voltar ao seu lar,  sua vida
antiga. Livre para administrar seu prprio castelo sem interferncias... ou distraes.
          - Sim, mas...
          - Ento voc precisa colocar apenas um pouco dessas ervas na cerveja de seu marido.
          Ela balanou a cabea de um lado para o outro, os pensamentos voltados para o
conforto e o prazer que encontrara naqueles braos fortes. No importava quem ou o que
Piers era. Jamais teria coragem de mat-lo.
          - No posso fazer isso - murmurou desesperada.
          - Menina tola. No ser preciso mat-lo. Apenas usar as ervas para se ver livre dele
para sempre. Afinal no  isto o que voc quer? Voc tem que decidir agora - a viva Nebbs
insistiu, acuando-a. - No  isto o que voc quer?
          - No! - Isadora gritou com todas as suas foras e sentou-se na cama. - Eu quero
Piers!
          - Estou aqui. - A voz calma e profunda afastou o pesadelo. Ento ele a abraou,
fazendo-a sentir-se segura, protegida... e querida.
          Logo antes do amanhecer Isadora acordou. Inspirando fundo, ela sentiu-se
repentinamente bem. Devagar, abriu os olhos e reconheceu o prprio quarto. Um brao forte
rodeava-lhe a cintura.
         - Piers? - chamou baixinho, o rosto encostado ao peito largo do marido. As
lembranas comearam a voltar, depois das horas seguidas de total confuso. Lembrava-se da
visita  viva Nebbs, da volta a Dunmurrow, de haver jantado com Piers... e dos pesadelos
horrveis.
         A viva tinha-lhe dado uma mistura de ervas, mas podia jurar que jogara o pacote
fora. Por nada deste mundo, por mais difcil e estranho que pudesse parecer, jamais teria
coragem de abrir mo de Piers.
         Hesitante, deslizou os dedos pelo peito msculo, querendo ter certeza de que aquele
marido misterioso continuava inteiro e respirando, apesar de sua tentativa de exorciz-lo.
         - Isadora? Voc est se sentindo bem agora?
         Ela acenou com a cabea, comovida demais para confiar na prpria voz. Como
pudera ter sido to idiota? Como fora capaz de desejar romper o encantamento que os ligava
um ao outro? Ah, como desejava no ter sequer ouvido falar da viva Nebbs.

        - Por qu? - Piers perguntou num tom rouco e emocionado.

       Ser que ele sabia da histria toda? Sentia-se envergonhada de ter procurado a
curandeira e embaraada pela prpria fraqueza e estupidez. Nunca deveria ter trazido o
embrulho para casa porque de algum modo as ervas haviam ido parar em seu estmago,
pondo-lhe em risco a sade, a paz de esprito e a trgua com o marido.

        - Para que servia a poo? - Estava claro que Piers seria persistente na sua busca de
explicaes. Embora soubesse que precisaria dizer alguma coisa que justificasse sua atitude,
Isadora no suportaria contar a verdade. - Era um purgante para livr-la de nosso Filho?
        - Piers! - ela exclamou horrorizada. - Eu jamais, faria uma coisa dessas! - O fato  que
a idia de um filho no lhe passara pela cabea, apesar de ser uma conseqncia natural
depois de haverem estado juntos...
        Um beb... Como seria o filho do Cavaleiro Vermelho? O pensamento trazia
embutida uma srie de novas preocupaes, mas Isadora simplesmente as ignorou. Havia feito
uma escolha e era tarde demais para voltar atrs,  vida antiga, a vida sem Piers
Montmorency.
        - Voc est dizendo que eu estou grvida?


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         - No. Ainda  muito cedo para saber, a menos que sua menstruao esteja atrasada.
         Isadora corou e baixou, a cabea.
         - Mas eu poderia estar grvida, no ? Embora seja possvel que esse meu mal estar
tenha... matado o beb. Oh, Piers, eu no queria tomar nada, juro! Foi tudo to estranho,
como num sonho... Fui visitar a viva Nebbs para conversar sobre medicamentos e quanto
voltei Glenna encontrou um pacote de ervas dentro da cesta. Eu o joguei no cho e sa com
Cecil para resolver um assunto. Glenna deve ter presumido... Oh, Deus, no vou suportar se
fiz mal ao beb...
              - Ainda  muito cedo para saber. - Piers abraou-a com fora, parecendo
aliviado.
         Ela retribuiu o abrao, jurando a si mesma que o marido jamais saberia que aquela
poo tinha como objetivo arranc-lo da sua vida.
         - Voc quer... filhos?
         - Sim, claro - ela respondeu aconchegando-se de encontro ao corpo forte.
         - Ento iremos comear a faz-los assim que voc se sentir melhor. Vou am-la vezes
e vezes sem conta, esposa, at que minha semente esteja firmemente plantada nas suas
entranhas.
         A promessa apaixonada a fez estremecer da cabea aos ps, confirmando o quanto
aquele homem a fascinava. Era um fascnio to real que superava qualquer feitio ou
encantamento.
         - Voc no vai aceitar mais nada da curandeira da aldeia. So mulheres tolas ou
ainda pior.
         - No se preocupe, estou curada.

        CAPITULO ONZE

         Quando Isadora acordou, horas depois, Piers h havia se retirado e ela ficou se
perguntando o que fora sonho ou realidade. Lembrava-se ter ido visitar a viva Nebbs com a
vaga esperana de quebrar o encantamento que a ligava ao marido, mas no se lembrava de
pedir ajuda  curandeira. Contudo, a velha realmente lhe dera uma mistura de ervas e
acabara tomando a infuso, porque logo depois cara doente. A poo fora capaz de faz-la
eliminar tudo o que havia em seu corpo, exceto os sentimentos por Montmorency.
         Portanto tais sentimentos iriam permanecer em seu corao pois no eram produto
de magia ou encantamento. Enfim Isadora compreendeu que este fascnio tinha causas
naturais. As emoes que sentia no podiam ser negadas ou ignoradas. Tambm no eram
uma doena para a qual se busca a cura.
         Quer gostasse da idia ou no, a verdade  que se importava com Piers e o melhor era
ir se acostumando logo com o fato pois tinha certeza que esses sentimentos ..o iriam crescer ao
invs de diminuir. Se ao menos conseguisse ignorar as sombras que o cercavam...
         A tarde, Isadora j se sentia bem o suficiente para demonstrar impacincia, embora
Edith no a deixasse sair da cama.
         - Tenho ordens estritas para impedir que voc se canse, minha lady.
         Apesar do tdio, Isadora permaneceu na cama o dia inteiro mas  hora do jantar,
tentou levantar-se para ir ao encontro do marido.
         - No, minha lady - Edith falou decidida, empurrando-a de volta para os travesseiros.
- Cecil me disse para impedi-la de colocar os ps fora deste quarto hoje porque seu marido
quer que voc se cuide bem.  Seria essa mulher, que agora demonstrava aprovao por uma
atitude do Cavaleiro Vermelho, a mesma que o temia tanto na chegada a Dunrnurrow? -
Vamos, minha lady, beba isso. Glenna lhe preparou uma sopa especial, bem leve por causa de
seu estmago.
         Irritada, Isadora comeou a tomar a sopa. Claro que Piers no iria querer a sua
companhia. Com certeza ainda devia estar zangado. Ser que ele descobrira, atravs de


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Glenna ou da prpria viva Nebbs, o verdadeiro objetivo da poo?
         Oh, Deus, s esperava que agora, depois de t-lo aceito com todo o corao, que ele
no lhe desse as costas.
         - Quero meu marido. Quero v-lo agora.  Isadora entregou o prato vazio  criada,
sabendo que choramingava como uma criana. Mas no tinha importncia. Precisava do
conforto que apenas o Cavaleiro Vermelho era capaz de lhe dar.
         - E voc o ver, minha lady. Vou pedir a Cecil que lhe transmita o recado. Posso me
retirar agora, ou voc vai querer algo mais?
         Isadora balanou a cabea e dispensou a serva, no sem antes recomend-la para ir
atrs de Cecil logo. Na verdade, se Edith fosse mais corajosa, a mandaria dar o recado ao
Cavaleiro Vermelho pessoalmente.
         - Edith! Por favor... apague todas as velas. E feche as cortinas da minha cama antes
de sair.
         Sozinha outra vez, ela sorriu ao pensar no engano da criada. No precisava das
sombras para repousar e sim para aguardar o marido.
         No foi necessrio esperar muito. Uma leve corrente de ar, O rudo das cortinas
sendo abertas e logo uma presena grande e slida dominava a escurido. Ao estender a mo
para toc-lo, Isadora se surpreendeu ao perceber que Piers usava uma espcie de robe,
quando na verdade preferia sab-lo nu.
         - Voc mandou me chamar, esposa? -A voz profunda soava sria como sempre.
         - Sim. - Ser que fora apenas imaginao sua, ou ele a confortara ao amanhecer,
abraando-a ternamente? aquelas mudanas repentinas de humor a deixavam confusa, sem
saber o que pensar. Porm sentia-se incapaz de experimentar qualquer sentimento de raiva
em relao do marido. No depois de se dar conta do quanto aquele homem era importante na
sua vida.
         Entretanto saber que seus sentimentos por Piers no podiam ser mudados em nada
diminua o impacto das I'moes recm-descobertas. Era doloroso demais desejar algum
com tamanho desespero. No podia se culpar por ter tentado se proteger da fora
incontrolvel das emoes. Mas sempre fora uma mulher corajosa e estava disposta a
enfrentar a situao. Embora no pudesse alterar o desejo, conhecia uma maneira de
ameniz-lo.
         - Ser que foi imaginao minha, marido, ou hoje de manh voc me prometeu filhos?
         Seguindo um impulso ousado, Isadora deslizou a mo para dentro do robe de Piers. -
Lembro-me perfeitamente de voc haver prometido plantar sua semente dentro de mim...
bem fundo dentro de mim.
         Mesmo notando que o membro masculino j estava ereto, ela continuou acariciando-o
devagar, de uma maneira sensual e provocante.. Montmorency permaneceu imvel durante
alguns segundos, pego de surpresa pela atitude da esposa. Ento tomou-a nos braos e
manteve a palavra empenhada.
         Para seu alvio, ele no falou uma palavra sobre o mal que a acometera, porm fez
questo de am-la com uma delicadeza especial. Ao acordar, na manh seguinte, Isadora no
foi capaz de reprimir o desaponto ao se descobrir sozinha. Contudo melhor assim do que ser
convidada a se retirar do quarto.
         Desse modo ficou estabelecida uma rotina. Durante dia ela dirigia o castelo, ao
anoitecer jantava nos aposentos principais e na calada da noite, fazia amor com o marido.
Isadora dizia-se que era mais do que suficiente que sua estranha experincia com a viva
Nebbs afastara quaisquer pensamentos ligados  feitiaria. Porm continuava se perguntando
por que motivo Piers se mantinha nas sombras e porque nunca ficava ao seu lado at ao
amanhecer. E como dizem, o fruto proibido  sempre o mais desejado...
         Por algum tempo manteve-se satisfeita. Os preparativos para o Natal a ocupavam
bastante, evitando que pensasse nos mistrios que cercavam o marido. Ou pelo menos adiando
o momento de tomar uma atitude concreta.


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         Depois de decidir o cardpio do dia com Glenna, ela voltou para o salo e sentou-se 
mesa com a inteno de escrever uma carta para seu administrador em Belvry. Porm logo
sua concentrao foi interrompida pela chegada de Edith, com Willie a tiracolo. A criada
derretia-se em sorrisos enquanto o soldado no dava a impresso de estar muito satisfeito.
         - Calma, mulher - ele resmungou ajeitando a espada na bainha. - Eu lhe disse que
ainda no estava pronto para descer. Que idia  essa de sair correndo sem a companhia de
seu guarda pessoal?
         - Tenho trabalho para fazer, William Gallway, e no posso me dar ao luxo de passar a
manh inteira na cama, como certos soldados que conheo.
         - Por acaso voc est me chamando de preguioso, mulher? - O sorriso brincalho
tirava a aspereza das palavras.
         - Se a carapua lhe serve, pode vesti-la.
         Isadora fitava a serva fascinada. Quando chegaram a Dunmurrow, a criada agia
como quem estivesse participando de um eterno funeral, mas agora, de uns dias para c,
voltara a agir de maneira natural e relaxada. Alis, Edith realmente mudara. Remoara, seria
a palavra mais adequada. Ser que o relacionamento com o guarda-costas havia ido alm de
um flerte?
         Quando a criada no aparecera em seu quarto de manhzinha, para ajud-la a vestir-
se, sequer se preocupara, porque estava com os pensamentos ocupados com outras coisas.
Contudo agora, tentava imaginar o que atrasara Edith...
         - Calma l, Edithzinha - Willie ordenou num tom srio, - Acho que j est na hora de
voc aprender quem  seu senhor.
         - Verdade?
         - Sim. Agora sente-se e escute o que vou lhe dizer. J fazem muitos anos desde que um
de ns foi casado e talvez tenhamos que refrescar a memria para nos lembrarmos como 
que um homem e uma mulher se relacionam.
         - Pois me parece que voc se lembra bastante de algumas partes.
         - Bem, ah, sim - ele admitiu. - Contudo tem certas coisas que voc parece ter se
esquecido, como por exemplo, que uma mulher deve sempre obedecer ao seu homem. Sei que
voc tem vivido sozinha e acabou se acostumando a agir de acordo com a prpria cabea,
porm espero que a partir de agora passe a me obedecer, porque  esse o jeito natural das
coisas.
         Curiosa, Isadora tentou enxergar o rosto da criada, que conversava a distncia com o
soldado.
         - Ento voc quer que eu o obedea em tudo?
         Edith indagou muito calma.
         - Sim. - Apesar da afirmativa, Willie no parecia to positivo quanto antes.
         - Est bem.
         Isadora quase caiu da cadeira ao ouvir a resposta da criada. Afinal esperara uma
cena.
         Willie, que estivera andando de um lado para o outro no se conteve de satisfao.
                - timo, assim  que se fala. Fico feliz que voc seja capaz de agir com bom
senso.
         - Se o assunto est resolvido, tenho alguns trabalho de costura a fazer para a minha
lady. - A serva levantou-se e caminhou na direo de Isadora.
         - Vou consertar as roupas agora - Edith falou em alto e bom som para logo depois
diminuir o tom da voz, uma expresso conspiratria no rosto simptico. - Deixe-os sempre
pensar que esto no comando e faa o que voc bem entender.
         Com uma piscadela, Edith saiu e Willie a acompanhou como um cachorrinho
treinado... e feliz.
         Por um momento Isadora experimentou uma pontada de inveja da relao entre o
soldado e a serva. Os dois no eram obrigados a se encontrar somente durante a noite, como


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amantes secretos, e podiam estar juntos a qualquer hora do dia, deixando aparente a afeio
que os unia. Queria tanto que seu casamento com Montmorency pudesse ser assim... Irritada
com o rumo dos pensamentos, imediatamente censurou-os.
         Na verdade podia-se considerar uma mulher de sorte. Depois de ter se casado com
um homem de quem ouvira falar horrores, acabara encontrando algum que a deixava
administrar a vida dentro do castelo, alm de ser um parceiro maravilhoso na cama. Por que
se sentir infeliz quando recebera esses presentes inesperados?
         Talvez fosse melhor ignorar a escurido que a cercava e a curiosidade que lhe pesava
sobre os ombros como um fardo. Embora procurasse manter a ateno fixa na carta que
pretendia escrever, as palavras insistiam em lhe faltar. S conseguia pensar no marido,
sozinho, nos aposentos enormes e sombrios.
         O que ser que ele fazia o dia inteiro? Ser que sentia falta de caar e treinar seus
homens? Claro que Piers devia ter se dedicado a esse tipo de coisa at algum tempo atrs ou
no teria participado de tantas batalhas ao lado do rei. O que o levara a uma vida to
solitria? Talvez um interesse real pela magia negra? Eram muitas as perguntas sem
respostas. Sempre fora capaz de solucionar os problemas do dia-a-dia, ainda que envolvessem
quantos srios ligados  administrao do castelo, abordando-os de maneira lgica.
Entretanto o comportamento bizarro do Cavaleiro Vermelho parecia desafiar a razo.
         Cada vez que tentava descobrir algum detalhe envolvendo-o, sentia-se bloqueada.
Cecil nunca dizia nada, Alan mantinha a boca fechada e Piers subia pelas paredes sempre que
procurava tocar no assunto de seu exlio voluntrio. E se havia algo que a chateava mais do
que as sombras eram exatamente as exploses do marido. No tinha a menor vontade de
atrair aquela ira para si mesma.
         Foi a passagem de Cecil pelo corredor que a trouxe de volta  realidade, fazendo-a
perceber que o papel de carta continuava em branco. Suspirando, forou-se a escrever
rapidamente e ao terminar reparou que o outro Cecil passava correndo na direo do celeiro.
Se os dois irmos haviam se ausentado, quem ento estaria a postos, guardando a toca do
Cavaleiro Vermelho? Ningum. De repente Isadora experimentou um impulso incontrolvel
de dar uma olhada.
         Sem parar para pensar ou considerar o peso dos atos, subiu as escadas que
conduziam aos aposentos de Piers, uma sensao de estar desafiando o proibido dominando-a
a cada passo. Exceto os Cecils, no havia uma nica pessoa no castelo que pudesse entrar nos
domnios particulares do lorde de Dunmurrow. Os gmeos se encarregavam da limpeza e de
atender qualquer ordem, revezando-se na tarefa quase as vinte e quatro horas do dia.
         Na sua opinio, no havia muita necessidade de tanta segurana. Afinal quem ousaria
se aproximar do antro do Cavaleiro Vermelho? Mesmo os que obtinham permisso pareciam
relutantes em aceitar o convite.
         E entrar sem permisso era exatamente o. que ela pretendia fazer.
         Apesar do bom senso a aconselhar do contrrio, no conseguia conter a curiosidade.
Ali estava uma oportunidade de descobrir mais sobre o marido, observando os aposentos  luz
do dia. Ser que ele estava l? Ser que acenderia velas quando sozinho, para aliviar o peso
das sombras? Talvez conseguisse enxerg-lo, se a penumbra no fosse muito espessa. Agora,
se o quarto estivesse vazio, poderia procurar sinais capazes de revelar detalhes sobre a
personalidade do Cavaleiro Vermelho.
         Ao chegar junto aos aposentos, seu corao batia tanto no peito que dava a impresso
de querer saltar pela boca. Sem hesitar um segundo, abriu a porta e entrou. Porm, para seu
desaponto, nenhuma revelao lhe foi feita.
         Como de costume, as sombras dominavam cada canto e apenas o fogo da lareira
quebrava a escurido. total. O crepitar das chamas. era o nico rudo audvel. De repente
alguma coisa esbarrou em seus ps. Os ces! Como pudera esquec-los?
         - Isadora? - Ela quase desmaiou ao ouvir a voz do marido, sada da escurido como
uma ameaa. - O que foi, minha esposa?


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         Embora tentasse julgar o humor de Piers baseando-se no tom da voz, nada conseguiu.
Seu nervosismo era tamanho que a impedia de raciocinar com clareza. Ser que ele estava
muito irritado pela invaso inesperada?
         - Ser que posso incomod-lo durante alguns segundos? - Isadora perguntou
embaraada, o corpo inteiro tremendo. - Escrevi uma carta para meu administrador, em
Belvry... e gostaria de ler para a sua aprovao.
         - Onde est Cecil?
         - Eu o vi saindo antes de vir para c. - Ela achou melhor no explicar por que entrara
daquela maneira precipitada, sem ao menos bater na porta. - Mas se voc estiver muito
ocupado...
         - No. Sente-se, por favor. - O tom seco de Montmorency deixava claro que ele sabia
muito bem que a tal carta no passava de uma desculpa. - Leia para mim.
         Sentada junto ao fogo, Isadora fez o que lhe foi pedido, satisfeita por ter sido capaz de
manter a voz calma e controlada. Agora precisava apenas aguardar o parecer do marido.
         Embora se importasse com Piers mais do que um dia julgara possvel se importar
com quem quer que fosse, o poder que dele emanava ainda a intimidava e como uma criana
pega em flagrante, tinha conscincia de que tentara colher o fruto proibido entrando ali sem
ser convidada. Ser que seria repreendida?
         - A carta est muito bem escrita. - O comentrio lhe trouxe um alvio indescritvel. -
Acho que deve mand-la sem demora. Voc sentiu minha falta, esposa?
         A pergunta pegou-a de surpresa por causa da mudana repentina de assunto.
         - Sim. - E era a pura verdade. Sentia falta da presena do marido e procurava se
consolar daquela ausncia dedicando-se a atividades variadas.
         - Ento venha c.
         Surpresa e feliz, Isadora caminhou na direo da voz, ignorando os cachorros e a
escurido. Logo braos fortes a enlaavam.
         - Voc  uma mulher ardente que no parece capaz de se manter longe do marido.
         -  uma triste verdade. - Ela suspirou e recostou a cabea no peito largo, sentindo os
lbios quentes roarem seus cabelos de leve.
         - Talvez seja triste para voc, mas  um prazer para mim.
         Ela o abraou com o desespero de quem se agarra  prpria vida.
         - No.  uma alegria para mim.
         - Isadora...
         A palavra ficou parada no ar, como um gemido, uma splica, uma prece. Ento os
lbios de ambos se encontraram com avidez, numa fome que no podia ser saciada.
         Os mistrios que envolviam o Cavaleiro Vermelho foram momentaneamente
esquecidos, a magia que os atraa um para o outro envolvendo-os numa teia de seduo e
encantamento. Isadora esqueceu-se dos afazeres e passou a manh inteira na cama do marido.
          medida que o dia de Natal se aproximava, Edith tornava-se mais e mais ansiosa
para ajudar. De fato a mudana que ocorrera na criada desde a chegada a Dunmurrow era
impressionante. Inmeras vezes a surpreendera cantarolando feliz enquanto trabalhava e
hoje no era exceo.
         - Creio que vamos ter uma quantidade suficiente de bolos, minha lady, mas acho que
deveramos assar mais pes para os aldees levarem para casa.
         - Ento na sua opinio pes extras atrairo o povo ao castelo?
         - Sim, minha lady. Ser bom para as pessoas ter um dia de fartura e celebrao.
         A opinio de Edith sobre a celebrao de Natal era to diferente de algumas semanas
atrs que Isadora no resistiu  vontade de provoc-la.
         - Mesmo se o Cavaleiro Vermelho decidir se juntar a eles?
         - Bem, voc deve compreender que eu ainda no posso aprov-lo, porm Willie est
sempre dizendo que se trata de um homem bom. Assim resolvi reservar meu julgamento final.
         Por um instante Isadora sentiu-se irritada porque a serva parecia acreditar mais na

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palavra de Willie do que na sua prpria. Depois concluiu que talvez a culpa fosse mesmo sua
porque no defendera o marido com a veemncia necessria. Claro que refutara os rumores
que o cercavam, mas ser que dissera a Edith que seu marido era gentil, delicado e... ardente?
         - Claro que ele  um homem bom.
         - Provavelmente deve ser mesmo, j que Willie o tem em to alta conta. Mas devo
admitir que ainda tenho minhas dvidas. - A conversa foi interrompida pela chegada do
prprio Willie sado da cozinha com um copo de cerveja nas mos.
         - Edithzinha, Glenna est precisando de voc na cozinha - ele anunciou, mastigando
alguma guloseima.
         - E posso saber o que o senhor estava fazendo l? - a serva indagou com um dedo em
riste. - Com certeza se empanturrando de bolos e doces que esto sendo preparados para a
ceia de Natal.
         O soldado sorriu sem um pingo de remorso, os farelos ao redor dos lbios
denunciando o que andara lambiscando. Edith marchou para fora do salo, resmungando
alto sobre velhos que se comportam como crianas.
         A ss com o soldado, de repente Isadora o fitou como se o visse pela primeira vez. Ali
estava algum que de fato conhecia o seu marido.
         De acordo com a conversa da criada, Willie admirava e respeitava o Cavaleiro
Vermelho, portanto devia conhec-lo bem. Provavelmente o homem estava a servio do baro
h tempos e quem sabe no poderia responder algumas das perguntas que a assombravam?
         Com o corao aos pulos de ansiedade, sentou-se junto de Willie embora mantivesse
os olhos voltados para a porta da cozinha, caso Edith aparecesse. Queria que essa conversa
fosse em particular.
         - Willie - ela comeou cautelosa -, voc est a servio do Cavaleiro Vermelho h
muitos anos, no ?
               - Isso mesmo, minha lady - o soldado respondeu antes de tomar um longo gole
de cerveja.
         Ela aguardou, certa de que outros comentrios seriam feitos. Porm Willie
permaneceu calado, o olhar fixo no fogo que crepitava na lareira. Pelo visto, ele s era falante
quando estava de bom humor ou quando o assunto o interessava.
               - H quanto tempo? - Isadora insistiu, no querer se dar por vencida.
               - Oh, h anos, minha lady.
         E como  a aparncia dele?, ela ansiava perguntar porm o pudor a impedia. Como
teria coragem de admitir para o soldado que jamais pusera os olhos sobre a figura do
marido?
         - Aqueles que, como eu, se juntam ao Cavaleiro Vermelho em geral permanecem no
posto porque o baro um homem justo e um grande guerreiro.
         Mas como  a aparncia dele? Nunca se sentira to perto e to longe de descobrir a
verdade sobre Piers.
         - Imagino que s a alta estatura. de meu marido j impunha medo aos seus inimigos.
         - Sim. Ele  um homem grande.
         E...? Por um instante ela pensou em pegar uma faca e ameaar o soldado para obrig-
la a lhe dar as informaes que procurava. Qual seria a cor dos cabelos de! Montmorency?
Dos olhos? Como seria o rosto? Desfigurado, talvez? .
         - Meu marido... assusta os inimigos?
         - Bem, claro que sim. Especialmente depois que o baro recebeu o ttulo de Cavaleiro
Vermelho, dado pelo prprio rei Edward. Foi assim que todas aquelas histrias absurdas
comearam a ser contadas. - Willie deu de ombros, demonstrando todo o seu desgosto com os
rumores estranhos que cercavam o senhor de Dunmurrow.
         Ento Willie tambm no acreditava naquelas bobagens envolvendo feitiaria,
Isadora concluiu. Entretanto o soldado admitia que a mera presena de Piers atemorizava os
inimigos. Inspirando fundo, Isadora tentou assimilar a revelao. S havia uma concluso


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lgica. Montmorency devia ter nascido com alguma deformidade, ou ento ficara
terrivelmente desfigurado por ferimentos sofridos durante uma batalha. Entretanto essa
possvel deformidade no pudera ser detectada quando o tocara com as pontas dos dedos.
         - Willie - Isadora indagou muito sria -, por que de j no treina pessoalmente os
prprios homens?
         O soldado ficou em silncio vrios segundos, os olhos fixos no copo de cerveja.
         - No sei dizer com certeza. Ns todos, que estamos sob as ordens do Cavaleiro
Vermelho, achvamos que depois de ter recebido Dunmurrow como prmio pelos servios
prestados ao rei, ele merecia um descanso. Presumo que seja isto o que o Cavaleiro Vermelho
esteja fazendo. Descansando.
         Um descanso? Isadora mal podia acreditar no que acabara de ouvir. Aquela era o
tipo de resposta que em nada explicava os mistrios incontveis que cercavam Piers
Montmorency.
         - Mas ele nunca sai do quarto!
         -  mesmo? - O tom desinteressado do soldado deixava claro como o comportamento
do Cavaleiro Vermelho no lhe causava a menor estranheza. - Nada sei sobre os hbitos do
baro, minha lady. Agora, se me der licena, vou  procura de Edith. Afinal fui encarregado
de proteg-la, no ?
         Isadora permaneceu onde estava, certa de que por mais que tentasse Willie no
revelaria coisa alguma. Piers soubera escolher bem os homens que o cercavam e nenhum deles
quebraria o voto de fidelidade.
         Cansada de se ver s voltas com tantas perguntas sem respostas, resolveu dedicar-se
s tarefas do dia. Pegando o copo de cerveja que o soldado esquecera sobre a mesa, comeou a
caminhar na direo da cozinha. De sbito, olhando para o resto do lquido escuro e opaco,
lembrou-se da poo que a viva Nebbs lhe dera. Se ao menos existisse uma erva capaz de
fazer as pessoas falarem livremente, sem qualquer tipo de censura... Quem sabe assim no
encontraria as explicaes para as dvidas que a atormentavam.
         A idia que lhe ocorreu teve a fora de um raio. Infelizmente no havia ervas capazes
de obrigar algum a falar a verdade, entretanto existiam muitos outros tipos de ervas, cada
qual com poderes especiais e particulares.
         Segurando um pacotinho com uma mistura de ervas para fazer dormir, Isadora
bateu na porta dos aposentos principais e aguardou que o marido a mandasse entrar.
         Ainda no era tarde demais para voltar atrs, pensou com um aperto no corao.
Bastava guardar o embrulho pequenino num dos bolsos do vestido e pronto, assunto
esquecido. Entretanto nunca fora o tipo de desistir depois de tomar uma deciso e agora no
seria diferente. Mordendo os lbios nervosamente, entrou.
         - Sou eu, Isadora, meu lorde.
         - Voc chegou cedo hoje, esposa. Sua fome  to grande de assim? - Na verdade,
apesar das palavras aparentemente inofensivas, o que Montmorency queria sugerir era que
ela sentia fome de sexo. Apesar de estar sempre pronta e disposta a receber as atenes do
marido, precisava aguardar o momento certo ou seus planos iriam por gua abaixo. Queria
Piers em sua cama sim, s que mais tarde... No aqui, neste momento.
         - Sim, estou faminta! - Isadora retrucou achando melhor se fazer de desentendida.
Montmorency nada respondeu, entretanto o desaponto dele era palpvel e emanava em ondas
atravs da escurido.
         Sentada no lugar de costume, ela reparou que a mesa estava vazia. Em geral, ao
chegar, j encontrava o jantar servido. Porm hoje fizera questo de aparecer antes de Cecil
para facilitar a execuo do plano. Determinada a preencher os minutos interminveis de
espera, falou sobre o que fizera o dia inteiro, embora os pensamentos vagassem numa direo
bastante diferente.
        Finalmente Cecil apareceu trazendo as travessas e depositou-as sobre a mesa, alis

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uma tarefa quase impossvel por causa das trevas. Oh, Deu,s, e se o servo notasse o que estava
para fazer? No, tarde demais para mudar de idia. Iria at o fim. Quando Cecil depositou o
clice de Piers, ela estendeu a mo, como se fosse ajeit-lo melhor, e despejou o contedo do
pacotinho dentro do vinho.
        Hoje o Cavaleiro Vermelho dormiria ao seu lado a noite inteira.
         O criado foi dispensado e a refeio prosseguiu como de costume. Isadora contou a
respeito dos preparativos para o natal enquanto lambiscava a comida, o corao batendo
descompassado no peito. Ser que dera uma dose muito grande de sonfero? Ou ser que no
fora o suficiente? Piers era um homem grande e calcular a tempo necessrio para que a droga
surtisse efeito era crucial.
         Ao ouvi-lo bocejar, Isadora levantou-se depressa.
         - Venha me ver - falou docemente. - Vou esper-lo no meu quarto. - Ento saiu
depressa, tentando conter o nervosismo.
         Mesmo j tendo feito amor alternadamente na cama de ambos, Isadora sabia, que o
marido preferia ir ao seu encontro porque assim podia deix-la quando quisesse, antes do
amanhecer. E sempre na completa escurido.
         Nas trevas ele a abraava, desvendava cada pedacinho de seu corpo com as mos e a
boca, o membro pulsante penetrando-a fundo, transformando-os numa s carne at que,
louca de prazer, ela gritava em xtase. Entretanto...
         Apesar de todas as intimidades que haviam Partilhado, sabia que se encontrasse o
marido em plena luz do dia no poderia reconhec-lo...
         A situao era intolervel. No podia aceitar nem compreender aquelas sombras
eternas, nem agora, nem nunca. Ela agarrava-se  idia de que Piers era desfigurado de
alguma maneira que seu toque no conseguia detectar, porque a alternativa era muito mais
aterradora.
         Ainda que Edith tivesse parado com os comentrios absurdos, tinha conscincia dos
rumores que envolviam seu marido. Embora estivesse certa que o homem que a levava para
cama no era nenhum feiticeiro do mal, uma dvida constante costumava atorment-la,
principalmente durante as longas horas do dia, quando se encontrava a ss. E era essa dvida
que precisava ser eliminada.
         Bem no fundo do corao alimentara a esperana que Piers acabaria confiando nela e
se revelando inteiro, como fazia com Alan e com os Cecil. Na verdade sentia-se ferida por essa
falta de f, pela barreira existente entre os dois. Talvez, com o tempo, ele abaixaria a guarda.
Porm nunca fora uma mulher muito paciente. Estava cansada de esperar.
         Hoje a noite veria o rosto e o corpo de seu marido.
         Com a cabea recostada no peito largo de Piers, Isadora o ouvia respirar enquanto
procurava aquietar as batida do prprio corao, temendo acord-lo. Ele havia feito amor
mais lentamente, como se as ervas j estivesse afetando-o. Contudo a paixo fora a mesma,
intensa sem medidas. Oh, Deus, ser que estava fazendo a coisa certa? Agora que o momento
havia chegado sentia-se mais apavorada do que aliviada diante da perspectiva de ver o
Cavaleiro Vermelho.
         - Piers?
         Nenhuma resposta.
         Mesmo no gostando muito d idia de se apressar, precisava agir o quanto antes
porque no sabia por quanto tempo as ervas o manteriam dormindo. Chegara a hora de
desvendar o segredo do Cavaleiro Vermelho, um homem cuja reputao atravessara todo o
reino, o homem de quem se dizia ter parte com o diabo....
         Isadora sentou-se e abriu as cortinas da cama, pronta para dizer que precisava
atender a um chamado da natureza, caso Piers acordasse de repente. Procurando no fazer o
menor rudo, vestiu um robe e pegou o vestido que deixara sobre a cadeira, em cujo bolso
escondera um castial e uma vela grossa. Com as mos trmulas, foi at a lareira e acendeu a


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vela. Depois obrigou-se a caminhar at a cama.
         Erguendo o brao, iluminou a figura de um homem alto, um cavaleiro de enorme
estatura. Ento puxou as cobertas para olhar, pela primeira vez, o corpo de seu marido
adormecido.
         As pernas longas e musculosas, cobertas por uma camada de plos claros, a faziam
pensar na solidez da rocha. A virilidade, grande mesmo sem estar ereta, descansava sobre os
cabelos louros em torno das virilhas. Uma das mos, de dedos esguios, repousava sobre o
estmago firme. Como no percebesse qualquer desfigurao at ali, Isadora continuou a
examin-lo.
         O peito era forte, a pele dourada, os ombros incrivelmente largos, os braos
musculosos. No havia nada de errado com o corpo de seu marido, Isadora pensou es-
tarrecida. Ele parecia um deus atltico, esculpido  perfeio.
         Tremendo de maneira incontrolvel, ela ergueu o castial para iluminar o rosto, certa
de que ali encontraria o motivo que o obrigava a permanecer envolto pelas trevas...
         Vagarosamente as feies foram se tornando ntidas. Chocada, Isadora sufocou um
grito de surpresa.
         Piers Montmorency era lindo.
         Cabelos louros-escuros desciam at o pescoo. Sobrancelhas bem delineadas, clios
longos e espessos, nariz reto. Queixo forte e lbios generosos, sem serem excessivamente
carnudos. Um rosto perfeito. O rosto de um anjo.
         Apenas uma pequena cicatriz que corria de uma das sobrancelhas at a tmpora.
         Fascinada pela viso, Isadora deu um passo para a frente e aproximou ainda mais o
castial da figura adormecida, procurando algo que explicasse o porqu daquele homem se
esconder nas sombras. Hesitante, tocou a cicatriz. Fora um ferimento recente, concluiu.
Porm j vira coisas bem piores em outros cavaleiros. No era nada que diminusse a beleza
de Piers, muito pelo contrrio. A marca o tornava mais viril, msculo, real... como se o anjo
tivesse vencido um combate mortal com o demnio.
         O demnio. No, no queria pensar nisso, decidiu, murmurando uma prece. De
repente Piers mudou de posio na cama e Isadora se deu conta da enormidade do que havia
feito. Na sua pressa de fechar as cortinas da cama quase acabou deixando o castial cair.
Rapidamente apagou a vela e escondeu-a outra vez no bolso do vestido Depois voltou para o
seu lado da cama, perdida numa confuso total.
         Mordendo os lbios de puro nervosismo, experimento o gosto do medo ao decidir que
devia tornar a deitar-se.
         Era incrvel pensar como havia mudado. Antes de casar se nunca tivera receio de
nada, nem da escurido, nem da ausncia da sua me, nem das histrias de fantasma e seres
diablicos que faziam Edith estremecer de pavor nem mesmo da falta de significado da sua
vida que procurara remediar com trabalho em vez de amor.
         Engolindo um soluo, Isadora tirou o robe e deitou-se, as pernas recusando-se a
mant-la de p por mais um segundo sequer. As lgrimas, que jamais chegara a derramar
antes, comearam a correr livres pelo rosto delicado, trazendo um alvio inesperado.
Dominada pela emoo, passou um brao ao redor do peito largo do marido, apertando-o com
fora de encontro a si. Finalmente a verdade a atingira como um raio, obrigando-a a
enfrentar o que tentara ignorar. No importava quem ou o que o Cavaleiro Vermelho era. Ele
viera preencher o vazio da sua vida, um vazio to grande que nem suspeitara existir. Ele a
fizera desabrochar.
         O fato  que o amava acima de tudo e com toda a sua alma.


        CAPITULO DOZE

        Isadora acordou devagar, uma sensao de calor e bem-estar inundando-a por


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inteiro.
         Numa reao instintiva, esfregou o rosto de encontro ao peito largo, absorvendo o
cheiro delicioso da pele do marido. Seria um sonho ou estavam juntos mesmo? O pensamento
destroou os vestgios de sono, trazendo-a de volta  realidade, pois sabia que devia estar
sozinha.
         Ser que j havia amanhecido? Um incio de pnico ameaou domin-la ao se
lembrar dos acontecimentos da noite anterior. Talvez, apesar de todos os seus cuidados,
tivesse dado uma dose grande de sonfero a Piers. Grande o suficiente para faz-lo passar a
noite inteira no seu quarto. Agora no havia como fingir que nada tinha acontecido. Nada
poderia continuar a ser como antes...
         Pela primeira vez, Isadora se permitiu pensar no acontecido e enfrentar a nica
concluso possvel. O homem ao seu lado era perfeito e, com exceo da cor dos olhos, vira
cada detalhe do corpo de Montmorency. No existia coisa alguma que o obrigasse a viver nas
trevas, exceto um pacto com o diabo.
         Uma batida  porta assustou-a.
         - Minha lady? - Edith chamou-a, entrando no quarto. -Voc est se sentindo bem? J
passou da hora de se levantar.
         Isadora engoliu em seco.
         - Sim, estou bem, porm gostaria de ficar na cama um pouco mais. Pode ir cuidar das
suas outras tarefas e me deixar sozinha.
         Apesar da dispensa, a criada no deu mostras de mover do lugar.
         - Tem mesmo certeza de que est se sentindo bem
         - J disse que sim. Estou com meu marido. Deixe-me a ss!
         Nada teria feito a criada se afastar com maior rapidez do que a meno do Cavaleiro
Vermelho. Isadora sorriu ao ouvir a porta do quarto sendo fechada com fora, contudo o
sorriso desapareceu de seus lbios diante do som pastoso da voz do marido.
         - J  de manh?
         - Sim. Hoje  vspera de Natal e voc est na minha cama.
         Aparentando mais calma do que sentia, Isadora abriu as cortinas da cama e ficou de
p. Por um instante a coragem lhe faltou. Ser que o encontraria transformado numa fera
horrenda ao amanhecer? Quaisquer que fossem as conseqncias, sabia que precisava olhar.
Com a respirao suspensa, voltou-se para fitar o marido.
         Apesar de seus mais loucos medos, Piers no tinha se transformado numa criatura de
chifres ao ser banhado pela luz da manh. Ontem chegara a suspeitar que a luz da vela
aumentara os charmes masculinos, porm se enganara inteiramente. Montmorency era
maravilhoso, da cabea aos ps.
         Tratava-se de um homem enorme, mas bem proporcionado. Peito largo, estmago
firme, quadris estreitos, mal cobertos pelos lenis. Os msculos dos braos sobressaam sob a
leve camada de plos louros e cabelos da mesma cor se espalhavam pelo travesseiro,
brilhantes e macios. Deitado de costas, Piers tinha um dos braos apoiados sobre os olhos e as
sobrancelhas pareciam contradas, um sinal evidente de angstia. Era como se ele quisesse
negar a presena da esposa. O queixo forte e os lbios generosos a atraam como um im.
         - Voc  lindo, meu marido - Isadora murmurou cheia de carinho, admirando os
contornos perfeitos. Ansiava toc-lo, como se apenas o contato direto pudesse tomar essa viso
de beleza real. Entretanto Montmorency virou-se para o lado oposto e sentou-se, puxando as
cortinas com raiva.
         - Me deixe sozinho! - ele falou entre os dentes, apoiando a cabea nas mos. - V
chamar Cecil e me deixe s, sua mulher estpida!
         Atordoada pelas palavras speras, Isadora vestiu um robe, porm, em vez de chamar
Cecil, aproximou-se do marido, sentindo um peso sufocante no peito, um peso que quase a
impedia de respirar e lhe trazia lgrimas aos olhos.
         Entretanto, no se tratava de medo, mesmo sabendo que Piers podia faz-la parar do


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outro lado do quarto com um simples empurro. Ela conhecia a intensidade daquela ira e
sabia o quo assustador Piers podia ser no auge da raiva. Ainda assim, no conseguia se
afastar. Preferia se expor a quaisquer riscos a deix-lo. Procurando manter a calma, ajoelhou-
se diante do marido e tocou-o de leve, fazendo-o baixar as mos que lhe cobriam o rosto.
         - No me mande embora - pediu num murmrio.
         Com um gemido rouco, Montmorency ergueu a cabea e mais uma vez 1sadora sentiu
um choque profundo diante de to grande beleza. Cabelos louros e pele dourada faziam
sobressair ainda mais os olhos mais lindos que jamais vira. Profundos e azuis como o mar.
Subjugada por uma emoo to forte que ameaava sufoc-la, 1sadora engoliu em seco,
incapaz de desviar a ateno daqueles olhos. Olhos maravilhosos, de um azul intenso e que
ainda assim... .
         No podiam v-la.
         A fora da revelao foi como uma punhalada e de repente tudo ficou claro, as peas
do quebra-cabea se encaixando sem esforo. A escurido, o isolamento, a presena constante
dos servos. O Cavaleiro no era nenhum feiticeiro e nem se escondia nas sombras por causa
algum trao que o desfigurava.
         O Cavaleiro Vermelho era cego.
         Piers permaneceu imvel, cada linha do rosto contrado como se preparasse para um
ataque. Era uma viso arrepiante, uma viso que teria feito muita gente de corao frgil
correr. Porm Isadora era forte e no se moveu.
         - Quando? - perguntou simplesmente.
         Apesar de atenta, ela no estava preparada para movimento repentino do marido.
Num acesso de raiva Piers levantou-se da cama e empurrou-a para o lado fazendo-a perder o
equilbrio enquanto praguejava violentamente. Isadora ficou de p, o corao batendo
descompassado no peito, os olhos fixos no animal desvairados e enfurecido que varria o
quarto num mpeto de destruio. Ao esbarrar na cmoda, Montmorency pegou-a e jogou-a
de encontro  parede, partindo a madeira pesada em dezenas de pedaos. Assustada, Isadora
se encolheu de encontro a cama.
         Estava apavorada sim, mais apavorada do que jamais estivera durante toda a sua
vida. Seu temor de feitiaria, de encantamentos ou das trevas no era nada comparado ao
terror que a enregelava at aos ossos. Porque  sua frente estava um estranho, um estranho
enorme, feroz e imprevisvel, um estranho capaz de qualquer coisa. E no havia como tentar
cham-lo  razo. Tampando os ouvidos com as mos para no ouvir os urros irados, Isadora
fechou os olhos tentando no enxergar a demonstrao de raiva crua e desprovida de
qualquer controle.
         O silncio inesperado a fez abrir os olhos outra vez. Piers estava imvel agora,
ofegante, as feies bonitas transformadas numa mscara de dio.
         - Eu devia mat-la - ele murmurou baixinho.
         As palavras tiveram o efeito de um golpe e por um instante ela desejou ter sido
agredida fisicamente. Talvez a dor fosse menor. Ento significava to pouco assim para o
marido? Toda a ternura, todo o carinho, toda a paixo que existira entre os dois... Fora tudo
em vo? De repente o medo desapareceu como por encanto, deixando apenas o vazio, uma
calma estranha, como se estivesse morta por dentro.
         Isadora ergueu a cabea esforando-se para conter as lgrimas inteis. Deus sabia o
quanto j chorara na noite anterior, e de que valera tanta emoo se hoje de manh o marido
a queria morta?
         - No fale comigo neste tom, nem que seja movido pela raiva. Perguntei-lhe quando
aconteceu e estou esperando uma resposta.
         Piers estendeu o brao para frente, procurando a parede. Ento encostou-se e virou a
cabea para o outro lado, a fria aparentemente extinta. Ele continuava nu e Isadora precisou
se esforar para ignorar os msculos das costas, as ndegas firmes, as pernas longas e atl-
ticas. Aquele corpo, prprio de um deus, a maravilhava...


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         - Meses atrs.
         - Como?
         - Durante uma batalha. Eu no estava usando elmo, apenas um barrete, o que
deixava meus olhos sem proteo. Quando um gals me jogou ao cho e se preparou para
desferir um golpe mortal em meu rosto, Alan conseguiu acert-lo por trs. O machado do
inimigo bateu numa rocha prxima  minha cabea. Fiquei coberto de sangue e estilhaos de
pedra. Desde ento s me restou a dor e a escurido.
         Cheia de angstia, Isadora queria abraar o marido, oferecer conforto e cur-lo. Mas
temendo provocar um novo acesso de raiva, permaneceu imvel.
         - Conheo um pouco da arte da cura. Talvez eu possa ajud-lo.
         - Voc acha que j no tentei de tudo? - Piers gritou caminhando pelo quarto como
uma fera enjaulada. Mandei buscar cada feiticeiro e curandeiro do reino. Mas nada pde ser
feito!
         - No sei nada a respeito desses feiticeiros e curandeiros, porm tenho um bom
conhecimento da arte cura. Pelo menos deixe-me tentar.
         - Por qu? - Piers perguntou num tom irnico cruel. - Porque voc quer ter um
verdadeiro homem como marido? Um cavaleiro que seja capaz de protege as suas
propriedades e no um tolo idiota de quem se pode arrancar qualquer coisa em questo de
segundos?
         - Voc no  indefeso. Voc tem homens e Alan para os liderar em caso de...
         Montmorency cortou-a no meio da frase.
         - Um bom show, entretanto de pouco servir quando a verdade vier a tona. Essa
desculpa da magia negra no nos proteger para sempre. Ser apenas uma questo de tempo
at que algum decida colocar a lenda  prova e me desafiar ou desafiar o meu direito  Posse
daquilo que voc me trouxe atravs do casamento.
         - Mas com certeza o rei...
         O riso amargurado de Piers cortava como ao.
         - Voc acha que Edward precisa de um vassalo cego para cuidar dos interesses da
coroa? Para participar de batalhas e proteger as fronteiras do reino? Pois eu acho que no!
Ele sabe que estou invlido e me deixa em paz, entretanto no poder me proteger. Cedo ou
tarde o mito que criaram sobre mim cair por terra. E ento o que ser de voc?
         - Ento faremos o que deve ser feito - Isadora respondeu muito calma.
         - Qual a sua opinio sobre a sua sbia escolha agora, minha lady? Est muito
arrependida?
         - No! - ela gritou determinada. - No me arrependo de nada e voc no ser capaz de
me fazer mudar de idia usando essas palavras odiosas.
         De repente Piers estava ao seu lado, abraando-a. Trmula de emoo, Isadora
pressionou o rosto de encontro ao peito largo, sabendo que a nica coisa que realmente a
magoara havia sido a exploso do marido.
         Entretanto tinha certeza de que Montmorency falara apenas da boca para fora
porque no a queria morta e muito menos que o rejeitasse como marido. Ele apenas expusera
seu estado de dor e vulnerabilidade atroz. Ali estava um grande guerreiro acostumado  vida
ao ar livre, um verdadeiro lder, forte e inteligente, um homem especial que de repente vira-se
obrigado a esconder-se dos olhos do mundo... Primeiro em Dunmurrow e ento, quando uma
noiva lhe fora imposta, exilado no prprio quarto, cego e s.
         Ao se lembrar do absurdo das suas suspeitas iniciais, Isadora no conseguiu controlar
a vontade de rir.
         - E eu que pensei que voc fosse uma criatura do mal, condenado a viver nas trevas
por causa de algum pacto com o demnio. Todas aquelas histrias horrveis que Edith me
contou a seu respeito... Eu jurava no acreditar em nenhuma delas, porm em que mais podia
acreditar? Pois vou lhe dizer uma coisa, Piers Montmorency. Prefiro estar apaixonada por
um cego do que por um demnio.


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         - O que foi que voc disse? - Piers perguntou, os sentidos imediatamente alertas.
         - Agradeo a Deus que voc no seja o homem que os rumores insistem em
transform-lo. Porque quer fosse ma inteno, quer no, eu... eu tinha medo que os boatos
possussem um fundo de verdade.
         Piers tocou a face da mulher com as pontas dos dedos, como se quisesse reter a beleza
e a doura de cada trao, O rosto viril, transtornado pela emoo, deixava evidente a fora
dos sentimentos que o abalavam. Mas ainda assim, ele mantinha um controle de ferro.
         - E? - Montmorency indagou baixinho, a voz rouca e ansiosa.
         - E eu te amo - ela respondeu com simplicidade. De repente velhos medos caram por
terra e foram substitudos pela insegurana dos que se sabem irremediavelmente
apaixonados. Porm preferia enfrentar os sobressaltos da paixo do que suportar uma vida
longa vazia sem amor.
         Embora achasse que o marido iria beij-la, ele apenas abraou-a com tanta fora que
quase a impediu de respirar.
         - Isadora... - Piers murmurou cheio de ternura. Porm, apesar do clima romntico e
propcio a confisses, ele no disse mais nada e manteve as rdeas das emoes sob controle.
         Finalmente Isadora rompeu o silncio.
         - Venha, sente-se perto do fogo e pelo menos me deixe dar uma boa olhada em voc.
         Tomando-o pela mo, ela o conduziu at a lareira e o fez sentar-se no sof. Ento
fitou os olhos azuis com ateno.
         Eram to lindos e brilhantes que tornava difcil acreditar que para nada serviam.
         - Seus olhos doem?
         Piers apenas resmungou algo incompreensve1. Com certeza o desconforto era bem
maior do que ele deixava transparecer.
         - Pelo que voc me contou, creio que fragmentos de rocha ou metal penetraram em
seus olhos. Voc os lavou depois do acidente com blsamos apropriados?
         - Sim, mas de nada adiantou.
         Isadora tentava raciocinar depressa e encontrar possveis solues. Em geral
estilhaos costumavam ser expulsos numa reao do prprio organismo, contudo havia uma
possibilidade dos fragmentos terem ferido a retina de tal maneira que Piers jamais voltaria a
ver. No, no podia aceitar que se tratava de uma condio permanente.
         - Em belvry, aprendi muitas coisas com uma mulher dedicada ao estudo das ervas
antes de morrer.
         - J bebi misturas nojentas na tentativa de me curar e a ltima poo quase me
matou. Passei vrios dias sofrendo de terrveis dores de estomago. No quero mais saber desse
tipo de cura.
         - Mas voc j conversou com um medico?
         - Sim, procurei muitos deles, embora jamais tivesse me apresentado com meu
verdadeiro nome. O ltimo, um cirurgio, queria retirar um de meus olhos para que eu
pudesse voltar a enxergar com o outro.
         Horrorizada, Isadora passou a mo pelo rosto do marido possessivamente, como se
quisesse proteg-lo de qualquer ameaa futura.
         - H uma fonte perto de Woolpit que dizem ser de guas medicinais, timas para
doenas dos olhos.
         - No! No acredito nestas tolices.
         - Ento vou lhe preparar uma beberagem que servir para aliviar a dor.
         - No, obrigado. J tomei minha cota de poes estranhas e estou farto.
         - Vou lhe preparar uma beberagem sim - Isadora repetiu decidida. - E voc vai tom-
la porque sou sua esposa e no temo a ira do Cavaleiro Vermelho.
         De repente ela se deu conta de que o marido estava nu ao seu lado e um desejo de
toc-lo por inteiro suprimiu todos os outros pensamentos.
               - Voc  lindo - sussurrou apaixonada.  Agora fique quieto at que eu termine


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meus cuidados.
         Lentamente, Isadora comeou a beij-lo nas faces, no queixo, no pescoo forte. Depois
deslizou a lngua pelo peito largo at atingir um dos mamilos. Ento tomou-o na boca e sugou-
o com fora.
         Piers estremeceu e deixou escapar um gemido alto, os msculos tensos dos braos
traindo o estado crescente de excitao. Isadora sentiu-se dominada por uma onda
avassaladora de paixo. Ali estava seu marido em toda a glria viril: amante carinhoso,
guerreiro feroz e homem vulnervel. Percebendo que ele tentava se levantar para tom-la nos
braos, empurrou-o de volta para o sof.
         - Me deixe fazer isso... - pediu num murmrio rouco. - Me deixe olhar cada pedacinho
de voc... Voc  to, to lindo.
         Com o corao aos pulos, ela ajoelhou-se diante do marido e beijou a parte interna
das coxas musculosas, o pnis, duro e ereto, parecendo ainda maior sob a luz. Ento, bem
devagar, tomou o membro intumescido na boca.
         Por um instante Piers ficou rgido. Depois mos fortes a seguraram pelos cabelos
puxando-a de encontro a si com avidez. Excitada pela reao do marido, Isadora redobrou as
carcias, ouvindo-o gemer de prazer at que, estremecendo violentamente, Montmorency
gritou seu xtase para o infinito.
         - Como  que voc conseguiu esconder tanta beleza do mundo? - ela perguntou,
traando crculos com as pontas dos dedos sobre o peito largo.
         Piers cruzou os braos atrs da cabea, as veias e tendes parecendo querer saltar.
Fascinada, Isadora no conseguia desviar o olhar daquele corpo perfeito.
         - Odeio desapont-la, esposa, mas raramente alguma mulher se encantou com minha
beleza antes.
         - Ha! No acredito numa s palavra, Piers Montmorency! Uma mulher teria que ser...
         - Cega? - Piers completou.
         - Desculpe-me, mas  isso mesmo. Uma mulher teria que ser cega ou ento estar quase
morta para no se atirar aos seus ps.
         Piers riu com prazer, o som vibrante fazendo-a arrepiar inteirinha, o corao cheio
de orgulho e amor pelo marido.
         - As nicas mulheres que se atiraram aos meus ps eram aquelas em cujas terras eu
marchava com meus homens.
         - Mas com certeza na corte... - Enciumada, Isadora mal podia pensar nas damas da
corte flertando com Piers e ostentando os decotes exagerados em que metade dos seios
ficavam de fora.
         - Raramente tive oportunidade de freqentar a corte. O que, por sinal, pouca falta me
fez. Passei a maior parte da minha vida nos campos de batalha e depois que adquiri essa
reputao bizarra, poucas mulheres tinham coragem de se aproximar de mim.
         O instinto lhe dizia que Montmorency estava lhe escondendo alguma coisa, como
algum que omite certas partes da histria e vai direto ao final.
         - No acredito em voc, marido. Aposto que desde o bero as mulheres disputavam a
sua ateno e no lhe davam sossego.
         - No  bem assim. Quando eu era rapaz, na Normandia, at que tive minha cota de
conquistas. Porm assim que me aliei a Edward, logo algum metido a engraadinho comeou
a me chamar de o "belo vassalo" do rei, num sentido pejorativo,  claro. Como se minha apa-
rncia fosse um empecilho  excelncia nas artes da guerra. Talvez eu tenha tentado me livrar
do apelido nos campos de batalha, lutando com uma ferocidade incomum e fazendo com que
os comentrios fossem canalizados numa outra direo.
               - Quer dizer que voc gostou quando o rei o apelidou de Cavaleiro Vermelho?
               - Claro.  muito melhor do que ser chamado de "belo vassalo" - Piers
respondeu desgostoso.
         - S no consigo entender como  que voc no se casou mais cedo. As mulheres


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deviam tentar agrad-lo de todas as maneiras possveis.
         - Estava ocupado demais fazendo guerra para pensar em outros assuntos. Alm de
tudo, jamais amei algum de verdade.
         - Tambm devia estar ocupado demais criando uma lenda em torno de seu nome
como aquele que fizera um pacto com o demnio e se tornara uma criatura das trevas,
sedenta de sangue - Isadora o provocou.
         - Acertou. Enquanto procurava melhorar minha sorte e ser respeitado pelo meu valor
pessoal, tive pouco tempo para me dedicar s mulheres e depois, ao adquirir esta reputao
apavorante, tornou-se difcil atrai-las. Com uma nica e notvel exceo, diga-se de passagem.
- Piers estendeu a mo e acariciou os cabelos macios da esposa, num gesto cheio de carinho.
         - Fico feliz que sua beleza seja o segredo mais bem guardado do reino porque no
tenho a menor vontade de dividi-lo com ningum. Agora, depois de casada, descobri que sou
muito possessiva em relao ao que  meu. No toleraria concorrncia.
         - Ser que  impresso minha ou eu j disse algo semelhante?
         O sorriso luminoso do marido, de dentes brancos perfeitos, quase a fez perder o
flego.
         - Acho que voc disse sim... na primeira noite em que veio ao meu quarto e me tornou
sua mulher de fato.
          - timo. Fico feliz que concordemos em algo que preciso lembr-la de que voc 
minha, esposa? As palavras sugestivas foram acompanhadas de carinhos deliciosos ao redor
de seus seios.
         - Sim, por favor... - Isadora murmurou, erguendo os lbios para receber um beijo
longo e apaixonado.
         - Bom dia, marido. - Satisfeita consigo mesma, ela levantou-se da cama e abriu as
cortinas do quarto enorme, deixando a luz daquela manh de Natal penetrar nos aposentos
escuros do Cavaleiro Vermelho e iluminar a figura adormecida.
         No se cansava de admir-lo e a emoo era sempre forte e inevitvel. Fora privada
durante tanto tempo de v-lo que agora no se fartava de observar cada detalho do corpo
musculoso e atltico. Os mistrios que o envolviam nem de longe chegavam perto dos fatos e
tinha vontade de gritar ao mundo a verdade. Era duro manter em segredo o que fazia sua
alma transbordar de felicidade.
         Cabelos louros escuros serviam de moldura para o rosto de um verdadeiro deus, o
deus da guerra. A cicatriz numa das tmporas e uma outra, menor, na face esquerda,
proclamavam a todos a sua profisso. Entretanto em nada diminuam o impacto da beleza
viril: queixo forte, nariz reto, lbios firmes e sensuais. Piers Montmorency era o homem mais
bonito que jamais vira em toda a sua vida. E vira muitos em Belvry e na corte do rei Edward.
         - Voc abriu as cortinas.
               As palavras pegaram-na de surpresa porque achara que o marido continuava
adormecido. Porm, antes de tudo, Montmorency era um cavaleiro altamente treinado, o que
o impedia de dormir profundamente quando  merc de terceiros.
         - Como  que voc sabe?
         - Posso sentir a corrente de ar. Por acaso estava me admirando outra vez, esposa?
No se cansa de me olhar? - Quando Montmorency abriu os olhos, Isadora inspirou fundo,
atordoada pela intensidade do azul profundo. No conseguia aceitar que olhos to belos
estivessem mortos para a vida.
         - Sim - ela respondeu com fervor. - Juro que voc  o homem mais belo que jamais vi.
Oh, Piers, seu sorriso  to lindo!
         De repente um brao forte puxou-a para cama enquanto lbios ardentes procuravam
os seus com sofreguido, envolvendo-a numa paixo que desconhecia limites.
         A magia daquele homem penetrava seus sentidos de uma maneira avassaladora,
ameaando, como sempre, faz-la perder a noo de tempo e espao. Entretanto, apesar de
atordoada, ela resistiu e no sucumbiu ao desejo desta vez.


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         - Preciso me apressar ou vou perder a missa - avisou, procurando se desvencilhar dos
braos musculosos que se esforavam para mant-la na cama.
         - Missa? Como? Com que sacerdote? - Piers perguntou um pouco chateado ao
perceber que seu prazer teria que ser adiado j que a esposa no retribua as carcias.
         -  por isso que no posso me atrasar! Serei eu o sacerdote.
         - Que histria  essa? Quer dizer que voc resolveu vestir o hbito, agora? - Ele
sentou-se na cama exibir o torso nu ao olhar apaixonado da mulher.
         - Oh, querido, voc  to lindo! Quisera poder ficar aqui e am-lo vezes sem conta,
vendo seu corpo banhado pela luz do dia. Mas tenho que ir embora.
         - Primeiro me fale sobre essa sua nova vocao. fique preciso temer uma promoo
iminente ao bispado?
         Isadora riu, colocando o vestido s pressas e passando as mos pelos cabelos rebeldes
num gesto rpido e preciso.
         - No. Embora eu tenha requisitado a presena de um capelo para Dunmurrow
semanas atrs. Temos necessidade de um padre para atender aos aldees e a ns do castelo
tambm. S que ainda  muito cedo para uma resposta da Igreja. Essas coisas levam algum
tempo. Voc no se importa, no  mesmo, querido?
         A resposta de Piers foi uma mistura de gemido e risada.
         - Que diferena faria se eu me importasse?
         - Se eles mandarem algum, voc no ir assustar o sacerdote, no ? Ou ento
aborrec-lo tanto a ponto de ser excomungado? - Apreensiva, Isadora fitou o marido. Porm
ele sorria e tinha uma expresso tranqila no rosto.
         - Obrigada, querido! - Satisfeita, ela terminou de abotoar o vestido e calou as
sapatilhas.  Enquanto isso - prosseguiu explicando -, na falta de um sacerdote, eu mesma
conduzirei as oraes de Natal na capela, antes da festa.
          - Ah, que alvio,  bom saber que voc no est pretendendo tomar o hbito em
carter permanente porque eu no seria capaz de respeitar seus votos de celibato, esposa.
         - Pare de falar assim Isadora o repreendeu rindo, o olhar fixo no guerreiro glorioso
que tomara por marido.
         - Na minha opinio seu apelido foi um engano, meu lorde. Na verdade, Cavaleiro
Dourado seria muito mais adequado. Basta reparar no tom da sua pele e nos plos macios que
o cobrem.
         - Pare de me provocar, minha lady, a menos que esteja disposta a tirar as roupas e
voltar para a cama imediatamente. Alis, livr-la das roupas  um detalhe que eu mesmo
posso resolver em questo de segundos.
         Tem razo, melhor no provoc-lo. Preciso ir agora, no apenas para as oraes na
capela como tambm para vistoriar os ltimos preparativos da festa. Vamos abrir as portas
do castelo para todos os aldees e estamos plenamente preparados para alimentar cada um
deles. Claro que no poderemos servir carne de javali, porque no h ningum para cuidar da
caa, porm temos carne de vaca e de veado, alm de peixe e tortas de pombo.  uma
abundncia to grande de pratos que far jus ao tamanho de seu apetite, meu lorde.
         - Por favor, voc sabe que eu no poderei comparecer  sua celebrao.  impossvel
me expor dessa maneira.
         Ela ficou em silncio alguns instantes, desapontada demais para falar, apesar, de no
ntimo no ter dvidas que o marido estava certo. Ambos sabiam muito bem que to logo a
cegueira do senhor de Dunmurrow fosse descoberta, algum outro cavaleiro ambicioso e sem
escrpulos, tentaria colocar as mos gananciosas nas terras do baro Montmorency.
         - Eu sei - Isadora murmurou afinal. - Virei cear na sua companhia mais tarde. Porm
fao questo de lhe pedir um presente neste dia de Natal, querido.
         - E o que ? - O tom desconfiado do marido no lhe passou despercebido.
         - Venha dar um passeio comigo ao ar livre  ela pediu, colocando um dedo sobre os
lbios masculinos para impedi-lo de responder com um sonoro no. Precisava dar um jeito de


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convenc-lo. - Seria apenas ns dois. Voc poderia usar um elmo e cavalgaramos no muito
longe do castelo. Eu... eu quero que voc venha comigo procurar pelo veado branco.
         - Veado branco? - Piers estava perplexo.
         - Sim, isso mesmo. Se algum avistar um veado branco no dia de Natal poder ter
certeza de que a boa sorte est a caminho.
         - Nunca ouvi esta lenda antes.
         - Talvez porque seja uma lenda celta. Edith me contou quando eu era pequena e
desde ento, todos os Natal saio  procura do veado branco.
         Apesar de Piers no ser capaz de ver, pouca coisa lhe passava despercebida. Como
agora, por exemplo, quando enxergava exatamente o que se passava no corao da mulher.
         - Por acaso voc est dizendo, minha castel eficiente e organizada, minha lady
racional e objetiva, que no fundo da alma no passa de uma romntica?
         - No  bem assim. - Isadora corou da cabea aos ps, totalmente embaraada. - Eu
apenas...  apenas uma tradio.
               Piers riu com vontade, o som cristalino fazendo-a estremecer de prazer.
               - No  nenhum crime, querida, ter um corao de mulher.
         Ela abriu a boca para retrucar, porm ele a impediu, tocando-a de leve no peito,
como se quisesse provar o que acabara de dizer.
         - Agora, quanto ao pedido... No h nenhuma outra coisa que eu possa lhe dar de
Natal em vez de um passeio ao ar livre?
               - Sim, h outras coisas que voc pode me dar. Entretanto nenhuma delas eu
desejo tanto quanto passear ao seu lado em plena luz do dia.
         -  perigoso demais. Um risco que poderia me custar caro e cujas conseqncias
acabariam provocando a queda de Dunmurrow.
         - Ento mande Ceci! nos seguir, a uma distncia discreta,  claro - Isadora sugeriu
esperanosa, no querendo abrir mo do sonho.
         Montmorency no parecia nem um pouco convencido mas ainda assim ela insistiu,
tomando as mos fortes entre as suas num gesto de splica e amor.
         - Por favor, querido.
         Ele praguejou baixinho, as feies bonitas repentinamente transformadas numa viso
de dor e raiva. Era fcil perceber por que o Cavaleiro Vermelho havia adquirido aquela
reputao terrvel. Entretanto Isadora no se deixou abalar e permaneceu firme, as mos
postas sobre as do marido.
         - Mais tarde ento, quando os seus convidados j tiverem bebido o suficiente para
mant-los quietos nos lugares.
         - Oh, obrigada, querido. Tenho certeza de que voc no vai se arrepender. Sei que
vamos nos divertir muito e apreciar o ar puro. Talvez este ano sejamos capazes de v-lo!
         - Ver quem?
         - O veado branco, ora! - Isadora inclinou-se e beijou nos lbios antes de sair. - Agora
preciso ir. Devo separar suas roupas?
         - No. - Apesar de controlada, ainda havia uma certa aspereza na voz de Piers, como
se ele estivesse fazendo um esforo sobre-humano para atender ao pedido da esposa, um
esforo que poderia lhe custar o futuro. - Chame Cecil. E, por Deus, feche essas cortinas!


        CAPITULO TREZE


        Os dois cavalgaram em silncio a princpio porque Isadora desejava que o marido
desse desfrutar o prazer de estar ao ar livre. E havia muito a ser apreciado.
        A temperatura mantinha-se fria, porm suportvel, sob um cu de anil pssaros
cantavam e pulavam n galhos secos das rvores. Feliz por se ver livre das sombras do castelo,


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ela inspirou fundo, cheia de contentamento. Como era possvel Piers no se sentir mais vivo
em contato com a natureza? Embora tivesse pedido aquele passeio como presente de natal ao
marido, bem no fundo estava certa de t-lo presenteado, dando-lhe oportunidade de escapar a
um interior abafado e sombrio.
         Depois de um certo tempo Isadora comeou a descreve a paisagem, inclusive detalhes
que normalmente no prestaria ateno: o reflexo do Sol nas poas de gua, o brilho das
pedras midas, os formatos variados dos galhos secos contra o cu, o buraco feito por um
camundongo, sob um tronco oco.
         Seu plano era levar o marido at a cascata que Alan tinha lhe mostrado, porm ainda
no haviam sequer penetrado na floresta quando Piers puxou as rdeas do cavalo.
         - J estamos na floresta - ele falou num tom acusatrio.
               - Sim. Quero lhe mostrar uma coisa.
         - Me mostrar? - Aquelas duas nicas palavras carregavam todo o sarcasmo do
mundo.
         - Eu queria lev-lo a um lugar especial, um lugar lindo dentro da sua propriedade.
         - Isadora... - Piers murmurou, a voz pesada de emoo. - Voc parece se esquecer...
No na floresta. porque l no poderei defend-la, ele pensou, incapaz de falar alto aquilo que
jamais imaginara que um dia viria a dizer.
         Filho bastardo de um conde, Piers aprendera desde cedo a cuidar de si mesmo, a
lutar para atingir seus objetivos, a provar o seu valor. E provara sua capacidade vezes sem
conta, at que finalmente o rei lhe dera Dunmurrow como recompensa pelos servios
prestados.
         No era a mais prspera das terras, entretanto poderia sentir perfeitamente satisfeito
se no fosse pela grande ironia do destino. Agora que conseguira alcanar seus propsitos,
no tinha como manter o que lhe pertencia por direito. Oh, claro que havia Alan e seus
homens, acampados no muito longe do castelo, e sempre de prontido. Mas ser que sem o
lorde para lider-los, eles, seriam capazes de defender Dunmurrow com o empenho
necessrio?
         A pergunta o assombrava constantemente, porm nunca com tanta fora quanto
agora, quando a realidade da sua situao se mostrava to impiedosa. J no estaria
defendendo apenas um solo rico, aldees esforados e um velho castelo, mas sim uma mulher
nica e perfeita, uma criatura mais preciosa do que a prpria vida. Ter conscincia da sua
incapacidade para proteg-la o fazia odiar a si mesmo.
         - Tem um lago logo adiante, uma espcie de piscina...
         O tom hesitante e magoado de Isadora deveria ter esfriado sua raiva, contudo no foi
o que aconteceu. Oh, Deus, ser que aquela mulher no percebia os perigos que podem se
esconder no meio das rvores? Embora Cecil os seguisse, a uma distncia discreta,
acompanhado de mais seis soldados, dezenas de coisas poderiam acontecer em questo de
segundos, como o ataque de animais selvagens, por exemplo. A dor de ser deficiente era to
grande que chegava a ser insuportvel.
         - Sim, eu sei - Piers falou afinal..
         - Ento voc conhece o lago com a cascata? Quer dizer que j esteve l?
         - Sim, j passeei por aqueles lados.
         - Pensei que voc nunca havia visto suas terra.
         - Vim a Dunmurrow assim que consegui alguns livres pois estava ansioso para
conhecer o tesouro me viera parar nas mo. - Um tesouro que perdera todo o brilho e do qual
abriria mo em troca da viso. Mas nada daquilo era culpa de Isadora, portanto fazia sentido
deixar transbordar a amargura guardada no peito. Tambm devia  esposa o presente de
Natal.
         - Era um lugar lindo quando o vi no vero passado, a grama verde e macia rodeando
toda a piscina. Certa vez tomei banho l e a gua era clara e limpa.
         - Eu sabia que devia ser um timo lugar para se tomar banho! Venha, vamos, no


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est longe.
         Agindo contra o bom-senso, Piers cedeu ao desejo esposa e deixou o cavalo lev-lo
para dentro da floresta.
         - Aqui estamos. - Os dois puxaram as rdeas e ficaram imveis. Montmorency podia
ouvir o rudo da gua deslizando sobre as pedras e do vento balanando os galhos ressecados.
Se quisesse, poderia criar a imagem sua mente com facilidade, mas preferia no faz-lo.
Portanto permaneceu muito quieto, recusando-se a partilhar o prazer da esposa e desejando
voltar para o castelo mais depressa possvel.
         - Piers! - A voz feminina, baixa e cheia de contentamento, arrancou-o dos
pensamentos sombrios.  Eu estou vendo!
         - Vendo quem? - ele indagou alarmado.
         - O veado branco!
         Ser que sua mulher o acreditava capaz de se deixar influenciar por contos infantis?-
- Por favor, no deboche. Ele est bem ali, do outro lado das rvores, todo branco, uma
cabea grande, coroado de chifres enormes. E est olhando diretamente para ns...
         Se o movimento no doesse tanto, Piers teria revirado os olhos. Que histria esquisita
sua esposa estava inventando? Com certeza ela seria mais feliz assumindo o papel de castel,
com todos os seus interminveis deveres, do que brincando de faz-de-conta no meio da
floresta. Talvez ela achasse que a falta de viso o tinha tornado menos inteligente.
         - Chega, vamos embora. - Ento um barulho no meio de um arbusto chamou-lhe a
ateno.
         - Desvie para a esquerda, Piers! Ele est correndo bem na nossa direo!
         Ele? O qu? De repente tudo em que Piers conseguia pensar era em javalis, to
comuns naquela poca do ano. Santa Me de Deus... Enquanto puxava as rdeas do cavalo
para a esquerda com uma das mos, a outra pousava sobre o punho da espada, mas no teve
coragem de desembainh-la temendo ferir a esposa, pois no sabia a posio exata onde ela se
encontrava.
         O som de cascos atiou seus sentidos de uma maneira terrvel. O cavalo de Isadora,
apavorado, dava pinotes e coices para o ar descontroladamente. Agarrado ao punho da
espada, Piers sentia-se preso a um sonho apavorante, onde descobria-se cego e indefeso diante
do perigo. Ento a pior parte do pesadelo ganhou vida. Isadora gritou e logo ouviu-se o som
de um peso caindo na gua. E depois um silncio total e apavorante, mais apavorante do que
qualquer rudo.
         - Isadora? - Piers chamou-a, porm no obteve resposta alguma. Ou ela havia sido
raptada por um cavaleiro rpido e solitrio ou ento se encontrava no fundo do lago, incapaz
de responder. A dor que a idia lhe causava era to grande que Montmorency atirou a cabea
para trs e gritou, tentando aliviar,a angstia que ameaava sufoc-lo. Os soldados que os
acompanhavam no demorariam muito a chegar, mas cada minuto era vital. Quanto tempo
sua esposa agentaria sob as guas frgidas? Ningum sobreviveria a uma imerso
prolongada.
         Sem hesitar um segundo, ele desmontou, arrancou elmo e a capa e os atirou para o
lado. Ento comeou caminhar na direo do lago, esforando-se para formar uma imagem
mental dos arredores. Porm, aquele mesmo homem que se mantivera sob um controle de
ferro mesmo nas batalhas mais sangrentas, agora sentia-se ameaado pelo pavor de perder a.
nica coisa que lhe era precioso no mundo. Ele gritou outra vez, cheio de medo e frustrao,
amaldioando sua deficincia. Ento um movimento na gua chamou-lhe a ateno.
Agarrando-se esperana de que se tratava da esposa, e no de um ave ou de um animal
qualquer, Piers mergulhou.
         A gua estava glida e o obrigou a vir  tona para respirar. Enchendo novamente os
pulmes de ar, voltou a mergulhar na direo em que ouvira o som. Da a instantes tornou a
emergir, ofegante. Nada. Naqueles breves instantes, Piers rezou com mais fervor do que fora
capaz de faz-lo desde que ficara cego.


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         As splicas pareceram diminuir a intensidade do pnico e ele procurava se convencer
de que seria capaz de salv-la porque o lago no era to grande assim. Com todas as suas
foras tentava ignorar o outro pensamento, apavorante e insidioso, de que seria obrigado a
enfrentar a vida sem Isadora. Inspirando fundo, Montmorency mergulhou e estendeu os
braos para a frente, ansioso para encontrar algo que no fossem as plantas e algas que
teimavam em impedir o seu progresso.
         Dali a segundos veio novamente  superfcie para respirar e retornou  busca,
movendo-se o mais rpido possvel, as mos tateando as profundezas num desespero mudo. Se
ao menos pudesse ter certeza de que se man linha na direo certa sem se desviar, sem voltar
atrs, sem explorar a mesma rea vezes e vezes sem conta...
         Seria imaginao sua ou seus dedos, quando afastara algumas plantas, haviam
mesmo esbarrado numa coisa escorregadia, talvez um membro frio e inerte? Com mo-
vimentos frenticos, afastou a vegetao at tocar num dos tornozelos de Isadora. Atordoado
pela falta de ar e pela boa sorte, Piers pegou o corpo da esposa e tomou Impulso na direo da
superfcie.
         Inspirando o ar aos borbotes, ele nadou com braadas fortes e vigorosas na direo
da margem. Ento, erguendo-a nos braos, procurou terreno firme, tentando no escorregar
nas centenas de folhas e gravetos midos que Infestavam a rea. Enfim encontrou um lugar
que julgava firme o suficiente, o mais afastado possvel das margens.
         O frio intenso castigava-lhe o corpo molhado, penetrando-o at aos ossos. Porm o
extremo desconforto em nada se comparava ao terror que lhe ia na alma, ao medo que
apertava seu corao com garras afiadas. Oh, Deus, ser que as preces fervorosas haviam sido
em vo? Ser que todos os seus esforos haviam servido para nada n no ser levar o corpo
sem vida da esposa para casa?
         - No! - Montmorency gritou para o infinito. No permitiria que a morte dela se
transformasse num fato consumado. Agindo como se a simples fora da sua vontade pudesse
reviv-la, colocou-a de p, apoiando a figura inerte de encontro ao peito, e comeou a
massagear as costas frgeis com movimento rpidos e vigorosos, tentando, desesperadamente,
fazer a gua sair dos pulmes enquanto procurava no se entregar ao pnico crescente.
         - Isadora, Isadora, amor, meu amor, por favor... Por favor, respire!
         Quando enfim a ouviu cuspir e tossir, engasgada, Piers experimentou uma alegria e
um alvio to grandes que Leria chorado de pura alegria.
         - Piers - Isadora murmurou, ainda tendo enorme dificuldade para respirar. - O que
aconteceu? Estou gelando!
         Dominado por uma emoo fortssima, Monterrency teve vontade de cair de joelhos e
agradecer aos cu, graa alcanada. Ento abraou-a, como se nada no I
         do pudesse afast-los.
         - Meu lorde! - Ao ouvir a voz de Cecil, Piers ergueu a cabea. Embora parecesse uma
eternidade desde que Isadora cara nas guas geladas do lago, tinha conscincia de que pouco
tempo se passara. Seus homens haviam chegado o mais rpido possvel e no mereciam
qualquer tipo de repreenso. Na verdade, eram mais do que bem vindos.
         - Cecil! Me d a sua capa.  para minha lady. Imediatamente o servo ordenou aos
soldados para manterem distncia e fez o que lhe foi pedido. - Minha lady ir para o castelo
antes de mim. E jamais voltar a cavalgar naquele maldito palafrm outra vez.
         - Foi por causa do veado! - Isadora apressou-ali protestar, os dentes batendo de frio. -
O danado veado branco veio correndo bem na minha direo, como se quisesse me fazer mal!
Juro, em nome da Me Deus, que nunca, nunca mais, acreditarei nas histrias ridculas de
Edith.
         Piers sorriu, feliz por estar abraando uma mulher enfurecida, no a criatura fria e
inerte que arrancara fundo do lago. Viva, e cuspindo fogo, estava sua lady graas a Deus.
         - Um talism! Uma promessa de futura boa sorte! Quanta bobagem! - Resmungando,
ela afastou-se do marido e comeou a caminhar na direo do cavalo que Cecil lhe oferecia.


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         Ao sentir o vazio entre os braos, Piers teve a sensao de que jamais poderia
controlar os tremores que o sacudiam de alto a baixo, embora no soubesse dizer se tremia de
frio ou se tratava apenas de uma reao ao desastre que quase acontecera. Esfregando os
braos numa tentativa de aquecer-se, percebeu, pela primeira vez, que, contrariando toda a
lgica, salvara a esposa de morrer afogada. O feito o impressionava.
         Gelado at aos ossos, Montmorency piscou algumas vezes sentindo-se repentinamente
atordoado. Nomeio de toda a confuso do resgate, percebera algo diferente. Algo que lhe fora
sussurrado pelo vento, algo quase inacreditvel e maravilhoso demais para ser ignorado.
               Pela primeira vez, em meses, seus olhos estavam livres da dor.
               - Um veado branco... que bobagem! - Isadora tornou a resmungar.
               - Talvez sim... - Piers sussurrou para si mesmo. E talvez no.
         Sentada junto  lareira dos aposentos principais, Isadora aguardou que Cecil
trouxesse gua quente. Quando a banheira de madeira j estava cheia, Piers despiu-se, sem
qualquer embarao, e dispensou o servo.
         - Pode sair agora. Minha esposa me ajudar no banho. Se o Cavaleiro Vermelho
pudesse v-la agora, ensopada e desgrenhada como um rato afogado, provavelmente pensaria
duas vezes antes de jogar-se num lago glido para salv-la. Ao fitar o marido, nu em toda a
sua beleza viril, foi tomada de uma emoo intensa. No se cansava de admir-lo.
         Consciente da sua cegueira, Piers no demonstrava qualquer pudor em relao ao
prprio corpo. Por isso expunha-se com elegncia e naturalidade, uma verdadeira esttua
talhada em msculos e tendes, pele dourada e membros bem torneados. O fogo lanava um
brilho avermelhado sobre a figura imponente, quase fazendo-a perder o flego. Mais do que
nunca, naquele momento, Piers Montmorency encarnava o prprio Cavaleiro Vermelho.
Grande, poderoso e mortal.
         - Venha, Isadora, venha para a gua. Voc precisa de ajuda para tirar as roupas
molhadas?
         - No. - Realmente no lhe passava pela cabea chamar Edith. A criada nunca poria
os ps no covil baro Montmorency. Segundos depois livrava-se do vestido e ficava
inteiramente nua a poucos passos de distncia do marido. Uma sensao de frio e calor
percorreu-a de alto a baixo, excitando-a de uma forma insidiosa e sutil. Os dois j haviam
partilhado de uma intimidade total muitas vezes, mas quase sempre protegidos pela
escurido...
         Havia alguma coisa ertica no reflexo avermelhado que o fogo da lareira lanava
sobre o peito forte do marido, sobre os ombros largos, os cabelos claros...
         - Voc quer que eu o ensaboe? - ela perguntou baixinho, a voz rouca, cheia de
expectativas.
         - Sim, mas entre logo nesta banheira antes que voc fique enregelada e morra de frio.
         - Voc quer que eu entre nesta banheira... com voc?
         - Isso mesmo. Por acaso voc est sofrendo de um ataque repentino de modstia e
timidez, esposa? Trata-se da mesma mulher que ainda ontem me forou a ficar imvel
enquanto me dava um prazer intenso com a boca e as mos? - Sorrindo sensual, Piers pegou-a
pelo pulso e Puxou-a na direo da banheira.
         Seria impossvel resistir. Ao sentir os dedos fortes tocarem-na, Isadora entrou na
banheira e sentou-se defronte ao marido, a gua cobrindo-a at a altura dos ombros. Apesar
de grande, a banheira no tinha espao suficiente para acomodar duas pessoas, especialmente
quando uma delas tinha uns bons dois metros de altura.
         Assim Piers flexionou os joelhos para aumentar o espao.
         - Devo ensabo-la primeiro?
         Por um momento, percebendo a luz do fogo refletida nos olhos azuis, Isadora poderia
jurar que o marido era capaz de v-la. Ento, antes mesmo que tivesse chance de responder,
ele segurou um de seus ps e comeou a ensabo-o, devagar e carinhosamente.
         Fascinada, Isadora no conseguia desviar o olhar figura slida, por alguns instantes

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satisfeita que ele no podia enxerg-la. Cada movimento de Piers traduzia o prazer com que a
tocava e logo ela sentia o calor do desejo correr em suas veias como uma droga potente.
Quando as mos masculinas, escorregadias e experientes, tocaram-na nos seios, ela gemeu
alto, incapaz de controlar a onda avassaladora de paixo.
          - Piers, Piers...
          Ele se inclinou ainda mais para a frente e, pela primeira vez, Isadora realmente o viu
tomar um de seus mamilos na boca. Pela primeira vez, pde perceber os cabelos louros
espalhados sobre a sua pele enquanto ele sugava o mamilo com fora, fazendo-a se contorcer
de puro prazer. Num movimento inconsciente, ergueu os quadris, procurando alvio para o
ardor entre as coxas. Logo o marido a massageava no ponto escondido da feminilidade.
          Piers continuou acariciando-a sob a gua enquanto deslizava a lngua pelos seios
empinados, saboreando cada centmetro da pele quente e macia. Transtornada pelas
sensaes imperiosas que pareciam vir-Ia pelo avesso, Isadora forou os quadris na direo
das mos masculinas, gemendo alto ao sentir os dedos firmes a penetrarem num movimento
rpido e preciso. Sem que pudesse controlar, atingiu o xtase, o corpo inteiro sacudido por
tremores incontrolveis.
          Abraando o marido com fora, apoiou a cabea de encontro ao pescoo molhado,
surpresa com o poder que emanava daquele homem, um poder que, sabia agora, no tinha
nada a ver com feitiaria ou com as foras do mal. Era, simplesmente, o poder do amor.
          - Agora me deixe... ensabo-lo, querido.
          Embora percebesse os sinais de extrema tenso sexual no rosto de Piers, ela se
entregou  tarefa devagar, querendo desfrutar de cada instante de intimidade. Era ma-
ravilhoso sentir o corpo slido sob seus dedos, os msculos firmes e bem torneados, as pernas
atlticas, cobertas por uma camada de plos dourados e, entre as coxas... Isadora fechou os
dedos ao redor do membro intumescido, fechou os olhos e jogou a cabea para atrs,
abandonando-se por completo s sensaes.
          Ver o prazer estampado no rosto do marido, observar a intensidade da emoo que o
consumia, era um experincia nova e eletrizante. Ser que a paixo masculina, uma vez livre
das rdeas, a subjugaria...? De repente Montmorency abriu os olhos e puxou-a pelos quadris,
acomodando-a sobre o pnis quente e pulsante. A gua caa pelas bordas da banheira
ensopando o cho enquanto ele a guiava num ritmo capaz de incendiar o sangue.
          - E to bom, querida... to bom... - Piers murmurou deslizando as mos pela pele
molhada, acariciando seios e apertando os mamilos com fora.
          Com um sentimento que beirava a reverncia, Isadora observou o rosto do marido,
que, de olhos fechado parecia completamente transtornado.
          - Me beije - ele pediu, a voz rouca e urgente traindo o estado de excitao.
          Os lbios de ambos se encontraram com sofreguido, as lnguas vidas se
contorcendo num duelo apaixonado. Piers repetia com a lngua os movimentos de penetrao
feitos por seu membro ereto. Ao redor de ambos, a gua borbulhava enquanto a frico de
seus corpos escorregadios os arrastava para um estado de excitao sexual quase
insuportvel.
          Finalmente Isadora interrompeu o beijo para gritar o nome do homem amado. Ento
ela atingiu o orgasmo, as ondas de prazer chegando a ser dolorosas em sua intensidade.
Segurando-a com firmeza pelos quadris Piers a manteve imvel e enterrou o pnis at as
profundezas do corpo feminino antes de lanar a semente da vida nas entranhas da esposa,
um grito de prazer triunfo ecoando pelo silncio do quarto e rompendo a escurido como um
raio de luz.
          Isadora estava enfraquecida e ofegante quando final mente saram da gua j fria e
foram para a cama. No mesmo instante aconchegou-se ao corpo viril e reconfortante,
sentindo-se completamente serena pela primeira vez desde que pusera os ps dentro do castelo
Dunmurrow. Eu te amo, Piers, ela repetiu para si mesma e sorriu feliz. Quem teria imaginado
que a sua escolha de marido acabaria se provando to correta?


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         Jamais lhe passara pela cabea apaixonar-se pelo Cavaleiro Vermelho e nunca
imaginara as delcias que encontraria na cama, e no banho, conjugal. Ela corou ao pensar na
maneira como Piers a tinha amado. Embora as vezes anteriores houvessem sido maravilhosas,
hoje  noite ele fora positivamente exuberante. Talvez porque ambos tivessem percebido o
quo preciosa  a vida. Depois da experincia terrvel de se ver  beira da morte por
afogamento, Isadora passara a apreciar o simples fato de existir com um respeito renovado. E
no havia um modo melhor de celebrar a bno da vida do que amar o marido.
         - Obrigada por me salvar - murmurou carinhosa.
         - Voc valia a pena o esforo - ele respondeu, apertando-lhe as ndegas.
         Isadora descansou a cabea no peito largo, contente com as palavras um tanto
desajeitadas de Piers. Apesar do Cavaleiro Vermelho no tocar no assunto, ela sabia muito
bem que o casamento forado no fora de seu agrado. Porm no tinha dvidas que, desde
ento, os sentimentos masculinos haviam se tornado mais ternos. Ou ento por que um
homem cego se atiraria num lago gelado em pleno inverno? S de pensar no perigo que o
obrigara a correr, sentia-se literalmente apavorada.
         - Voc poderia ter se afogado ou morri do congelado.
         - Creio que nadar um pouco me fez muito bem.
         Alguma coisa no tom de voz do marido chamou-lhe a ateno, levando-a a fit-lo. Um
sorriso tranqilo brilhava nos lbios sensuais.
         - Como? - Isadora indagou intrigada. Desde o incio esperava uma repreenso por t-
los arrastado para o meio da floresta, expondo-os a toda sorte de imprevistos. Piers estava
coberto de razo quando a alertara para os perigos de uma cavalgada ao ar livre. Entretanto,
apesar da tragdia que quase acontecera, ele parecia bastante satisfeito. O que era de se
estranhar.
         - Pela primeira vez, desde a batalha em que perdi a viso, no sinto dor. Meus olhos
no esto doendo, ele falou num murmrio que era quase para si mesmo.
         - Por qu? Na sua opinio, o que teria causado isso? O frio? A gua? - Isadora
sentou-se na cama e fitou marido fixamente, como se aquela face viril pudesse revelar algum
segredo. Mas como sempre a cama estava envolta na escurido total e o rosto amado no dizia
nada.
         - Talvez a baixa temperatura tenha diminudo pouco a intensidade da dor - ela falou
afinal.
         - Foi o que pensei a princpio, porm cada centmetro de meu corpo ficou aquecido
durante o longo banho imerso, e ainda assim continuo sem sentir nada, nem o menor
desconforto.
         Ela sorriu. Ento ali estava a explicao para a noite um tanto diferente das outras.
Pela primeira vez Piers no estivera lutando contra a dor constante que o incomodava desde o
acidente.
         - Se no foi por causa do frio... S pode ter sido a gua! Voc costuma banhar os olhos
com freqncia?
         - Eu o fazia no incio, contudo as vrias solues que tentei no tiveram o menor
efeito. A dor continuou.
         - Isso foi a um bom tempo atrs - ela protestou. - Se voc tinha mesmo estilhaos de
pedra cravado nos olhos, alguns deles poderiam estar enterrados to fundo que levaria meses
at serem expulsos pelo seu organismo. A gua provavelmente os puxou para fora. Talvez sua
viso possa retornar! - Entusiasmada com a possibilidade, Isadora ergueu a voz, entregando-
se  esperana.


        Entretanto a reao de Piers foi inversa. Ele ficou rgido, o corpo inteiro tenso. - Por
favor, no alimente expectativas altas ou a decepo ser maior. Eu no acredito em milagres.
        - No? - ela perguntou desafiante, recusando-se a ter o entusiasmo diminudo. - Voc


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no acreditava na lenda do veado branco e veja s o que aconteceu! Pois o animal apareceu e
no causou mal algum me atirando dentro do lago, mas apenas o bem.
         - Voc  supersticiosa demais, esposa.
         Talvez, Isadora pensou, porm lembrava-se com exatido do jeito com que o animal a
olhara e o pensamento a fez sorrir. H coisas em que vale a pena acreditar e no Natal tudo se
torna possvel, mesmo aquilo que o bom senso considera irrealizvel.
         As coisas comearam a acontecer de maneira gradual. Foi logo alguns dias depois da
Epifania que Piers percebeu algo diferente. Toda manh, Isadora costumava abrir as cortinas
do quarto (alis, quer ele quisesse ou no), antes de se preparar para enfrentar as tarefas do
dia.
         Como ela dava tanta importncia ao seu corpo, parecendo no se cansar de admir-
lo, Piers sabia que podia convenc-la a voltar para a cama se expusesse  claridade. Por isso
aceitava que as cortinas fossem abertas sem reclamar. Mas assim que a esposa saa, chamava
Cecil e o fazia escurecer novamente o ambiente. Na verdade tinha um medo mrbido de que
algum aparecesse de repente e descobrisse o seu segredo traindo-o e entregando-o ao inimigo.
Se isso acontecesse, o paraso construdo dentro das paredes de Dunmurrow no tardaria a
virar um inferno. A escurido o protegia.
         Hoje era um dia como outro qualquer. Porm ao ouvir o barulho das cortinas sendo
abertas e perceber a leve corrente de ar, Piers tomou conscincia de uma outra coisa: luz. A
percepo foi to brusca e inesperada que o deixou imvel sobre a cama, sem saber como
lidar com a sensao estranha. A sensao de que a escurido o assombrava h meses perdera
um pouco da intensidade.
         - Piers, tenho que me apressar! - Isadora falou, trazendo-o de volta  realidade. - Hoje
vou comear a organizar a tecelagem. Talvez muito em breve todos possamos ter algumas
roupas novas para nos aquecer.
         - Pois eu prefiro voc sem uma nica pea de roupa sobre o corpo - Montmorency
resmungou.
         Ela riu, o som cristalino e encantador passando primeira vez despercebido aos
ouvidos do marido. Ele s conseguia presta ateno quela luz tnue e abenoada. O que
causara isso?
         - Ah, se ao menos eu pudesse ficar mais um pouco.
         - No me provoque, mulher. - Piers sentiu os dedos delicados da esposa tocarem-no no
peito, um perfume suave inebriando seus sentidos como um vinho potente.
         Pouco depois ela se afastava para terminar de vestir-se, deixando-o verdadeiramente
desapontado.
         - Prometo que hoje  noite teremos todo o tempo do mundo.
         - Talvez durante o jantar. - gil, Montmorency seguiu beij-la antes de lhe dar
permisso para sair quarto. - Tome cuidado para no se esquecer da hora.
         - No se preocupe, querido. Eu jamais perderia a hora. Quer que eu mande Cecil
entrar agora?
         - No. Eu mesmo o chamo quando precisar.
         Ao ouvir a porta sendo fechada, Piers, pela primeira vez, sentiu-se satisfeito com a
ausncia da esposa. Apesar de sempre sentir uma falta terrvel de Isadora, hoje de manh
precisava estar s consigo mesmo, porque ainda no se sentia pronto para partilhar a recente
descoberta.
         Sequer chamou o servo. Apenas permaneceu imvel como se tivesse criado razes.
Tinha medo de se mexer porque o movimento poderia destruir a luz. Quem sabe no estava
apenas imaginando? Quem sabe a tnue claridade no passava de uma faceta da sua cegueira,
destinada a atorment-lo? Ser que o quarto voltaria s se fechasse os olhos por alguns
segundos? Seu corao batia tanto no peito como se estivesse se preparando para enfrentar a
mais terrvel das batalhas e, na verdade, sentia-se mais assustado agora do que em nenhum
outro momento de sua vida.


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        Contudo sabia que precisava agir, tomar uma atitude. Bem devagar, mas com
firmeza, fechou os olhos. Ento contou at a dez e tornou a abri-los. No, no se tratava de
imaginao. O mundo, que estivera imerso numa escurido total por tanto tempo, agora se
tornara mais claro.
        Piers voltou a cabea na direo da janela e a claridade intensa fez seus olhos
lacrimejarem. O que significaria essa mudana? Trmulo, encostou a cabea no travesseiro e
voltou a fechar os olhos. Mas desta vez os fechou procurando se proteger de uma emoo
proibida... procurando se proteger da esperana.
        Piers no disse uma nica palavra sobre o assunto  esposa. Tambm permaneceu
calado quando, alguns dias depois, comeou a enxergar sombras e formas no meio do cinza.
Mandou que Cecil colocasse castiais nos aposentos principais e se Isadora achava sua atitude
estranha, ela no fez qualquer comentrio. Com certeza acreditava que o marido procurava
uma maneira de agrad-la e ele nada fez para tirar-lhe essa impresso.
        Ao ouvir o barulho de passos, Piers ergueu a cabea na direo do som. E l estava:
sua esposa, de p, diante da lareira. Foi precisa uma enorme fora de vontade para manter a
compostura enquanto enxergava os contornos da figura esguia pela primeira vez na vida. Sem
que conseguisse controlar, deixou escapar um gemido rouco, atordoado pela violncia da
emoo.
              Isadora interpretou o rudo de outra forma, achando que o marido estava
ansioso para possu-la.
        - Voc no quer esperar pelo nosso jantar?  indagou faceira, a voz bela e musical
inundando-o de prazer.
        - No - Piers respondeu num tom rouco e ansioso, os pensamentos voando na direo
da paixo. - Quero possu-la agora, sobre o tapete, no meio do quarto.  S de imaginar o
corpo da esposa sobre o seu, a luz do fogo iluminando a pele acetinada, sentia a virilidade
imediatamente enrijecida.
        - Mas Cecil... - ela protestou sem muita convico - Que Cecil se dane... alis, os dois!
Sorrindo, Piers levantou-se da cama e caminhou na direo da mulher. Ento tomou-a nos
braos, as mos se fechando ao redor dos seios firmes, a boca se apossando dos lbios midos.
        E sobre o tapete, diante da lareira, entregaram desejo que no tinha fim.

        CAPITULO QUATORZE


        Isadora estava no salo principal quando chegou um mensageiro de Belvry.
        -  um rapaz chamado Benedict, minha lady  o guarda a avisou.
        - Deixe-o entrar! - ela exclamou, deliciada com a idia de receber notcias de seu
antigo lar. Conhecia Benedict h anos e o vira galgar cada degrau de responsabilidade at
tornar-se assistente do administrador.
        - Edith, traga cerveja e comida para o nosso convidado. - Isadora olhou ao redor e
encontrou tudo na mais perfeita ordem. Embora Dunmurrow no fosse to bonito quanto
Belvry, sob os seus cuidados o castelo transformara num ambiente agradvel e aconchegante,
sem nada da atmosfera lgubre inicial. Sentia-se satisfeita em receber o rapaz.
        - Benedict, como  bom voltar a v-lo! - Com ambas as mos estendidas, ela deu as
boas-vindas ao viajante, porm o ar abatido do jovem preocupou-a imediatamente.
              Ser que havia alguma coisa errada em casa?
        - Sua aparncia est tima, minha lady.
        Talvez a expresso estranha de Benedict no estivesse relacionada a possveis
problemas em Belvry e sim ao prprio castelo de Dunmurrow. Naqueles dias maravilhosos
que se seguiram ao Natal, acabara se esquecendo dos rumores terrveis que cercavam o
Cavaleiro Vermelho e aqueles que viviam em seus domnios.
        - Quanta gentileza a sua. Estou bem sim, obrigada. Por favor, sente-se. Voc precisa


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descansar depois da longa jornada.
         Benedict pareceu relaxar assim que uma em caneca de cerveja e um prato de carne
assada foram colocados  sua frente. Tambm contribuiu para estabelecer um clima de
tranqilidade a presena de Edith, sempre atarefada ou ento chamando a ateno de Willie.
         Ou talvez o jovem estivesse apenas faminto, tal o fervor com que atacou a comida
enquanto Isadora contava-lhe sobre as melhoras feitas em Dunmurrow e perguntava-lhe
notcias dos amigos deixados em Belvry. Somente depois de terminar a refeio  que as
feies de Benedict voltaram a ficar sombrias. Isadora concluiu que no era
         Dunmurrow que o afligia. Alguma coisa estava errada. Alguma coisa sria, porque
Matthew Brown preferiu mandar um mensageiro a escrever uma carta.
         - O que est acontecendo? Por que voc veio at aqui?
         - Minha lady... Sinto dizer-lhe, mas vim lhe trazer ms notcias. Lorde Hexham tem
se tornado inquieto na sua ausncia. Matthew acha que muito breve, provavelmente quando o
tempo melhorar, ele atacar Belvry.
         - H algo mais? - ela indagou, a voz apertada na garganta, os olhos arregalados numa
expresso de profundo horror.
         O rapaz pigarreou e fitou as prprias mos, sabendo que precisava ir at o fim, por
mais desagradveis, fossem as novidades.
         - Hexham clama que seu casamento com o senhor de Dunmurrow no  vlido porque
seu pai a prometeu a ele...
         Furiosa, Isadora o interrompeu no meio da frase.
         - Aquele maldito mentiroso!
         - Sim, minha lady. Hexham diz que voc lhe pertence por direito, assim como Belvry.
         Cheia de ira, ela apertou os punhos, num gesto de impotncia e frustrao.
         - Aquele filho da me! O prprio Edward arranjou meu casamento! Como Hexham
tem a ousadia de desafiar e pr em dvida um decreto do rei? Temos que procurar Edward e
contar o que est acontecendo...
         De repente, ao perceber a maneira estranha como Benedict a fitava, Isadora se deu
conta do que acabara de dizer. Com certeza o jovem devia estar se perguntando por que
algum iria incomodar Edward quando tinha como marido o cavaleiro mais temido de todo o
reino?
         Isadora abaixou o olhar, sentindo na boca o gosto da derrota. Seu marido cego no
poderia ajud-la. E quem o faria ento? Claro que havia a alternativa de mandar uma
mensagem para o rei, colocando-o a par da situao. O problema  que Edward viajava
bastante e alm de tudo no se interessava de modo especial por Belvry. O rei e ela nunca
haviam sido muito ntimos e com certeza esse relacionamento se tornara ainda mais frio
depois que tentara engan-lo na escolha de um marido.
         Embora Hexham no gozasse de uma simpatia especial junto a Edward, tampouco
ela podia se dar a esse luxo. Por outro lado Hexham, como cavaleiro, tinha um exrcito a
colocar a servio do rei, enquanto ela... O que poderia oferecer? Nada. E Piers? Os dias de
guerreiro de seu marido haviam terminado e Dunmurrow no era uma propriedade to rica
assim para comprar um favor real. Quanto ser que triunfos passados do Cavaleiro Vermelho
pesariam na balana? Isadora engoliu em seco, sentindo-se  beira do desespero. Sabia-se
num beco sem sada e o futuro se apresentava sombrio-e incerto.
         Era impensvel que aquele seu vizinho arrogante e inescrupuloso viesse a tomar-lhe
Belvry. Era impensvel, porm bastante provvel: Isadora levantou-se decidida. Por mais que
a situao lhe parecesse sem esperanas, no iria se entregar sem lutar.
         - Venha comigo, Benedict. Quero que voc conte tudo ao meu marido, o baro
Montmorency.
         O alvio estampado no rosto do rapaz era to palpvel a fez rir. Mas no espere
auxlio do terrvel Cavaleiro Vermelho, ela pensou sem amargura. Amava o marido acima de
tudo e ficaria ao lado dele em qualquer circunstncia, mesmo que isso significasse perder tudo


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aquilo que um dia lhe fora caro.
         As sombras dos aposentos principais no deixaram de intimidar Benedict. Isadora
sorriu, tentando se lembrar dos dias em que aquela escurido a tinham assombra ou de
quando Piers, sentado no meio das trevas e ladeado pelos dois ces, lhe parecera ameaador.
Contudo as lembranas perdiam-se num passado recente. Tudo o que conseguia ver era um
quarto to cheio de amor e calor humano que impedia o aparecimento das sombras.
         - Meu lorde. Este  Benedict de Belvry, assistente de meu administrador. Ele nos
trouxe algumas notcia que eu gostaria de coloc-lo a par.
         - Sente-se - Piers ordenou. Isadora levou o rapaz at o sof junto a lareira. Depois,
ignorada pelos ces enormes, deu um passo para dentro da escurido e ficou de p, atrs do
marido. Ao apoiar as mos nos ombro macios, sentiu os dedos masculinos cobrirem os seus
num gesto to reconfortante que lhe trouxe lgrimas aos olhos.
         - Fale, Benedict. - Montmorency ouviu as novidades com ateno, a voz nervosa do
jovem ecoando pelo ambiente.
         - E o que esse tal de Hexham diz de mim?  Piers indagou.
         Um silncio pesado se estendeu por vrios segundos.
         - Vamos, Benedict - Isadora o tranqilizou.  Voc pode falar livremente aqui. No h
o que temer.
         Ela tentava imaginar qual seria a nova calnia que Hexham teria inventado a
respeito do Cavaleiro Vermelho. Devia ser algo terrvel, j que o rapaz parecia apavorado.
Finalmente Benedict concordou em responder. como se soubesse no ser possvel fugir ao
prprio destino.
         - Hexham diz que o Cavaleiro Vermelho j deve estar morto h tempos e que Isadora
vive escondida aqui, atrs de uma sombra. Porm, por mais que tente se esconder, ela no ir
lhe escapar.
         Isadora sentiu a tenso e a raiva se espalhar pelo corpo de Piers e por um momento
temeu que o marido se entregasse a um daqueles acessos de fria. Entretanto Montmorency
permaneceu sentado, mantendo um controle de ferro.
         - No  uma notcia interessante? - Quando Benedict, que dava a impresso de
padecer de um desconforto supremo nada respondeu, Piers continuou. - Nosso inimigo
pretende atacar Belvry ou Dunmurrow?
         Isadora demorou um pouco at perceber onde o marido queria chegar.
         - Entendo o seu ponto de vista, meu lorde. Talvez aquele verme covarde esteja
planejando atrai-lo para fora daqui com a inteno de tomar Dunmurrow na sua ausncia.
Um plano assim  bem de acordo com a personalidade de Hexham - ela comentou.
               - O que voc acha que o homem deseja mais, Belvry ou Isadora? - Montmorency
perguntou a Benedict.
         O rapaz no respondeu de imediato. Levou alguns segundos pesando a pergunta e
procurando respond-la da forma mais objetiva possvel.
         - Hexham deseja minha lady, sim, pode estar certo disso. Mas ele sempre ambicionou
possuir Belvry, pois as terras dos de Laci so muito mais prsperas, alm do nmero de
empregados para trabalhar no plantio ser maior tambm. Ele j se apossou de uma das
manses da propriedade e, na minha opinio, no sossegar at se apossar de todas.
         Isadora acompanhou Benedict at os estbulos para se despedir. O rapaz parecia
mais tranqilo agora, depois de receber instrues de Piers sobre a maneira como o
administrador de Belvry devia agir no que dizia respeito s ameaas de Hexham. Era difcil
no ter f no CavaleiroVermelho, Isadora pensou vendo o jovem se afastar, o sorriso de
encorajamento desaparecendo to logo se viu sozinha. Como gostaria de adiar o momento de
voltar para o lado do marido.
         Se ela chorasse sobre a perda do lar iria apenas deixar Piers ainda mais frustrado e
atingido na sua virilidade pela incapacidade de proteg-la. Lembrava-se muito bem daquela
noite em que Montmorency se julgara menos do que um homem e, fora de si, fora para o


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ptio no meio da noite e extravasara toda a ira e revolta que o consumia.
         Finalmente o anoitecer obrigou-a a entrar. Chamando-se de covarde, resolveu
enfrentar a fria do marido. Surpresa, descobriu que os aposentos principais estavam
         iluminados por vrios castiais e Cecil servia o jantar, como sempre.
         - Mandei chamar Alan - Piers falou sem prembulos.
         - Preciso consultar meu vassalo antes, mas acho que terei que dividir minhas foras.
Talvez Alan deva levar a maioria dos homens para Belvry. Uma demonstrao de poderio
provavelmente far Hexham hesitar antes de cometer alguma tolice.
         Isadora inspirou fundo, os olhos fixos no marido. Ele estava sentado  mesa, o corpo
enorme e musculoso parecendo dominar o ambiente inteiro, o rosto srio e inteligente fazendo
jus  lenda que se criara em torno do Cavaleiro Vermelho.
         - Por acaso voc est pretendendo desafiar Hexham?
         - No, mas tampouco pretendo deixar que aquele covarde se apodere de Belvry. -
Piers olhou na direo da mulher, como se a avaliasse. - Voc pensou que eu no faria nada?
Que no tomaria nenhuma atitude?
         - No! Claro que no! - ela mentiu, enrubescendo at a raiz dos cabelos. Deus sabia
como preferia no enfurec-lo. - Mas voc tem homens suficientes?
         - Uma vez que Benedict no foi capaz de me dar informaes detalhadas sobre as
foras de Hexham, no posso lhe responder j. Certamente no tenho tantos homens quanto
gostaria, porm Dunmurrow jamais esteve sob qualquer tipo de ameaa antes. Creio que ser
possvel enfrentar o desafio.
         Um profundo sentimento de culpa percorreu-a de alto a baixo. Embora Piers no a
acusasse de nada, ela sabia muito bem que a culpa era sua. Se no fosse por causa dela,
Dunmurrow no estaria em perigo. Se no fosse por causa dela, Montmorency teria sido
deixado em paz... Angustiada, Isadora levantou-se e caminhou na direo da lareira.
         - Talvez deveramos permitir que ele fique com tudo - Isadora falou com delicadeza.
         - O qu? - Assombrado com o que acabara de ouvir, Piers concluiu que no escutara
bem.
         - Talvez deveramos deixar que Hexham se apodere de Belvry - ela repetiu, fitando-o.
A fria estampada no rosto do baro assustou-a. - Belvry no significa nada para mim agora.
Minha vida  aqui em Dunmurrow. Ao seu lado.
         A raiva desapareceu do rosto de Montmorency.
         - Isadora... minha esposa.
         Obedecendo ao chamado implcito, ela se entregou aos braos fortes e aconchegou-se
ao peito largo, procurando proteo e conforto. Toda a fortaleza que se vira obrigada a
representar durante o dia ameaou ruir na doura daquele abrao. Tinha vontade de chorar
pelo antigo lar, pela culpa em relao ao marido e pela alegria que a nova vida lhe dera. Uma
alegria que acabara de ser posta a prmio.
         - Se eu no fizer nada ser ainda pior - Piers murmurou apertando-a de encontro ao
corao. - Mas se eu mostrar que no aceitaremos provocaes, talvez o verme se encolha
outra vez dentro da prpria toca.
         Isadora sorriu, notando que o marido j havia entendido a personalidade covarde e
sem escrpulos de Hexham.
         - No tenha medo, querida. S porque meus homens no esto aquartelados aqui isso
no significa que no tenha um nmero suficiente de soldados. Eles seguem Alan agora. -
Havia uma nota de amargura no comentrio. - E Alan vai aonde eu o mandar. Meu vassalo
levar adiante a lenda do Cavaleiro Vermelho, mantendo-a viva e atual. Talvez isso seja o
bastante para desencorajar nossos inimigos.
         Alan chegou alguns dias depois liderando o exrcito do baro Montmorency. Ao ver
tantos e tantos home acampados do lado de fora do castelo, Isadora experimentou, pela
primeira vez desde as notcias sobre ameaas de Hexham, uma sensao de segurana e
tranqilidade. Com certeza esse nmero expressivo de soldados seria suficiente para fazer seu


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vizinho mudar idia porque, apesar das bravatas, Hexham no passa de um covarde.
         Piers e seu vassalo passaram a tarde inteira conversando e traando estratgias para
um possvel ataque. Enquanto isso, Isadora cuidou para que todos os soldados tivessem onde
dormir e o que comer. Tanto servio a fez perder a noo de tempo e quando Cecil veio
cham-la para jantar, a refeio j havia sido servida.
         - Boa noite, meu lorde - Isadora falou, apreciando a claridade e o calor vindos dos
castiais. Era to bom poder enxergar a prpria comida! L estava o vassalo, parecendo
exausto depois da longa jornada. - Alan,  um prazer v-lo outra vez.
         - Minha lady. - Dando dois passos na direo da Isadora, ele tomou as mos delicadas
entre as suas.
          quase impossvel, mas tenho a impresso que voc se tornou ainda mais bela
durante a minha ausncia.
         - Obrigada. - Apesar do sorriso gentil, Isadora imediatamente retirou as mos. - E
voc se tornou ainda mais eloqente.
         Isadora riu e aproximou-se do marido, temendo despertar cimes desnecessrios. No
mesmo instante Piers passou um brao ao redor da cintura delicada, num gesto obviamente
possessivo.

               Alan no ficou nem um pouco surpreso com o comportamento do baro. Apenas
sorriu de maneira conspiratria.
         - Presumo que vocs dois tenham ajeitado as coisas de maneira satisfatria para
ambas as partes. Est tudo as claras agora?
         - O qu? - Piers parecia no compreender as insinuaes do vassalo.
         - Estou falando sobre o casamento de vocs. Todo mundo percebia que se tratava de
um casamento de amor. Por que aquela encenao antes? Quase ca na risada quando vocs
dois tentaram me convencer de que no se conheciam e que o casamento fora arranjado por
Edward. Qual o motivo do segredo? - Quando Isadora e Piers o fitaram aparentando nada
entender, Alan balanou a cabea como se estivesse enfrentando pessoas teimosas. - Algum
dia, quando eu conseguir descobrir toda a histria, aposto que ter algo a ver com o
asqueroso desse Hexham.
         Sorrindo, Alan concluiu:
         - Vocs no podiam me enganar por mais que tentassem, porque eu sabia que
nenhuma mulher em seu juzo perfeito iria escolher um homem com a reputao de
Montmorency, a menos que o conhecesse bem.
         Isadora fitou o vassalo por alguns instantes e depois comeou a rir,
incontrolavelmente, enquanto o som das risadas de Piers enchiam o quarto tambm.
         No dia seguinte, Isadora estava separando suprimentos para o exrcito do Cavaleiro
Vermelho quando Edith veio procur-la, o rosto redondo da serva cheio de preocupao.
Acostumada a ver a criada sempre feliz nos ltimos tempos, concluiu que o problema s podia
ser srio.
         - O que foi, Edith?
         - Oh, minha lady,  Willie. Ele foi convocado para se juntar s foras de Alan.
         - Mas ele  um soldado...
         Edith interrompeu-a no meio da frase.
         - Eu sei. S que Willie no  mais nenhum rapaz, minha lady!
         - Sim, porm trata-se da vida que ele escolheu Isadora retrucou, colocando um ponto
final nos argumentos da serva. Ento parou para imaginar como se sentiria se fosse Piers
quem estivesse liderando os homens e no Alan.
         Claro que experimentaria uma pontada de orgulho. Mas esse orgulho no duraria
nada diante da idia de seu marido empenhado numa batalha, correndo o risco de nunca mais
voltar.
         - Talvez possamos persuadir Alan a deixar Willie como guarda cio castelo - sugeriu,


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sabendo que Piers planejava dividir suas foras para que Dunmurrow no ficasse
desprotegido.
               - No, minha lady. Willie no aceitar isso. O tolo teimoso quer ir lutar!
         Sem saber o que dizer, Isadora fitou a criada procurando uma soluo para o
impasse. O que faria caso Piers estivesse determinado a partir?
         - Talvez se voc dissesse a Willie como se sente, o quanto est preocupada. Quem sabe
no deveria lhe pedir para ficar, implorar at...
         - Nunca implorei coisa alguma a homem nenhum
         Edith falou orgulhosa, o rosto corado de indignao -, e no pretendo comear agora.
- Segurando a ponta da saia com a mo, ela saiu quase correndo, resmungando baixinho.
         Aparentemente Edith mudou de idia porque horas depois tornou a procurar a
castel, desta vez sorrindo e trazendo um Willie nervoso e acanhado a tiracolo.
         - Ns dois queremos nos casar, minha lady - a serva anunciou.
         - Edith! Que notcia maravilhosa. - O sorriso de contentamento desapareceu to logo
se lembrou de que no havia sacerdote para realizar a cerimnia. - Mas como?
         Depois de levar o assunto ao conhecimento de Piers, ficou decidido que Edith viajaria
com os soldados at Belvry, onde o capelo celebraria o matrimnio. Durante a jornada ela
seria escoltada no apenas por Willie, mas por toda a guarnio. Assim estaria bem protegida.
         Nem a possibilidade de virem a se encontrar com o exrcito de Hexham no meio do
caminho serviu para diminuir a animao de Edith, to ansiosa estava para se casar. Isadora
sorriu surpresa com o desenrolar dos acontecimentos. A mesma mulher que chorara de medo
do Cavaleiro Vermelho agora se preparava para enfrentar uma possvel batalha sem pensar
duas vezes. A vida tem caminhos estranhos...
         As duas s voltaram a se encontrar quando a criada veio atend-la, antes do jantar.
         - Voc quer que eu trance os seus cabelos, minha lady? - ela perguntou inibida e
Isadora sabia que esse constrangimento era devido ao fato de estarem, para se dizer adeus.
Alan iria partir no dia seguinte.
         - No, obrigada. - Acostumara-se a usar os cabelos soltos porque Piers gostava deles
assim. - Mas voc pode escov-los para mim.
         Satisfeita por ter algo para fazer com as mos, a serva atirou-se  tarefa com
empenho, desembaraando e escovando os fios longos e sedosos at deix-los brilhantes.
         - Eu queria lhe agradecer, minha lady, por ter feito todos os arranjos necessrios
para a minha ida a Belvry.
         - De nada. Fico feliz por t-la ajudado. Caso voc e Willie desejarem permanecer em
Belvry, tenho certeza que Matthew poder encontrar algo para mant-los ocupados l.
         - Oh, no, minha lady. Eu nunca seria capaz de abandon-la aqui. - Por um momento
a velha senhora pareceu to horrorizada quanto nos primeiros dias da chegada a
Dunmurrow.
         - Pois lhe asseguro que serei capaz de me sair muito bem - Isadora respondeu rindo. -
Estamos adquirindo, novos servos a cada dia que passa. Tenho certeza de que encontrarei
algum para trabalhar como minha criada pessoal.
         Edith no pareceu muito satisfeita com a possibilidade.
          - Ns voltaremos e mais, trarei gente nossa comigo.
          - Somente aqueles que desejem se mudar. No quero ver ningum infeliz aqui.
         A criada teve a delicadeza de reconhecer a prpria culpa, abaixando a cabea por
alguns segundos. Depois retomou a tarefa.
         - Minha lady, eu... eu temo ter lhe dado uma informao errada, embora a culpa no
tenha sido exatamente minha. - A vermelhido do rosto da pobre coitada deixou-a intrigada.
O que seria desta vez?
         - Quando voc... - Edith inspirou fundo tomando, coragem e continuou. - Na sua noite
de npcias, minha lady, eu lhe disse algumas coisas... Desde ento descobri que essas coisas
nem sempre so verdadeiras.


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         - Oh? O que foi mesmo que voc me disse? - Isadora indagou, tentando disfarar o
sorriso e se manter sria.
         - Foi sobre o ato de consumao do casamento, minha lady. Eu lhe disse que era breve
e doloroso, quando necessariamente no  nenhum dos dois. Na verdade... podo ser bastante
agradvel e... demorado.
         Isadora precisou apertar os maxilares com fora para no rir. Quando enfim se
sentiu capaz de controlar o riso, respondeu:
         - Est certo, Edith pois foi o que descobri por mim mesma.
         - Verdade, minha lady? - a criada perguntou surpresa, a escova suspensa no ar. -
Voc est querendo dizer que o Cavaleiro Vermelho...
         - Estou querendo dizer que a reputao do Cavaleiro Vermelho no  nada em
comparao s habilidades dele... na cama.
         Quando Piers acordou a escurido lhe deu as boas vindas e por um momento sentiu-
se lanado de volta ao inferno negro em que vivera durante tantos meses. Ento lembrou-se
de que era o cortinado da cama que mantinha o mundo l fora e que sua viso melhorava a
cada dia. Ainda continuava recusando-se a admitir, mesmo para si mesmo, que estava
vivendo o processo de recuperao da viso porque no suportaria enfrentar a realidade caso
suas esperanas dessem em nada.
         A cada amanhecer, Piers no esperava nada alm do que tivera no dia anterior. S
pedia a Deus que a escurido total jamais retomasse, pois apesar de ter Isadora ao seu lado,
no sabia se seria capaz de descer ao inferno outra vez.
         Isadora. Ao senti-la mover-se ao seu lado, ele tomou uma mecha de cabelos entre os
dedos, apreciando a maciez dos fios. Diziam que os cabelos de sua esposa tinha o brilho da
prata. Bem que tentava imaginar aquele tom de louro plido, quase branco, refletindo-se  luz
do Sol, porm no conseguia. Embora estivesse enxergando cores agora, a tonalidade dos
cabelos de Isadora lhe escapava e quanto tentava v-la, tampouco obtinha sucesso porque a
imagem querida recusava-se a tomar forma.
         - Hum... Bom dia, marido.
         Como  que aquela mulher podia ficar inteiramente desperta to depressa quando
sua mente continuava envolta em nvoas?
         Escorregando o corpo depressa pelo de Piers, e deixando-o enrijecido no processo,
Isadora pulou para fora da cama.
         - Volte aqui, mulher - ele pediu, porm o cortinado j estava sendo aberto. Piers
fechou os olhos saboreando o momento, sem nenhuma pressa de deixar o calor da cama.
Como era bom acordar ao lado da esposa e partilhar aqueles primeiros instantes da manh
antes que as responsabilidades do dia se intrometessem. Ento via-se obrigado a enfrentar as
longas horas de isolamento e frustrao enquanto a mulher se ocupava das vrias obrigaes.
         - Est um belo dia, querido! - Como se obedecendo  atrao exercida pela voz
musical, Piers abriu os olhos. Por um momento pensou que seu corao iria explodir
         no peito, tal a fora das batidas. Diante da janela, inundada de luz, estava uma viso
maravilhosa.
         Aquela era sua esposa. No uma sombra, nem uma mistura indistinta de cor, mas
Isadora... A primeira viso a ser captada h tanto tempo. E no podia acreditar no que estava
diante de seus olhos.
         Sempre soubera que se tratava de uma mulher adorvel. Ouvira outras pessoas
elogiarem a beleza e o charme da castel de Dunmurrow, mas ainda assim estava literalmente
sem fala. Nenhum de seus mais loucos sonhos chegara perto da realidade. Isadora era to bela
que lhe tirava o flego.
         A luz matinal iluminava feies delicadas e cheias da vida. Os cabelos, to claros que
pareciam brancos e to brilhantes que davam a impresso de refletir a luz do sol, caam sobre
as costas at a cintura.
         Ela estava nua. Atnito, Piers mal notara esse detalhe, mas agora se maravilhava


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diante de to grande perfeio.
        A pele macia como veludo tinha um brilho dourado, os seios pequenos e empinados,
lanavam os mamilos enrijecidos, por causa do frio, para o alto. Cintura estreita, pernas
esguias e bem torneadas. S de admir-la ficava excitado de uma maneira quase dolorosa.
Contudo, por mais que a desejasse, Piers temia quebrar o encantamento fazendo qualquer
movimento brusco. No suportaria v-Ia desaparecer numa mistura de cores e jamais voltar a
enxerg-la com nitidez.
        Com a ateno voltada outra vez para o rosto angelical, Piers concluiu que jamais
vira tanta beleza. Por um longo instante permaneceu imvel, quase sem respirar, bebendo na
imagem da esposa como um homem sedento. Mesmo se vivesse cem anos, nunca mais se
esqueceria daquele momento.
        Isadora, Isadora, Isadora, ele queria gritar. E de repente era como se todos os
sentimentos guardados dentro do peito quisessem explodir. Tudo aquilo que tentara ignorar
por causa da cegueira agora ameaava vir  tona descontroladamente. Era como um dique
arrebentando, a gua antes represada atravessando as barreiras e tornando-o impotente para
controlar a fora da emoo.
        Ele deve ter deixado escapar algum som, porque Isadora virou-se para fit-lo. Os
olhos grandes e esverdeados tinham o brilha da prata. E aqueles lbios... os mais suaves e
rosados, capazes de deix-lo em fogo com um simples roar.
         - Piers? - ela indagou. - O que foi?
         Incapaz de falar, ele deixou escapar um gemido abafado. No mesmo instante Isadora
estava ao lado do marido, fitando-o atentamente. Montmorency permaneceu imvel,
mergulhado nos olhos esverdeados da esposa, to inteligentes, to amorosos... Deus, era
possvel enxergar a alma da sua mulher estampada no rosto adorvel. Enxergar...
         - Piers! - Ento Isadora comeou a chorar ao se dar conta de que um milagre acabara
de acontecer. - Piers! - ela repetiu, tentando faz-lo falar alguma coisa, sacudindo-o nomeio
ds lgrimas.
         - Psiu. No h motivo para chorar, mas para se alegrar, esposa. - Temendo no
conseguir controlar a forte emoo interior, Montmorency evitava toc-la.
         Durante toda a sua vida lutara para manter os sentimentos sob um controle de ferro e
o fizera muito bem, at que ficara cego. Da em diante tornara-se vtima do prprio
temperamento, entregando-se aos momentos de raiva com uma fria que beirava o desatino.
Entretanto Isadora soubera como aplacar aquela ira bestial, despertando sentimentos que
jamais julgara existir dentro de seu corao. E esses sentimentos eram to fortes agora que j
no podia cont-los...
               - Isadora... Isadora... - ele gemeu, tocando o rosto delicado com as pontas dos
dedos.
         De repente alguma coisa explodiu em seu interior. Gritando o nome da esposa, Piers
puxou-a para a cama beijou-a com uma sofreguido assustadora, a lngua ardente
vasculhando o interior da boca quente e mida enquanto mos fortes percorriam o corpo
delgado com uma possessividade incomum. Isadora no hesitou um segundo, mas retribuiu as
carcias do marido com o mesmo mpeto, entregando-se  paixo que os consumia.
         Louco de desejo, ele tomou os seios na boca e sugo os mamilos rgidos quase com
desespero. Ouvindo-a gemer baixinho, sabia que no estava sendo muito gentil, porm no
conseguia parar nem diminuir a intensidade dos carinhos. Num gesto rpido, separou as
pernas esguias, expondo o centro da feminilidade.
         - Isadora, Isadora... - tornou a murmurar, como se pedisse desculpas pelo
comportamento descontrolado.
         Como nica resposta, ela arqueou as costas e ergueu os quadris, ansiosa para receber
o membro rgido e pulsante. Segurando-a firme pelas ndegas, Piers enterrou se at o fundo,
at que j no sabiam onde terminava um e comeava o outro.
         Ento fitou a esposa demoradamente, apreciando os cabelos prateados espalhados

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sobre o travesseiro, o rosto afogueado, os olhos fechados, os lbios entreabertos. A viso mais
perfeita do mundo. Apoderando-se outra vez da boca sensual num beijo spero e exigente, ele
aumentou o ritmo das investidas at se tornarem frenticas, vagamente consciente de que a
esposa mordia seus ombros e enterrava as unhas nas suas costas largas.
         Ao ouvi-la gritar o seu nome, no auge do prazer, Piers cravou os dedos na pele macia
at que uma investida final libertou-o da tenso insuportvel.
         - Isadora - ele gritou, o corpo inteiro estremecendo com a violncia do orgasmo.
         Quando pde pensar com clareza outra vez, abraou-a com ternura, deslizando os
dedos pelas costas delicadas como se quisesse suavizar as marcas que ali deixara. Depois
beijou-a na testa e fitou os olhos maravilhosos, cheios de amor e lgrimas de alegria.
         - Sempre temi que sua paixo, uma vez liberada, pudesse me subjugar - Isadora
sussurrou feliz.
         - E? - Montmorency indagou tenso, temendo ouvir a resposta.
       - E, como todos os meus outros temores em relao a voc, no passava de um receio
infundado. Quando foi que a sua viso retomou?
         - Foi um processo gradual. - carinhoso, Piers acariciava os cabelos da esposa, incapaz
de desviar o olhar do rosto querido.
         - Por que no me contou?
         - Eu no queria alimentar esperanas. Nem as suas, nem as minhas - ele respondeu
sincero. - Eu tinha medo que no fosse durar, que qualquer dia voltasse a acordar para a
escurido eterna.
         - O qu? O Cavaleiro Vermelho com medo de alguma coisa? - Isadora sorriu,
provocando-o. - No posso acreditar.
         Pois pode acreditar, Piers pensou. Mais uma vez, olhou bem dentro dos olhos
esverdeados, molhados de lgrimas, e ento puxou-a de encontro ao peito, incapaz de fit-la
mais um segundo sequer. Temia que se continuasse a faz-lo, iria comear a chorar como uma
criana, to grande a emoo que o consumia.


        CAPITULO QUINZE

         - Piers! Vamos - Isadora falou de repente. - Levante-se! - Ela pulou da cama e
agarrou o brao do marido com ambas as mos procurando, sem sucesso, obrig-lo a se
mexer. Era como tentar arrancar um carvalho gigante, com as raiz firmemente plantadas no
solo. - Voc no pode me negar isso agora.
         Quando Piers a fitou, um ar ctico no rosto, apressou-se a explicar:
         - Ser que no entende? Podemos sair deste quarto juntos! Estamos livres! -
Animada, Isadora comeou a se vestir, quase tropeando nos cachorros. Sentindo a excitao
da dona, os animais roaram os focinhos de encontro as pernas femininas, querendo brincar.
Desvencilhando-se deles com uns tapinhas discretos nas cabeas enormes, ela terminou de se
arrumar, ansiosa para provar ao povo de Dunmurrow que seu lorde no era nenhum
demnio, e sim o homem mais bonito de todo o reino.
         Vibrando de alegria, Isadora abriu um dos bas onde o marido costumava guardar as
roupas, procurando alguma coisa adequada  ocasio. Decidiu-se por uma veste vermelho-
sangue, finamente trabalhada, que faria sobressair o tom de pele e cabelos de Piers. Um traje
perfeito para o Cavaleiro Vermelho voltar ao mundo dos vivos.
         - Use isto aqui. Quero exibi-lo. Oh, se ao menos Edith estivesse aqui! Ela estava
sempre me chateando com histrias fantsticas a seu respeito, quase me fazendo acreditar que
eu havia me casado com um homem de duas cabeas e cascos no lugar de ps. S queria que
ela pudesse v-lo agora!
         A resposta de Piers no passou de um resmungo desinteressado. Porm levantou-se


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da cama e, depois de vestir-se, ficou diante da esposa. Isadora prendeu a respirao
maravilhada, observando a viso resplandecente. Com a veste vermelha sobre uma tnica
amarelo-claro e um cinturo de ouro, ele transmitia fora e virilidade.
        - Voc tem cabelos to bonitos... - Isadora murmurou.
        Piers riu e acariciou os fios longos e macios da esposa.
        - Os seus cabelos  que so lindos, esposa. Embora j tivessem sido descritos para
mim muitas vezes, a colorao dos fios escapa  imaginao. Fico feliz em poder v-los com
meus prprios olhos. - Montmorency beijou alguns fios, o olhar fixo no rosto da mulher.
        O Cavaleiro Vermelho era mesmo um feiticeiro, Isadora pensou, sentindo um calor
gostoso se espalhar por seu corpo inteiro, deixando-a com os joelhos trmulos e a respirao
ofegante.
               - Vamos, antes que sua mente se volte para outras coisas - provocou-o sorrindo.
        Os dois desceram as escadas em silncio, imersos pela escurido, at que enfim
chegaram ao salo principal.
        Porm se esperava causar uma impresso poderosa sobre a primeira pessoa que
encontrassem no caminho, Isadora ficou profundamente desapontada. Pois foi Cecil quem os
viu primeiro e o rosto impassvel do servo no demonstrou a menor surpresa.
        -  bom v-lo, meu lorde - criado falou muito calmo antes de voltar a ateno para os
seus afazeres.
        Contudo o aparecimento repentino do baro provocou uma reao mais intensa de
Glenna, que estava vindo da cozinha carregando uma bandeja com pratos e copos.
         - Glenna, meu lorde vai almoar conosco hoje - Isadora anunciou feliz.
         A cozinheira deu uma olhada no Cavaleiro Vermelho e ento deixou a bandeja cair
no cho, o barulho estridente ecoando pelo ambiente enorme.
         - Oh, vou ajud-la. - No mesmo instante Isadora ajoelhou-se ao lado da serva,
apanhando os objetos espalhados aqui e ali. Mas ao fitar o marido, no conseguiu conter o
entusiasmo e falou baixinho, apenas para os ouvidos de Glenna. - E ento? O que voc acha?
Ele no  lindo?
         - Bem, minha lady... - - A cozinheira parecia indecisa, sem saber exatamente como
responder. - Ele... ele parece um pouquinho ameaador.
         - Ameaador? - Ainda ajoelhada no cho, Isadora virou-se para fitar o marido. Ele
era enorme sim, muito mais alto do que qualquer homem que jamais conhecera e os msculos
poderosos ficavam evidentes sob as cama das de roupas. Montmorency continuava parado no
mesmo lugar, observando atentamente as mudanas que haviam sido feitas no salo principal,
os lbios comprimidos indicando intensa concentrao. A cicatriz junto a um dos olhos era
aparente. Mas consider-lo ameaador? No, Piers era bonito demais para parecer feroz.
Isadora suspirou feliz, cheia de admirao pelo marido.
         Glenna no teve dvidas. A castel de Dunmurrow estava perdidamente apaixonada
pelo baro Montmorency. No demorou muito e as boas novas chegaram  aldeia. O terrvel
Cavaleiro Vermelho voltara ao mundo dos vivos, domado pela bela esposa que, em troca, s
faltava beijar o cho em que ele pisava.
         O fato de Piers ter recuperado a viso tornou o mundo de Isadora perfeito e cada dia
passou a ter um novo brilho. Ele fazia questo de a adular e satisfazer todos os seus desejos,
convidando-a para cavalgar e caar, fazendo as refeies no salo, visitando a aldeia, embora
parecesse to feliz com aquelas exposies pblicas quanto ela.
         Durante as noites, ladeados pelos ces, costumavam jogar xadrez nos aposentos
principais, as trevas para sempre banidas pelo brilho suave das velas. E faziam amor. Depois
de ter vencido o medo dos sentimentos fortes, Isadora se entregou de corpo e alma  emoo
avassaladora que flua de Piers. Estivera certa, sim. Uma vez liberada, a paixo do marido
desconhecia limites. E ela correspondia com igual mpeto e ardor, algo que jamais se julgara
capaz de fazer.
         As semanas foram passando, transbordantes de felicidade, e, gradualmente, o tempo

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foi melhorando at a chegada da primavera. Montmorency recomeou a trabalhar com seus
homens, treinando-os e aprimorando as habilidades de cada um no uso das armas. Isadora
gostava de assistir algumas das sesses, admirando o Cavaleiro Vermelho manejar a espada, o
corpo enorme executando movimentos complicados com uma elegncia natural, os msculos
firmes e delineados sob as roupas. Mas apesar do prazer que a cena lhe causava, a ansiedade
costumava ser maior.
         Porque o milagre da viso recuperada abrira uma nova possibilidade. Piers tornara-
se novamente capaz de lutar e no podia suportar a idia de v-lo deixar Dunmurrow para se
embrenhar numa batalha. A existncia de Hexham era o nico ponto negro que toldava a sua
felicidade.
         At ento Montmorency dava a impresso de estar satisfeito com a permanncia em
Dunmurrow, porque tudo parecia tranqilo em Belvry. Alan e seus homens haviam se
instalado l e no tinham visto sequer um sinal do traioeiro vizinho. Edith e Willie lambem
continuavam em Belvry, casados e felizes. A previso de Piers fora correta, pelo menos at o
presente momento.Uma demonstrao ostensiva de fora mandara Hexham volta ao prprio
covil. Porm, como uma serpente maligna, aquela criatura devia estar tramando alguma
coisa. Talvez um ataque to logo chegasse a primavera?
         Por mais que se esforasse para pensar o contrrio, Isadora no conseguia ignorar as
dvidas que a assaltavam. Uma sensao horrvel de que seus dias e noites com o Cavaleiro
Vermelho estavam contados.
         Ela estava na despensa, separando algumas ervas e preparando um tnico para um
dos servos, quando Kendrick veio lhe dar a notcia. Um grupo de soldados tinha chegado de
Belvry e o lder estava conversando com baro naquele instante. Kendrick estava bastante
excitado, como apenas rapazinhos podem ficar a respeito de cavaleiros e preparativos para a
batalha. Mas Isadora sentiu o sangue gelar nas veias.
         Era como se o momento que sempre temera tivesse chegado. Procurando manter o
controle, continuou separando as ervas. Ao terminar, lavou as mos e subiu para os aposentos
principais, onde, com certeza, ms notcias a aguardavam.
         Ao entrar no quarto, ela reparou, como sempre, as mudanas que ali haviam ocorrido
desde a primeira vez em que pusera os ps nos aposentos do Cavaleiro Vermelho. Embora
ainda existisse um brilho estranho no local, pois as paredes eram mesmo pintadas de
vermelho. Embora as sombras tinham sido banidas para sempre e no mais escondiam o
lorde de Dunmurrow.. As janelas abertas lanavam um faixo de luz sobre a mesa onde Piers e
um soldado estavam conversando.
         To logo a viu, Piers dispensou o soldado. Apesar de sentir que as pernas pesavam
uma tonelada, ela conseguiu caminhar ao encontro do marido e, como se tentasse evitar o que
estava para ouvir, fechou os olhos no instante em que escutou o barulho da porta sendo
fechada.
         - Hexham me fez um desafio direto  Montmorency falou. - No posso recusar.
         Isadora ergueu a cabea, obrigando-se a aceitar a realidade.
         - Quando voc vai partir? - perguntou com uma calma que estava longe de sentir.
         - Assim que seja possvel. Dentro de um ou dois dias.
         Percebendo a tristeza do marido, ela desviou o olhar e foi at a janela, lutando contra
a dor da separao. L fora as terras de Dunmurrow se estendiam a perder de vista,
renovadas pelos primeiros sinais da primavera.
         - Voc se lembra quando eu fui visitar a curandeira da aldeia? - Isadora indagou,
sentindo a presena do marido atrs de si, o corpo forte irradiando calor.
         - Sim. - Piers permaneceu imvel, sem esboar qualquer tentativa de toc-la.
         - Fui procurar a curandeira para quebrar o encantamento que voc tinha lanado
sobre mim. Mas era um feitio que poo alguma poderia desfazer. A viva Nebbs sabia disso,
claro, e acho que quis me ensinar uma lio.
         - Isadora... - A voz masculina soava baixa e angustiada.


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         - Ela me ensinou mesmo uma lio. Foi quando decidi aceitar meus sentimentos por
voc. E eles cresceram tanto que me fizeram transbordar de felicidade. Porm, agora, neste
momento,  fcil lembrar por que um dia eu pedi uma poo mgica... Eu queria me poupar
desta dor.
         Piers abraou-a com fora.
         - Querida... Eu sinto muito. Preferia que no tivssemos que enfrentar uma situao
como esta. Voc acha que desejo deix-la agora, quando finalmente encontrei tudo o que
sempre procurei?
         Como Isadora nada respondesse., Montmorency continuou.
         - Quando perdi a viso, eu rezei, eu chorei, ,eu implorei para t-la de volta. Mas
depois que voc apareceu na minha vida... a nica coisa em que eu pensava era em poder
mant-la ao meu lado.
         Apesar de tentar se controlar, Isadora no conseguiu deixar de pedir:
         - Ento no v.
         - Mesmo que no fosse pela segurana de suas terras ou por causa da minha honra, o
que seria do futuro? Se eu no lutar pelo que  meu agora, ser que teremos que passar o
resto de nossas vidas temendo vizinhos gananciosos? Eu gostaria de tornar Dunmurrow um
lar seguro para os nossos filhos.
         Ela sorriu, cheia de tristeza. Sabia muito bem que o marido estava certo, contudo essa
certeza no diminua a dor e nem tornava o sofrimento mais fcil de suportar. A verdade 
que amava Piers com todas as suas foras e agora seria obrigada a pagar o preo.
         - Est bem. S quero que voc volte logo para casa...e em segurana.
         - O qu? - Piers indagou fingindo-se ofendido.
         Voc no tem nenhuma f no Cavaleiro Vermelho?
         Isadora levantou-se antes do amanhecer para v-lo partir. Embora a primavera j
tivesse chegado, as manhs continuavam midas e frias, obrigando-a a enrolar-se numa capa
pesada.
         Imponente, Piers dava as ltimas ordens, montado no garanho negro. Alm dos
homens que haviam vindo de Belvry, os soldados de Dunmurrow iriam acompanh-lo
tambm, pois no tinha a menor vontade de sofrer uma emboscada antes de chegar ao seu
destino.
         Com um aperto no corao, ela pensou que jamais vira o marido com uma aparncia
mais poderosa, ou mortal, do que naquele momento. Vestido para a batalha, o elmo sob o
brao, ele personificava o deus da guerra.
         -Isadora, meu amor  ele falou surpreso, vendo-a se aproximar. - Eu no a esperava
aqui.
         - Voc nunca poder escapulir da nossa cama sem que eu perceba - ela brincou, um
sorriso nos lbios para esconder as lgrimas. - Aqui est, tenho uma coisa para lhe dar.
         Sufocada pelo choro contido, Isadora entregou-lhe o que havia bordado durante as
horas que o marido passara treinando os homens e se preparando para este dia. Com um
nico movimento do pulso forte, Piers desfraldou o estandarte. Sobre o veludo vermelho-
sangue, um veado branco lanava os chifres para o infinito.
         - J que voc ainda no tem um braso prprio, decidi bordar o emblema dos de Laci
sobre um fundo encarnado - ela murmurou baixinho.
         -  lindo. Obrigado. - Piers chamou o escudeiro que apressou-se a enrolar o
estandarte antes de guard-lo junto aos pertences do baro.
         Ento ele fitou a esposa nos olhos, como se somente a muito custo conseguisse
controlar a paixo dentro do peito.
         - Isadora... - Montmorency abriu a boca para dizer alguma coisa, porm no foi
capaz de emitir mais nenhuma palavra. Simplesmente ergueu-a nos braos e beijou-a com
sofreguido. Quando Isadora sentiu os ps tocarem outra vez o cho, o marido j cavalgava
ao longe, perdido na escurido que antecede a madrugada.


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         Debruada sobre o balco da despensa, Isadora preparava um ch medicinal para
aliviar o desconforto de um dos aldees que quebrara a perna recentemente.
         Ao terminar, para o prprio sofrimento. Se ao menos pudesse fazer al ma coisa para
aliviar a dor e a angstia que a consumiam e que, desde a partida de Piers, semanas atrs, s
fizeram aumentar.
         Entretanto sabia que nem ela, nem a viva Nebbs, tinham a cura para o mal que a
acometia. Sentia uma falta terrvel do marido. Embora estivesse ainda mais ocupada agora,
com o plantio das terras para supervisionar , os jardins para cuidar e uma centena de outros
deveres, o fato  que a ausncia de Piers lhe pesava sobre os ombros como um fardo
insustentvel. Seus dias podiam ser cheios, porm uma parte de si mesma continuava vazia.
         - Minha lady? - A chegada de uma nova residente do castelo, uma garota tmida,
vinda da aldeia, arrancou-a do profundo estado de melancolia.
         - Sim? - Ela encorajou a menina com um aceno do cabea.
         - Estive na aldeia hoje. Fui ver a viva Nebbs Clara falou embaraada, fitando o
medicamento que a castel preparara.
         Isadora sorriu compreensiva, sabendo que velhos hbitos custam a morrer.
Certamente o fato de Clara ter buscado auxlio em outro lugar no a ofendia nem um pouco.
         - E ento?
         - A viva Nebbs me pediu para lhe entregar uma coisa, minha lady.
         - Oh? - Isadora no havia tomado a visitar a velha senhora, as lembranas do
profundo mal-estar causado pela poo ainda vivas em sua mente. Embora se sentisse culpada
por negligenciar a viva, a culpa no era grande o suficiente para faz-la voltar ao casebre
estranho e sombrio.
         - Sim, minha lady, aqui est.
               Ao receber o pequeno embrulho das mos da garota, Isadora imediatamente
colocou-o sobre o banco, procurando se convencer de que no era supersticiosa. Mas havia
algo a respeito da viva Nebbs que a deixava nervosa.
         - Ela mandou lhe dizer que estas ervas so boas para fazer o beb se acomodar bem
no tero.
         Surpresa, Isadora fitou Clara sem nada entender. Beb? Que beb? Antes que tivesse
tempo de analisar o recado, a garota continuou devagar, como se recitasse algo de memria.
         - A viva Nebbs tambm me pediu para lhe dizer que voc no precisa ter medo,
minha lady... porque...porque a mgica do... veado branco a acompanha.
         Ela simplesmente no sabia o que pensar depois de ouvir o recado ultrajante.
Entretanto Clara no parecia esperar resposta alguma, pois to logo se desincumbiu da tarefa
que lhe fora imposta, sorriu feliz e saiu da dispensa.
         Inspirando fundo, Isadora concluiu que talvez Devesse rir. E at teria rido, se os plos
arrepiados na nuca no a impedissem de relaxar. Um veado mgico? Antes, considerara a
viva uma criatura estranha, mas sbia. Agora, perguntava-se se a pobre-coitada no tinha
enlouquecido. Ela estendeu a mo, disposta a jogar o embrulho no lixo. Mesmo se estivesse 
morte, provavelmente no receitaria nada vindo da viva Nebbs. A ltima poo a deixara
doente demais para se arriscar.
         Um beb e um ch medicinal para faz-lo se acomodar no tero. A idia lhe soava
como um total disparate. De repente Isadora sentiu um frio estranho percorr-la da cabea
aos ps ao tentar se lembrar da ltima vez que ficara menstruada. Fazia mais de um ms que
as regras no vinham e sequer prestara ateno ao fato, preocupada demais com a ausncia
do. marido.
         Era bem possvel, Isadora pensou atordoada, inteiramente possvel. No; mais do que
possvel. Provvel. Alis, bastante provvel que estivesse carregando no ventre o filho de
Piers. S no se dera conta antes porque andara muito angustiada para reparar! Como ser
que a viva Nebbs...?
         No mesmo instante Isadora afastou a mo do embrulho, como se as ervas tivessem o


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poder de queim-la. Ao sair correndo da despensa, quase deu um encontro em Cecil.
Impassvel, o servo fitou a sem menor surpresa, como se fosse comum ver a castel de
Dunmurrow correndo desabalada e esbarrando nas pessoas.
         - Cecil - ela falou sem maiores explicaes. um embrulho sobre o banco da despensa.
Por favor jogue-o no lixo para mim.
         - Certamente, minha lady - o criado respondeu sem mover um msculo da face.
         - Obrigada. Voc  muito bom.
         Ento ela correu na direo dos aposentos principais ansiosa para ficar a ss e
pensar, planejar, sonhar com o filho, ou a filha, que trazia no ventre. O vazio interior de
repente fora preenchido outra vez.
         Isadora no se preocupou mais com o tal embrulho porque suspeitava que aquela
mistura de ervas fora apenas uma desculpa encontrada pela viva para obrig-la se dar conta
do beb. Porm, voltava a pensar com insistncia no resto da mensagem que recebera, a
mensagem que Clara se esforara para repetir com exatido. O que ser que a velha senhora
quisera lhe mandar dizer? Sentia-se curiosa sim, mas no curiosa o suficiente p visitar a viva
e descobrir por si mesma.
         Ela estava no salo principal quando algum veio avisar que um visitante recm-
chegado aguardava p misso para entrar junto aos portes.
         -  um homem chamado Benedict de Belvry - soldado explicou.
         - Mande-o entrar! - Isadora falou, o corao batendo acelerado no peito. Nem por um
momento questionou vinda de Benedict, e no de um dos homens do marido. Tudo em que
conseguia pensar era que ouviria notcias de Piers.
         Imediatamente mandou que trouxessem uma bandeja com cerveja e po para
alimentar o viajante. Depois acercou-se do fogo para aquecer as mos geladas, embora a
temperatura no interior do castelo fosse agradvel. Se alguma coisa tivesse acontecido ao seu
marido... Piers! Piers! O nome dele latejava no seu sangue com uma fora descomunal.
Melhor no tentar pensar, nem adivinhar, nem antecipar...
         Naquele momento Benedict entrou, uma capa jogada sobre os ombros e um capuz na
cabea, parecendo bem mais alto do que se lembrava. O rapaz no disse uma palavra e ficou
de p num canto, enquanto um servo deixava uma bandeja com alimentos sobre a mesa. Se-
gundos depois Isadora estava novamente a ss com Benedict. S que no era Benedict.
         Ela permaneceu imvel sem saber se deveria chamar os guardas ou gritar pedindo
socorro. Apesar do homem no fazer nenhum movimento ameaador, alguma coisa estava
muito errada. Quem seria ele? Por que estaria querendo se fazer passar por Benedict? O
instinto lhe dizia que se tratava de um inimigo, contudo o que uma criatura sozinha esperava
ganhar, quando havia guardas em Dunmurrow e uma pequena tropa acampada ao lado das
muralhas externas?
         Pois quem quer que fosse, o desconhecido obviamente no demonstrava nenhum
medo porque continuou fitando-a com interesse at que deu um passo para frente e, num
gesto melodramtico, atirou o capuz para trs.
         Ao se ver frente a frente com um rosto que lhe era familiar, Isadora no podia
acreditar nos prprios olhos.
         - Hexham! Voc est louco? O que est fazendo aqui?
         - Vim resgatar a bela dama, claro - ele respondeu no tom arrogante que lhe era
peculiar. O baro era to moreno quanto Piers era louro, a pele desbotada, os cabelos negros
como uma noite de breu. Muitas pessoas
         poderiam at consider-lo um homem bonito, porm Hexham se achava maravilhoso.
         - Venha, Isadora. Eu a libertarei desta masmorra e a conduzirei de volta a Belvry.
         Ela se afastou das mos estendidas, completamente confusa.
         - O que voc est dizendo?
         - Estou dizendo que vim libert-la deste lugar horrvel para reconduzi-la ao luxo ao
qual est acostumada e que lhe pertence por direito. - Com o peito estufado feito um balo,


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                                  Bodas de Fogo
Hexham se dava ares de grande cavaleiro. Somente ento Isadora percebeu que seu antigo
vizinho via a si mesmo como um verdadeiro salvador.
         O plano do baro estava claro enfim. O desafio que ele fizera ao Cavaleiro Vermelho
fora apenas uma desculpa para obrigar o lorde de Dunmurrow a afastar-s de seus domnios,
deixando o castelo sob a guarda de uma tropa reduzida. Assim Hexham poderia rapt-la da
maneira mais covarde e desleal possvel. Aquele verme no tinha um pingo de honra e se
escondera atrs de um disfarce para atingir seus objetivos baixos.
         Enojada, Isadora no conseguiu disfarar a expresso de profundo desprezo no rosto.
Hexham era traioeiro, como uma cobra e no merecia ser levado em considerao. Piers, por
exemplo, teria agido s claras e com ousadia, j Hexham preferia agir pelas costas, sem
qualquer tica. Muito embora ele estivesse s naquele momento, tinha certeza de que seus
homens o aguardavam a uma distncia segura do castelo. Covarde por natureza, o baro no
se aventuraria a agir por conta prpria, mesmo julgando que viera em auxlio de uma mulher
desejoso de ser salva.
         Do alto da sua insolncia, Hexham estendeu os braos, certo de que Isadora correria
ao seu encontro, cheia da gratido por ser salva de um marido brbaro.
         Ela quase comeou a rir.
         Apesar de no incio Dunmurrow ter lhe causado um certo desconforto e o Cavaleiro
Vermelho t-la deixado bastante inquieta, jamais lhe passara pela cabea fugir. Mesmo que
Edith tentasse convenc-la do contrrio, nem por um momento cogitara tomar o caminho dos
covardes. E aqui, bem  sua frente e em toda a sua glria, estava o maior de todos os covardes.
         - Vamos logo - Hexham insistiu, procurando apress-la.
         Se ao menos julgasse que os motivos do baro fossem puros, que ele viera com o nico
objetivo de socorr-la, talvez pudesse at perdo-lo. Porm Hexham no fazia
         nada a no ser em proveito prprio.
         - Por qu? - Isadora indagou com ousadia.
         Um brilho de raiva passou pelos olhos negros, porm ele tentou disfarar a irritao
com um sorriso falso.
         - Teremos tempo de sobra para conversarmos durante a jornada de volta. Vamos
embora depressa, antes que nos descubram.
         - Por qu? O que voc est planejando ganhar com esta vinda aqui?
         - Quero apenas libert-la deste lugar. Agora venha! - Hexham deu um passo  frente,
incapaz de esconder a fria que o atraso estava lhe causando.
         - No - Isadora falou muito calma. - No vou a lugar nenhum. Aqui  meu lar.
         Hexham ficou transtornado de raiva, o rosto vermelho, os olhos dilatados.
         - Isto aqui no passa de um amontoado de pedras! Seu lar  em Belvry, ao meu lado!
         - Posso saber o que voc tem a ver com Belvry? - ela indagou friamente. - Aquela
propriedade pertence ao meu marido.
         - Marido?! No vejo nenhum marido por aqui - Hexham debochou. - Seu pai a
prometeu a mim! Ele queria ter certeza de que suas terras ficariam protegidas, e que maneira
melhor de garantir essa proteo do que juntar Belvry s minhas terras?
         Ela mal podia conter a indignao diante de tantas mentiras.
         - Meu pai no lhe prometeu nada pois sempre o considerou um arrogante imprestvel
e jamais pensaria em associar-se a voc! Seria mais fcil ele se levantar da prpria sepultura
do que aceit-lo  cabeceira da mesa de Belvry.
         - Chega! - O baro tinha os lbios retorcidos, como se um odor nojento houvesse
empestado o ar. - Muito breve serei dono de seu querido Belvry.
         - Voc nunca ter Belvry!
         Hexham deu um passo para frente, ameaador.
         - Engano seu. Assim que eu puser as mos em voc, ningum poder me impedir de
coisa alguma!
         - Se voc ousar me tocar, meu marido o matara. - Isadora falou num tom to frio e


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mortal que o baro pareceu hesitar.
        Ento ele riu.
        - Ha! Voc no tem marido! Por que o Cavaleiro Vermelho no aparece e me
enfrenta? - Hexham apontou na direo da porta, despejando ironia. I
        - Meu marido no pode aparecer agora porque no momento anda bastante ocupado
dizimando aquele exrcito ridculo que voc tem!
        - Voc est mentindo - ele falou, tentando convencer a si mesmo. -Ningum tem visto
Montmorency nos ltimos tempos. Ou est morto ou  um homem muito velho e fraco que
atendeu ao meu desafio apenas para ser retalhado pelos meus soldados. Se voc esta
realmente casada, o que eu duvido, assim que chegarmos a Belvry darei um jeito para que
esse matrimnio seja anulado.
        - Pode esquecer, meu caro, porque agora trago um filho no ventre. Montmorency est
vivo sim. - Ela tocou a barriga de leve, percebendo o olhar de surpresa e desgosto de seu
oponente. - Meu marido no  nenhum fraco te, mas o Cavaleiro Vermelho, um grande
guerreiro, com poderes e fora que ultrapassam a sua imaginao.
        Ao reparar uma sombra de medo toldar as feies do baro, Isadora pressionou a
vantagem. O que ser que Hexham sabia sobre a reputao de Montmorency? E at
        onde acreditava nas histrias que se contavam?
        - Meu marido ficou em Dunmurrow alguns meses, aperfeioando suas habilidades,
obtendo novos conhecimentos e poderes, coisas que voc jamais sonhou existirem.
Montmorency saiu daqui para enfrentar algum que ousou desafi-lo. Somente um tolo como
voc no perceberia o perigo que o Cavaleiro Vermelho representa. A ira dele  vermelha
como sangue, o seu sangue, Hexham, que meu marido far questo de derramar.
        - Cale a boca, sua vaca - Ele ergueu a mo para esbofete-la, porm os ces,
esquecidos durante toda a cena, comearam a rosnar ameaadoramente. No mesmo instante
Hexham baixou o brao, o rosto desfigurado de dio.
        No incio Isadora pensara apenas em se livrar da figura indesejvel, convencendo-o
de que no precisava ser salva de nada. Porm a violncia e as palavras cruas a fizeram
mudar de idia. Sabia muito bem que Hexham no merecia a menor confiana pois se tratava
de uma criatura desprovida de honra, um covarde que desafiara seu marido e depois se
esgueirara como um verme para lhe roubar a esposa. Naquele exato momento Piers estava a
quilmetros de distncia, talvez lutando pela prpria vida. No, Hexham no iria sair impune
da situao ele criara. O baro tentou outra vez. Contendo a raiva com muito esforo, vestiu
novamente a mscara da falsa nobreza.
        - Se este cavaleiro  to feroz como voc diz, ento estou lhe dando a chance de
escapar de seu domnio. Venha comigo, para Belvry. No me importo que haja um beb a
caminho.
        Apesar do tom ameno, Isadora percebia as mentiras sob o manto da delicadeza. Se o
acompanhasse, Hexham jamais permitiria que aquela criana nascesse. A idia a encheu de
uma fria to grande como nunca se julgara capaz de sentir.
        - Ainda podemos dar um jeito de conseguir a anulao deste casamento. Ns
pertencemos um ao outro, voc sabe.
        Ela riu alto.
        - Sempre o detestei e somente um cego no enxergaria isso. Mas mesmo se no o
detestasse, no iria quer-lo para marido. Perteno a Montmorency. O Cavaleiro Vermelho 
meu lorde. E ele  muito mais do que eu um dia desejei.
        - Voc est enfeitiada! O fato de ter se deitado com esse demnio e gerado um filho
dele s pode provar sua insanidade. Venha, vou dar um jeito de quebrar esse encantamento
logo.
        - Castor! Pollux! - Isadora chamou ao perceber que o baro tentava toc-la.
Imediatamente os ces estavam ao lado da dona, enormes e ameaadores. - Quanto a voc,
meu galante salvador, farei com que seja jogado na masmorra, onde aguardar o julgamento


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de meu marido.
       O choque no rosto de Hexham deixou claro que ele no esperava ser recusado e muito
menos ser feito prisioneiro. O desespero estampado nos olhos malvolos devia t-la avisado,
porm Isadora estava muito segura de si, sabendo-se protegida pelos ces.
       - Quer que eu sirva um pouco mais de cerveja, minha lady?
        A chegada repentina de Glenna mudou toda a situao. Antes que Isadora tivesse a
chance de responder, Hexham agarrou a serva pelo brao enquanto encostava um punhal na
garganta da mulher.
         - Mande seus cachorros sossegarem - ele falou num tom baixo e cruel -, e venha
comigo. De outro modo no hesitarei em cortar a garganta desta mulher.
         Isadora inspirou fundo, sabendo que o baro cumpriria a ameaa. Ao pensar na
possibilidade de Moira encontrar a me sangrando at a morte, no teve dvidas.
         - Est bem. Irei com voc.
         - Mande os ces para a cozinha.
         - Castor! Pollux! Fora!
         Rosnando baixo, os ces se retiraram. Sem outra escolha, Isadora aproximou-se do
baro. Tarde demais se dera conta de que o tinha subestimado, considerando-o apenas um
tolo arrogante. Agora devia pagar o preo pelo engano.
         - Solte a serva.
         Com um movimento rpido, Hexham soltou Glenna e agarrou o brao de Isadora,
encostando a lmina fria de encontro ao pescoo alvo.
         - No tente fazer nada, mulher, ou eu mato a castel de Dunmurrow.
         Glenna no conseguia se mover, os olhos arregalados de pavor.
         - Voc nunca sair vivo deste castelo - Isadora o avisou.
         - Oh, sairei sim.  Mantendo-a firme pelo brao, Hexham obrigou-a a vestir a capa e
colocar o capuz, de forma que ningum pudesse enxergar o punhal que a ameaava. - Voc
facilitar minha sada. Dir aos guardas que estamos indo at a aldeia. E melhor ser convin-
cente ou morrer.
         Ser que o baro teria mesmo coragem de mat-la? Ele sempre a desejara, ainda
quando casado no tentava sequer disfarar os olhares lascivos e nojentos.
         Sim, Hexham a queria e tambm ambicionava se tornar dono de Belvry. Porm agora
no passava de um homem desesperado e incapaz de se render com nobreza. Se ao menos no
estivesse presa pelo brao poderia gritar, chamar um guarda, correr. Isadora colocou as mos
sobre a barriga num gesto protetor. No podia arriscar a segurana do filho de Piers.
         Como suspeitara, Hexham deixara um grupo de homens aguardando-o no ptio,
todos usando as cores de Belvry. Os covardes! Ao montarem nos cavalos, ela pensou em
galopar na direo dos guardas de Dunmurrow pedindo socorro, entretanto Hexham
segurava as rdeas ele seu cavalo com mos de ferro. Impossvel tentar escapar sem sair
ferida.
         No havia sequer esperana de serem barrados na ponte levadia. Ningum
imaginaria que um pequeno grupo vindo de Belvry poderia significar perigo para a casto de
Dunmurrow.
         Tambm, escondida sob a capa e o capuz, nenhum dos guardas foi capaz de
reconhec-la e a deixara passar sem perguntas. Impotente, Isadora marchou de encontro ao
seu destino, o corao tomado de um profundo desespero.
         J estavam fora das muralhas do castelo quando um dos ltimos guardas finalmente
a reconheceu.
         - Minha lady! - ele chamou, aproximando-se. - Um momento!
         Embora o grupo parasse, Hexham segurou as rdea do cavalo de Isadora com fora,
pronto para uma fuga arriscada.
         - Minha lady vai nos mostrar a aldeia - o baro falou com delicadeza.
         O soldado, um homem alto e de cabelos grisalhos, fitou a castel atentamente.

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       - No posso deix-la sair sem a escolta de alguns dos meus homens, minha lady.
Foram ordens de meu lorde.
       Silenciosamente, Isadora agradeceu a interveno do soldado. Com certeza tratava-se
de um homem bem treinado e que sentira o perigo a distncia. S pedia a Deus que ao
perceber o seu pavor, ele agisse rpido.
       Tudo aconteceu em questo de segundos. Assim que o guarda de Dunmurrow levou a
mo ao punho da espada, Hexham agarrou Isadora e puxou-a para o prprio cavalo,
cobrindo o pescoo delicado com a lmina do punhal.
       - Saiam do meu caminho! - o baro gritou. Sem outra alternativa, o soldado deu
passagem ao bando, que saiu em disparada.
       Embora suspeitasse que uma tropa sairia ao seu encalo, Isadora sabia que no
momento os soldados de Dunmurrow quase nada podiam fazer, exceto atirarem flechas com
extremo cuidado. Afinal, se acertassem Hexham correriam um grande risco de atingi-la
mortalmente tambm.
       No, no podia contar certo com uma ajuda vinda do castelo. Estava entregue a si
mesma e precisava controlar o medo se quisesse sobreviver.

         CAPITULO DEZESSEIS
         A coragem e a fibra de Isadora de pouco ajudaram. Embora Hexham no mais
ameaasse com a espada, no havia nada que pudesse fazer a no ser se agarrar  crina do
cavalo enquanto fugiam em disparada. Se casse, seria pisoteada pelo. outros animais.
         Ao entrarem na floresta, Hexham diminuiu a velocidade do galope e fez sinal para
que o grupo de homens se dispersasse. Surpresa, ela percebeu que o baro planejara cada
detalhe da operao e que, apesar de todos os cuidados tomados, devia temer os soldados de
Dunmurrow porque continuava a correr como um louco.
         A esperana de ser resgatada logo era muito pequena e apesar de se esforar, no
conseguia pensar num plano, para se safar daquela situao. A proximidade do corpo de
Hexham lhe causava nuseas terrveis, impedindo-a de raciocinar com clareza e cada segundo
que passava a deixava mais distante de Dunmurrow.
         Fechando os olhos, Isadora tentou relaxar at que, finalmente, a imagem do marido
lhe veio  mente trazendo um, pouco de ordem ao caos interior. Ao pensar em Piers, no poder
e no amor que ele lhe tinha, sentiu a calma tomar conta de seus sentidos sobressaltados, como
se, por um milagre, a fora de Montmorency a amparasse em meio a tanto desespero.
         Mais serena, Isadora concluiu que nada podia fazer no momento, ou pelo menos, at
que parassem para um descanso rpido. Talvez a... conseguisse escapar. Hexham era cruel
sim, porm no to inteligente quanto ela. Contudo, ser que seu intelecto superior poderia
prevalecer  fora das armas?
         Finalmente Hexham parou, os ouvidos atentos, a espada outra vez de encontro ao
pescoo da sua presa. Isadora prendeu a respirao. Entretanto, alm do barulho das folhas e
do canto dos pssaros, no se escutava nada. Ningum os perseguia. Os outros trs cavaleiros
que os acompanhavam riram alto, cheios de confiana. Logo deixavam a floresta para trs e
ganhavam o campo aberto, direto ao encontro do pequeno exrcito, fortemente armado, que
os aguardava.
         Por um breve instante Isadora sentiu as esperanas se renovarem achando que a
tropa viera de Dunmurrow. Porm logo tornou-se bvio que aqueles homens no pertenciam
ao castelo de Piers e nem a Belvry. Eram soldados de Hexham, que agora ria e gritava,
entusiasmado pela vitria fcil.
         Amargurada pela descoberta, Isadora tentou no se entregar ao desespero enquanto
o baro a colocava no cho e lhe amarrava os pulsos com uma corda.
         - O que  isso, meu lorde? - indagou um dos homens.
         - Pensei que voc tivesse vindo salvar uma dama.
         - A dama precisou de uma pequena persuaso - Hexham respondeu seco. - Ela foi


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enfeitiada por aquele demnio do Montmorency.
         To logo o nome de seu marido foi mencionado, Isadora percebeu a onda familiar de
murmrios que a reputao de Piers sempre levantava.
         - Cavaleiro Vermelho! Esta  a mulher dele?  Um dos soldados perguntou.
         - J ouvi falar do baro Montmorency - falou outro homem fazendo o sinal da cruz. -
Dizem que tem parte com o prprio diabo.
         - Bobagem. - Para mostrar seu completo desdm, Hexham cuspiu no cho, junto aos
ps de Isadora.
         Cavaleiro Vermelho no passa de uma sombra e s Deus sabe h quanto tempo no 
visto por algum. Ou est morto ou no passa de um velho fraco, incapaz de sustentar o peso
da prpria espada.
         - Pois eu lhe digo que ele  jovem, forte e poderoso alm da sua imaginao - Isadora
falou muito calma. - Com certeza j sabe o que voc fez e vai ca-lo implacavelmente.
         - Ele no sabe de nada! - Hexham levantou a mo para esbofete-la e desistiu,
comeando a rir. - Vou possu-la tantas vezes, e com tanto ardor, que logo voc esquecer da
existncia de Montmorency.
         Alguns homens riram e outros pareceram se sentir desconfortveis. Foi a esses
ltimos que Isadora se dirigiu, embora mantivesse os olhos no baro.
         - Marque bem minhas palavras, Hexham. O Cavaleiro Vermelho vir e arrancar o
seu corao para com-lo.
         De repente a lenda de Montmorency pareceu se tornar uma coisa viva e explodir no
grupo como uma ameaa pairando no ar. Vrios homens deram um passo para trs.
         - Fique quieta! - Hexham berrou. - Ou vou surr-la at deix-la sem sentidos. - Ele
virou-se para os soldados e ordenou: - Parem com esses murmrios idiotas e coloquem essa
vaca num cavalo. Vamos para casa.
         Alfred Morling ergueu o elmo e olhou os campos vazios, os olhos treinados
procurando sinais de Hexham. Vagarosamente, esfregou o pescoo, como se j sentisse a
cabea sendo decepada. Sendo o responsvel pela segurana da propriedade, com certeza era
isso mesmo o que ia acontecer, caso no encontrasse o baro.
         Montmorency o tinha ordenado proteger o castelo e zelar, em especial, pelo bem-estar
da lady de Dunmurrow.
         Entretanto ele falhara. Algum conseguira entrar e seqestrar a castel debaixo de
seus narizes. E, de acordo com um dos servos, fora aquele filho da me do Hexham, o mesmo
que enviara um desafio direto a Montmorency.
         Somente o mais covarde dos homens seria capaz de atrair um cavaleiro para o campo
de batalha enquanto roubava a esposa dele pelas costas. Parecia-lhe algo impensvel, contudo
acontecera. Alfred passou a mo outra vez pelo pescoo, pensando que se no trouxesse lady
Montmorency de volta, seria um homem morto. O pior  que j anoitecia e haviam perdido o
rastro dos agressores.
         - Clyde! - ele gritou. Imediatamente um jovem soldado aproximou-se, para receber a
ordem que todos temiam. - Cavalgue  nossa frente, direto para Belvry, at encontrar o baro
Montmorency. Diga-lhe que Hexham raptou a mulher dele.
         - Sim, senhor - Clyde respondeu, empalidecendo. Os que conheciam o temperamento
de Piers tinham medo de executar a tarefa, porm no havia como evit-la. O baro tinha o
direito de saber. - Eu vou avis-lo. - O jovem tomou as rdeas do cavalo e saiu em disparada.
         Isadora mudou de posio no cho duro. H dias estavam cavalgando enlouquecidos,
como se as prprias criaturas do inferno estivessem ao seu encalo, ou  sua frente. Embora
Hexham jurasse no temer o Cavaleiro Vermelho, ele obrigava o grupo a galopar numa
velocidade brutal. Sinal de ansiedade, claro. Isadora continuava falando sobre a chegada
iminente do marido para salv-la e apesar dos comentrios debochados de Hexham, percebia
que o baro no ficava imune  ameaa.
         Por outro lado aquela correria era bem-vinda, pois quando a noite chegava Hexham

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estava to cansado que conseguia apenas comer e dormir. Algumas vezes o surpreendia
fitando-a, cheio de desejo, e sabia que cedo ou tarde o baro tentaria possu-la.
         O fato de ser mulher de outro homem e estar carregando um filho no ventre no
significava nada para algum destitudo de honra.
         Ela no tinha dvidas de que fora deixada em paz at o momento apenas porque
Hexham estava exausto e tambm porque o orgulho e a arrogncia do baro o impedia de
estupr-la na frente de seus homens. Ele se considerava bonito e elegante demais para dormir
com uma mulher ao relento alm de no suportar a idia de ter que se impor  fora diante de
testemunhas. Pelo menos enquanto durasse a jornada estaria salva, a menos que o irritasse
alm dos limites.
         Entretanto, quando chegassem ao seu destino, Hexham se sentiria livre de quaisquer
amarras. Ansiosa diante do futuro, Isadora colocou as mos sobre o ventre num gesto
protetor, pedindo a Deus que o Cavaleiro Vermelho no demorasse muito.
         Era o mximo que podia fazer,j que no sugira nenhuma chance de tentar escapar e,
quando chegassem ao castelo de Hexham, a vigilncia seria redobrada. Durante o dia
cavalgava com os pulsos amarrados e,  noite, dormia cercada pelos homens do baro.
         Isadora olhou ao redor, analisando o grupo. Todos pareciam adormecidos, exceto os
dois homens designados para montar guarda. Um deles vigiava os arredores, enquanto o
outro a observava. No conseguia imaginar um plano capaz de engan-los... Vencida pela
exausto, adormeceu.
         De repente algum a tocou de leve, acordando-a. Era o guarda designado para vigi-
la.
         - Venha - o homem murmurou. - Vou ajud-la a escapar.
         Isadora apoiou um cotovelo no cho, o corao batendo descompassado no peito.
Escapar? Como?
         - Depressa! - ele insistiu, os dedos grossos penetrando-lhe a carne.
         Esforando-se para ficar de p, Isadora conseguiu enxergar o rosto do soldado,
porm em vez de uma fisionomia confivel, descobriu um sorriso maldoso e desdentado. De
repente imaginou-se fugindo com aquele homem apenas para ser violentada e morta em
seguida. O pavor era tanto que comeou a tremer.
         Ao sentir as mos imundas forando-a a ficar de p, ela pensou em gritar, mas antes
mesmo que conseguisse emitir qualquer som, um movimento intenso rompeu o silncio da
noite. Imediatamente o soldado jogou-a no cho e desembainhou a espada. Ofegante, Isadora
procurava entender o que estava acontecendo.
         Palavres. Muitos dos homens estavam praguejando enquanto outros riam. Alguns
seguravam armas, embora no houvesse nenhuma ameaa no ar.
         - Maldito seja voc, Rhys, por ser to imprestvel Hexham falou irritado. - Aquele
veado daria uma tima refeio.
         - Eu no poderia matar um veado branco, meu lorde.
         Trs m sorte.
         - Seu estpido! Voc  to ignorante que chega a ser imbecil! No tem inteligncia
nem para pensar com a prpria cabea!
         - Ento era um veado branco? - Isadora indagou no silncio que se seguiu.
         - Qual o problema se fosse? A carne seria to saborosa quanto qualquer outra.
         - Aquele veado branco no era para ser morto e devorado. Era um sinal do Cavaleiro
Vermelho. Meu marido est para chegar.
         Por um instante Isadora achou que havia forado o baro para alm dos limites e que
a casca de falsa civilidade iria finalmente se romper.
         - Algum faa esta vaca calar a boca - Hexham ordenou furioso. Como ningum se
mexesse, preocupados com a possvel chegada do Cavaleiro Vermelho, ele mesmo tomou a
iniciativa. - Vamos, me d aquele trapo ali. - Depois de amarrar um pano imundo na boca de
Isadora, Hexham deu-lhe um tapinha no rosto de murmurou: - Seja boazinha, querida, e


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muito breve estar sugando algo bem mais agradvel.
         Piers ergueu o elmo e passou a mo na testa para limpar o suor. Depois de aguardar
dias e dias qualquer sinal do exrcito de Hexham, haviam resolvido procurar a tropa inimiga
e depois de encontr-la, fizeram-na recuar sem derramamento de sangue. A vitria fora fcil
demais, to fcil que lhe cheirava a uma armadilha. Porm, at o momento, Hexham no dera
as caras.
         Uma vez que fora o baro quem lanara o desafio, Piers suspeitava de traio.
Isadora o avisara que seu antigo vizinho no era capaz de lutar de forma limpa, seguindo os
preceitos da honra. Na verdade ela o implorara para permanecer em Dunmurrow. E agora
no conseguia evitar uma sensao estranha, como se algum coisa estivesse, realmente, muito
errada.
         A chegada repentina de um dos soldados deixados em Dunmurrow pouco contribuiu
para melhorar o seu humor. Talvez o desafio fosse um engodo, apenas uma maneira de afast-
lo das suas terras. Se aquele filho da me do Hexham tivesse atacado o castelo enquanto
Isadora estava l dentro...
         - Meu lorde - Clyde comeou, o rosto plido voltado para Montmorency -, meu lorde,
o baro Hexham seqestrou sua esposa.
         O urro que irrompeu do peito do Cavaleiro Vermelho foi to violento que fez
estremecer seus prprios homens. Piers levantou a espada, como se pretendesse atirar Clyde
para fora do cavalo com um s golpe. Foi ento que Alan se aproximou.
         - Para onde ele a levou? Est pedindo resgate? Alan indagou, a voz controlada
acalmando a ira de Montmorency e fazendo-o baixar o brao.
         Trmulo, Clyde procurava se manter firme na sela, agradecendo silenciosamente a
interveno do vassalo, pois de outra forma talvez j estivesse morto. Entretanto, ao fitar o
Cavaleiro Vermelho, sentiu um pesar enorme.
         O sofrimento estampado no rosto de Piers era to intenso que se tornava doloroso. de
testemunhar.
         Montmorency amava a esposa. Sem saber como lidar com o peso daquela revelao,
Clyde desviou o olhar, no querendo se intrometer na privacidade do baro.
         - No sabemos - o rapaz respondeu afinal. - Sabemos apenas que ele veio nesta
direo e presumimos que esteja a caminho de Belvry. Uma serva afirmou que se trata de
Hexham, entretanto nenhum resgate foi pedido.
         - Talvez agora ele esteja pretendendo nos arrastar para uma armadilha - Alan
sugeriu.
         - Agora? - A voz de Piers vibrava de dio. - Ele j me arrastou para uma terrvel
armadilha, aquele filho da me!
         Isadora quase caiu da montaria, um cansao insuportvel drenando cada gota de
sangue das suas veias. Se ao menos pudesse dormir! Apesar dos pulsos amarrados e da boca
seca e inchada, ainda tapada pelo trapo nojento, sentia que seria capaz de dormir par:a
sempre. O beb sugava o resto das suas energias e a velocidade com que vinham cavalgando
era demasiada... Quando ser que Hexham iria deix-los parar?
         Obrigando-se a abrir os olhos, ela olhou ao redor. J estava quase anoitecendo,
graas a Deus. De repente reconheceu um riacho que corria ao longo da estrada. Estavam se
aproximando de Belvry.
         Um desespero profundo ameaou engolf-la. A completa exausto, fsica e emocional,
a impedia de lidar com as perguntas que lhe toldavam a mente. O que Hexham faria agora?
Ser que pretendia ir para o prprio castelo ou se instalar em Belvry de uma vez por todas?
Onde estaria Piers? O modo confiante como Hexham se comportava sugeria a ausncia de
qualquer possvel ameaa.
         Claro que o grupo de vinte homens, fortemente armados, poderia enfrentar o ataque
de uma pequena brigada. Mas e Piers? O nome do marido no lhe saa da cabea.
         Ser que Hexham no levava em considerao a existncia do exrcito do Cavaleiro


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Vermelho ou era simples mente tolo demais para ter cautela? Quem sabe estariam
caminhando direto para uma armadilha? Neste caso, melhor ficar alerta para se afastar da
linha da bate assim que preciso, pois no tinha nenhuma inteno de ser morta por engano.
         A esperana de Isadora ganhou novo alento quando surgiu um cavaleiro solitrio. J
estava anoitecendo e as rvores ao redor poderiam servir de timo esconderijo para outros
soldados. Porm Hexham no demonstrava menor preocupao com o aparecimento do
desconhecido. Seguro de si, ameaou:
         - Saia do caminho ou vou parti-lo em dois.
         O cavaleiro no se moveu um centmetro.
         - Por acaso voc sabe que est nas terras dos de Laci?
         Isadora espreitou o estranho, a excitao inicial da lugar ao medo. Vestido para a
guerra e usando um elmo que lhe cobria todo o rosto, o cavaleiro poderia ser dos homens de
Piers sim, mas ento por que no dissera que as terras pertenciam a Montmorency?
         - Estas terras so minhas, idiota! E  melhor sair daqui antes que eu corte sua cabea
fora! - Os soldados de Hexham cercaram o desconhecido e Isadora teve pena do coitado que
estava para ser assassinado a sangue frio.
         Naquele instante gritos irromperam por detrs das rvores enquanto vrios homens
aproximavam-se a galope. Embora no pudesse dizer exatamente quantos, ela tinha certeza
de que eram o suficiente para subjugar grupo de Hexham. Exausta como estava, ainda assim
conseguiu afastar-se um pouco, para no ser pega no meio da luta.
         Se o primeiro pensamento de Isadora havia sido em relao  sua segurana, no
momento seguinte s pensava em fugir dali. Como no tinha a mnima idia de quem eram
esses homens, no podia se arriscar entregando-se  incerteza. Procurando raciocinar
depressa, decidiu atravessar o riacho, que sabia ser raso, e deixar a luta o mais distante
possvel.
         Com o corao batendo descompassado no peito, galopou na direo da liberdade. S
precisava no despertar ateno dos soldados.
         Quando comeava a pensar que estava segura enfim, o barulho de cascos logo atrs.
         - Pare! - algum gritou. Imediatamente Isadora obedeceu, incapaz de arriscar a vida
do beb e a sua prpria na tentativa de ganhar a liberdade. Inspirando fundo, virou-se para
encarar o novo adversrio, pois Hexham no levara a melhor.
         Claro que estava satisfeita por ter se livrado do baro, contudo no sabia quem eram
esses homens e nem por que haviam atacado Hexham. Ao fitar o rosto cruel de seu captor,
temeu haver cado em mos ainda mais perigosas do que as anteriores.
         -  uma mulher! - o soldado avisou aos companheiros, e Isadora rezou para que
estivessem a servio de Piers, Pelo menos seria bem guardada at a chegada do marido.
Deveria dizer seu nome ou essa informao levaria os soldados a pedir um resgate?
         - Traga-a aqui - gritou uma outra voz.
         Ela tentou enxergar o homem que acabara de falar, pois obviamente tratava-se do
lder, porm nada conseguiu ver alm das costas. Procurando manter a calma, preparou-se
para enfrentar o desconhecido. Ao se aproximar, notou que se tratava de um homem mais
alto e mais musculoso do que Hexham. Ento ele se virou e ficou imvel, olhando-a como se
tivesse acabado de deparar com um fantasma.
         - Meu Deus... - o cavaleiro murmurou.
         Enquanto Isadora pensava numa maneira de responder quele estranho
cumprimento, o desconhecido j estava dando ordens.
         - Livrem-na da mordaa!
         Aquela voz lhe parecia vagamente familiar e tinha quase certeza de que j a ouvira.
Porm antes que tivesse tempo de apelar para a memria o trapo estava sendo tirado da sua
boca. No mesmo instante passou a lngua pelos lbios ressequidos.
         - Isadora! Voc no est me reconhecendo? - Ento o homem tirou o elmo, expondo a
massa de cabelos escuros. Ela fitou o rosto masculino e comeou a escorregar pela montaria,

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desmaiada.
         Se no fosse pela agilidade do soldado ao seu lado teria cado no cho. Inconsciente,
Isadora no se da conta de que aquelas mos enormes a seguravam com delicadeza e ao voltar
a si deixou escapar um grito de pavor, sentindo-se ameaada pela expresso que julgava feroz.
Entretanto a criatura sorriu, como se estivesse acostumado a segurar mulheres aos berros.
         - Isadora! Sou eu, Nicholas, seu irmo - algum falou secamente. Desviando o olhar
do rosto do soldado, Isadora tornou a fitar o lder, como se no pudesse se convencer da
realidade. Ela gemeu, certa de que estava frente a frente com um homem morto.
         - Voc est bem? - Nicholas indagou impaciente parecendo mais irritado do que
preocupado. Fazia muito tempo que no se viam, porm Isadora reconhecia o tom autoritrio
dos machos da sua famlia. - O que voe estava fazendo na companhia daquele canalha do
Hexham? E o que ele quis dizer quando afirmou que esta terras lhe pertenciam?
         Convencendo-se de que o fantasma no tinha inteno de deix-la em paz, ela ergueu
os olhos e fitou-o com ateno. Sim, era mesmo seu irmo. To alto e com cabelos to escuros
quanto o pai de ambos.
         Ningum teria suspeitado de que eram irmos, entretanto uma anlise mais
demorada logo revelaria as semelhanas dos traos fisionmicos. Nicholas era muito bonito
para um homem, alis um detalhe que ele odiara desde a infncia. Passara anos e anos
brigando com os outros dois irmos por causa da sua bela aparncia, sempre motivo de
piadinhas. Ser que aquela beleza toda se fora ou ento apenas se transformara, endurecida
pelas experincias difceis impostas pela vida? Sob a luz do entardecer, ele dava a impresso
de ter envelhecido muito mais do que era de se esperar naqueles cinco anos em que no se
viam.
         - Mas voc est morto - ela murmurou.
         Se Isadora esperava uma reao de surpresa ao seu pronunciamento, enganou-se
redondamente.
         - Sim, eu sei.  uma longa histria, irm, e a noite se aproxima. Agora me diga, para
onde Hexham est indo?
         - Para o inferno, espero.
         - Isadora!
         A firmeza da voz finalmente obrigou-a a sentar-se ereta na sela que ainda dividia com
o soldado que a impedira de cair no cho ao desmaiar..
         - Hexham desapareceu? - ela indagou.
         - Sim. O covarde fugiu, como era de se esperar. Mas no me escapar. Voc tem idia
para onde o canalha possa ter ido?
         - No sei. Hexham no me disse nada. Presumi que tivssemos indo para o castelo
dele, embora agisse como se agora Belvry lhe pertencesse.
         - E Belvry lhe pertence? - A voz de Nicholas era to cheia de dio que Isadora quase
no a reconheceu.
         - Outra vez, no sei como lhe responder. Hexham seqestrou de Dunmurrow, depois
de forar meu marido a se afastar, desafiando-o para um combate que nunca ocorreu.
         - Seu marido? - Nicholas apertou os olhos, como se notcia o surpreendesse, o que a
desagradou um pouco.
         - Ento voc se casou?
         - Sim. Meu marido  o baro Montmorency, chamado por muitos de Cavaleiro
Vermelho. J ouviu falar dele?
         - No, mas estive fora muito tempo...Nicholas falou secamente, balanando a cabea
de um lado para o outro. - Tempo demais.
         - Ento  por isso que voc disse que estas terras pertencem aos de Laci - ela
murmurou quase que para si mesma, dando-se conta, enfim, da verdade. Se o seu irmo
estava vivo, a disputa pela posse de Belvry no mais envolvia Piers. E no apenas isso... A
existncia um irmo, um de Laci para levar adiante o sobrenome do pai e proteger a

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propriedade, a teria desobrigado de casar-se!
         Tanta coisa poderia ter sido evitada... Entretanto o impossvel imaginar uma vida
sem Piers. Sentia-se feliz pelo fato de Nicholas haver passado anos desaparecido porque no se
arrependia nem um pouco do casamento que lhe fora imposto pelas circunstncias.
         Arrependia-se apenas de ter colocado o marido em perigo por causa das terras de seu
irmo.
         - Voc  o herdeiro legtimo de Belvry  Isadora falou satisfeita.
         - Sim. Embora eu no tenha dvidas de que Hexham tentar disputar minhas terras.
E quanto ao seu marido
         - Piers? - Ela teve vontade de rir. - No, ele  dono de suas prprias terras e nunca
ambicionou possuir Belvry. Esta propriedade  sua, meu irmo. Mas primeiro precisamos
encontrar meu marido. - Revigorada pela esperana de que seu irmo a ajudaria a encontrar
Piers, Isadora sentiu todo o cansao desaparecer como por encanto. - Voc tem um cavalo
para mim?
         - V buscar um cavalo para minha irm  Nicholas ordenou a um dos soldados. - No
momento deixamos aquele verme do Hexham escapulir, mas logo o obrigaremos a sair do
buraco onde se meteu e o caaremos nem que seja at o fim do mundo. Vamos na direo de
Chiswill agora, onde o resto de meus homens est acampado.
         - Voc tem mais homens? - Isadora indagou assombrada enquanto algum a ajudava
a montar num garanho negro.
         - Sim - Nicholas explicou. - Tenho soldados fiis a mim, alm de mercenrios.
         - Ento voc sabia que encontraria problemas quando regressasse?
               -Sim.
               As respostas do irmo eram curtas e desprovidas de qualquer emoo, como
sempre. O breve interesse que Nicholas demonstrara nela desaparecera assim que ficara claro
a sua falta de informaes a respeito de Hexham.
         Sem que conseguisse evitar, Isadora no pde deixar de comparar o irmo ao marido.
Piers era um homem capaz de ser descrito com muitos adjetivos, exceto frio. Os dois tambm
eram extremamente bonitos, porm as semelhanas terminavam a.
         Isadora no estava muito animada em deixar os lenis perfumados e a cama macia
na manso de Chiswill. Tanto conforto era uma lembrana agradvel de sua vida antiga,
como a filha e, herdeira de Clarence de Laci. Entretanto sabia que Nicholas pretendia partir
cedo e se queria tomar um bom banho, depois dos dias passados na estrada, precisava se
apressar. Era to estranho pensar que seu Irmo estava vivo e que agora, neste mesmo
minuto, transitava pelo grande salo, l embaixo.
         Apesar de nunca terem sido muito ntimos, Isadora experimentava um prazer
fraternal de sab-lo de volta alm de sentir que lhe fora tirada uma carga dos ombros quanto
ao destino de Belvry. Jamais se imaginara deixando o antigo lar para trs sem experimentar
um certo pesar, porm depois dos novos acontecimentos sentia-se pronta para virar a pgina
do passado sem arrependimentos.  beleza e o esplendor de Belvry no mais a seduziam.
Nada se comparava ao fascnio e a atrao que Piers exercia sobre ela.
         Depois dos dias na companhia de Hexham, em que era tratada como uma prisioneira
comum, um simples banho lhe parecia um verdadeiro luxo e a paz e segurana de Chiswill se
tornavam um bem precioso. A mudana operada em seu temperamento era to significativa
que Isadora quase chorou ao descobrir vrios de seus velhos vestidos ainda guardados em
bas enormes. A ltima vez que estivera em Chiswill fora no vero de dois atrs.
         Passando a mo de leve pelo ventre, ela se deu conta de que estava muito mais feliz
agora, apesar de todas as dificuldades que se vira obrigada a enfrentar. Sim, vivera contente
antes, ocupada com a administrao de Belvry e entretida com mil e um afazeres, porm
sempre estivera s. Hoje percebia que se dedicara ao trabalho com tamanho empenho numa
tentativa de preencher o vazio interior, um vazio que fora totalmente ocupado pela presena
de seu marido.


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         Inspirando fundo para manter a calma, Isadora rezou pela segurana de Piers. S
pedia a Deus que o encontrasse vivo e bem de sade para poder dizer-lhe sobre a criana que
estava a caminho.
         Alguma coisa havia forado Hexham a agir, Piers pensou enquanto liderava seus
homens ao encontro do exrcito que se aproximava. Teria sido o seqestro de Isadora?
Embora soubesse que precisava considerar essa possibilidade, no conseguia suportar a idia
de que a esposa estivesse nas mos de outro. Tenso, porm controlado, obrigou-se a fixar os
pensamentos na batalha iminente. Hexham finalmente comeara a se movimentar e os mo-
tivos que o levaram a tomar essa atitude tomavam-se, secundrios no momento. Estivera certo
quando decidira aguardar, julgando que lhe havia sido preparada uma armadilha. Porque se
antes o baro se mantinha s ocultas, agora mandava os soldados avanarem com ousadia.
         O exrcito de Hexham era grande e parecia um oponente  altura do seu, Piers
concluiu, arrependendo-se de ter deixado parte de sua tropa em Dunmurrow. Alis,
         uma tropa que no fora capaz de proteger sua esposa da chegada do inimigo. A ironia
da luta que estava para acontecer no lhe passou despercebida. Iria arriscar a vida de seus
homens, e a sua prpria tambm, por causa de um castelo sem qualquer importncia
enquanto a mulher a quem prezava acima de tudo lhe havia sido roubada. Belwry era
insignificante aos seus olhos enquanto Isadora...
         Orgulho. Orgulho e honra so freqentemente os culpados pela queda de um homem,
tanto quanto do sentido  prpria vida. Pela primeira vez arrependia-se de estar marchando
para uma batalha. Preferiria estar na floresta de Dunmurrow, cercado de silncio e beleza, ao
lado daquela que lhe trouxera a felicidade.
         Enquanto analisava as foras inimigas, Piers se odiou por ter sido to cego.
Acreditando na tica que rege as lies de um cavaleiro, julgara que Hexham agiria com igual
hombridade. Entretanto o baro se mostrara um covarde destitudo de carter e o atacara
pelas costas depois de lanar um desafio direto, obrigando-o a deixar sua casa quase
inteiramente desprotegida ao partir para a luta. Porm, por menor que fosse o seu exrcito
em comparao ao adversrio, iria enfrentar a batalha at o fim e, por Deus, sairia vencedor.
Estava na hora do Cavaleiro Vermelho fazer jus  lenda criada em tomo da sua reputao e
suplantar a si mesmo.
         Num esforo deliberado, Piers colocou de lado todos os outros pensamentos e
concentrou sua ateno na nica coisa que importava no momento: matar, porque a outra
alternativa seria morrer.

        CAPITULO DEZESSETE

          Embora Piers soubesse que seus homens estavam lutando bravamente, Hexham podia
contar com reservas vindas do castelo e um nmero infinito de mercenrios que os atacavam
de todos os flancos.
          Recuando um pouco para ter uma viso melhor da batalha, Piers ergueu o elmo e
limpou a testa, o suor escorrendo sobre os olhos e ensopando-lhe os cabelos. Ao perceber que
Alan se aproximava, um ar sombrio no rosto, teve certeza de que o vassalo trazia ms
notcias.
          - Um enviado de Hexham veio nos informar de que o baro deseja discutir os termos
de um acordo.
          - Termos de um acordo? Por que voc se deu ao trabalho de me trazer essas notcias,
quando sabe muito bem que nunca gasto tempo com palavras quando posso lutar?
          Alan parecia desconfortvel, como se no soubesse o que dizer.
          - Pensei que talvez... talvez o baro possa dizer alguma coisa sobre a sua lady - o
vassalo respondeu meio sem jeito.
           meno da esposa, Piers sentiu um aperto terrvel no corao.
          - Hexham pediu um resgate?


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         - No. Porm o emissrio do baro no entrou em detalhes. Talvez os planos sejam
lhe oferecer lady Montmorency em troca de Belvry.
         Uma mulher em troca de uma das propriedades mais valiosas de todo o reino? Piers
resmungou qualquer coisa, como se uma vida inteira de honra, orgulho e dedicao  carreira
militar agora entrassem em conflito com o que realmente importava: sua esposa.
         - Vamos ouvir o que o homem tem a nos dizer falou afinal.
         Os dois se entreolharam um tanto desconfiados ao entrarem na tenda de Hexham. O
baro estava sentado numa cadeira enorme, um tapete estendido sob os ps. A prpria
imagem de um pax ou de um rico mercador Italiano. Apesar de Hexham estar usando uma
armadura, ficava claro, pela ausncia de suor e sujeira, que sequer chegara perto de onde a
luta estava sendo travada. Piers  conseguia sentir um profundo desprezo por um homem to
covarde e incapaz de liderar os prprios homens num campo de batalha.
         - Ento este  o terrvel Cavaleiro Vermelho? - Hexham indagou num tom irnico.
         O sarcasmo no passou despercebido a Piers, porm, diante do olhar de advertncia
de Alan, decidiu manter a fria sob controle. Pelo menos at que soubesse o motivo do
encontro.
         - Sim, meu lorde - respondeu o emissrio que os trouxera. Logo o mensageiro saa e os
deixava a ss, na companhia dos guardas pessoais do baro. Embora uma tropa de seus
prprios homens o aguardasse do lado de fora, Piers comeou a se sentir inquieto. Sendo
Hexham to acostumado  traio, poderia muito bem estar planejando atac-los pelas costas
em vez de conversar.
         - Deve lhe parecer bvio agora, Cavaleiro Vermelho - Hexham comeou depois de um
longo silencio, em que analisou os recm-chegados da cabea aos ps -, que o meu exrcito
excede o seu em nmero. Se voc se render eu talvez possa at poupar a sua vida e a de seus
homens. J houve suficiente derramamento de sangue hoje -completou magnnimo.
         Piers no respondeu e simplesmente continuou fitando o idiota arrogante e
incompetente. Aquela discusso era intil. Ser que se dera ao trabalho de interromper a luta
para escutar um monte de asneiras? E onde estava Isadora?
         Demonstrando no se incomodar pela fixidez do olhar de Pies, o baro o interpelou:
         - E ento? Responda-me!
         - E quanto  minha esposa? - Montmorency indagou, os dedos fechando-se com fora
ao redor do punho espada. - Onde est ela?
         Hexham parecia to surpreso com a pergunta que um instante Piers imaginou se
aquele verme realmente seqestrara Isadora. I
         - Sua esposa? Ah, voc est querendo dizer Isadora de Laci.
         - Isadora Montmorency - Piers o corrigiu, a voz cortante como ao. - O que voc fez
com ela?
         - Eu? Nada, claro, exceto at-la na minha cama aproveitar ao mximo. - Hexham
fazia questo de falar com tranqilidade, como se no desse a menor importncia ao assunto.
- Temo que talvez a tenha possudo um tanto rudemente, j que ela acabou perdendo aquele
beb que trazia no ventre. Mas de qualquer forma no tem importncia. Eu plantei sementes
suficientes para gerar uma dzia de filhos.
         O urro de Piers fez estremecer a tenda. A espada foi desembainhada com tamanha
rapidez e ira que Hexham teve tempo apenas de sair da cadeira para no ser varado pela
lmina. Ainda assim teve o brao ferido e gritou de dor.
         Imediatamente os dois guarda - pessoais do baro avanaram, porm Piers os matou
em questo de segundos, os olhos fixos no seu principal objetivo. Destitudo de honra como
era, Hexham fugiu da tenda sem tentar se defender. Enquanto isso os urros de Piers vibravam
no ar como gritos de guerra.
         Isadora sentia a impacincia crescer a medida que se aproximavam de Belvry.
Estavam na estrada desde o amanhecer e um nmero enorme de mercenrios seguiam
Nicholas em silncio.


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         Era uma viso impressionante, cada um dos soldados parecendo mais feroz e perigoso
do que o outro. A pele e os olhos escuros a faziam pensar onde ser que o irmo fora busc-
los. Tambm a maneira como se moviam e obedeciam s ordens, sem palavras ou hesitaes,
lhe parecia inteiramente estranha. Ainda bem que no formavam o exrcito inimigo.
         - Isadora! Afaste-se um pouco at vermos o que nos aguarda.
         Ela abriu a boca para protestar. Depois do topo da colina, logo a frente, estava Belvry
e talvez, Piers. Havia chegado to longe e no queria ser deixada para trs. Porm antes que
tivesse tempo de protestar, o silncio ao redor foi quebrado por um rugido feroz, como se al-
guma fera estivesse  solta.
         - Piers. - O nome do marido escapou de seus lbios num murmrio rouco -e
emocionado.
         - Que diabo foi isso? - Nicholas perguntou.
         - Piers - ela respondeu com firmeza. - Ele com certeza perdeu a pacincia.
         - Ento esse rudo foi feito por um homem? Por seu marido?
         - Sim! - Galopando na direo do topo da colina, Isadora olhou os campos ao redor de
Belvry. Estavam apinhados de soldados e no meio deles erguia-se a forma inconfundvel do
marido. - Eu sei que  ele! Oh, Nicholas, talvez meu marido esteja com problemas.
         - Recue agora, Isadora. - Virando-se para seus soldados, ordenou: - Quero um
homem perto de minha irm o tempo inteiro. Quanto ao resto de vocs, estejam prontos para
atacar ao meu sinal. Mas lembrem-se do uma coisa. Lembrem-se de que Hexham  meu.
         Quando Piers finalmente saiu da tenda tinha a armadura manchada pelo sangue de
vrios inimigos, o suficiente para fazer jus ao nome de Cavaleiro Vermelho. Hexham no
estava em lugar algum para ser visto, contudo ele, Alan, e uma pequena tropa vinda de
Dunmurrow, achavam-se rodeados por uma grande parte do exrcito do baro. No podia ter
muita certeza de que Hexham planejara aquela armadilha, entretanto sabia que sua exploso
de fria os colocara numa situao bastante difcil.
         Aproveitando-se da confuso inicial, conseguiam montar nos cavalos, contudo Piers
no era capaz de enxergar uma rota de sada. Estavam ilhados num mar de soldados inimigos
e a distncia at um local seguro era impossvel de ser percorrida com a rapidez necessria.
Lutando pela prpria vida, Montmorency tentou abrir caminho, porm ao olhar para a colina
mais prxima deu-se conta de que mais soldados e mercenrios marchavam diretamente na
sua direo.
         Estamos perdidos. Pela primeira vez, depois de tantas batalhas, aquelas palavras
terrveis ocorreram, a Piers. Que ironia do destino pensar que apenas alguns meses atrs teria
ido ao encontro da morte com orgulho, enquanto que agora... agora, por Deus, queria viver!
         - Que diabo  aquilo? - Alan gritou aproximando-se. Surpresos, os dois observaram
os cavaleiros que galopavam colina abaixo, guiados por um estandarte negro com a figura de
um veado branco.
         - Vi aquele braso em Belvry - o vassalo falou  beira do desespero. - Estamos
perdidos pois o castelo j foi tomado.
         - No. - Montmorency apanhou o estandarte que sua esposa lhe dera ao sair de
Dunmurrow e mandou que Alan o desfraldasse. Sobre o fundo em veludo vermelho, um veado
idntico aparecia. O vento se encarregou de erguer bem alto o smbolo da famlia, um aviso a
todos os que os ameaavam.
         - Este  o estandarte dos de Laci - falou orgulhoso, sorrindo para o vassalo.
         Logo tudo estava acabado. Os soldados de Hexham, acossados pelos recm-chegados
e sem um lder para gui-los, bateram em retirada. Piers ordenou que a ponte levadia de
Belvry fosse abaixada para que os feridos recebessem os primeiros socorros e embora fizesse
questo de ver seus homens alojados, no planejava demorar ali nem mais um segundo.
Pretendia perseguir Hexham e terminar o trabalho que comeara na tenda do baro.
         - O Cavaleiro Vermelho! O Cavaleiro Vermelho!
         De dentro dos portes, os residentes de Belvry comemoravam a sua chegada e


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Montmorency percebeu que estava, realmente, coberto de sangue, apesar de no ter sido
ferido. Como Edward j dissera, costumava atrair o sangue dos inimigos. Se tivesse tempo at
gostaria de trocar a tnica manchada por outra limpa, porm subestimara Hexham uma vez e
no pretendia repetir o erro. No permitiria que o filho da me escapasse e, o mais importante
de tudo, no deixaria que aquele verme levasse Isadora consigo.
         Apoiado na sua disciplina de guerreiro, ele obrigou-se a no pensar em coisas que
pudessem interferir na tarefa que o aguardava, especialmente vises da esposa amarrada 
cama do baro. No momento precisava reunir os homens mais bem equipados para uma longa
e dura caada antes de ir atrs do covarde em seu prprio covil.
         - Quem  o lder de nossos salvadores? - Montmorency indagou a Alan.
         O vassalo balanou a cabea de um lado para o outro.
         - Os soldados e mercenrios so de poucas falas. Dizem apenas que servem aos de
Laci.
         - Mas qual de Laci? - O nico de Laci que Piers conhecia no podia estar liderando
exrcito algum, pois encontrava-se prisioneira de Hexham. Um beb, o baro dissera. Seria
verdade? Ser que Isadora carregara filho no ventre apenas para perd-lo depois de sofrer
brutalidades? Piers tirou o elmo e limpou o suor que lhe cobria os olhos, decidido a bloquear
qualquer sentimento. Se deixasse dominar pela emoo, perderia a cabea ali mesmo, onde
estava.
         - Montmorency? - Uma voz baixa e profunda o fez virar-se para trs. Um cavaleiro o
fitava atentamente,
         - Sim. Sou Montmorency.
         Os dois homens desceram dos cavalos e ficaram frente a frente. O desconhecido,
embora no to alto nem to musculoso quanto o Cavaleiro Vermelho, movia-se com: a
elegncia natural daqueles que pertencem a uma linhagem nobre.
         O rosto, apesar de bonito, tinha a dureza associada a muitos anos passados em
campos de batalha. Talvez por isso o julgasse levemente familiar, Piers decidiu. Ento os olhos
de ambos se encontraram e os olhos do desconhecido possuam um tom raro e peculiar, um
tom quase prateado...
         - Sou Nicholas de Laci...
          - Mas voc est...
         - Morto - Nicholas concluiu. - Eu sei.  uma longa histria e que ser melhor contada
quando estivermos descansados. No momento quero apenas lhe agradecer por ter guardado
Belvry to bem durante minha ausncia. Minha irm fala maravilhas a seu respeito...
         Sem que pudesse conter o impulso, Piers agarrou o cunhado pelo brao, talvez at
com uma fora exagerada.
         - Isadora! Ela est aqui? - Apesar de reconhecer o tom desesperado da prpria voz, j
no se importava com mais nada.
         - Sim. - Nicholas olhou para a fileira de homens logo atrs de si. - Ela...
         Piers no esperou que Nicholas continuasse. Tambm no se interessou em discutir a
batalha que haviam enfrentado ou aquelas que ainda teriam pela frente ou os planos para a
caada de Hexham ou os assuntos ligados a Belvry. Deixando o orgulho e a honra militar de
lado, correu ao encontro da esposa.
         Isadora j estava desmontando e correndo na direo do marido. Os dois se
encontraram diante das muralhas de Belvry. Sem se incomodar com a sujeira, o suor e o
sangue que cobriam o homem amado, ela se atirou nos braos fortes, sorrindo e chorando ao
mesmo tempo.
         Piers beijou-a nos olhos, no rosto, na boca com sofreguido, tentando apagar da
memria as longas horas de angstia e sofrimento. Foi somente quando a colocou de volta no
cho que se deu conta de que os homens ao redor aplaudiam a cena entusiasmados. Embora a
situao o deixasse um tanto sem jeito, no conseguia desviar o olhar da esposa.
         - Voc est... bem?


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         - Sim - Isadora respondeu feliz, o sorriso radiante
         iluminando o dia como um raio de Sol.
         - Hexham no a feriu, no lhe fez mal?
         - No. Na fuga de Dunmurrow Hexham estava apavorado demais, temendo uma
perseguio, para se engraar comigo. Ele forou a marcha ao mximo at alcanarmos os
limites de Belvry. Ento Nicholas apareceu e tomou conta da situao.
         Apesar de saber que a esposa estava sendo sincera, precisava ouvir as palavras para
que seu tormento tivesse fim.
         - Quer dizer que ele no a tocou?
         - No - ela respondeu num murmrio, os olhos fixos no marido. - Hexham nunca me
encostou um dedo, embora tivesse se sentido tentado a faz-lo muitas vezes.
         A sensao de alvio era to intensa, que Piers sentiu um aperto no peito. Hexham
mentira; aquele filho da me no a amarrara na cama coisa nenhuma. No houvera estupro
nem aborto. Graas a. Deus, ele rezou em silencio. Se no acontecera um aborto, ser que
houvera mesmo um beb?
         - Voc j esteve com meu irmo?
         - Sim. - Piers ergueu a cabea, sabendo que aquela no era hora para maiores
intimidades. Relutante, afastou-se alguns centmetros, embora mantivesse um brao
firmemente ao redor dos ombros delicados. Juntos, caminharam at onde Nicholas os
aguardava.
         - Meu irmo estava preocupado que pudesse haver uma disputa sobre a posse de
Belvry - Isadora falou no caminho -, mas deixei claro que voc no tem interesse nas terras
dos de Laci.
         - Quer dizer que voc lhe deu, de mo beijada, uma das propriedades mais prsperas
da regio sem ao menos me consultar?
         Isadora riu sem se deixar perturbar pela cara feia do marido.
         - Ser que agi errado? Lembro-me muito bem que em diversas ocasies voc gritou,
em alto e bom som que no queria nada da minha riqueza, alis, pelo contrrio.
         - Ento lutei por aquilo que agora pertence ao meu cunhado? - Piers gemeu, fingindo-
se ultrajado.
         Ao ouvir o riso cristalino da esposa ele sentiu o corao: bater mais forte, cheio de
amor. Se pudesse, a tomaria nos braos ali mesmo e a levaria para o quarto, onde mostraria o
quanto sentira saudades... E que a caada a Hexham fosse para o inferno.
         Infelizmente aqueles pensamentos agradveis foram interrompidos pela chegada do
irmo de Isadora.
         - Baro Montmorency, minhas desculpas por partir to depressa, mas no posso
permitir que Hexham escape.
         - Claro que no. Vou chamar alguns de meus homens e irei com voc. - Piers ignorou
a presso da mo da esposa em seu brao, sabendo que ela queria impedi-lo de partir.
         - No ser preciso - Nicholas falou decidido. - Voc j fez mais do que o suficiente por
mim. Tambm quero lhe assegurar que minha irm receber um dote generoso como presente
de casamento.
         Piers ergueu a mo como se para dispensar aquelas palavras e o presente, porm as
feies de Nicholas tornaram-se ainda mais duras.
         - Eu insisto, meu lorde. Sou-lhe grato, mas no pretendo ficar em dbito com homem
algum.
         Temerosa de que o marido perdesse a calma, Isadora aumentou a presso dos dedos
no brao masculino, entretanto Piers j havia conhecido homens como Nicholas II1tes e sabia
como lidar com a situao.
         - Naturalmente ficarei satisfeito em receber um pagamento de voc. Perdi homens
aqui e, claro, eles devem ser substitudos. Agora, quanto a Hexham... ele me fez um desafio
direto, e forou a me afastar de Dunmurrow para me atacar pelas costas e seqestrar minha


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esposa quero v-lo morto.
         - Baro... - Nicholas hesitou, como se as palavras o deixassem desconfortvel. - Por
favor, no tome como um insulto, mas Isadora est a salvo, no sofreu nenhum ferimento,
enquanto eu... O que existe entre mim e Hexham vai muito mais longe.
         Montmorency tentou imaginar o que poderia ir mais longe do que seqestrar a
esposa de outro homem, contudo achou melhor ficar calado. Nicholas permaneceu imvel
aguardando uma resposta, os olhos cinzentos frios como ao. Levou apenas um minuto para
Piers decidir mandar o orgulho para o inferno e outro minuto para imaginar uma maneira
muito mais agradvel de passar o tempo enquanto o cunhado preocupava-se em desmembrar
o inimigo.
         - Est bem. Hexham  seu.
         Nicholas agradeceu com um breve aceno de cabea, o olhar srio, o rosto rgido.
Ento montou em seu magnfico garanho negro e, sem se voltar para trs, partiu a galope, os
soldados o seguindo num silncio que lhe era habitual. Nicholas e seus homens iam atrs de
Hexham como verdadeiros predadores, sedentos para matar, porm Piers no os invejava
nem partilhava aquela ansiedade. Estava cansado de guerras e mortes, saturado do cheiro
acre de sangue e do gosto amargo que as batalhas deixavam na boca. Honra e orgulho tinham
importncia sim, mas agora preferia buscar a felicidade entre as pernas de sua bela esposa.
         Como se pressentindo os pensamentos do marido, Isadora o puxou pelo brao.
         - Venha. Voc j viu Belvry?
         Pela primeira vez Piers notou que o vestido da mulher estava sujo de sangue e sujeira.
         - Acho que primeiro devemos pensar num banho, esposa.
         - Obrigada, querido - ela sussurrou abraando-o.
         - Obrigado por qu?
         - Por no ter ido com Nicholas. Eu sabia que voc queria ir, s que eu no conseguiria
suportar sua ausncia, no agora, quando finalmente voltei a encontr-lo e...
         - Acredite-me, querida. No foi um grande sacrifcio da minha parte.
         - Seus seios parecem maiores e mais pesados  Piers comentou acariciando o objeto de
seu interesse.  Por acaso os tem massageado com algum leo especial? - ele a provocou.
         - Claro que no! - Isadora retrucou ultrajada. Nunca em sua vida usara esse tipo de
coisa, pois jamais tivera muito interesse no prprio corpo. Sabia muito bem por que seus seios
estavam maiores e, de repente, teve a impresso de que o marido sabia tambm.
         - timo! Porque eu gosto deles exatamente como eram, pequenos e perfeitos para a
minha boca.  Per mordiscou os mamilos pontudos vagarosamente.
         - Piers... - Como era possvel que seu marido a excitasse com tanta facilidade assim?
Julgara-se exausta saciada depois da paixo ardente que se seguira ao encontro de ambos. No
entanto... Os lbios masculinos a estavam enlouquecendo, beijando-a ao redor do umbigo.
         - Voc tem alguma coisa para me dizer, esposa?
         As palavras significativas a fizeram sentar-se na cama no mesmo instante.
         - Voc sabe! - ela o acusou.
         - Sei o qu? - Montmorency perguntou inocentemente enquanto abria as pernas da
esposa.
         - Sobre o beb!
         - Que beb?
         Isadora acariciou os cabelos louros do marido, que agora se inclinava para beij-la no
interior das coxas.
         - Nosso beb!
         - Ento vamos ter um beb? - ele indagou provocando-a, aumentando a presso dos
lbios na pele macia at faz-la estremecer incontrolavelmente.
         -Sim!
         - Que boas notcias! Ser que devo mandar um beijo ao nosso beb?
         Ao sentir que o marido a tocava no centro da feminilidade com a ponta da lngua,


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Isadora gemeu alto e perdeu de capacidade de raciocinar com clareza.
         Ela estava faminta. Depois de devorar tudo o que estava em seu prato, comeou a
lambiscar a comida de Piers.
         - Ei, espere a. Quantos bebs voc acha que est esperando?
         Rindo feliz, Isadora recostou-se na cadeira, apreciando o quarto que fora de seus
pais.
         - O que voc achou de meu irmo?
         - Acho que voc estava certa. Ele no  o tipo de fazer ccegas em ningum. Mas voc
teve sorte, porque eu sou. - Sorrindo brincalho, ele correu atrs da esposa at peg-la no colo
e jog-la na cama. O peso do corpo musculoso quase partiu a madeira em duas.
         - Pare! Pare com isso ou vou vomitar todo jantar!
         Imediatamente Piers sossegou, uma das mos enormes pousadas sobre a cintura
delgada, os olhos azuis brilhantes e carinhosos do que nunca.
         - Esta  a primeira vez que uma mulher me fala uma coisa dessas - ele protestou.
         Isadora riu e o acariciou de leve no rosto. Como podia am-lo com tanta paixo?
         - Voc tem razo. Nicholas no  o tipo que faz ccegas, tampouco  do tipo capaz de
demonstrar afeto e muito menos amor. Tenho medo de que meu irmo esteja ainda mais
endurecido do que quando partiu, cinco anos atrs.
         Montmorency suspirou fundo e se recostou nos travesseiros.
         - Freqentemente a guerra ou destri o homem o transforma em algo que ele
desejaria no ser.
         - Voc acha que com o tempo Nicholas poder tomar mais afetuoso em relao a ns?
         A maneira como seu irmo a fitara enquanto cavalgavam lado a lado, como se no
passasse de uma estranha, ainda a incomodava. Nem por um instante ele demonstrara um
interesse especial ou lhe perguntara se era feliz, se seu marido era um bom homem...
         - No sei - Piers respondeu baixinho, querendo no mago-la.
         - Sabe,  estranho, mas Nicholas foi sempre to bonito. As damas o consideravam um
timo partido e ele tinha a reputao de ser honrado, gentil e justo.
         - Tenho certeza de que seu irmo continua sendo tudo isto.
         - Mas quando olho dentro daqueles olhos cinzentos  como se enxergasse apenas o frio
e a escurido. - Isadora estremeceu e se aconchegou ao peito forte do marido. Nicholas,
herdeiro de Belvry, jovem e belo, era o tipo de cavaleiro com quem as mulheres sonhavam
casar-se enquanto Piers no. Durante grande parte de sua vida, Montmorency no possura
terras nem fortuna, portanto no se tornara um alvo fcil do interesse feminino. Para
completar, aquela reputao terrvel era suficiente para desanimar mesmo a mais corajosa
das damas. Porm Piers sim, era um grande partido.
         - Meu irmo  assustador. Mais assustador do que o Cavaleiro Vermelho jamais o foi.
         - Mesmo quando estou de pssimo humor?
         - Mesmo quando est de pssimo humor - ela respondeu sorrindo. - A propsito, devo
lhe dizer que avisei Hexham que voc comeria o corao dele na hora do jantar.
         - Oh, obrigado. - Piers gemeu de maneira teatral. - Agora posso entender por que ele
no a considerou especialmente sedutora. E fcil imagin-la falando aos quatro ventos sobre
os meus poderes diablicos.
         - Mas voc tem poderes sim. - Sorrindo provocante, ela o acariciou pelo corpo inteiro,
adorando sentir a textura dos msculos firmes e bem torneados.
         - Voc no vai vomitar o jantar, no ? - Piers perguntou fingindo-se muito srio.
         - Prometo que no.
         - Bem, suponho que ento eu possa enfeiti-la, esposa. - E foi o que ele fez.
         Nicholas regressou alguns dias depois, seu estado de esprito ainda mais soturno do
que quando partira. Ele entrou no salo principal como se fosse o senhor de tudo, alis, o que
de fato era, jogou o elmo sobre uma cadeira e passou as mos pelos longos cabelos.
         - Hexham escapou - foi logo dizendo.


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          Piers ergueu as sobrancelhas, surpreso no tanto pelas palavras mas pelo tom usado.
Por acaso o cunhado o estaria acusando de alguma coisa?
          - Sinto muito.
          Como se reconhecendo o engano, Nicholas abaixou os olhos. Piers sabia que o rapaz
estava zangado e por isso descontava a frustrao nas pessoas que estavam prximas. S no
iria admitir que o mau humor do cunhado atingisse Isadora.
          Ela j estava de p, ordenando aos servos que trouxessem comida e bebida para o
irmo que acabara de chegar. Entretanto se Isadora esperava alguma palavras de
agradecimento, podia esquecer. E essa falta de delicadeza o irritava profundamente. No era
 toa que a princpio sua esposa se comportara de maneira to contida e desprovida de
emoes. Pelo visto os de Laci no haviam sido criados num ambiente onde se demonstrava
afeio familiar.
          - Vou encontr-lo - Nicholas prometeu, a voz soando fria e ameaadora. Ele sentou-se,
os movimentos elegantes e controlados muito semelhantes aos de Isadora. Aquele de Laci
nunca parecia baixar a guarda e por um momento Piers teve pena de Nicholas e do que quer
que fosse que lhe acontecera para transform-lo naquele poo de fel e amargura.
          - No se preocupe, Montmorency, vou achar Hexham. Ele  estpido demais para
ficar desaparecido por um longo tempo e quando o encontrar, vou mat-lo.
          - Me chame de Piers. E no estou nem um pouco preocupado. Se voc quer um
conselho, ele ofereceu, mesmo sabendo que o cunhado no estava nem um pouco interessado,
eu lhe diria para esquecer o baro. Encontre uma bela esposa, tenha filhos e desfrute esta bela
propriedade em paz.
          Nicholas o fitou com tamanho desdm que Piers ficou surpreso. Talvez o cunhado o
considerasse um velho tolo.
          Entretanto estava longe de s-lo. Ao recuperar a viso voltara aos exerccios fsicos de
antes e estava agora no auge da fora viril. Continuava sendo o Cavaleiro Vermelho, embora
no partilhasse a sede de sangue do rapaz. Sabendo que poderia vencer o cunhado em
qualquer briga com armas, Piers lanou um olhar ameaador na direo de Nicholas.
          O jovem de Laci entendeu imediatamente o recado e virou-se para o outro lado. Ao
voltar a fitar Piers, tentava sorrir.
          - No posso deixar Hexham escapar. - Depois de alguns segundos de hesitao,
resolveu continuar, apesar das palavras lhe custarem muito. - Fui para a Terra santa com o
objetivo de lutar contra os infiis sem saber que um verme traioeiro, escondido entre meus
prprios pares, seria ainda mais perigoso do que as hordas pags.
          Fui ferido, mas no mortalmente, e esperei que um dos homens me encontrasse.
Aconteceu que Hexham me achou. - Nicholas pronunciava o nome do baro como
          uma maldio. - Em vez de me ajudar, ele me arrastou para debaixo de um arbusto e
me largou l, para que eu sangrasse at a morte.
          Piers notou que Isadora inspirava fundo e no mesmo instante tomou a mo delicada
nas suas, como se quisesse lhe transmitir segurana enquanto Nicholas continuava a histria
terrvel.
          - Eu teria mesmo morrido se no fosse por uma alde que ouviu os meus pedidos de
socorro. Ela me levou para seu casebre e cuidou de mim com as prprias mos. Sem saber o
que Hexham planejava, decidi adotar um nome falso. Quando recuperei as foras, sa 
procura do covarde, porm aquele patife j havia desaparecido. S ento percebi que o baro
ambicionava possuir Belvry.
          Como nosso pai no era nenhum tolo, achei que no havia necessidade de voltar
correndo para casa. Fiz minha prpria fortuna e formei meu prprio exrcito, pensando que
um dia poderia precisar de homens prontos para lutar ao meu lado. Fiquei sabendo da morte
de nosso pai pouco tempo atrs. Ento decidi que estava na hora de ressurgir do mundo dos
mortos.
          - Hexham sabe que voc est vivo? - Piers perguntou.


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         - No, acho que no. Meus homens juraram guardar silncio. Tenho certeza de que a
viso do estandarte de Laci surpreendeu o baro, porm, a menos que tivesse lutado perto de
mim, no poderia ,saber que continuo vivo.
         - Duvido que aquele Covarde tenha lutado. Quando o feri, na tenda, ele fugiu
correndo e choramingando feito uma criana grande. Aposto que escapou para bem longe,
assim que pde.
         - , talvez. De qualquer maneira irei ca-lo nem que seja no fim do mundo. E
quando o encontrar, o matarei sem piedade.
         Percebendo o dio intenso no corao do rapaz, Piers ficou imediatamente alerta.
         - No deixe que o desejo de vingana dite as regras da sua conduta - falou. Contudo o
olhar de Nicholas o avisou de que era melhor no se meter naquele assunto em particular e
Piers teve pena do rapaz. J vira muitos homens como o cunhado, homens cujas vidas haviam
sido envenenadas pelo rancor. E quando finalmente Hexham fosse morto, o que sobraria no
interior de Nicholas do Laci? Talvez nada, alm de um terrvel vazio.
         -  possvel que Hexham tenha ido para a corte numa tentativa de despertar a
simpatia de Edward com a sua verso dos fatos - Isadora sugeriu.
         - Talvez - Nicholas concordou pensativo. - De qualquer forma partirei amanh
mesmo para seguir as possveis pistas deixadas nos arredores.
         Ao perceber o desaponto toldar a beleza do rosto da esposa, Montmorency teve raiva
daquele rapaz frio e insensvel que depois de tantos anos de ausncia era incapaz de
demonstrar algum afeto e apreo pela irm.
         - Eu queria lhes explicar a situao antes de partir e tambm resolver o assunto
relativo ao dote de Isadora.
         Ah, ento voc a notou?, piers pensou irritado. Quem olhasse para os dois juntos,
jamais iria imaginar que fossem parentes. A nica coisa que ambos tinham em comum era a
maneira como se comportavam, sempre elegantes e altivos.
         - Isadora, ser que voc podia nos dar licena por alguns minutos? - Piers pediu,
sorrindo com delicadeza. - Eu gostaria de discutir o assunto do dote com seu irmo em
particular.
         Ela concordou com um aceno e saiu do salo, o andar gracioso, as costas eretas.
Olhando-a, Piers teve vontade de envolv-la com a fora de seu amor e tambm de desfechar
um soco no rosto impassvel do cunhado.
         Mas acostumado a intimidar as pessoas pela sua simples presena, apenas levantou-se
e parou diante de Nicholas.
         - Seu dinheiro no me interessa a mnima  falou num tom baixo e carregado de
desprezo.
         Quando o rapaz tentou se levantar, Montmorency o fitou de tal maneira que o
obrigou a permanecer sentado.
         - Eu tambm lutei na Terra Santa e estive nas batalhas mais sangrentas, ao lado de
Edward, durante anos. No tendo nascido herdeiro de uma propriedade lucrativa, me tornei
dono de terras pelo sangue derramado pela minha espada. Nestes ltimos meses enfrentei
uma provao que teria feito o seu breve encontro com a morte parecer brincadeira de
criana. - Apesar de se esforar para manter o controle, a voz de Piers vibrava de dor. -
Portanto voc no  o nico homem na face da terra cuja vida tomou caminhos diferentes do
que gostaria.
         Me senti afortunado por poder lutar aqui e preservar a sua propriedade e as
lembranas que minha mulher tem da casa paterna. Em troca, quero apenas uma coisa.
Quero que voc trate sua irm como se ela realmente existisse.
         Nicholas no poderia parecer mais surpreso.
         - No me importa que voc me amaldioe ou que desaparea nos confins da terra
depois que partirmos de Belvry, mas enquanto estivermos aqui exijo que trate sua irm como
uma pessoa a quem voc deve, no mnimo respeito. Pois foi ela quem cuidou da sua

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propriedade durante os anos em que voc esteve fora.
        Sem esperar resposta, Piers saiu do salo e foi ao encontro da mulher. Ainda bem que
Isadora gosta de atiar rumores sobre a sua reputao porque mais uma ou duas cenas como
aquela e o mito do feroz CavaleiroVermelho cairia por terra.

        CAPITULO DEZOITO

         Durante o jantar, Piers congratulou a si mesmo, pois pelo visto aquela breve conversa
com o cunhado havia sortido efeito. Nicholas passou refeio inteira conversando com a irm.
Talvez o rapaz no fosse de todo mau. Talvez tivesse apenas deixado o desejo de vingana
passar  frente de coisas mais importantes e precisasse de algum para lhe chamar a ateno
sobre as prioridades da vida.
         A noite transcorreu rpida e agradvel e embora j estivesse muito tarde, Piers
sentia-se pesaroso de deixar o salo principal. O lugar estava cheio de pessoas que gostavam e
admiravam sua mulher, desde aldees celebrando a derrota de Hexham at as servas mais
antigas da famlia de Laci. Vendo tantos pares de olhos fixos na ex-castel de Belvry, Piers
pediu-a para cantar, no que foi prontamente apoiado pelos presentes.
         Todos pareciam familiarizados com os talentos de Isadora, pois to logo a voz
melodiosa soou, Piers notou que um velho criado se acomodava melhor na cadeira e fechava
os olhos, entregando-se  msica. Entretanto ele mesmo no conseguia fechar os olhos 
beleza  sua frente. Passara noites sem conta apenas ouvindo-a cantar, sem poder enxerg-la.
Agora observava cada movimento da esposa com uma sofreguido incontrolvel. Ela con-
tinuava esguia e delgada, sendo difcil acreditar que aquele corpo perfeito abrigava o seu
filho.
         Ao terminar, Isadora foi inundada de elogios e aplausos. At mesmo Nicholas
demonstrou admirao.
         - Eu havia me esquecido como voc canta bem  ele falou, e Piers sentiu que o
cunhado estava sendo sincero.
         Percebendo que a esposa comeava a se mostrar cansada, Montmorency decidiu que
estava na hora de dar noite por encerrada.
         - Isadora - Nicholas a chamou. - Quero me despedir de voc agora pois vou partir
amanh muito cedo.
         - Desejo-lhe tudo de bom - ela respondeu, o rosto impassvel, destitudo de emoo.
         -  o que desejo a voc tambm. Podem ficar em Belvry tanto tempo quanto
quiserem, embora eu no saiba quando vou estar de volta. E... Obrigado por ter cuidado to
bem de nosso lar.
         - De nada. - Isadora sorriu docemente e lanou um olhar significativo na direo do
marido, sabendo muito bem que fora ele o responsvel pela mudana de atitude de seu irmo.
         Assim que os dois estavam a ss no quarto, ela lhe deu uma cotovelada no estmago e
comeou a rir.
         - Ei! Por que isso? - Piers indagou, fingindo-se ofendido.
         - Voc  uma vergonha, Cavaleiro Vermelho! Onde est aquela fera terrvel e
ameaadora? Que tipo de feitio voc lanou em cima de meu irmo para obrig-lo a me
elogiar?
         Piers bem que se esforou para aparentar inocncia, o que serviu para faz-la rir
ainda mais.
         - Se voc soubesse como atitudes assim so estranhas a Nicholas, no tentaria negar
sua participao no caso. Juro que em toda minha vida, jamais recebi um cumprimento de
meu irmo. Sabe, estou at pensando em espalhar essa histria por a. Aposto que a lenda
criada em torno do Cavaleiro Vermelho sofreria um baque com as notcias. No sei se voc j
percebeu como os criados daqui de Belvry o evitam e tudo por causa de sua terrvel
reputao?


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         - No sei por que voc est reclamando. Sempre achei que o mito do Cavaleiro
Vermelho a agradava bastante. Afinal no foi voc quem disse que eu costumo comer o fgado
dos inimigos?
         - Fgado no, corao - ela o corrigiu, dobrando-se de rir.
         Depois de tirar a tnica e coloc-la sobre uma cadeira, Piers olhou ao redor,
reparando na suntuosidade do quarto enorme. Belvry era to diferente de Dunmurrow. Cons-
trudo mais recentemente, o lar dos de Laci fora projetado tendo em mente o conforto. Os
aposentos eram mais espaosos e mais quentes, decorados com muitos mveis e tapearias.
No era  toa que Isadora estranhara DunlI1urrow, sempre escuro e frio.
         Inspirando fundo, Piers foi at a janela e olhou as estrelas, desejando, por um
momento, poder dar toda a riqueza do mundo  esposa. Mas logo concluiu que esse tipo de
pensamento era pura perda de energia. Sentia-se grato por ter recuperado a viso pois assim
Isadora tinha um homem completo por marido.
         L fora os soldados se preparavam para dormir. Nicholas partiria na manh seguinte
bem cedo. Quanto tempo ser que Isadora iria querer ficar em Belvry? No poderia culp-la
se ela decidisse passar o vero inteiro em seu antigo lar ou mesmo se resolvesse permanecer ali
at o nascimento do beb. Entretanto ele sentia falta do prprio castelo, de suas prprias
terras. Seriam os homens mais possessivos do que as mulheres em relao essas coisas?
Dunmurrow podia no ser muito, se comparado a Belvry, porm lhe pertencia por direito e
lutara com bravura para conquist-lo.
         - Voc  apenas um homem gentil e maravilhoso. E eu te amo - Isadora murmurou
sonolenta.
         - Voc quer que o beb nasa aqui? - ele indagou, preparando-se para ouvir o pior.
         - No. Quero que nosso filho nasa em nosso lar, Dunmurrow.
         A jornada de volta para casa foi demorada e tranqila. Sabendo que com um beb a
caminho seria impossvel empreender longas viagens to cedo, Isadora quis parar em cada
aldeia das terras do marido, fazendo questo de conversar com os residentes e arrebanhar
aqueles que queriam morar no castelo.
         Piers era sempre recebido com graus variveis de medo, suspeita e boas-vindas por
parte dos que conheciam apenas os rumores terrveis que cercavam o lorde de Dunmurrow.
Entretanto logo os aldees se surpreendiam ao descobrir que aquele homem louro e bonito
era o Cavaleiro Vermelho em pessoa. Talvez o baro lhes continuasse parecendo feroz, porm
era muito melhor ter visto algum em carne e osso do que continuar ouvindo apenas histrias
ameaadoras.
         Isadora sabia que sua presena facilitava a aceitao do Cavaleiro Vermelho, pois
bastava as pessoas notarem o quanto ele se importava com o bem-estar da esposa para
passarem a enxerg-lo sob um novo ngulo. E era isso o que desejava no fundo do corao,
que Piers, o beb e ela fossem aceitos por todos os que habitavam as terras de Montmorency.
         Logo a notcia se espalhou e quando alcanaram Dunney, Isadora tinha certeza de
que os aldees os aguardavam. S no conseguia imaginar como seriam recebidos, pois
Dunney era o nico lugar em que Piers estivera antes de ir ao encontro de Hexham. Alm do
mais ele sempre fora temido ali de uma maneira intensa e irracional.
         No foi preciso esperar muito para perceber o estado de esprito do vilarejo. Bastou
cruzarem os primeiros casebres para que os aplausos e os vivas comeassem.
         - Cavaleiro Vermelho! Cavaleiro Vermelho! - gritavam centenas de vozes, os aldees
de p em cada um dos lados da estrada, os rostos felizes ao receberem de volta o lorde e a lady
de Dunmurrow.
         Por um momento, ao ver a surpresa estampado no rosto do marido, ela achou que ia
chorar. Homens, mulheres, velhos e crianas os acompanhavam num cortejo at o centro da
aldeia e de repente fez-se o silncio. Ansiosos, centenas de pares de olhos fIxaram-se na figura
do Cavaleiro Vermelho que por sua vez devolvia o olhar com igual intensidade, parecendo um
pouquinho ameaador talvez, Isadora pensou preparando-se para falar alguma coisa e


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romper o silncio cheio de expectativa.
         Porm Montmorency tomou a iniciativa.
         - Obrigado pela calorosa boas-vindas - Piers agradeceu com a mesma voz de
guerreiro que costumava usar para comandar seus homens. Embora as palavras fossem
gentis, ele parecia enorme, poderoso e quase feroz, montado num garanho negro e macio.
Os aldees pareciam intimidados, sem saber como reagir. Ento, de repente, Piers abriu um
sorriso radiante. -  bom estar em casa!
         Os aplausos foram ensurdecedores. Tentando disfarar a emoo e engolir as
lgrimas, Isadora procurava acenar para os rostos conhecidos, sabendo que o marido con-
quistara o corao de cada um dos presentes. Ao passarem diante de um dos ltimos casebres
da aldeia, l estava a viva Nebbs, sentada do lado de fora, balanando sorridente uma colher
no ar e parecendo, mais do que nunca, uma bruxa feliz.
         Fora uma jornada bastante agradvel, porm Isadora estava satisfeita por estar de
volta ao lar. Seria delicioso passar o vero confortavelmente em Dunmurrow, em seu prprio
quarto e na sua prpria cama.
         As semanas foram se passando e aos poucos Piers assumiu muitos dos deveres da
esposa enquanto outros eram delegados a Cecil, Edith ou Willie, agora residente permanente
do castelo. Pelo visto, a carreira de soldado de Willie havia terminado no dia em que ele se
casara com Edith. Entretanto o homenzinho nunca parecera mais feliz, alis, como todos em
Dunmurrow. A atmosfera do castelo exalava paz.
         Certo dia, ao caminhar na direo da cozinha para planejar o cardpio das refeies
com Glenna, notou que um sacerdote acabara de entrar. Imediatamente foi ao encontro do
recm-chegado. Embora tivesse requisitado um capelo para Dunmurrow algum tempo atrs,
ainda no recebera nenhuma resposta do bispo e acreditara atraso  m fama do Cavaleiro
Vermelho. Talvez aquele padre viera lhe trazer alguma mensagem ou at mesmo ocupar a
posio.
         - Bom dia - Isadora o cumprimentou, aproximando-se. Porm parou onde estava ao
ver a expresso horrorizada de Glenna que correu do salo principal. Ser que a cozinheira
no queria um sacerdote em Dunrnurrow.
         - Bom dia para voc tambm - o padre respondeu, secamente.
         No lhe sobrou mais tempo para questionar o comportamento de Glenna, porque de
repente o homem deu um passo para a frente e segurou-a pelo brao, ameaando-a com uma
faca junto  garganta.
         - Hexham! - Isadora murmurou chocada.  Voc est louco?
         - Talvez. E tudo por culpa daquele maldito do seu irmo. Ele tem me caado como a
um animal, me impedindo de escapar para onde quer que seja. Londres, o campo... no
importa para onde eu v, ele continua me seguindo, mesmo que eu no deixe rastros. Seu
irmo ... inumano...
         Isadora percebeu o desespero contido na voz completamente descontrolada de
Hexham. Ali estava um homem forado para alm de seus limites e  beira da insanidade. Um
homem que j no tinha nada a perder, por isso ele lhe causava medo.
         - Como foi que voc conseguiu entrar aqui? - ela indagou devagar, esforando-se para
acalm-lo.
         - Ouvi dizer na aldeia que voc havia solicitado um sacerdote para Dunmurrow. Foi
fcil conseguir um disfarce e passar pelos portes.
         - Quer dizer que voc veio sozinho? - Mesmo sabendo o estado de profundo
nervosismo e agitao em que Hexham se encontrava, estava impressionada pela ousadia do
baro.
         - Eu no tinha outra escolha. No havia mais ningum ao meu lado, ningum para me
ajudar. Seu irmo conseguiu perseguir cada um de meus homens at mat-los ou convenc-los
a se afastar de mim. No final da histria no havia dinheiro no mundo capaz de trazer meus
soldados de volta ou de conseguir novas alianas.


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         Hexham no agira como um homem corajoso ao entrar em Dunmurrow, mas sim
como uma criatura amedrontada alm do suportvel. Pressionando a faca de encontro ao
pescoo de Isadora, ele comeou a caminhar na direo da porta, arrastando-a consigo.
         - De nada lhe adiantar me levar com voc  ela protestou. - Belvry jamais poder lhe
pertencer agora.
         - Sim, eu sei, e que o diabo carregue aquele castelo maldito! Quero apenas alcanar
um lugar seguro e voc ser meu salvo-conduto. Tendo-a em minhas mos, seu irmo no
ousar me encostar um dedo.
         - Escondendo-se atrs da barra da saia de uma mulher, Hexham?
         A voz de Piers ecoou pelo salo, quase fazendo-a desmaiar de alvio. Logo atrs de seu
lorde, Glenna retorcia as mos angustiada. Com certeza a cozinheira reconhecera Hexham e
correra  procura de Montmorency.
         Hexham no parecia reconhecer o perigo ou a gravidade da situao porque
despejava veneno e ironia por lidos os poros.
         - Ento voltamos a nos encontrar, Cavaleiro Vermelho. Mas voc provou que a lenda
criada em torno de seu nome no passa de uma mentira, voc se mostrou destitudo das
habilidades e poderes que lhe so atribudos. Se o maldito irmo de Isadora no tivesse vindo
ao seu socorro, voc j estaria morto a essas horas, destrudo pelo meu exrcito!
         Por um momento Isadora teve medo de que o marido perdesse a cabea diante da
provocao, porm ele permaneceu calmo e atento, um sorriso desdenhoso no rosto.
         - Ah, s que voc no acha que a chegada de Nicholas foi uma simples coincidncia,.
no  mesmo? Foi somente por sua causa que fiz meu cunhado ressuscitou dos mortos.
         Isadora fitou o marido com respeito redobrado. Nunca o vira lanar mo do mito
criado em torno de si mesmo antes. Agora ali estava, seguro, controlado, enorme e
ameaador. Sim, Piers parecia ter poderes que escapava a um mortal comum.
         Apesar de ter sido afetado pelas palavras do Cavaleiro Vermelho, Hexham riu, o som
estridente demonstrando puro pavor.         I
         - Um conto de fadas. timo para alimentar o mito dos aldees, que devem adorar esse
tipo de histria. Agora, vamos, mexa-se, saia do caminho ou vou cortar a garganta da sua
mulher.
         - Solte-a agora e eu o deixarei viver.
         Hexham cuspiu no cho.
         - Faa o seu trabalho, Cavaleiro Vermelho. Chame os seus demnios e os deixe me
destrurem.
         - Est bem. - Piers deu um assobio baixo e imediatamente duas formas negras e
gigantescas pularam das sombras. Os ces avanaram sobre Hexham e o jogaram no cho,
sem que o baro tivesse chance de levantar um dedo para defender-se. Livre, Isadora caiu no
cho de joelhos, esfregando o pescoo dolorido. Enquanto isso Hexham urrava sob o ataque
dos animais.
         A um novo comando de seu dono, os ces se afastaram antes de, literalmente,
arrancar pedaos da vtima.
         - Minha vontade  mat-lo agora mesmo e resolver o assunto de uma vez por todas -
Montmorency falou num tom frio e mortal. - Mas no quero irritar meu cunhado. Nicholas
quer ter o privilgio de destru-lo com as prprias mos.
         - No! - Ele tentou pegar a faca porm Piers foi mais rpido e Hexham caiu no cho, o
corao transpassado pela espada do Cavaleiro Vermelho.
         Horrorizada diante da cena, Isadora cobriu o rosto com as mos, ouvindo o marido
dar ordens aos servos de retirarem o corpo do baro. Ento sentiu que braos fortes a
erguiam do cho e a protegiam num abrao terno e amoroso.
         - Creio que seus problemas com os vizinhos esto terminados, esposa.
         - Nicholas vai ficar irritado - ela falou, mencionando a primeira coisa que lhe veio 
cabea.


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         - Sim. Seu irmo vai ficar muito... frustrado  Piers concordou tomando-a no colo e
levando-a para o quarto.
         A ltima coisa que Isadora escutou antes de fechar a porta, foi a voz de Glenna
dizendo aos outros criados:
         - S no sei explicar como os cachorros apareceram no salo to de repente. Eles no
estavam l quando sa para chamar meu lorde.
         Isadora ficou pensativa. Realmente no vira nem Castor nem Pollux durante toda a
cena com Hexham e era possvel que animais daquele tamanho lhe passassem despercebidos,
mesmo que estivessem deitados sob uma cadeira, por exemplo. Ao olhar para o marido, um ar
especulativo no rosto, Piers apenas sorriu e respondeu a pergunta silenciosa sem hesitar.
         - Castor e Pollux estavam no salo sim. Talvez voc no os tenha notado.
         Talvez sim, ela pensou, ou talvez no. Talvez houvesse um gro de verdade na lenda
criada em torno do Cavaleiro Vermelho.
         Nicholas chegou no dia seguinte, provavelmente seguindo a pista de Hexham. A frieza
com que se dirigiu  irm levou-a a imaginar que as notcias da morte do baro j o haviam
alcanado.
         A atmosfera estava to tensa, que Isadora ficou aliviada quando Piers chegou.
Nicholas e ela nunca tinham sido muito unidos, porm desde o reencontro de ambos ele lhe
parecia um verdadeiro estranho.
         -  bom ver voc outra vez, cunhado - Montmorency o cumprimentou, sentando-se 
mesa e fitando-o impossvel.
         - Segui a pista de Hexham at aqui. Voc o viu?
         - Sim. O baro cruzou os portes de Dunmurrow ontem, junto com um grupo de
aldees. Estava disfarado de sacerdote e tentou tomar minha esposa como refm.
         Nicholas ergueu as sobrancelhas como se estivesse questionando, silenciosamente, o
relaxamento da segurana do castelo que falhara duas vezes quase consecutivas. Piers notou o
insulto, porm enfrentou o olhar do cunhado com firmeza, seguro de si como sempre.
         - Fui obrigado a mat-lo.
         Uma palidez intensa se espalhou pelo rosto de Nicholas. Ele parecia um homem que
passara toda a sua vida perseguindo um objetivo apenas para, no ltimo momento, algum o
impedir de alcan-lo. Ao perceber o estado de desnimo do irmo, Isadora teve vontade de
abra-lo mas no o fez, sabendo que seu oferecimento de conforto no seria apreciado.
         - Ele era meu - Nicholas falou afinal.
         - Sim, eu sei. Porm o homem estava dentro do meu castelo, ameaando minha
mulher.
         Ansiosa para aliviar a tenso reinante, Isadora tentou dar um tom leve  conversa.
         - Ento Hexham o obrigou a ca-lo numa roda-viva?
         - Sim - o irmo respondeu, sem sequer fit-la. - Primeiro ele foi atrs de Edward para
advogar seu prprio, caso, porm o rei preferiu no tomar partido e ainda lhe chamou a
ateno por ter se metido em encrencas com os vizinhos. - Nicholas fez uma pausa e olhou o
cunhado com um novo respeito. - Aparentemente o rei o tem em alta conta.
         Piers aceitou o cumprimento e a admirao com um dar de ombros.
         - Servi Edward durante muitos anos - falou com simplicidade.
         - Meu marido no pretendia matar Hexham. Ele disse ao baro que o estava
reservando para voc, mas pelo visto nosso antigo vizinho o temia mais do que qualquer outra
coisa e preferiu arriscar ser morto naquele mesmo instante do que enfrentar a sua ira.
         - Sim, no tenho dvidas de que seja verdade. Minhas desculpas, Piers, por ter
reagido de maneira to intempestiva s notcias. Voc fez o que precisou fazer. Mas
         deve entender como  difcil para mim saber que nunca terei vingado.
         - Agora est tudo acabado, cunhado. J  tempo de voc seguir em frente com a
prpria vida e enterrar o passado.
         O olhar de assombro de Nicholas era to intenso que Isadora se perguntou que tipo


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de vida o irmo teria levado nos ltimos cinco anos.
         - Belvry agora lhe pertence - ela falou suavemente, na esperana de que a meno de
seu lar pudesse anim-lo. - Embora Matthew seja um bom administrador, ainda assim dever
receber orientao sua.
         - Sim, voc est certa, claro - Nicholas respondeu parecendo mais morto do que vivo. -
Acho melhor partir j.
         - No! Eu no pretendia dar a impresso de que voc devia ir embora. Quero que
fique conosco por algum tempo.
         - Sim - Piers apressou-se a dizer. - Voc passou estas ltimas semanas na estrada. Vou
mandar Cecil lhe mostrar um quarto enquanto eu me encarregarei de alojar seus homens.
         Como se estivesse vivendo um sonho, Nicholas levantou-se e seguiu o criado como
algum que vai ao encontro de um destino do qual no pode se desviar.
         - O que ser de meu irmo? - Isadora indagou, Vendo-o se afastar.
         - Seu irmo precisa de uma esposa. - Piers abraou-a com fora, aspirando o perfume
dos cabelos longos e sedosos. - Talvez Edward possa ser persuadido a arranjar alguma coisa.
Tenho a impresso de que, assim como a irm, Nicholas s se casar se for forado a faz-lo.
         Isadora sorriu diante da provocao e balanou a cabea de um lado para o outro.
         - No sei no. Embora ele seja meu irmo, tenho pena da mulher que se tomar sua
esposa.
         - Bobagem. Talvez neste exato momento uma mulher esteja planejando uma maneira
de agarrar Nicholas para marido.
         - Eu no fiz plano nenhum para agarrar voc! - Isadora retrucou um tanto
secamente, por causa da insinuao. Porm, ao fitar o marido, ele estava rindo, adorando v-
la com aquela expresso ofendida no rosto bonito.
         - Ento dou graas a Deus por seus planos terem uma tendncia a dar errado.
         - Discordo. - Isadora beijou-o no rosto, sentindo o corao pulsar de tanto amor. -
Minha deciso de escolher o Cavaleiro Vermelho no foi uma deciso errada, mas certssima.


        EPILOGO

         - Bom dia, esposa. - Piers abriu as cortinas, deixando a luz daquele dia de Natal
inundar o quarto inteiro e banhar a figura de Isadora sobre a cama.
         Imvel, ele admirava a beleza suave e perfeita. Desde o momento em que a vira pela
primeira vez, em que a figura querida se tornara algo mais do que simples sombras, no se
cansava de fit-la. Os cabelos longos estavam espalhados sobre o travesseiro, uma massa de
fios louros, quase brancos, e to brilhantes que ofuscavam tudo ao redor.
         Ela parecia um anjo cado do cu. Piers sentiu uma presso atrs dos olhos que no
tinha nada a ver com seu antigo problema de cegueira. Como se percebendo ser o centro das
atenes, Isadora abriu os olhos.
         - Voc estava me admirando, marido? - indagou, provocando-o.
         - Sim. Juro que voc  a mulher mais linda da face da terra.
         Sua eloqncia  inspiradora, mas pouco convincente - Isadora respondeu rindo
enquanto passava a mo pela barriga enorme. - Portanto, pode ir cuidar de seus afazeres.
Alis,  melhor se apressar para no perder a missa... outra vez.
         - Sim, acho que  melhor nos apressarmos. S espero que o novo sacerdote no faa
um sermo muito longo.
         - Piers!
         -  que mal posso esperar para dar incio  festividades que voc preparou. Agora
que voc tem a cabea de javali, as comemoraes de Natal sero quase perfeitas, no 
mesmo? O lorde e a lady do castelo presidindo as celebraes no salo principal, rodeados de
ricas tapearias e com as despensas cheias para aplacar a fome dos aldees e de todos os,


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agora numerosos, residentes do castelo.
         - Piers... - ela mordiscou os lbios, um sinal evidente de nervosismo.
         - Que foi?
         - Sinto dizer-lhe, mas acho que no presente  ceia.
         - Por qu? - Embora tentasse disfarar o desapontamento, Piers no conseguia
controlar o tom desanimado. Afinal as comemoraes de Natal seriam o encerramento
perfeito daquele ano em que sua esposa realizara tantos feitos.
         To logo recuperara a viso, ele ficara incrivelmente surpreso com as melhorias em
Dunmurrow e insistira que Isadora continuasse com seu trabalho de tornar o castelo mais
habitvel. Ela superara todas as suas expectativas, criando um lar confortvel, aconchegante
luxuoso. A colheita tambm havia sido farta, assegurando um inverno tranqilo e sem
problemas de fome. Agora queria que estivessem lado a lado para dar as boas-vindas ao povo
que habitava suas terras. Isadora merecia estar presente e era junto a si que ele a queria.
         - No me culpe, querido. - Carinhosamente, ela tocou o ventre intumescido. - A culpa
 deste seu filho. Ele exige vir ao mundo hoje.
         - O qu? - Piers colocou a mo sobre a barriga da mulher. No incio sentira-se
orgulhoso ao saber que Isadora gerava um filho seu, mas agora, quando se aproximava a hora
do parto, experimentava apenas um pnico crescente. Era a mesma sensao de pnico que
sofrera um ano atrs, quando sua esposa cara no lago e pudera contar apenas com um
cavaleiro cego para se interpor entre ela e a morte.
         - Tudo vai dar certo - ele murmurou, tentando expressar sua preocupao e
ansiedade da nica maneira que sabia.
         - Sim. - Isadora deu um tapinha na mo do marido, confortando-o. - Tudo dar certo,
no se preocupe. Quando a ceia terminar, voc ter um filho saudvel, ou uma filha,
aguardando-o.
         Montmorency fitou aqueles olhos enormes e prateados, sentindo uma emoo to
forte que parecia lhe roubar a respirao.
         - Tem uma coisa que eu nunca lhe disse antes...
         - E o que ? Se voc est pretendendo me dizer que tem uma outra esposa, agora 
tarde demais - ela brincou, acariciando-o de leve no rosto. - Ou ser que voc  um feiticeiro
de verdade e me manteve encantada durante todos esses meses?
         Dominado pela fora dos sentimentos, Piers balanou a cabea de um lado para o
outro e embora se esforasse para falar num tom leve e brincalho, no conseguia.
         - No  nada to terrvel assim. Eu devia ter lhe dito meses atrs, mas na poca em
que no conseguia enxergar no queria prend-la a algum intil e adiei este momento.
         - Querido, por favor.
         - Ento, quando recuperei a viso, eu quis... quis ter certeza de que a cura no seria
transitria. Isadora, minha esposa, minha vida, eu te amo.
         Ela sorriu.
         - Isto  tudo? Meu feroz Cavaleiro Vermelho, eu j sabia que voc me amava h
tempos. Mas  bom ouvi-lo dizer. Faz bem  alma.
         Piers tomou o rosto delicado entre as mos e beijou-a de leve nos lbios, surpreso ao
sentir lgrimas virem-lhe aos olhos. Sim, estava curado. Em todos os aspectos.
         - J que voc est de to bom humor, marido, eu queria lhe pedir um favor neste dia
de Natal.
         - Se voc est pretendendo me pedir para ir atrs do tal veado branco,  melhor
escolher outra coisa porque depois da experincia vivida no ano passado, no gostaria de
repetir a dose.
         - No - Isadora riu. - Quero lhe pedir para presida a ceia hoje de uma maneira
festiva, para que todos vejam a sua bondade.
         -  impossvel, esposa, pois voc  a nica pessoa capaz de ver tanta bondade em mim.
         - No, no  verdade. At Edith gosta de voc agora. Vamos, mexa-se, querido!


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Mande Edith para c e v cuidar de nossos convidados. Quero que todos tenham mais bela
comemorao de Natal de suas vidas, quero seja uma noite inesquecvel.
         E foi o que Piers fez, embora seu corao estivesse em outro lugar. Ele participou da
missa, apesar de suas preces serem sempre para sua esposa. Tambm presidiu a mesa,
conversou com seus cavaleiros, presenteou os aldees e convidados com grande generosidade,
mas seus pensamentos voltavam-se constantemente para os aposentos principais onde a
mulher amada trazia uma criana ao mundo.
         Todos sabiam que a castel estava no final da gravidez, prestes a dar  luz, portanto
ningum questionou sua ausncia como teriam feito at poucos meses atrs. Ento diria-se
que o Cavaleiro Vermelho havia feito o pior  esposa. E talvez ele o tivesse feito mesmo, Piers
pensou amargurado. Afinal era comum que muitas mulheres morressem na hora do parto...
         Atento  vontade de Isadora, ele no deu as comemoraes por encerradas muito
cedo e permitiu que a ceia se estendesse durante toda a noite, s se retirando quando os
convidados e aldees comearam a colocar os catres no salo e se preparar para dormir.
Depois de designar uma tropa para montar guarda, escolhendo dentre os soldados mais
sbrios, Montmorency percorreu o ptio e andou ao longo das muralhas que cercavam as
torres altas e escuras.
         De onde estava, era possvel enxergar quilmetros adiante, seus olhos perfeitos e
acurados procurando qualquer sinal de possveis problemas ou ameaas. Algumas tochas
iluminavam a entrada dos portes principais, onde homens mantinham-se atentos ao
movimento, agora inexistente, da estrada que conduzia a Dunmurrow. Porm tudo estava
quieto e tranqilo, mal se ouvindo o barulho do vento ou dos flocos macios de neve que caam
aqui e ali.
         Ele examinava os arredores pela ltima vez antes de entrar, quando uma mancha
branca, bem no comeo da floresta, lhe chamou a ateno. Piers firmou o olhar, tentando
descobrir o que era, o corao batendo mais forte no peito, a adrenalina correndo solta no
sangue. Depois da morte de Hexham, julgara-se livre de inimigos, porm tudo era possvel...
         Incapaz de acreditar no que estava vendo, deixou escapar um murmrio abafado.
Talvez fosse apenas uma iluso causada pela luz da Lua, mas podia jurar que por um instante
julgara enxergar um veado grande e claro... o veado branco. Piers balanou a cabea como se
quisesse ordenar as idias e acertar o foco de seu interesse, porm o animal continuava
parado no mesmo lugar, olhando-o fixamente, como se quisesse lhe transmitir uma
mensagem. Ento o bicho atirou os chifres enormes para o ar e saiu em disparada,
desaparecendo no meio das arvores. Montmorency estremeceu. Ta1vez tivesse sido apenas um
punhado de neve sendo soprada pelo vento, pensou. Entretanto...
         Ele subiu as escadas correndo, como se o fogo do inferno estivesse ao seu encalo, e
abriu a porta do quarto no momento exato em que o beb ganhava o mundo, pelas mos da
parteira. Isadora estava deitada de costas, ofegante, o rosto plido e cansado, mas belo como
sempre. Piers acercou-se da esposa.
         -  uma menina, Isadora, uma filha! - Edith exultou, aproximando-se da parteira
para melhor enxergar o beba com a ansiedade natural das avs.
         - Uma filha, Piers - Isadora sussurrou feliz.
         - Voc est bem? -ele indagou, a voz rouca carregada de uma emoo desconhecida e
incontrolvel.
         - Sim, meu amor.
         A parteira colocou o pequeno embrulho nos braos de Isadora, enquanto Piers se
maravilhava diante da vida preciosa que os dois haviam feito juntos. Ele era pai do uma filha!
E podia ver cada um dos dedinhos das mos e dos ps, todos perfeitos e rosados. Ser que fora
apenas h pouco mais de um ano que estivera ali mesmo, trancado dentro daquele quarto,
enterrado vivo na escurido eterna, cego, amargo e revoltado? E ento, como por milagre,
Isadora entrara em sua vida e lhe trouxera uma paz e uma felicidade que jamais sonhara
existir ou ser capaz de experimentar um dia.


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        - Obrigado por me ter dado uma filha - Piers muro murou, os olhos fixos no rosto
amado da esposa. - E Isadora... .
        - Hum?
        - No sei se nossa unio foi traada pela mo de Deus ou por um acaso que muitos
associariam  magia, mas quero lhe dizer obrigado. Obrigado por ter escolhido o Cavaleiro
Vermelho.

                                          FIM




                                                                                    144
